Neste tópico indico as veredas para encaixar as práticas individuas, que são fruto das percepções, a um conjunto de práticas que define configurações sociais. Dentro dessas configurações são estabelecidos habitus, que, por sua vez, implicam na agência. Ou seja,
habitus são incorporados de acordo com as solicitações sociais experienciadas pelo indivíduo.
Isso é muito próximo do que foi visto acima com o que Merleau-Ponty advogou a partir do conceito de recalque. Contudo, a compreensão do conceito de habitus é de relevância para as análises pretendidas aqui para chegar ao entendimento das configurações sociais, conceito que foi desenvolvido por Norbert Elias.
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Antes de chegar ao que foi elaborado por Elias é pertinente esclarecer a escolha deste autor em detrimento de Bourdieu. Segundo a crítica de Charlot (2000), o habitus que Bourdieu cunhou é um tipo de “psiquismo de posição”, é a interiorização do mundo social constituído na e pela posição social, portanto, sempre ancorado na origem do grupo social ao qual o indivíduo pertence. Já para Elias, temos um campo do possível que direciona a forma de ser e de agir dos indivíduos, que, por sua vez, tem uma constituição flexível por depender da relação com outras pessoas (TAVARES, 2009) e dos significados objetivos atribuídos aos elementos que compõem a configuração social. Seguindo essa constatação, concordo com Tavares (2009) quando pontua que a elaboração de Elias permite “explicar as diferenças individuais, os desvios ou admitir até mesmo as variações que podem sobreviver do acaso, do imprevisível e não-planejado” (TAVARES, 2009: 31). Porque, se o habitus “molda as estruturas mentais e impõe princípios de visão e de divisão comuns” (BOURDIEU, 2004: 105), que tipo de orientação crítica poderá ter o indivíduos diante da sociedade que o socializou para reproduzi-la? (TAVARES, 2009: 31). Sendo assim, como explicar as tensões e conflitos que têm por base as diferenças geracionais nesse esquema de reprodução social? (TAVARES, 2009:31).
A partir da “teoria da civilização” (1934), Elias buscou perceber como as mudanças nas estruturas emocionais humanas estão relacionadas com as mudanças estrutural da sociedade. Conforme apresentou o autor, essas mudanças devem ser observadas como processos de evoluções particulares, pois os processos de desenvolvimentos fazem parte de uma configuração determinada por uma interdependência inerente ao processo civilizatório. Isto porque as estruturas da personalidade e da sociedade evoluem de maneira inter- relacionada (ELIAS, 1994a).
A análise processual pretendida por Elias que define a teoria da civilização foi iniciada com obra o Processo Civilizador (1939/1994). Almejava uma compreensão das conformações sociais designando a importância de contextualizar as etapas do processo. De acordo com o autor, é uma busca pela gênese, palas particularidades identificadas no processo histórico de desenvolvimento de cada configuração (ELIAS, 1994a) e indicam as práticas que compreendem a formação dos habitus.
Seguindo isso, postula-se que na teoria de Elias encontramos uma articulação entre «sociogênese» dos processos sociais e «psicogênese» dos processos individuais, ou seja, as definições particulares de um estão inter-relacionadas com as definições particulares do outro. Em outras palavras, o mesmo aparato dinâmico que produz resultados estruturais na sociedade produz resultados comportamentais no humano (TAVARES, 2009: 26).
Para tanto, uma preocupação inicial é reelaborar o conceito de desenvolvimento, já que “uma metodologia voltada paras ligações factuais exige o abandono das ideias metafísicas que
vinculam o conceito de desenvolvimento à noção ou de uma necessidade mecânica ou de uma finalidade teleológica” (ELIAS, 1994a: 216). Neste sentido Elias aponta a ineficiências das ciências humanas em visualizar as verdadeiras causa do desenvolvimento das formações sociais, estando, necessariamente, atrelado às alterações na estrutura psíquica humanas.
Ao argumentar que o processo civilizador é a direção na qual se efetua a mudança de equilíbrio entre pulsões e o autocontrole (1994a), o autor aponta como o controle das emoções individuais é um elemento estruturante que permitiu alcançar a civilidade. Não compreende o autocontrole como um estágio de desenvolvimento, mas como uma estrutura desenvolvida dentro de um processo de mudanças (1994a).
Este argumento serve para demonstra o principal ponto de discordância entre este autor e outras correntes teóricas que percebem o ser humano a parti de uma visão estática. Estas teorias não perceberiam a relação dinâmica existente entre indivíduo e sociedade, o que mais tarde (1994b) Elias vai chamar da balança Eu-Nós.
Em síntese, poderíamos dizer que para Elias é indissociável o desenvolvimento da personalidade sem a sociedade. É por isto que o controle emocional deve ser compreendido como uma estrutura desenvolvida dentro de um processo de mudança. Neste, se permite analisar, nos diferentes estágios de desenvolvimento, quais as condições que culminaram em tais estruturas emocionais do ser humano. Aqui encontramos um ponto central na teoria de Elias que diz respeito ao entendimento da sociedade não em um momento estático, retirado de um conjunto de fatores. No caso o que se processa é uma sociologia de estados, como fizera Parsons. Contrário ao que buscava o nosso autor alemão, pois se assim for feito o que se tem é uma verdadeira ficção da realidade, posto que um instante jamais será representativo do conjunto de fatores presente em um longo processo de mudança. Sendo assim, Elias extrai os elementos factuais que seriam aqueles equivalentes aos acontecimentos basilares, como é o caso do controle emocional, que Elias associa centralidade da violência vivida na passagem da sociedade de corte para a posterior (1994a).
É valido esclarecer que para Elias (1994a), a civilização é a maneira como ela compreende o momento em que pessoas compartilham valores e exercem um autocontrole guiado pela sua situação de sujeito contextualizado. Se assim não forem feitas as observações sobre determinada configuração social, não se conceberá as pessoas como relativa e interdependente formando configurações mutáveis entre si, pois, as nossas primeiras percepções do mundo não são auto-evidentes, mas sim definida pelas
sociedades particulares, que surgem em conjunto com certos tipos de interdependência, de laços sociais entre pessoas – em suma, que é uma peculiaridade estrutural de um estágio específico do desenvolvimento da civilização, correspondendo a um estágio específico de diferenciação e individualização de grupos humanos (ELIAS, 1994a: 238).
Essa indicação de Elias se torna bastante relevante para entender o contexto da pesquisa aqui analisa. Tomando como referência o conceito de configuração, como visto até aqui, a abordagem de Elias (1994a) aponta para a interdependência entre indivíduo e sociedade, de tal forma que tanto a sociedade quando o indivíduo podem ser tomados como configuração. Configuração, por tanto, é uma estrutura de pessoas mutuamente orientadas e dependentes que passam pelo processo de adequação entre o comportamento individual e as estruturas sociais. O contexto que apresento para análise passa por um intenso processo de mudanças, cujo cotidiano tem elevado o nível de complexidade exigindo dos indivíduos ações que podem estar criando novos padrões de sociabilidade. E neste conceito de Elias vejo um caminho possível para compreender a rede de dependência recíproca que fazem com que cada ação individual dependa de toda uma série de outras, que modificam, por seu turno, a própria figura do jogo social. E isso, de acordo com Chartier (1990), é atribuído como papel central para Elias.
Na obra A Sociedade dos Indivíduos (1994b) o nosso autor irá trabalhar os conceitos de Indivíduo e Sociedade mostrando que estes nem sempre existiram, e atualmente podem ser considerados opostos. Elias (1994b) fala de uma “balança nós-eu”. Essa distinção serve justamente para trabalhar a ideia decorrente das mudanças processuais e, neste sentido, os conceitos de indivíduo e sociedade vão tomando outras formas e estabelecendo outras relações. Na Grécia Antiga, por exemplo, não se podia nem mesmo falar em indivíduo. Somente a partir do século XVIII é que os conceitos de indivíduo e sociedade vão tomando formas distintas e transformando-se em opostos.
Nas sociedades em que o indivíduo está sob a guarda do Estado, a balança “Nós-Eu” tende mais para o Eu (1994b), sendo este, portanto, o modelo do contexto aqui analisado. Como contraste, Elias toma as situações em que os indivíduos tinham que se juntar em grupos para se proteger dos riscos correntes. O problema indivíduo-sociedade deve, pois, ser abordado por uma teoria social do processo, em contra ponto à visão das ciências naturais, por exemplo, onde prevalece o factual, o “aqui e agora”.
Isso mostra como os conceitos de indivíduo e de sociedade estão ligados um ao outro. É por aí que se assenta aquela reflexão vista a cima sobre a inter-relação de que cada pessoa singular, por mais diferente que seja de todos os demais, tem uma composição específica que compartilha com os outros membros de sua sociedade (1994a; 1994b). E, de acordo com o nosso autor (1994b), esse é o habitus: “a composição social dos indivíduos, como que constitui o solo de que brotam as características pessoais mediante as quais um indivíduo difere dos outros membros da sociedade” (idem: 150).
Esse conceito de habitus para Elias permite introduzir os fenômenos sociais no campo das investigações cientificas. Isso fica claro com a questão ilustrativa do caráter nacional, que para ele trata-se de um problema de habitus por excelência. Este conceito traz novos níveis de investigação, como na discussão sobre identidade. Elias (1994b) mostra que a identidade Nós é indissociável da identidade Eu. Um sujeito é extremamente individual por ser único. Ao mesmo tempo, está imerso numa sociedade e leva consigo seus traços. A identidade de um indivíduo adulto não é a mesma de quando este era criança. Contudo, mesmo com a extrema diferença entre as duas fases da vida, esse indivíduo é o mesmo e guarda uma continuidade. Neste sentido, diz Elias que “a constituição que cada um traz consigo ao mundo, e particularmente a constituição de suas funções psíquica, é maleável” e está em consonância com a “natureza das relações entre ela e as outras pessoas” (Elias, 1994b: 27). É por isso que Tavares (2009) fala da existência de uma noção de campo de possibilidade na teoria de Elias. Ao individuo, além do processo natural do desenvolvimento psíquico singular de maturidade que o faz deixar a infância, é eminente a interdependência entre essa «psicogênese» e a «sociogênese». Ambos são processo que definem a origem (gênese) dos sentidos atribuídos aos controles individuais (psicogênese) na relação com modelos de ideias e de comportamentos (sociogênese).
A compreensão do processo de adequação entre o comportamento dos indivíduos e as estruturas sociais, apresentado por Elias na inter-relação entre configurações historicamente localizadas e habitus desenvolvidos nos modelos desses contextos, permite explorar:
a ligação entre os desenvolvimentos ‘macro-sociais’ na estrutura da sociedade versus os desenvolvimentos ‘micro-sociais’ das experiências pessoais, num nível mais fenomenológico, o nível das emoções, e o que chamamos agora de nível do ‘habitus’. (Mennel, entrevista a Gebara, 2005:40 apud Tavares, 2009: 27).
Ainda de acordo com Tavares (2009), Elias fala de um lugar privilegiado desse entrelaçamento micro-macro. Tavares indica como a partir de Elias é possível examinar mudanças em nível macro numa sociedade a partir da trajetória individual. A sugestão de Tavares (2009) a respeito dessas possibilidades da teoria de Elias é bastante inspiradora para as análises pretendidas neste trabalho.
Tavares (2009) toma como base os textos Mozart, sociologia de um gênio e A
peregrinação de Watteau à Ilha do Amor de Elias para pensar como os indivíduos refletem,
dentro do seu campo de possibilidades, “os dilemas de uma determinada época em que o novo e o velho(...) co-existiam em tensão, ou seja, em momentos determinados do processo de mudanças sociais mais profundos em que a tradição resite à inovação” (Tavares, 2009:27).
É interessante observar que nesses textos Elias está interessado em perceber como o individuo reflete tanto o passado como a novidade no momento de transição de uma ordem
social para outra. Esse espaço temporal de transição é definido, também, pela tensão entre a nova forma e a velha forma, já que ambas ainda estão presente (Korte, 2005 apud Tavares, 2009). Seguindo as ilustrações de Mozart e Watteau, dois indivíduos que tinham seus valores representados por grupos outsiders e, por isso, minorias anômicas, mas que estavam vivendo as tensões da disputa do poder entre a corte estabelecida e a burguesia outsider 20.
Essas colocações se tornaram relevantes na medida em que tentamos compreender porque determinados indivíduos fazem escolhas específicas, ou até mesmo conseguem realizar projetos cujo outras pessoas na mesma situação na conseguiram. De acordo com Elias (1994a), é na relação entre a pessoa e a sociedade que se deve buscar essa resposta, pois é essa relação que vai definir o campo de possibilidade dentro do horizonte de percepção de cada individuo.