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RÉFÊRENCES

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A partir do século XVII com a Revolução Científica, a humanidade adota uma visão mais humanista e assume um posicionamento crítico diante da sua realidade. O desenvolvimento de um saber racional conduziu o ser humano a observar e a descrever os fenômenos naturais a partir de um pensar matemático e abstrato, contrapondo-se ao que até então era interpretado sob o aspecto da religião como designo divino e sobrenatural. A natureza foi transformada em um laboratório e os seus fenômenos passaram a ser observados, estudados, analisados e representados a partir de bases fundamentadas na filosofia natural, que pretendia explicar o sistema do mundo em sua totalidade (HENRY, 1998).

O olhar científico para os fenômenos naturais também fez questionar a origem do ser humano, embora o teocentrismo vivido na época colocasse Deus como o criador de todos os organismos e de todas as coisas que constituem o mundo, inclusive as suas funções e lugares na natureza. Essa crença de que as coisas foram definidas e estabelecidas por um poder divino e sobrenatural embasaram dois conceitos fundamentais, o de constância e da permanência. As entidades pertencentes ao mundo estavam organizadas, até então, em categorias que compunham uma escala constante e imutável denominada scala naturae. A ideia predominante era de um mundo sem transformações, constituído por entidades que possuíam como forma e estrutura características constantes e permanentes desde a sua origem com a criação divina. A organização dessa escala segue uma ordem ascendente conforme a complexidade dos elementos que a compõe, começando pelos seres inanimados como rochas e minerais, e finalizando com o homem no seu topo, como pode ser visto na versão de Charles Bonnet (1745) na Figura 2.1.

Figura 2.1 - Escala ascendente que categoriza as entidades do mundo.

Diante da Revolução Científica, as interpretações para os fenômenos naturais conflitaram com os dogmas religiosos que predominavam na época, demonstrando que a Bíblia não poderia mais ser interpretada literalmente. A revelação pelos geólogos nos séculos XVII e XVIII de que a Terra era muito mais antiga do que os seis mil anos imaginados pelos religiosos dava indício desse conflito, assim como a descoberta de fosseis de animais extintos, que gerou a discussão sobre a constância e permanência resultantes da criação divina, uma vez que era possível pressupor que o mundo havia passado por transformações. Embora as evidências fossem cada vez maiores, a postura criacionista (crença de que o mundo foi criado por Deus) ainda perdurou adotada por muitos cientistas naturais e filósofos até o ano de 1859, ano da publicação do livro “A Origem das Espécies”, escrito por Charles Darwin.

A dificuldade em aceitar a ideia de evolução estava relacionada com a necessidade de admitir que o mundo estivesse em constante mudança. Essas mudanças não se referem às alterações cíclicas regulares como dia e noite, a variação das marés causadas pelo ciclo lunar, mas sim, mudanças que não possuem uma regularidade e, portanto, não são cíclicas como a movimentação de placas tectônicas, as alterações climáticas sazonais devido às épocas glaciais, períodos de prosperidade na economia de uma nação, entre outros (MAYR, 2009). Assim, os conceitos de constância e regularidade definidos pela ótica cristã são aos poucos substituídos pela ideia de transformação que sugere a ocorrência de mudanças gradativas ao longo de um tempo.

Assim, o termo evolução utilizado por Bonnet para se referir às mudanças que ocorrem em um óvulo fecundado até o indivíduo adulto, teve sua aplicação ampliada para o desenvolvimento da vida. A evolução passa a ser entendida como um movimento direcional com transformações rumo a uma complexidade e perfeição dos organismos, e os estudos de morfologia dos gregos, como os de Aristóteles, foram resgatados como base nas discussões evolucionistas. A “unidade de plano” é um desses estudos, que considera a existência de uma estrutura básica entre grupos de animais que possuíam uma organização estrutural parecida, como pode ser visto na Figura 2.2. Outro estudo foi a verificação de correlações na natureza, Aristóteles observou que se determinado animal tivesse uma parte do seu corpo aumentada, isso seria compensado pela diminuição de outra parte, definindo que “a natureza invariavelmente dá para uma parte o que subtrai de outra” (SOUZA, 2009, p. 95).

Figura 2.2 – Similaridade entre a organização dos ossos entre as diferentes espécies.

Fonte: MAYR (2009, p.48).

O pensamento evolucionista começou a se disseminar na segunda metade do século XVIII até o século XIX, ainda como um ponto de vista minoritário. Somente a partir do ano de 1859, quando o cientista naturalista Charles Darwin publicou a sua teoria no livro “A origem das espécies”, que o tema passou a ter notoriedade com argumentações muito bem fundamentadas e que se mantêm até hoje. A atual teoria da evolução é o resultado de constantes discussões que ocorreram entre os cientistas com as suas diversas opiniões sobre a origem das espécies. Era possível encontrar os que ainda acreditavam na scala naturae e utilizavam a “Teoria das Ideias” de Platão como embasamento, devido à grande semelhança entre as estruturas de algumas entidades de diferentes categorias invocando a hipótese de degeneração, ou derivação de uma forma original decorrente das condições desfavoráveis de certas regiões (MARIN, 2012, p. 14). Existiam os que acreditavam na “unidade de plano”, como o Aristóteles, definindo a existência

de algumas formas comuns entre todos os animais (SOUZA, 2009, p. 95), mas sem considerar a ideia de descendência comum; ou ainda na teoria proposta por Jean-Baptiste Lamarck em 1809, de que todas as espécies foram criadas em sua forma simples e que a Natureza acabou definindo a sua organização e as transformou em organismos mais complexos, sendo o primeiro a incluir o ser humano nessa escala evolutiva. A teoria apresentada em 1859 por Charles Darwin através da publicação do seu livro “A origem das espécies” revolucionou todas as outras, adotando a hipótese de descendência comum e de transformações ao longo do tempo diante do processo de seleção natural. A aceitação do conceito de transformação associado ao tempo contribuiu para o rompimento da visão estática e imutável das espécies e do mundo, mesmo que em algumas definições esses conceitos ocorreram de maneira menos expressiva.

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