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Quentin

Dans le document Travail de Fin d Etude (Page 44-79)

5.2 Personnelle

5.2.2 Quentin

No prefácio de Constructing Cultures: Essays on Literary Translation, Susan Bassnett e André Lefevere (1998) esboçam uma evolução dos estudos de tradução nos 20 anos anteriores, sustentando que estes assumiram uma viragem cultural por entenderem que a tradução não pode ser dissociada do seu contexto histórico e cultural, ou seja, que “as traduções nunca são produzidas num vácuo, e que tampouco são recebidas num vácuo”28 [CITATION Lef98 \p 3 \t \l 2070 ].

Neste período assistiu-se à dessacralização do original e à emergência de um tradutor que já não procura uma equivalência ideal, essencialmente linguística, mas antes um “grau” de equivalência específico para veicular uma mensagem a um público específico, com a aplicação de estratégias relacionadas com o tipo e a função do texto. Esta evolução foi acompanhada do alargamento do âmbito da disciplina, tendo surgido vários subcampos de ação recíproca. Mas o grande passo em frente será “estudar a tradução, não apenas para a formação de tradutores, mas precisamente para estudar a interação cultural”29 (ibidem, p. 6). A tradução participa na construção das culturas ao

27 (…) the ideal combination of illocutionary strategies, the – admittedly rather shadowy, but nonetheless effective – concept that the text could have been better written or rewritten.

28 “(…) that translations are never produced in a vacuum, and that they are also never produced in a vacuum.”

permitir a transferência de textos que passam a fazer parte de e a funcionar noutra cultura diferente. No entanto, a relação que se estabelece entre as culturas não é de igualdade, mas antes de domínio, submissão ou resistência; por exemplo, o reportório traduzido está determinado pelo prestígio e pelo poder relativo de cada cultura. Esta etapa dos estudos da tradução caracteriza-se por uma investigação que sublinha as imparidades de poder entre as culturas hegemónicas e as subalternas, bem como a preservação da alteridade na tradução e na transposição para uma cultura central.

Os estudos continuam a aprofundar a ligação entre a atividade tradutora e a ideologia, pondo de manifesto a sua complexidade no contexto intercultural com destaque para as questões da visibilidade do tradutor, a problemática pós-colonial ou a perspetiva feminista.

Venuti (1995, 1998) refere que a invisibilidade do tradutor está relacionada com a valorização do texto original e do seu autor, segundo a visão tradicional de tradução (esta deve ser fluente e transparente, funcionando como original) e com a falta de reconhecimento da figura do tradutor, exemplificando com a recusa ao tradutor de direitos de autor, apesar de ser uma atividade criativa. Neste sentido, o ato tradutor acaba por ser autodestrutivo. A invisibilidade resulta na perpetuação das barreiras culturais e da hegemonia da língua inglesa; para contrariar estes efeitos, o académico sugere a resistência por meio de uma estratégia estrangeirizante que valorize a alteridade entre uma tradução e o original.

Surgem também as correntes pós-coloniais que pretendem determinar o papel da tradução não apenas como instrumento de colonização, mas também como de resistência e sublevação contra o poder colonial. Robinson (1997)30 define o pós-

colonialismo

“como um estado da cultura ou dos estudos culturais emergente da experiência colonial e das suas consequências; que trata de questões de identidade de grupo tal e 30 Robinson, D. (1997), Translation and Empire, Manchester, St. Jerome.

como se manifestam na língua, na cultura, na lei, na educação, na política; etc.; e que se mostra favorável à diversidade de todo o tipo”31 (citado em Albir, 2001, p.

624).

A tradução, vista anteriormente como subjugada a um original superior, apresenta-se como a metáfora perfeita no contexto pós-colonial. Os tradutores e teóricos pós-coloniais encontram na atividade tradutora e na sua herança cultural híbrida entre o colonizado e o colonizador uma forma de resistência e de transformação do poder colonial ou pós-colonial, pelo que

os tradutores pós-coloniais procuram regenerar a tradução e usá-la como uma estratégia de resistência que perturbe e substitua a construção de imagens das culturas não ocidentais em vez de as reinterpretar usando conceitos e linguagem tradicionais e normalizados32[CITATION Edw01 \p 176 \l 2070 ].

A perspetiva feminista também contribuiu para esta linha ideológica do estudo da tradução. No seguimento dos estudos feministas da linguagem, que destacam os aspetos sexistas e discriminatórios da linguagem patriarcal dominante, surgem também na tradução os estudos de género. A relação entre o autor e o tradutor como poder é estudada através de metáforas que descrevem o estatuto reprodutor (inferior) da tradução, tal como a subalternidade da mulher na sociedade, no casamento ou no sexo, em oposição à criatividade, originalidade e autoridade da figura masculina, detentora da paternidade, o autor. Lori Chamberlain (2004) sustenta que esta oposição foi usada especificamente “para marcar a distinção entre escrever e traduzir – ou seja, marcando uma como original e «masculina,» a outra como sucedânea e «feminina»”33[CITATION

Cha04 \p 307 \n \y \t \l 2070 ]. Para reivindicar precisamente este direito à 31 “(…) poscolonialismo como un estado cultural o de los estudios culturales que surge a raíz de la experiencia del colonialismo y de sus consecuencias; el poscolonialismo se preocupa por los problemas de identidad de un grupo social tal y como éstos se reflejan en la lengua, la cultura, las leyes, la educación, la política, etc., y se muestra favorable a la diversidad de todo tipo (…)”

32 (…) postcolonial translators are seeking to reclaim translation and use as a strategy of resistance, one that disturbs and displaces the construction of images of non-Western cultures rather than reinterpret them using traditional, normalized and language.

33 “(…) to mark the distinction between writing and translating – marking, that is, the one to be original and «masculine,» the other to be derivative and «feminine.»

paternalidade (a originalidade), em que a tradução se equipara à escrita, é necessário “torná-la uma atividade criativa, em vez de meramente re-criativa”34 (ibidem, p. 315).

As estratégias tradutoras feministas passam pela complementação para expressar todos os significados do original e pelo sequestro, com a apropriação feminista do texto através de técnicas como a supressão do sexismo, a neologia, a neutralidade de género ou o destaque com marcas tipográficas.

2.2. Tradução teatral

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