Numa espécie de súmula final a todo o conjunto de dados recolhidos, e relacionados com os Inquéritos por Questionário administrados, é indispensável reconhecer desde logo que o trabalho desenvolvido recebeu um número relativamente reduzido de respostas. Apesar disso, deve salientar-se que tais respostas se nos afiguram bem representativas da realidade do mercado de trabalho da tradução para edição em Portugal.
Por um lado, porque confirmam dados empíricos conhecidos do autor deste estudo e de muitos outros tradutores, percepções tantas vezes divulgadas em privado ou em fóruns de discussão públicos e comuns à maioria dos tradutores portugueses. Por outro lado, porque os dados que revelam são consistentes entre si, demonstrando posições e reacções conjuntas, que denunciam claramente atitudes comuns às empresas contactadas e não comportamentos isolados ou desviantes.
Por tudo isso, e apesar de não ter sido uma amostra previamente seleccionada, entende-se que o conjunto de editoras que respondeu aos Inquéritos caracteriza adequadamente a situação actual, em Portugal, da tradução e do trabalho dos tradutores para as casas editoras. Assim, as conclusões que se apresentam de seguida poderão ser tidas como representativas dos procedimentos e comportamentos habituais no mundo da edição em Portugal e recuperam os resultados apresentados.
Tornou-se evidente, e ficou claramente comprovada através das respostas obtidas, a noção de que as casas editoras portuguesas estão maioritariamente sediadas em Lisboa, onde albergam os sectores editoriais que coordenam o trabalho de tradução. Os responsáveis editoriais, que foram os principais responsáveis pelo preenchimento dos Inquéritos, constituem um universo de respondentes com feições de alguma homogeneidade em termos etários (entre os 30 e os 50 anos) e ainda no que respeita à sua formação (dominantemente na área das Humanidades, sendo detentores de licenciaturas ou mesmo de graus académicos mais elevados).
Desta caracterização será possível inferir que alguns elementos, nomeadamente os referentes à idade e ao sexo dos responsáveis, poderão ser potenciais determinantes de padrões de gosto e de expectativas geracionalmente definidas, reflectindo-se efectivamente
no que se publica em determinado período. Esta dedução carece, contudo, da confirmação que o estudo de caso apresentado no âmbito desta investigação procurou indagar.
Sem comprovação, face à ausência de inúmeras respostas, fica no entanto a percepção de que grande parte das casas editoras portuguesas exerce actividades variadas também no sector da comercialização e distribuição de livros e não apenas na sua elaboração e produção. Igualmente perceptível, e passível de comprovação nas listas de empresas e respectivas moradas, é a ideia de que muitas casas editoras adoptam designações comerciais diversas – as chamadas chancelas – de modo a reflectirem interesses e temáticas variegados, ao abrigo das quais publicam títulos diferenciados.
Já não é, contudo, tão evidente a multiplicação das equipas de coordenação editorial por chancelas ou designações diferentes. Com efeito, parecem ser exactamente as mesmas pessoas que se dedicam à concepção e produção de tais obras para o público leitor, ainda que sob marcas diferentes. Ou seja, uma marca comercial diferente não significa necessariamente um tratamento editorial diferente para um livro, com tudo o que isso implicaria de alterações de regras e critérios adoptados e/ou impostos. Ainda assim, neste caso tal conclusão apenas pode ser deduzida por conhecimentos empíricos, já que não houve muitas respostas aos Inquéritos sobre os pedidos de identificação das diversas designações comerciais adoptadas pelas casas editoras.
Por outro lado, ficou confirmado que a área da edição em Portugal é maioritariamente composta por casas editoras de pequena dimensão, que têm um número de colaboradores inferior a dez pessoas. Além disso, em média, nos respectivos departamentos editoriais exercem funções menos de seis pessoas. Acresce a tudo isto que, normalmente e segundo os dados fornecidos pelas casas editoras portuguesas, estas publicam menos de quarenta títulos por ano, sendo menos de dez os títulos traduzidos a partir de outras línguas. No seu conjunto, estes dados demonstram a diminuta dimensão do mercado editorial português e, como consequência directa, a ainda mais reduzida importância da actividade da tradução para edição em Portugal.
Talvez por isso, a principal aposta das casas editoras, quando pretendem contratar um tradutor, assente sobretudo na experiência comprovada que esperam desse profissional. De facto, preferencialmente as casas editoras seleccionam alguém que possua habilitações académicas obtidas internacionalmente, e com incidência nas vertentes técnicas mais especializadas, sendo algo menosprezada a eventual formação literária. Além disso, é muito importante para as casas editoras que as referências fornecidas sobre o candidato a tradutor sejam credíveis e provenientes de pares reconhecidos por elas próprias. É de tal
modo notório esse facto que a realização de trabalhos anteriores para outras casas editoras, ou mesmo a especialização profissional na área da obra a publicar são apontadas como mais-valias importantes.
Por outro lado, entendem as casas editoras que a remuneração que propõem ao tradutor deve ser aceite por este, devendo mesmo salientar-se a importância decisiva deste factor para a decisão tomada pelo editor na contratação do tradutor. Para que a designação do tradutor seja confirmada, é ainda relevante que este profissional demonstre bons conhecimentos sobre o autor a traduzir. Outros factores, de cariz mais prático, como os prazos de entrega ou a formatação gráfica final da obra traduzida, não se mostram tão fundamentais para as casas editoras, ainda que sejam devidamente tidos em consideração na fase inicial de selecção do candidato.
Na sequência da definição da encomenda de tradução, e em relação aos compromissos contratuais entre casas editoras e tradutores, registou-se que tais contratos têm habitualmente um carácter precário e temporalmente bem definido, estando ligados simplesmente à encomenda de tradução de uma obra. É normalmente um contrato regulado por valores fixos associados ao número de caracteres traduzidos e, em regra, é pago até 45 dias após a entrega do trabalho acabado. Verifica-se, contudo, que há inúmeras situações em que a regularidade da prestação do serviço e a confiança estabelecida entre tradutor e casa editora são de tal ordem que nem sequer são formalizados em contrato os modelos de colaboração mútua e as recompensas estabelecidas.
Já no que se refere à formação ministrada aos tradutores contratados pelas casas editoras, é de realçar a falta de acções de formação contínua, ou até mesmo temporária, que permitam a tais profissionais uma integração mais rápida e adequada nas regras de trabalho de cada casa editora, que são necessariamente diferentes. Apesar de assentarem na confiança que depositam na experiência profissional anterior dos candidatos e, portanto, no trabalho que esses tradutores já tiverem executado, as casas editoras apenas parecem demonstrar alguma consideração pela necessidade de enquadramento dos candidatos nas regras do “Livro de Estilo” da própria empresa.
Além disso, como já se escreveu anteriormente, quando tal experiência é inexistente não se compreende muito bem de que forma poderia ser devidamente complementada. Soma-se a isso que a consideração demonstrada pela cada editora em relação ao tradutor parece ditar que este, quando muito, proceda à simples leitura e cumprimento das regras de estilo da casa editora, não implicando um acompanhamento e instrução próxima do tradutor, proporcionada pela casa editora. Parece ser igualmente
claro que, caso existisse um processo de trabalho participado, com recurso a uma colaboração, eventualmente formativa, entre tradutor e casa editora, haveria mais hipóteses de alcançar melhores resultados.
Aliás, quando questionadas sobre a possibilidade de ministrarem formação específica, as casas editoras realçam a grande importância de um eventual investimento em formação para os tradutores sobre revisão de texto e edição. Este é um sinal evidente de como são significativas as competências que o tradutor deveria possuir sobre essas matérias. Realce-se, contudo, que este tipo de formação não é facilmente adquirível nas instituições de ensino e ainda menos no mercado de trabalho. Na verdade, nem sequer é objecto de uma oferta conhecida e publicamente divulgada que permita a sua obtenção por parte dos candidatos a tradutores. Com efeito, habitualmente estas situações de formação especializada em revisão de texto e edição são ministradas por profissionais liberais da área, e sem um vínculo directo a casas editoras.
Na verdade, as casas editoras reconhecem deste modo a importância das competências do tradutor em matérias cuja formação não está disponível no mercado de ensino e que apenas poderia ser ministrada por elas próprias. Acresce ainda, por outro lado, que um grande número de casas editoras assinala a falta de qualidade da formação em tradução dos profissionais desta área, assumindo mesmo que gostariam de ministrar tal formação aos candidatos a tradutores. É um paradoxo difícil de compreender: as casas editoras não ministram formação na sua própria área de intervenção (edição), mas gostariam de a ministrar numa outra (tradução).
É comum os tradutores profissionais portugueses confrontarem-se com preconceitos, por parte das editoras, em relação à sua formação e ao rigor do seu exercício profissional. São correntes as noções de que os tradutores portugueses não têm conhecimentos suficientes de línguas estrangeiras, de língua portuguesa e das áreas técnico-literárias em que trabalham. Mais, afirmam as casas editoras que é frequente os tradutores não cumprirem os contratos e demonstrarem até desrespeito pelas regras acordadas. Ora, se estas noções percorrem habitualmente os corredores das casas editoras, deixando no ar a ideia de que seria necessária melhor formação para os tradutores, tal como aliás fica expresso neste estudo com a informação fornecida a propósito da formação específica em tradução, talvez fosse importante o contributo fornecido nessa área por tais casas editoras.
Na verdade, esta situação deveria concorrer para um trabalho conjunto entre casas editoras e instituições de ensino superior que permitisse superar tais lacunas e proporcionar
melhor formação aos tradutores. Talvez as casas editoras devessem apoiar ou ligar-se a instituições de ensino superior que promovessem a disseminação desses conhecimentos pelos principais interessados, cativando os candidatos a tradutores com a possibilidade de aquisição de conhecimentos nas áreas de tradução adequadas às suas próprias necessidades internas. Talvez fosse igualmente importante que as casas editoras proporcionassem condições aos tradutores que contratam, para que a obtenção de conhecimentos de tradução por parte destes profissionais servisse objectivos mútuos de enriquecimento de uma cultura geral ou especializada de que ambos, casas editoras e tradutores, tanto carecem. No fundo, a perspectiva sobre a orientação formativa deveria guiar-se por uma especialização nas áreas de interesse editorial semelhante à indicada por Daniel Gouadec e que já é praticada em França em algumas áreas (2002: 381-409).
Por outro lado, quanto às informações fornecidas sobre a obra a traduzir, ou ainda sobre o autor da obra, é de realçar que a as casas editoras afirmam dar a conhecer tais dados aos tradutores no momento em que lhes fazem a encomenda da tradução. Contraditório parece ser o facto de as casas editoras assinalarem que não solicitam aos tradutores o cumprimento de regras gráficas ou de apresentação do texto traduzido, por se encarregarem elas próprias desse trabalho, quando anteriormente haviam afirmado que na eventualidade de ministrarem formação a fariam incidir precisamente sobre tais aspectos.
Entretanto, verificou-se que, na grande maioria das casas editoras portuguesas, vigoram procedimentos internos de revisão dos textos traduzidos. Normalmente, em consequência do trabalho de revisão efectuado na casa editora, o tradutor recebe as sugestões que lhe são apresentadas e procede à correcção e melhoria do trabalho executado. Algumas excepções, ainda que poucas, atribuem todas as tarefas de tradução e revisão ao próprio tradutor. Nestes casos, pode questionar-se todo o processo que permite a uma obra cuja edição original terá sido objecto de cuidadosa leitura e releitura, mas que, numa língua de chegada diferente apenas é submetida à leitura, apresentação e verificação final por parte do tradutor.
Já quanto à manutenção e continuidade do tradutor na sua colaboração com a casa editora ela poderá estar, e está, muito frequentemente associada à execução de projectos de tradução de um autor que já anteriormente terá traduzido. Contudo, há uma condição que poderá impedir que isso se verifique: uma avaliação negativa por parte da casa editora sobre o trabalho anteriormente recebido. Mas também é evidente que a eventual indisponibilidade do próprio tradutor poderá contribuir para que lhe seja impossível fazer uma nova tradução de um autor que tão bem deveria conhecer. Razões outras, como a
proposta por parte do tradutor de prazos inadequados ou de condições remuneratórias/contratuais incomportáveis para a casa editora, são ainda outros factores que poderão impossibilitar a realização da tradução de um autor já anteriormente traduzido por determinado tradutor.