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José A. Uchôa-Fernandes (UFPA)

Deusa Maria de Souza-Pinheiro-Passos(USP)

[...] uma parte de mim é só vertigem: outra parte, lingua- gem.

Ferreira Gullar

Redes sociais como o Orkut vêm obtendo massiva adesão de usuários em todo o mundo e obtendo cada vez mais espaço tanto entre internautas quanto nos noticiários e na mídia em ge- ral. No Brasil, a mais popular dessas redes, o Orkut, parece ter encontrado um contexto bastante favorável à sua expansão. Em 26 de fevereiro de 2006, a página de dados demográficos do Orkut indicava que 72,84% (Figura 1) de seus participantes eram brasi- leiros que, através desta mídia, buscavam compartilhar interes- ses, fazer amigos e discutir toda sorte de temas, dentre os quais a Língua Inglesa (LI), assim como seu processo de ensino-aprendi- zagem.

Figura 1: Distribuição populacional, por nacionalidade, dos usuários do Orkut. Fonte: seção de dados demográficos da rede social orkut.com

A partir da observação da massiva adesão ao Orkut surgiu nosso interesse de analisar, sob uma perspectiva discursiva da linguagem (ORLANDI, 1983), o funcionamento dessa rede social no tocante aos modos de dizer e aos processos de constituição, invenção e reinvenção identitária intrínsecos desse contexto, bus- cando pontes que pudessem relacionar o sujeito das línguas (ma- terna e estrangeira) ao que denominamos sujeito do Orkut.

Para tal, optamos por analisar duas comunidades: “Eu amo

Inglês” e “Eu ODEIO Inglês”1, tomando como base a grande

recorrência de comunidades do tipo “eu amo” / “eu odeio” nessa rede, o que sugere uma tendência à hipérbole discursiva nesse meio específico de produção textual.

1 Os enunciados estão marcados com a letra “A” (eu amo Inglês) ou “O” (eu ODEIO Inglês), de acordo com sua comunidade de origem.

As reflexões que resultam da análise empreendida objetivam debater não apenas os modos de ser e dizer nessa rede, mas tam- bém investigar a natureza conflituosa da relação do sujeito ente línguas (REVUZ, 1998), buscando contribuir para uma reflexão a respeito de representações de ensino-aprendizagem de língua in- glesa e dos elementos envolvidos na esfera do ensino de línguas estrangeiras (aluno, professor, metodologias, etc.).

Com esse fim, problematizaremos a questão do conflito en- tre o avatar e o sujeito jurídico2 que tende a se manifestar no

sujeito do Orkut, buscando analogias possíveis com aspectos identitários de um sujeito cindido (FINK, 1998) entre a suposta Língua Materna (LM) e a LI. É a partir deste olhar discursivo sobre o avatar e o sujeito da(s) língua(s) que buscaremos fazer considerações a respeito desses sujeitos e do imbricamento identitário, que os afeta e constitui, uma vez que ambos (o sujei- to do Orkut e o sujeito da(s) língua(s)) são levados a investir em identidades diversas, adequando-se conforme lhes sugere a gra- mática do espaço de enunciação (GUIMARÃES, 2002) no qual se encontram.

Ao longo do processo de análise, pudemos entrever traços de um sujeito que se apresenta afetado e constituído tanto pela suposta LM quanto pela LI, independente de sua inserção ou não no contexto formal de ensino-aprendizagem de línguas estrangei- ras, conforme sugere O-01.

O-01.

“Eu não gosto da forma como o portuguès é tratado pelos própri- os brasileiros.

Eu comprei uma máquina fotográfica que tinha o manual em in- glês, francês, alemão, espanhol e italiano. [...] Tive que adivi- nhar onde ligar os cabos, pois o manual estava apenas em inglês,

2 Aquele que pode ser identificado pelo Estado e demais mecanismos de coerção e que responde pelo dito.

francês e espanhol. Mas a culpa não é do povo que fala inglês, nem do povo que fala espanhol ou italiano. A culpa é dos brasileiros que acham “bonito” ficar falando em outras línguas e não valo- rizam o nosso idioma.

Mas eu ainda não expliquei porque odeio o inglês... É simples, quan- do vou fazer compra, alguma loja bota um cartaz bem grandão “FOR SALE”, “JUST IN TIME” ou outras expressões que eu não faço

a mínima idéia do que significam. PÔ, ESTAMOS NO BRASIL, EN-

TÃO FALEM PORTUGUÊS!

Não sou contra quem gosta de fazer cursos, eu até apóio, mas

quando vier conversar comigo, FALEM PORTUGUÊS.[...]”3 Embora a forma como a comunidade é denominada possa, a priori, nos dar o efeito ilusório de uma situação bem resolvida e acabada desses sujeitos com a LI, percebemos, a partir de uma análise mais detalhada, que esses sujeitos que declaram “odiar” a LI encontram-se também afetados pela língua do outro, a exem- plo daqueles que dela se declaram “amantes”. Não fosse assim, o que poderia mover o sujeito a engajar-se em uma comunidade dessa natureza e discutir sua relação com a LI? Se a relação com a LI fosse realmente definitiva e acabada (se é que é possível falar em uma relação acabada com a língua), haveria motivo aparente para a manifestação e explicação das razões para sua recusa?

Queremos crer que o próprio gesto de filiação nessas comu- nidades sugere um conflito íntimo de um sujeito dividido ente o um e o outro, entre sua língua e a língua do outro, e que lança mão de modos de dizer que nos remetem muito mais à resistên- cia/defesa do que a uma postura de ataque à alteridade. É como se esse sujeito buscasse, por meio do gesto de filiação a um gru- po e um modo de dizer, a preservação de uma identidade, de um status e de um papel que, em suas representações de língua, são atributos da LM, aquela que o constitui na “gênese”.

3 Os enunciados foram transcritos exatamente como encontrados nas postagens originais da rede sem sofrer qualquer tipo de revisão. Os grifos são próprios do texto original, salvo menção em contrário.

Nossa hipótese é a de que o meio de produção no qual esses sujeitos estão inseridos se constitui num ambiente favorável para a manifestação desse tipo de conflito, uma vez que o sujeito jurí- dico não equivale, necessariamente, ao sujeito do Orkut, estando assim colocada a possibilidade do anonimato, da (re)invenção de si mesmo (CORACINI, 2006), do equívoco e do contraditório. Dito de outro modo, a filiação e desfiliação a um ou outro modo de dizer e a uma identidade específica é dada pelo rápido (e discursivamente cômodo) gesto do clique de um mouse em uma cadeia discursiva na qual os vínculos com a coerência textual (elemento fundamental para a atribuição de credibilidade no meio presencial) são de natureza muito mais frouxa e instável.

Esta instabilidade se apresenta de maneira análoga àquela que pode ser observada nos próprios sujeitos que enunciam no contexto dessa mídia, cuja singularidade reside no efeito de “horizontalidade” e “democracia” (LÉVY, 1996) que dela parece emanar, diferenciando-a de outros contextos (principalmente o escolar) pelo efeito de ausência/difusão de elementos reguladores e limitadores do discurso. (FOUCAULT, 2002)

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