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Règles relatives aux PARE-CHOCS

O processo de construção de significados é um fator crucial na psicologia Cultural Semiótica, que parte do pressuposto de que “a ontogenia humana envolve a construção e o uso de signos para regular os fenômenos psicológicos emergentes, tanto os interpessoais quanto os intrapessoais” (VALSINER, 2012, p. 56). Através do uso de signos, os sujeitos se distanciam

dos seus contextos de aqui-agora, se adaptam as circunstancias mais adversas, criam as distinções entre Eu/outro, e são capazes de lidar com a imprevisibilidade do futuro.

Destacaremos, aqui, quatro perspectivas teóricas muito importantes que foram retomadas pela PCS, por propiciarem uma melhor compreensão de como os sujeitos constroem significados em um processo semiótico afetivo, são elas: a semiótica de Peirce, a teoria dos objetos de Meinong, a lógica co-genética de Herbst, e o conceito de “ver-como” de Wittegenstein.

Conforme exposto anteriormente, a Semiótica de Peirce constitui um dos pilares da PCS, justamente por defender a premissa de que os seres humanos operam através de signos. Ele reconheceu que o surgimento da mente baseia-se em um processo de semiose (TATEO, 2018a). Segundo Tateo (2018a, p. 1-2, tradução nossa) “Os signos emergem do relacionamento afetivo-corporificado com o mundo e objetos significativos... Experimentamos o mundo proativamente, em vez de reativamente a partir do estabelecimento de relações afetivas”. Portanto, a forma de interpretar um signo, além de cultural é afetiva, e permite lidar com as incertezas do futuro. “O processo de interpretação é governar os fatos no futuro” (PEIRCE, 1903 apud TATEO, 2018a, p. 04, tradução nossa).

O processo de mediação semiótica é cultural, afetivo e subjetivo, pois embora os signos sejam compartilhados pelos integrantes de uma cultura, o interpretante, dadas as experiências passadas e suas perspectivas de futuro, interpreta o signo de modo essencialmente particular. Construir significados na perspectiva peirciana é interpretar, construir e usar os signos, sejam eles icônicos, indexais ou simbólicos, propiciando assim a atuação do sujeito no mundo, a partir do reconhecimento a si próprio e a tudo que o circunda.

Uma segunda perspectiva que merece destaque é a teoria dos objetos desenvolvida no começo do século XX em Graz, por Alexius Meinong, criador da Gegenstandstheorie. A perspectiva defendida por Meinong é de que todos os fenômenos psicológicos emergem no encontro humano com os objetos (VALSINER, 2014b). Um dos interesses principais de Meinong era desenvolver uma teoria abrangente de como os seres humanos fazem julgamentos sobre os objetos (TATEO, 2018a).

Em nosso dia a dia, lidamos com objetos concretos tangíveis e visíveis, entretanto os conceitos de justiça, amor, liberdade, patriotismo, Deus, etc, não podem ser vistos ou tocados, embora guiem nossas vidas e relações interpessoais. “Se alguém pode pensar, sentir ou desejar algo, esse algo uma vez investido com a intencionalidade do agente torna-se um objeto” (MEINONG, 1960 apud TATEO, 2018a, p. 09-10, tradução nossa).

Ao nos relacionarmos com uma série de objetos, sejam eles tangíveis ou não, e intencionalmente investi-los de afetividade, esses tornam-se Gegenstands e irão contra agir a essa significação exercendo resistências, que podem ser do próprio objeto, ou imaginadas pelo sujeito (ver item 4.4.). O conceito de Gegenstand admite que o processo de significação, ocorre mediante a ação do sujeito sobre os objetos que, quando investidos de significados, tornam-se

Gegenstands. É através desse investimento direcional e afetivo, que o sujeito torna-se capaz de

lidar e significar todos os objetos, conceitos e situações que o circundam sejam eles tangíveis ou não.

Outro ponto que merece menção diz respeito à lógica cogenética de Herbst, na qual argumenta que a construção de significados se dá na tríade figura, fundo e fronteira, que determina o que está dentro, o que está na borda, e o que está fora, esses elementos são mutuamente codefinidores, e desaparecem juntos (VALSINER, 2012).

Na figura 3 é possível visualizar um exemplo dessa lógica triádica, uma vez que a borda “p” é desenhada, ela delimita “m” ou seja, tudo que é interno, e ao mesmo tempo delimita “n” enquanto tudo aquilo que é externo. Com a remoção da fronteira, uma distinção dentro fora já não é mais possível (TATEO, 2018a).

Figura 3- Conjunto da tríade de distinção primária

Seguindo essa lógica triádica, todos os fenômenos humanos e psicológicos podem ser significados, por exemplo: (ser, não ser, fronteira); (nacional, estrangeiro, fronteira); (normal, anormal, limítrofe); (pessoa, contexto, fronteira); (passado, presente, futuro); (eu, outros, fronteira), etc. (TATEO, 2018a). Ou seja, “o surgimento de qualquer forma de distinção (desenho de uma borda) cria imediatamente uma tríade (“A”+ “não-A”+ fronteira) como um todo, no qual as subpartes são codefinidas por seus relacionamentos” (TATEO, 2018a, p. 07, tradução nossa).

A lógica proposta por Herbst sinaliza que, no processo de construção de significados os sujeitos estão em um contínuo processo de distinção e diferenciação. Podemos presumir que as

fronteiras desempenham um papel fundamental na experiência humana, propiciando a construção dessa tríade que norteia uma série de experiências humanas.

Outro conceito que merece destaque e que assim como o conceito de Gegenstand será melhor explorado nos capítulos seguintes, é a noção de “ver como”, proposta por Wittegenstein. O referido autor concluiu que existe o ato de “ver” que é sensorial, e o “ver como” que implica em um ato de vontade, onde o sujeito seleciona alguns aspectos do objeto, ignora outros e constrói significados.

O “ver como” está imbuído de intencionalidade, hábitos, preconceitos, experiências prévias, além das expectativas de futuro (TATEO, 2018a). É o “ver como”, que permite as coisas/pessoas/situações se transformarem em Gegenstand, pois a intencionalidade do agente em ver o objeto com base em suas expectativas, afetos, experiências passadas e do contexto no qual faz parte, é o que permite a transformação de coisas em objetos significativos e capazes de exercer resistências (ver item 4.4).

As proposições até aqui apresentadas, nos propiciam a compreensão de que os seres humanos vivem em um contínuo processo de construção de significados, no qual até mesmo as atividades mais básicas do cotidiano estão sendo significadas a todo instante, sempre munidas de valoração afetiva e intencionalidade. Esse processo é tão intrínseco à condição humana que sequer é percebido por nós. Reconhecemos, assim, que a todo momento estamos interpretando signos, fazendo diferenciações, “vendo como”, e atribuindo valor aos objetos, situações e pessoas que nos circundam, tornando-os Gegenstands.

Compreender as diversas formas do processo de construção de significados, e uso de signos auxiliarão na compreensão dos processos imaginativos, que necessariamente envolvem manipulação sígnica, como forma de gerenciar as situações incertas dada a imprevisibilidade do futuro.