• Aucun résultat trouvé

Moteurs et actionneurs

Existe uma gama de estudos que se debruçam na investigação de processos imaginativos, esse é um tema que tem despertado interesse em diferentes áreas da ciência. O nosso interesse particular de investigação, recai no estudo dos processos imaginativos em relação a uma experiência a ser vivida, tal como a possibilidade de lecionar para crianças com a Síndrome Congênita do Vírus Zika. Adotamos a concepção de que a imaginação é uma atividade mental que se manifesta a partir do contexto sócio-cultural-afetivo, do qual o sujeito faz parte.

4.1 A IMAGINAÇÃO AO LONGO DA HISTÓRIA: INFLUÊNCIAS FILOSÓFICAS NOS ESTUDOS DA IMAGINAÇÃO

É importante considerar que, ao longo da história, pensadores diversos, como filósofos e artistas, consideraram a existência da imaginação. Alguns a nomearam como fantasia, e independente da terminologia usada, se referiam a essa função mental como importante para o funcionamento do sujeito no mundo.

Um dos pensadores a tratar da imaginação é chamado Nicolau de Cusa (1401-1464), que foi Cardeal e Bispo de Brixen na Itália, e um importante teólogo e filósofo de sua época. Nicolau defendia que através da razão a alma não apreende a verdadeira natureza das coisas. Concebeu a imaginação como uma câmera na mente, onde as imagens originalmente produzidas pela estimulação sensorial são novamente trazidas à vida (CORNEJO, 2017).

Já Tomas Hobbes (1588-1679) foi um teórico político, filósofo e matemático inglês que atribuiu à imaginação um papel central, entendia que o funcionamento da mente humana reduzia-se ao sentido e imaginação. Ele fez uma distinção entre a imaginação simples e a composta, entendendo que na simples há uma capacidade de recordar uma experiência sensorial. Já a imaginação composta diz respeito a capacidade de combinar imagens (PERN, 2015).

Outro precursor nos estudos da imaginação foi Giambatista Vico (1970-1744), um filósofo reconhecido como um dos grandes pensadores do período iluminista. Defendia que através da razão a alma não apreende a verdadeira natureza dos fenômenos. Para ele, a percepção sensorial é a fonte de toda a atividade mental, incluindo a imaginação. Defendeu que a imaginação é uma faculdade primordial e nela está envolvida a memória e a invenção (PERN, 2015). Vico esteve preocupado em descrever o que torna algumas impressões sensoriais tão penetrantes, a ponto de se conservarem como imagens. A resposta que encontrou para essa questão, diz respeito ao componente emocional; o pensador concebeu que a “a emoção é o catalizador que permite a sensação se transformar em uma imagem retida na memória” (PERN, 2015, p. 166, tradução nossa).

Immanuel Kant (1722-1804) também trouxe importantes contribuições aos estudos da imaginação. De acordo com Sepper (2013), Kant propôs que a síntese é uma função da imaginação em seu uso transcendental. Argumentava que quando os sentidos são passivamente estimulados, a imaginação em sua primeira função transcendental produz espontaneamente uma síntese que possibilita a consciência de cores, sons, aromas, pressões e tudo que está no campo sensorial.

É ainda importante mencionar as considerações do romancista, poeta dramaturgo e filósofo alemão Johann Wolfgang Goethe (1749-1832). De acordo com Cornejo (2017), esse pensador apontava para a necessidade de integrar as capacidades humanas, quebrando a hierarquia entre razão e intelecto versus fantasia e sensibilidade. Essa concepção já apontava sua preocupação com o estudo das faculdades humanas, tal como a imaginação que vinha perdendo ênfase em função da primazia pela racionalidade por parte das comunidades científicas.

Para Goethe: “a fantasia não se opõe à razão, e representa a faculdade de sentir plenamente o mundo, sendo uma pré-condição para alcançar uma ciência ideal, que respeite a natureza por descrevê-la fielmente, desse modo, ela não se reserva apenas à poesia e a arte” (CORNEJO, 2017, p. 16, tradução nossa). Essa proposição de Goethe coloca a imaginação em

um status de fundamental importância que relacionada a arte e a ciência, se faz necessária ao funcionamento do sujeito no mundo.

Fazer uma retomada na trajetória histórica dos estudos da imaginação é importante para a compreensão de que a descoberta desse processo cognitivo não é recente. No campo da Psicologia, Piaget (1896-1980) e de forma mais contundente, Vygotsky (1896-1934) foram os principais autores que retomaram as discussões sobre a imaginação. Embora Piaget não tenha se debruçado aos estudos da imaginação, a considerou como importante para o desenvolvimento intelectual do sujeito, sendo o lugar onde poderão emergir novos sentidos (DA LUZ, 1994). Piaget considerou ainda que os jogos simbólicos são muito importantes para o pensamento, pois “por meio da imaginação a criança torna-se capaz de representar individualmente objetos e acontecimentos ocorridos num momento passado e isso contribui para o pensamento” (NUNES, 2013, p. 04).

Indubitavelmente, Vygotsky (2009) foi o principal expoente na retomada dos estudos da imaginação na Psicologia. A concebeu como a função mental superior que desempenha uma função adaptativa e faz do ser humano uma criatura orientada para o futuro, criando-o e alterando o próprio presente. Reconheceu ainda, que a imaginação é a base de toda atividade criadora, e manifesta-se em todos os campos da vida cultural, tornando também possível a criação artística, científica e técnica (VYGOTSKY, 2009).

Ainda de acordo com Vygotsky (2009) a imaginação se faz presente nas atividades cotidianas, e possibilita a criação dos artefatos presentes em nossa cultura. É uma função mental que se relaciona diretamente com o contexto no qual o sujeito está inserido e, sobretudo, com as suas experiências pregressas, possibilitando a adaptação, criação e resolução de problemas.

É importante salientar ainda que “a imaginação não é um divertimento ocioso da mente, uma atividade suspensa no ar, mas uma função vital necessária” (VYGOTSKY, 2009, p. 28). Vygotsky (2009) defendeu, ainda, a proposição de que a imaginação expande a experiência humana, sendo imprescindível para a adaptação dos sujeitos às situações mais adversas.

A imaginação adquire uma função muito importante no comportamento e no desenvolvimento humano. Ela transforma-se em um meio de ampliação da experiência de um indivíduo porque, tendo por base a narração ou a descrição de outrem, ele pode imaginar o que não viu, o que não vivenciou diretamente em sua experiência pessoal. A pessoa não se restringe ao círculo e a limites estreitos de sua própria experiência, mas pode aventurar-se para além deles, assimilando, com a ajuda da imaginação, a experiência histórica ou social alheias. A imaginação é uma condição totalmente necessária a quase toda atividade mental humana. (Vygotsky, 2009, p. 25).

A ênfase dada por Vygotsky à imaginação foi de suma importância para o reconhecimento desse processo cognitivo como função mental superior. É a partir da capacidade de se prospectar ao futuro, que o sujeito conjectura possibilidades de ação, e se torna

capaz de lidar com situações que nunca experienciou antes, possibilitando a adaptação às situações incertas e desafiadoras.

4.2 A IMAGINAÇÃO SEGUNDO OS PRESSUPOSTOS DA PSICOLOGIA CULTURAL