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Questionner le monde

1. Questionner le monde du vivant, de la matière et des objets

Espanha e Portugal têm em comum uma grande parte da sua história. Os conflitos ibéricos de outros tempos deixaram algumas marcas nem sempre fáceis de ultrapassar ao longo da história. Durante muitos anos a proximidade geográfica dos dois países da península ibérica contrastou a com a atitude "de costas voltadas". No entanto, mudam-se os tempos mudam-se as vontades, e os incidentes do passado desvanecem-se e dão lugar a aproximações de parte a parte e é cada vez menos comum ouvir o ditado popular que outrora foi bandeira de defesa da integridade portuguesa "De Espanha nem bons ventos nem bons casamentos".

O aspeto que à primeira vista apresenta mais semelhanças entre as duas línguas é o sistema linguístico, facilitando a aprendizagem de uma delas como segunda língua. Essa aprendizagem passa pela análise contrastiva e processos de transferência da língua materna para a língua meta. Deste modo, quanto menor for a distância linguística, menos dificuldades de aprendizagem existem e mais probabilidade há de ocorrerem interferências da língua materna no processo de aprendizagem da língua alvo (Santos Gargallo, 1993).

Mas quando se fala de ensino/aprendizagem de uma língua estrangeira, não podemos descurar toda a bagagem cultural inerente a esta, que no caso do português e do espanhol apresenta muitas semelhanças mas também algumas diferenças.

Hermida Ruibal (2005) apresenta alguns pontos que diferem entre as culturas portuguesa e espanhola, como, por exemplo, os dados do documento de identificação, os apelidos, os filmes legendados em Portugal e as dobragens em Espanha, o horário das

refeições, a tradição das passas e das uvas na passagem de ano, o Pai Natal e os Reis Magos, o Dia das Mentiras em abril e o Día de los Santos Inocentes em dezembro, as azarentas sexta-feira 13 e a terça-feira 13, pedir licença para abrir a porta ou rasgar um papel, escrever a vermelho, a música pimba, a sigla INEM, entre outros.

Não obstante, segundo o modelo apresentado por Hofstede (2005), citado por Beatriz Moriano (2010), são mais as coincidências culturais do que as divergências. O autor fez uma avaliação da proximidade cultural entre seis países da União Europeia, relativamente aos seguintes itens:

1- Índice de distância e de poder – o que separa as pessoas com base na sua relação hierárquica é aceite socialmente e determinado pela cultura;

2- Individualismo – diz respeito à relação entre o individual (indivíduo que se organiza por si só) e o coletivo (indivíduo que se organiza em conjunto);

3- Masculinidade – relativo ao grau de importância dos diferentes géneros biológicos;

4- Índice de evasão perante a incerteza – respeitante à atitude de fuga em contacto com o imprevisto.

5- Orientação a longo prazo – referente ao respeito pelos valores e tradições arraigados.

Tendo em conta os vários países em estudo, Portugal e Espanha não apresentam em nenhum dos itens em estudo a maior distância. Ainda que se separem um pouco no que diz respeito ao individualismo e ao índice de evasão perante a incerteza, ambos apresentam valores não muito díspares nos outros tópicos analisados, o que indicia uma relação de proximidade cultural. Entre todos os países estudados são os que mais se aproximam culturalmente.

Não esquecendo que o presente estudo apenas compreende pequenas partes do que é a cultura total de um país, é necessário considerar a possibilidade de este mesmo modelo de interpretação dar origem a estereótipos. No que diz respeito à aplicação do modelo de Hofstede à cultura hispana, diz Elizondo Azagra (2008) que, relativamente à comunicação nas relações interpessoais, a cultura espanhola apresenta uma maior relação de proximidade do que as restantes, sendo mais tendentes a contactos físicos enquanto falam; quanto ao espaço físico, também se verifica que está organizada em curtas distâncias físicas na comunicação; no que concerne ao tempo, a cultura espanhola é descrita como

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policrónica, ou seja, segundo o autor, quanto à planificação de assuntos pessoais ou profissionais, tratam-se vários assuntos ao mesmo tempo, havendo mais flexibilidade na conceção temporal que nos outros países europeus.

Por outro lado, foi também realizado um estudo comparativo por Serrano, El-Astal & Faro (2004) entre os países ibéricos e a Palestina, tentando obter respostas no que diz respeito a diferenças e/ ou semelhanças relativamente aos padrões comportamentais dos adolescentes entre os 14 e os 18 anos nos três países, de forma a investigar paradigmas da vida social, da relação dos adolescentes com os seus grupos, os fatores basilares de condutas antissociais e a perceção que têm, em geral, da realidade. Os principais objetivos deste estudo eram determinar o modo e o grau de influência de família, grupos de iguais, comunidade e escola sobre as condutas dos adolescentes. Os resultados obtidos com este estudo deixam clara a influência dos contextos de sociabilização sobre os padrões e desvios sociais, bem como as diferenças inerentes ao contexto religioso.

Assim, dizem-nos estes autores que a nível de relações familiares não se constatam diferenças significativas entre os três grupos, no que diz respeito ao diálogo, à compreensão e comunicação entre pais e filhos. No entanto, nas sociedades portuguesa e espanhola é maior o controlo sobre as filhas do que sobre os filhos adolescentes em fase inicial e com o avanço da idade o controlo e apoio vão sendo menores, abrindo caminho para a autonomia.

Quanto à sociabilização dos jovens entre grupos de iguais, escola e comunidade, registam-se maiores níveis de semelhança entre os jovens ibéricos, destacando-se a semelhança no que concerne à integração social das raparigas e ao entorno escolar em contraste com as jovens palestinianas.

No que diz respeito às condutas antissociais, também aqui os países ibéricos apresentam grande afinidade. Segundo este estudo, os comportamentos de portugueses e espanhóis assemelham-se bastante quanto ao tipo e idade em que se desenvolvem, por volta dos 16 anos, diferindo ligeiramente em termos quantitativos, sendo que os portugueses apresentam níveis um pouco mais baixos.

Também os hábitos de consumo de tabaco, álcool e drogas leves aproximam os dois países ibéricos, tanto no que respeita à quantidade como no que concerne ao sexo dos consumidores como podemos verificar através da seguinte tabela, apresentada no referido estudo.

Tabela 22: Consumo de álcool, tabaco e drogas entre os jovens (em: Serrano, El-Astal & Faro (2004))

Outro ponto de afinidade entre Portugal e Espanha, comparativamente com a Palestina, prende-se com a tolerância no que diz respeito ao comportamento sexual, tanto sobre o papel da mulher na sociedade como concretamente no que diz respeito às condutas sexuais de masturbação, importante sobretudo entre os jovens de sexo masculino, orientação sexual, idade em que se inicia a vida sexual, vinculação da iniciação da vida sexual com outros fatores como a idade, o consumo de álcool, tabaco, etc.

Por outro lado, os resultados em que mais se distinguem os países ibéricos são os relativos às crenças e condutas religiosas. Aqui, há que destacar que os portugueses, além de apresentarem maior percentagem de jovens católicos, também se destacam pela prática religiosa, ou seja, o número de jovens católicos praticantes em Portugal é bastante superior ao número apresentado sobre Espanha.

Ainda quanto aos valores sociais, diz-nos o estudo que em Espanha e Portugal os valores apontados pelos jovens como importantes são absolutamente os mesmos: o bem- -estar físico e emocional (saúde, família, amizade e amor), e o bem-estar social (paz no

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mundo e liberdade), no entanto, a adolescência espanhola apresenta-se mais orientada para os valores individuais, mais imediatos e concretos, em relação aos portugueses.

Em suma, podemos dizer que apesar de algumas divergências, as sociedades ibéricas compartem muitos aspetos sociais, culturais e consequentemente comportamentais.

Não obstante, devemos notar que o facto de nos dois países se notarem bastantes semelhanças em termos linguísticos e culturais não deve ser impeditivo de analisar as diferenças. Na verdade, para além da proximidade geográfica, Portugal e Espanha têm línguas de origem comum, com muitos traços contíguos, e apresentam também padrões socioculturais com muitas similitudes no que diz respeito a pautas de atuação. Porém, não podemos dizer que são iguais ou tomar um pelo outro linguística ou culturalmente, pois as diferenças existem e devem ser consideradas para o reconhecimento de uma identidade nacional.