Ao abordarmos a relação do sujeito com a LI e a LM, faz-se necessária uma delineação do contexto brasileiro de ensino de Inglês como língua estrangeira, perpassado de maneira marcante pela massiva presença de institutos de línguas que se apresen- tam sob a forma de franquias de grandes redes de ensino. Esse mercado e os elementos que o constituem (escolas, manuais de metodologia, livros didáticos, etc.) colocam em funcionamento certos discursos a respeito das línguas. Esses, por sua vez, per- passam também os discursos dos sujeitos aqui analisados (que deles se valem dentro dos modos de dizer específicos da mídia em
que estão inseridos), e ajudam a constituir o modo como eles representam as línguas e com elas estabelecem relações.
Enunciados de estudantes e professores de LI que afirmam gostar (ou não) do “método X”, onde “X” equivale ao nome da instituição à qual o método está associado, são algo recorrente no contexto brasileiro de ensino de línguas estrangeiras, princi- palmente, de LI.
Esse modo de referir sugere um traço bastante marcante do mercado (a substituição metonímica do nome de um produto por sua marca) nas concepções do processo de ensino-aprendizagem, sugerindo a ambivalência do sujeito-aluno, visto também como consumidor em busca de um produto: a “fluência” em LI, que supostamente viria pela aplicação do método.
De maneira análoga, o professor ocupa também o papel de prestador de serviços, em busca de fidelizar seu cliente e evitar que este seja influenciado pela concorrência.
Essa diferenciação parece ter uma dupla função: por um lado, colabora com a ideologia do mercado, investindo na ideia de um sujeito hedônico, do consumo, onipotente (CORACINI, 2006), um sujeito livre para escolher entre as diversas possibilidades que lhe são colocadas pelo mercado de ensino de LI (método X, Y, Z, etc.) e que, por meio dessas escolhas, se constrói da forma que deseja em busca da obtenção do total prazer (a fluência em LI). Outra faceta discursiva dessa relação metonímica é a atribuição de um caráter opaco ao discurso fundador das metodologias de ensino de língua estrangeira, estabelecendo diferenciações (nem sempre existentes) entre “produtos” que constituem, assim, um mercado supostamente cheio de variedade. Tais metodologias de ensino “[...] pressupõem um sujeito consciente e dono de seus atos, capaz de, deliberadamente, atingir seus objetivos, transfor- mando o mundo à sua volta”. (MASCIA, 2003, p. 212)
O efeito de opacidade que opera nos pressupostos das metodologias e abordagens adotadas por essas instituições pare- ce investir na ilusão de que o sujeito é livre para escolher o méto- do de ensino que mais lhe agrade (e/ou que melhor lhe caiba no bolso), ilusão de liberdade muito análoga àquela na qual se cons- titui o sujeito do ciberespaço tanto durante a construção do avatar quanto ao enunciar por seu intermédio.
Ao longo do corpus pudemos identificar efeitos de sentido nos quais ecoam elementos do que Mascia (2003) postula como o “[...] discurso fundador das metodologias de ensino de língua estrangeira”. Não são poucos os enunciados nos quais a LM é apresentada como fonte de interferências indesejáveis, imputan- do à mesma a culpa pelo insucesso na jornada da aquisição do status de native-like speaker, prometido pela ampla maioria dos Institutos de Idiomas em suas peças publicitárias e nos balcões onde o produto – a fluência após a conclusão do último estágio do curso – é vendido.
Não são poucas as peças publicitárias veiculadas por esses Institutos, nas quais a interferência da LM na LE é apresentada como fonte de constrangimentos e mal-entendidos da ordem do “ridículo” e do “grotesco”, para usar as palavras do sujeito em A- 01.
A-01.
“Tópico: Erros grotescos4 de inglês de membro da Comu. Nossa, andei entrando em uma página em que este “individuo” que se diz apaixonado por ingles comete erros que nem o Lula cometeria hahahaha deem uma olhada e postem o que acharam!!! rsrs Riiiidiculo!!! entrem na pagina depois pra dar uma olhada, real- mente alguem que diz amar ingles fazer isto não deveria fazer parte desta comunidade hahaha é cada um...
4 Os negritos são do texto original. Todos os sublinhados são dos pesquisado- res, salvo menção em contrário.
Nesse sentido, propomos um retorno aos princípios da cons- trução do avatar: ao filiar-se a um modo de dizer para enunciar sobre LM, representando-a como algo indesejável para o aprendi- zado da LI, o sujeito parece encorajado a abandonar uma identi- dade (jurídica, no caso do avatar; a da LM, no caso do aluno de inglês) em detrimento de outra que se crê cuidadosamente construída, calculada racionalmente, moldada com base nas idealizações que o sujeito faz de si e de como deseja ser visto pelo outro. Tudo isso parece apontar para uma relação de caráter conflituoso entre sujeito, LM e LI.
Desse conflito emergem posições que parecem oscilar entre o desejo pela identidade fornecida pela LI (avatar) e a resistência à entrada neste universo, por meio do apego à identidade inicial (jurídica, da LM) e da recusa à alteridade apresentada na e pela língua estrangeira. Qualquer desses modos de lidar com a alteridade sugere instabilidades e tensões, que não podem ser simplesmente imputadas ao espaço enunciativo da rede social, mas que parecem se mostrar sob uma forma hipertrofiada e hiperbolizada no contexto do Orkut. (UCHÔA-FERNANDES, 2008) É sobre esse conflito que, doravante, debruçar-nos-emos, com base nos enunciados do corpus.