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o personagem, aí..., Tem dois personagens: o caranguejo e o guaxinim, aí uma hora o guaxinim tá atacando, outra hora é o caranguejo que tá atacando, entendeu? Por isso eu tenho que ficar olhando para baixo para saber quem é que tá atacando porque eu não conheço inglês (Transcrição do DP12 – 00:06:06 - 00:06:30).

A troca de personagem mencionada pelo TILS refere-se à mudança na posição adotada pelo corpo dele para a emissão das falas de cada personagem durante a interpretação (role- play). Em obras audiovisuais em que ocorre a interação entre mais de um personagem na cena, orienta-se que seja utilizado o movimento do corpo “[...] para a marcação do local de sinalização, do espaço, da apontação e da direção” (NAVES, et al., 2016, p. 39), elementos importantes para a identificação dos referentes do discurso. Assim,

[...] nas línguas de sinais o mecanismo utilizado para este fim é o processo anafórico ou anaforismo. Trata-se de uma mudança de posição corporal que o narrador assume para distinguir as falas dos personagens em cena. Um mecanismo fundamental para a compreensão da dinâmica da narrativa. Sem o uso deste mecanismo, os espectadores poderiam confundir-se quanto a distinção das ações e falas de cada um dos personagens. Isto compromete a percepção e a relação de sentidos. A percepção visual necessita desta riqueza de informações para ativação de espaços mentais em nossa rede neural que produzirá sentidos (RIBEIRO, 2016, p.135).

O processo anafórico costuma agir em simultaneidade ao dêitico. Através da dêixis, os elementos do discurso são introduzidos na cena, a partir da sua referência espacial; a anáfora complementa a referência anterior, retomando os locais estabelecidos para tais personagens sempre que eles aparecerem no discurso, de modo a deixar a sinalização coerente com as imagens exibidas na obra fílmica. Com base nesses processos, o intérprete se posiciona e direciona a sua fala conforme a localização dos personagens em cena.

No caso da interpretação de Raccoon & Crawfish, em algumas cenas, a atuação realizada do lado direito é atribuída ao caranguejo principal, enquanto a que ocorre do lado esquerdo representa o guaxinim. Tais espaços não são fixos, pois costumam variar conforme à disposição dos personagens na tela. Quando todos os caranguejos se encontram reunidos, é o espaço central de sinalização que é utilizado para identificá-los; Vejamos a figura 49:

Figura 49 – Uso do espaço para identificação e diferenciação de personagens

Fonte: Elaborado pela pesquisadora

Dessa forma, a imagem anterior exemplifica a diferenciação lateralizada dos personagens, recurso utilizado, principalmente, quando ambos interagem em uma mesma cena. Notamos, também, que o direcionamento do olhar é imprescindível para a sintaxe visual, de modo que a sinalização, o posicionamento corporal e o direcionamento do olhar precisam estar harmonizados com o conteúdo enunciado nas imagens. Ao interpretar o caranguejo, por exemplo, o TILS direciona o seu olhar para cima, pois, sendo o guaxinim um personagem mais alto que ele, a interação provoca o direcionamento de sua cabeça para cima; o oposto ocorre quando a ação parte do guaxinim, pois, nesse caso, o olhar volta-se para baixo. Quando o TILS representa o grupo de caranguejos cantando e dançando, a sua interpretação domina o espaço central, mas move-se para as laterais, demonstrando que aquelas ações partem de personagens vindos de todos os lados.

Embora o intérprete já houvesse internalizado as falas traduzidas, nos momentos em que a interpretação demandava a alternância entre as posições adotadas como traços distintivos entre os personagens que dividiam a cena, o olhar do TILS era desviado da tela do computador para a área espacial, que identificava cada personagem em ação. Dessa forma, ele passava a não contar com o retorno visual das falas, feito pelas legendas, e, algumas vezes, se perdia na interpretação, pois, em tais momentos, o único recurso disponível para a sua orientação era o áudio em inglês, que, para ele era incompreensível.

Percebemos, então, que para a tradução e interpretação de obras audiovisuais em Libras é preferível que o intérprete, se ouvinte, além do visual, tenha o retorno auditivo das falas da obra de partida em sua língua materna ou em idioma de seu domínio; isso lhe dará mais liberdade para a interpretação, para o uso de referentes visuais e para o aproveitamento do

espaço comunicativo à sua volta. Trabalhando com os recursos técnicos adequados, o intérprete não precisará manter o seu corpo, até certo ponto, preso à direção da tela, que reproduz as legendas.

Por causa das condições de trabalho, o TILS enfrentou mais dificuldades, necessitando repetir ensaios e gravações por ter que dividir a sua atenção entre a internalização das sequências imagéticas do filme, a leitura das legendas que ditavam o conteúdo narrativo, bem como, as características visuais e locativas necessárias para a interpretação. Segundo o intérprete, se a obra fosse dublada em português ou se houvesse um ledor repetindo as falas para ele, em seu idioma nativo e em sincronia com o enredo fílmico, o processo interpretativo teria sido mais rápido.

A versão 6 (DP12) surgiu para a correção do erro da referência espacial mencionado anteriormente, mas foi interrompida, por razões adversas; como já foi mencionado, o computador, que exibia o filme, descarregou. A versão 7 fecha o ciclo de gravação, uma vez que, nessa tomada, o intérprete conseguiu levar o trabalho até o final, sem interrupções ou equívocos que tenha percebido e justificassem um novo registro. O texto em Libras constante na versão 7 foi o mesmo disponibilizado no filme com janela de Libras integrada (DP15), configurando-se como a versão final.

Ainda com base no quadro 05, percebemos que somente as versões 2, 4 e 7 representam interpretações completas da obra; as demais tiveram seus percursos interrompidos ou atentaram para objetivos específicos, tais como, treinar falas particulares do texto. Em tal quadro, atribuímos um número à cada fala sinalizada em Libras a fim de se comparar a quantidade e extensão das falas em português (legendas) com as reproduzidas na língua brasileira de sinais e, assim, inferir se este é um tipo de tradução regido por critérios de expansão textual ou condensação. Buscamos delimitar as falas a partir das pausas do discurso, observando, principalmente, os momentos em que o TILS posicionava suas mãos em descanso (conforme figura 50); ainda assim, algumas sinalizações foram agrupadas pelo fato da pausa ter sido muito rápida ou para manter uma unidade coerente na transcrição.

Figura 50 – Pausas na fala marcadas pela posição das mãos em repouso

Fonte: dossiê da pesquisa.

A partir de tais análises, chegamos ao número total de 41 falas sinalizadas em Libras, enquanto o número de legendas em português foi 47. Em uma leitura precipitada, poderíamos afirmar que a tradução e interpretação para Libras é um processo ainda mais reducionista, no sentido de economia textual, do que o de legendagem. Porém, embora o número de falas seja menor, o desenvolvimento dos blocos textuais é maior e mais detalhado do que no texto de partida.

Para entender quais foram as motivações dos fenômenos que regeram a criação em apreço (acréscimo, supressão, substituição e condensação (BIASI, 2010[2000]), buscamos interpretar tais movimentos a partir dos critérios linguísticos e tradutórios sugeridos no Guia para Produções Audiovisuais Acessíveis (2016). Nesse guia, toma-se, principalmente, como base orientadora da elaboração de roteiros para Libras, as estratégias tradutórias sugeridas por Barbosa (1990). Em nosso texto, utilizaremos as propostas dessa mesma autora, mas na edição do livro Procedimentos Técnicos da Tradução de 2004, adaptando-o, sempre que possível, às peculiaridades da Libras.

No texto de Barbosa, ela realiza uma comparação entre modelos de tradução sugeridos pelos autores Catford (1980[1965]), Nida (1959; 1964; 1982) Newmark (1981;1988) e Vinay e Darbelnet (1977[1958]; 1968), e analisa os procedimentos tradutórios propostos por cada um deles, estabelecendo similitudes ou discrepâncias entre tais modelos. A partir daí a autora propõe uma categorização de treze procedimentos técnicos para a tradução, acreditando que tais técnicas poderão facilitar a tarefa do tradutor, “[...] que terá à sua disposição uma série de procedimentos que efetivamente recobrem o que acontece no ato da tradução” (BARBOSA, 2004, p.64). Tais procedimentos, quando discutidos, visavam facilitar a tradução de textos escritos; contudo, alguns deles podem ser identificados na análise da tradução e interpretação em janela de Libras, como já utilizado por Anjos, 2017 e Lemos, 2014; 2012. Dentre as

estratégias listadas por Barbosa, as identificadas no processo em estudo foram: a explicitação, a omissão, a reconstrução de períodos e a equivalência, mostradas ao longo do texto.

De modo geral, a tradução para Libras do filme Raccoon & Crawfish foi um processo marcado pelo acréscimo de informações necessárias para a explicitação do conteúdo imagético e sonoro do texto de partida. Na produção, em análise, foram inseridas 15 falas sinalizadas, que não advinham dos textos das legendas. Em contrapartida, as 47 legendas que orientavam o tradutor e intérprete foram condensadas em apenas 26 enunciados em Libras. Contudo, essa condensação não exprimiu eliminações, visto que o conteúdo comunicativo das legendas se encontra presente nas sinalizações feitas em Libras.

Partindo dos acréscimos feitos ao texto fonte, observamos que eles obedeceram a critérios de explicitação para deixar claro o que estava sendo mostrado e evitar ambiguidades na interpretação. As explicitações, também, atuaram em torno de informações sonoras que, caso não fossem evidenciadas, ficariam alheias à compreensão dos surdos. Para Perego (2003), a explicitação é um elemento facilitador, pois acrescenta detalhes ao texto fonte, tornando mais fácil a compreensão do espectador. Na obra em questão, a explicitação foi utilizada seguindo os objetivos de: recriar ou descrever, imageticamente, algumas cenas; contextualizar as ações dos personagens; antecipar situações mostradas em cenas subsequentes; além de demonstrar conteúdos sonoros percebidos na obra. Vale ressaltar que tais intenções não são excludentes, sendo que várias delas podem estar presentes em uma mesma fala sinalizada.

Vejamos, abaixo, o quadro 07, com os casos de acréscimos de falas ocorridos na tradução para Libras:

Quadro 07 – Sinalizações em Libras acrescentadas ao texto fonte tiradas do DP15 (continua)

Nº da Fala

Texto em Libras

F2 (Guaxinim) OLHAR-LADO, O-QUE? ACONTECER BARULHO PARECER.

CHEIRO HORRÍVEL GOSTO-ESTRANHO, NÃO-QUERER CL – IR COLOCAR ALGO NA BOCA, BARULHO, OLHAR-LADO. NÃO-SER- NADA.

F3 EU IR COMER MELHOR

F4 PROCURAR AQUI