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4. Construction de mon projet d’enquête

4.3. Phase de test de ma méthodologie d’enquête

4.3.2. Questionnaires

O débito será a chave para respondermos ao questionamento da compreensão, do que se compreende no clamor. Já pudemos adiantar que o clamor de-clama nada em sentido rigoroso ao aclamado. Com isso, podemos, desde já, vislumbrar o nexo dessa afirmação com a estrutura da compreensão na medida em que em que o poder-ser, do qual o ser é a compreensão, não é uma dentre outras possibilidades determinadas mundanamente, mas consiste propriamente em nada. O que o clamor dá a compreender remete à estrutura da compreensão. Isso não é uma óbvia afirmação.

É claro que quando se fala em “dar algo a compreender” está-se em certo sentido em remissão à estrutura da compreensão, mas, de início e na maior parte das vezes, ao considerar o “dar algo a compreender” nos atemos muito mais ao “algo” do que ao “dar a compreender”. Isso porque a direção para a qual a compreensão está voltada no movimento de “dar algo a compreender” é justamente o algo a ser compreendido e não a compreensão, ela mesma, propriamente dita.

Como a disposição da angústia rompe as remissões a qualquer algo possível no mundo das ocupações, o estar-lançado do Dasein na disposição fundamental da angústia é projetado para seu poder-ser anterior a todo o algo81. O ser desse poder- ser é a compreensão, como já dissemos. Dessa maneira, da mesma forma que na angústia (disposição) há uma coincidência entre o ameaçador e o ameaçado e no clamor (discurso) coincidem o clamante e o aclamado, agora a própria compreensão é dada a compreender.

Insta questionar como se dá a dinâmica dessa compreensão de si mesmo do

Dasein, pois não se trata de um mero “dar a entender”. “Mais originário do que

qualquer saber a seu respeito é o ser e estar em débito.” (HEIDEGGER, 2005, p.74) A compreensão possui seus traços próprios, sobretudo o seu caráter prévio (do qual se desentranha a antecipação) e o projeto enquanto destinação.

A partir desses traços, sem perder de vista a compreensão enquanto poder-ser, é que se esclarecerá a noção de ser e estar em débito dado a compreender pelo clamor da consciência. “Caso seja possível uma compreensão da essência do débito então essa possibilidade já deve estar esboçada na pre-sença.” (HEIDEGGER, 2005, p.68)

Da mesma forma que as estruturas ontológico-existenciais na de-cadência ganham configurações próprias, compreensão/ambiguidade, disposição/curiosidade e discurso/falatório, no projeto existencial em sentido próprio essas estruturas também ganham seus modos próprios de ser: disposição/angústia e discurso/clamor. A compreensão em sentido próprio Heidegger denomina de querer-ter-consciência. “Compreender a aclamação significa: querer-ter-consciência.” (HEIDEGGER, 2005, p.76)

Querer-ter-consciência é assumir esse ser e estar em débito. Ao apresentar a ideia de débito, Heidegger aponta as limitações de uma interpretação imprópria da consciência, o que ele chama de “vulgar”. No entanto nos chama a atenção um traço

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Como afirmamos mais acima, é necessário compreender o ente a partir do nada e não o nada a partir do ente.

dessa compreensão vulgar da consciência: o ser e estar em débito nos remete a ideia de ter responsabilidade por algum fato ocorrido.

A interpretação impessoal da consciência, assim como de qualquer outro tema, sempre traz à tona considerações sobre seres simplesmente dados. Dessa maneira, a consciência vulgar pensa em responsabilidade sobre fatos, dados, acontecimentos já ocorridos no mundo. O Dasein seria o responsável por algum desses fatos, segundo a interpretação vulgar da consciência, como no caso de uma dívida monetária contraída pelo Dasein.

Esse exemplo da dívida nos chama a atenção em sentido especial. Isso não apenas porque a palavra utilizada por Heidegger para designar “débito” seja Shuld que comporta dentre outros significados, o sentido de culpa, débito e dívida. O exemplo mencionado vem à tona por sua inadequação em relação ao ser do Dasein. Trata-se de um modo de estar em débito em relação a algo simplesmente dado e não em relação ao ente de natureza ontológica do Dasein.

Esse exemplo já se nos mostrou inadequado em outra ocasião quando tratamos da noção inapropriada de pendência. Naquela ocasião afirmamos que ao ser do Dasein pertence uma constante inconclusão, pois, uma vez concluso totalmente o ser do

Dasein com o advento efetivo da morte (falecimento), este ente deixa de ser. Dessa

maneira, inferiu-se inadequadamente que ao ser do Dasein pertencia um ainda-não, um pendente.

Para elucidar em que consiste essa pendência, Heidegger nos ofereceu o exemplo de uma dívida a ser quitada. Isso se mostrou insuficiente em face da morte (possivelmente pendente para o Dasein, seu derradeiro ainda-não), pois o pendente da dívida, aquilo que ainda não se ajuntou ao montante já pago possui a mesma natureza (simplesmente dada) da quantia já paga, com a única diferença de ainda não estar à mão.

A morte em sentido próprio certamente não possui esse modo de ser, essa natureza ontológica, uma vez que só pode ser experimentada pelo Dasein enquanto

possibilidade. O ainda-não do Dasein não pode “ser quitado”, é insuperável. Isso agora fica muito mais claro na medida em que já identificamos a morte com o poder- ser, cujo ser é compreensão, do qual desentranhamos o conceito de ser-para-a-

morte enquanto a expressão da unidade entre existência e facticidade. Esse poder-

ser já está sempre projetado nessa ou naquela possibilidade, mas ele mesmo, enquanto tal, não se realiza, mantendo assim o Dasein enquanto o ente projetado para essa ou para aquela possibilidade.

Podemos, então, afirmar com muito mais clareza que a morte, ao contrário de ser algo pendente, é um impendente na medida em que não oferece nada a ser realizado. O débito fundamental do Dasein não consiste em um ainda não ser simplesmente dado. Ao contrário disso, o ser e estar em débito diz respeito ao modo próprio de ser do Dasein.

O Dasein sempre tem de vir a ser o que ele é. Ele tem de, a cada vez, assumir o seu poder-ser enquanto seu. Qual a relação, então, entre a morte e o débito? Será que o fato de o exemplo da dívida aparecer como impróprio para os dois casos é mera coincidência ou será que isso aponta para um nexo fundamental entre a morte e o ser e estar em débito?

O traço da responsabilidade trazido pela noção vulgar da consciência como débito nos é caro aqui, pois o clamor clama o Dasein a assumir seu próprio ser. Há uma responsabilidade a ser assumida. Ser responsável diz, em outras palavras ser fundamento. Mas como o Dasein, que fundamentalmente é um poder-ser capaz de propiciar aberturas, pode ser fundamento? Como pode esse poder-ser, que em sentido rigoroso é nada, ser fundamento?

O débito fundamental do Dasein não pode ser pensado, como já afirmamos, em relação a algo que aconteceu. Nesse sentido, deve-se pensar o ser e estar em débito como um estar-lançado que se projeta para possibilidades. O fato de ser um ente já-lançado projetado para possibilidades deve ser assumido a cada vez. Esse projetar-se para possibilidades, traço constitutivo da compreensão, pertence ao

poder-ser propiciador de aberturas. Esse poder-ser, enquanto morte que, por sua vez, é insubstituível, deve ser assumido, a cada vez, pelo Dasein.

Ser projetado nessa ou naquela possibilidade aberta pelo mundo constitui o projeto existencial do Dasein. Este ente, pelo clamor da consciência, sintonizado pela disposição fundamental da angústia, é clamado a assumir esse poder-ser como seu. O ente clamado, por sua vez responde ao clamor em uma re-clamação pro-

clamadora82 (para adiante, de maneira porvindoura, projetando-se). Dessa forma, não há que se pensar o débito como a responsabilização por um fato já ocorrido, mas, sobretudo, como a assunção de um porvir, indeterminado.

Ter de assumir seu poder-ser a cada vez nada tem a ver com pagar uma dívida. Isso porque o exemplo traz um ente de natureza ontológica (montante de dinheiro a ser pago) distinta do Dasein. O que é dado a compreender, enquanto ser e estar em débito, é o poder-ser propiciador de aberturas que o Dasein, enquanto ente lançado, sempre já foi. Ora, mas já revelamos este poder-ser como compreensão.

Na medida em que o ser e estar em débito é dado à compreensão, a própria compreensão se desentranha para o Dasein. Da mesma forma que no clamor da consciência clamante e aclamado coincidem, assim como ameaçador e ameaçado na angústia se identificam, o próprio compreender é trazido à compreensão no ser e estar em débito proclamado no clamor da consciência.

O exemplo da dívida retorna agora em coincidência com a pendência impropriamente interpretada em relação à morte, pois assumir o seu próprio ser a cada vez enquanto seu nada mais é do que assumir a sua própria morte. Em outras palavras, projetar-se para esse poder-ser propiciador de aberturas, anterior a toda possibilidade de empenho aberta pelo mundo das ocupações, ou seja, preceder-a- si-mesmo, é antecipar-se.

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Lembramos aqui que, no capítulo anterior, o discurso se mostrou sempre como um pronunciamento, um pronunciar do próprio Dasein. Esse traço foi relacionado ao projeto da compreensão. Agora fica evidenciado o projeto que pronuncia o Dasein (compreensão e discurso) na resposta do Dasein ao clamor da consciência como uma re-clamação pro-clamadora.

A antecipação, por sua vez, é o modo próprio do ser-para-a-morte, como já sustentamos. Dessa forma, assumir o ser e estar em débito diz o mesmo que antecipar-se, isto é, projetar-se para o seu poder-ser anterior a toda a possibilidade aberta mundanamente, ou seja, ser-para-a-morte em sentido próprio. A partir da antecipação identificada com o ser e estar em débito e simultaneamente com o modo próprio de lidar com a morte, abrimos caminho para a relação entre morte e de-cisão.