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Questionnements sur les processus à l’œuvre dans le paradigme miroir

PARTIE II. DISTORSION ENTRE SCHEMA CORPOREL ET POSITIONS SEGMENTAIRES DANS LE PARADIGME

3. L’impact de la proprioception sur la motricité dans le paradigme miroir

3.4 Questionnements sur les processus à l’œuvre dans le paradigme miroir

O ser humano tem uma necessidade intrínseca para integrar os eventos num todo coerente (Helson, 1925, cit. por Niederhoffer & Pennebaker, 2002). O que parece acontecer é que as memórias dos momentos stressantes são desorganizadas e fragmentadas, os pensamentos intrusivos e os esforços para suprimi-los ocupam espaço precioso na memória de trabalho, o que pode resultar num raciocínio e resolução de problemas mais pobre. Como inerentemente estamos motivados para a finalização, esses pensamentos vão permanecer activos enquanto a tarefa/problema não é resolvida. Neste sentido, a escrita expressiva, ajuda a organizar essas memórias numa estrutura mais coerente, ocupando menos recursos da memória de trabalho, o que resulta numa melhor resolução de problema, melhorias para a saúde e menos pensamentos acerca dos eventos traumáticos (Klein & Boals, 2001). Ao criar uma narrativa organizada, as pessoas podem começar a compreender as causas do trauma e lidar de forma mais eficaz com os eventos stressantes e até estar mais dispostos a comunicar sobre o sucedido com outros (Niederhoffer & Pennebaker, 2002), o que traz claros benefícios.

Segundo Pennebaker (1997), a escrita expressiva funciona porque permite aos indivíduos dar sentido e organizar um evento traumático. De acordo com esta hipótese, Pennebaker, Colder & Sharp, (1990) desenvolveram uma investigação em que se perguntava aos participantes as razões porque achavam que a escrita tinha funcionado com eles, questão à qual a maioria respondeu que lhes permitia ter uma melhor visão sobre o acontecimento. Para medir o grau de reestruturação cognitiva

26 que ocorre durante a escrita expressiva tem sido utilizada a análise de palavras nos registos escritos desenvolvidos pelos participantes, que será descrita na secção seguinte.

Concluindo, a teoria de processamento cognitivo contempla mudanças as vários níveis (emocional, cognitivo e comportamental). Esta implica a construção de uma história, a mudança de perspectiva e sugere que quando ocorre revelação de sentimentos e pensamentos em torno de um evento traumático, ocorre um processo de organização e construção de significados dos eventos.

Embora cada uma das teorias referidas seja promissora, não há realmente nenhuma explicação definitiva para os efeitos da escrita. As únicas conclusões que podemos retirar até ao momento é que a escrita expressiva é efectivamente benéfica em termos de saúde física e mental e que ainda não se entende completamente os processos através dos quais funciona. É provável que uma combinação dos mecanismos teóricos, referidos anteriormente, possa estar na base da eficácia da escrita, pois nenhuma causa ou teoria por si só consegue explicar a eficácia desta intervenção na sua totalidade (Pennebaker, 2004). Assim o mecanismo de acção parece ser um fenómeno complexo. Sloan e Mark (2004b) sugerem que um mecanismo pode explicar as alterações iniciais, enquanto outro mecanismo pode contribuir para a manutenção dessas mudanças. No mesmo sentido, Pennebaker (2004) sugere que depois de escrever, os participantes relatam pensar, falar e até mesmo sonhar com o tópico escrito. Como muitas partes de suas vidas são tocadas (incluindo vários processos sociais e psicológicos) é provável que uma série de processos psicológicos, sociais e biológicos sejam responsáveis pela eficácia da escrita expressiva.

6. Construção de Narrativas e o Uso da Palavra

As palavras utilizadas e a forma como se articulam num discurso transmitem uma valiosa informação sobre a pessoa que está a comunicar e a situação em que se encontra. As investigações têm constado que são os estilos linguísticos das pessoas que dão mais informação psicológica do que o conteúdo linguístico em si (Pennebaker, 2002). Ou seja, é mais importante a forma como as pessoas falam sobre um assunto do que o que dizem sobre ele. Através das palavras que a pessoa utiliza é possível saber se ela está emocionalmente envolvida no que está a escrever e se está centrada de um modo excessivo ou aberta a novas experiências (Pennebaker et al., 2003).

Como já foi referido anteriormente, parece ser evidente que quando as pessoas escrevem sobre experiências traumáticas ou stressantes, ocorre uma compreensão mais coerente do acontecimento em causa, assim como determinados benefícios para a saúde. No entanto, investigações nesta área têm mostrado que o processo de escrita por si só não é suficiente para proporcionar estes benefícios (Pennebaker & Seagal, 1999), sendo necessário que este seja realizado em forma de história/narrativa e que apresente determinados critérios (Smyth, True, & Souto; 2001).

Assim, a construção de uma narrativa é crucial pois, desenvolve um sentimento de controlo, ajuda a dar significado aos eventos, promove o sentido de auto-eficácia e controlo e facilita a

27 organização e gestão de sentimentos e pensamentos associados à experiência perturbadora (Pennebaker, Mayne & Francis, 1997;Pennebaker & Seagal, 1999). Pode parecer irónico, mas as boas narrativas levam a melhorias ao nível da saúde física e mental, ao tornar uma experiência complexa numa história mais simples e compreensível, ao mesmo tempo que distorcem as memórias que as pessoas têm dessa experiência. Este processo permite a recordação dos acontecimentos de forma coerente, com a integração e reconhecimento de pensamentos e emoções e atribuição de significado (Pennebaker, Mayne & Francis, 1997; Pennebaker & Chung, 2007), o que leva à possibilidade de “encerramento” do assunto. Além disso, o indivíduo pode ficar melhor preparado para lidar com ocorrências futuras semelhantes.

Mas nem todos os registos são boas narrativas, estas têm de ter determinados critérios (Pennebaker & Seagal, 1999)para que proporcionem benefícios na saúde física e mental.

Tendo em conta esta linha de raciocínio, a natureza altamente subjectiva da tarefa e com o objectivo de fazer análise linguista individual e detalhada dos registos escritos, foi desenvolvido um sistema computorizado de análise de texto, o Linguistic Inquiry and Word Count (LIWC), de forma a facilitar a análise de composições escritas e a torná-la mais objectiva (Pennebaker & Francis, 1996). Este programa é constituído por várias categorias de palavras que são indicadoras do processamento emocional e cognitivo dos indivíduos. As categorias que se referem ao processamento cognitivo são constituídas por palavras causais (e.g. “porque”, “por causa”, “portanto”, “porquê”, “deste modo”, etc.) que são indicadoras da procura de razões para o sucedido; e por palavras de insight (e.g. “sei”, “percebo”, “considero”, “penso”, “compreendo”, etc.) que são reflexo da tentativa de compreensão sobre a experiência e o que está a ser escrito (Pennebaker & Francis, 1996; Pennebaker, Mayne & Francis, 1997). Por outro lado, as categorias que abrangem os processos emocionais são compostas por palavras emocionais positivas (e.g. “feliz”, “sorrir”, “orgulho”, “agradável”, etc.) e palavras emocionais negativas (e.g. “zangado”, “chorar”, “triste”, “sofrimento”, etc.).

As investigações que analisaram os textos dos participantes têm demostrado que sobressaíram três factores linguísticos que previam melhorias na saúde. Assim, verificou-se que os indivíduos que beneficiavam mais da auto-revelação através da escrita eram os que usavam um maior o número de palavras emocionais positivas usadas, um número moderado de palavras emocionais negativas (Pennebaker & Seagal, 1999) e a utilização de um número significativo de palavraras cognitivas (causais e de insight) (Pennebaker, Mayne & Francis, 1997; Pennebaker, Mehl & Niederhoffer, 2003).

Em suma, existem indicadores linguísticos que estão associados a benefícios físicos e psicológicos (Pennebaker & Francis, 1996; Pennebaker, Mayne & Francis, 1997). Por um lado, a utilização simultânea de palavras emocionais positivas e negativas sugere um reconhecimento do problema, aliado a um sentido de optimismo, que ajudará o indivíduo no confronto e na resolução do problema, e que mostra ter um impacto bastante satisfatório na saúde (Pennebaker et al., 2003; Pennebaker & Seagal, 1999), o que não acontece nos indivíduos que apenas usam palavras emocionais negativas. Por outro lado, os indivíduos que não manifestaram um aumento na utilização de palavras

28 cognitivas parecem não beneficiar do paradigma de escrita expressiva (Pennebaker, 1993), pois essas palavras são indicadoras de que ocorreu processamento cognitivo sobre o evento (organização e restruturação relativamente ao acontecimento).