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Post-combustion avec des particules d’aluminium de dimensions variables : Cas 3 et 4

Dans le document The DART-Europe E-theses Portal (Page 178-182)

Dentre as situações de dificuldade na relação com o outro, é possível salientar: i) a quebra de vínculos, ressentimentos, ausência de reconhecimento, e ii) situações de ‘fofoca’,91 inveja e competição.

Na primeira subcategoria, encontram-se os depoimentos que expressaram queixas, quebra de vínculos por alguma briga, traição, decepção, falta de reconhecimento e ressentimento. A mágoa declarada por uma moradora de Vila Independência, devido à traição de uma amiga, revela o ressentimento e a descrença que passou a ter para com as pessoas. Esse exemplo é emblemático do caráter dinâmico e da complexidade do sistema da dádiva, o qual pode levar à mudança de uma relação pautada na amizade, na ajuda mútua e na confiança para a desconfiança, o ressentimento e a traição.

[...] uma que era minha amiga, vivia dentro da minha casa, roubou meu marido, nas minhas costas. Depois disso aí, a amizade pra mim... [...] era assim, saía, deixava a filha dela comigo, eu ia buscar a filha dela no colégio. Eu considerava ela minha amiga porque tudo o que acontecia com ela dentro da casa dela ela me contava, por isso eu confiava nela. Depois disso eu confio na minha mãe, que Deus levou. Nem as minhas irmã [...] eu fui traída dentro da minha casa... [...] Ela chegava pra mim e dizia, olha eu digo a você coisas que eu não digo a minha própria mãe, eu acreditava nela porque eu era amiga dela. Mas depois dessa eu não confio mais em ninguém. (F, VI)? Uma outra menciona a quebra do vínculo com uma amiga: ajudou a amiga quando estava operada, mas, quando precisou da amiga, não pôde contar com ela. Esse é um clássico exemplo de dádiva, em que o vínculo está pautado na ajuda mútua: conta-se com o outro. Foi gerada uma expectativa de retribuição e, quando ela não ocorreu, a relação ficou abalada.

Ajudei já. Muitos anos já. Ela se operou e não tinha ninguém para cuidar dela [...] Aí eu cuidei dela, tudinho, mas a hora que eu mais precisei dela ela não me deu a mão. [...] Porque eu estava desempregada, cheguei pra ela, depois que ela ficou boa, ela trabalhando, falei pra ela, [...] arrumar emprego pra mim, e ela me deu as costas. Ela é muito fria pra mim. [...] Não, fiquei (magoada) não. Hoje eu falo com ela e tudo. (F, VI)

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Associa-se aqui a fofoca à preocupação com a vida alheia, à disseminação de comentários maldosos, com ou sem a intenção de provocar discórdia ou desagregação.

Um outro sentimento que pode inibir a ocorrência de dádivas está associado à falta de respeito, à ausência de reconhecimento de direitos e ao abuso de poder por parte das instituições, como está ilustrado no depoimento de uma moradora de Abençoada por Deus em relação ao comportamento da polícia: “Violência, a polícia não respeita, chega, não quer saber quem é certo, quem é errado. Às vezes entra, parece que tá lá na Rocinha, no Rio de Janeiro.” (Joana, AB)

Os jovens e as crianças não se sentem reconhecidos enquanto categoria pelos adultos do conjunto e expressam o sentimento de não haver lugar para eles. À discriminação no bairro soma-se a discriminação interna no conjunto. Para os dois grupos, a falta de equipamentos de lazer, como uma quadra, é um exemplo de que não têm vez. Seus interesses não são respeitados. Esse sentimento de discriminação contribui para a sensação de não pertencimento ao lugar, de não se sentirem acolhidos ao chegarem ao bairro. Sentem-se rejeitados na nova moradia. “Porque não gostavam da gente. É muito perto de comunidades que são contra a Torre, está entendendo? Aí vem meter bala aqui, querem pegar os caras daqui, isso foi no começo, morreu muita gente.” (Eduardo, FJ, AB)

As crianças sentem discriminação na escola92 por morarem no Conjunto Abençoada por Deus, conhecido como Cotel, um presídio estadual, possivelmente pela violência e tráfico de drogas. O depoimento a seguir é ilustrativo do sentimento de discriminação:

Vem no ônibus, [...] quando vai descer do ônibus o motorista do ônibus fala pra você: ‘Ei senhora, aí é o Cotel?’ (risos) Aí eu digo a ele: ‘É não, moço, é a casa da sua mãe.’ Aí no outro dia o que é que acontece? Eu fico com medo que é o mesmo motorista do ônibus, porque eu falei da mãe dele e a gente não deve falar da mãe de ninguém. (Vera, FM, AB)

Mesmo essa senhora, que declarou gostar do local e que as pessoas deveriam valorizar o lugar onde moram, tem o sentimento de discriminação por morar lá. O sentimento de gostar do apartamento fica comprometido com a violência, que repercute na imagem do conjunto no bairro. Como não gosta de ouvir o lugar onde mora ser comparado a uma prisão, revida a brincadeira. No entanto, também chama o local de Cotel, pois o compara a uma cadeia.

Aqui é uma cadeia sem dever [...] É que a gente veve preso. [...] Sabe como é o nome daqui? – Cotel. [...] Nós aqui é Cotel. [...] É uma prisão, porque não tem pra onde ir aqui. [...] A gente vai na cidade aí chega aqui de oito horas, vem num táxi. Vai entrar? ‘Não senhora, eu não entro nesse prédio não.’ [...] Tem muitos táxis que não entram aqui não. (FM, AB)

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Foge ao recorte da pesquisa investigar as raízes desse sentimento em relação aos moradores do entorno, no entanto, suspeita-se ser a competição por emprego e infraestrutura de serviços públicos no bairro uma das razões, pois sentimento semelhante foi expressado em relação ao Conjunto Habitacional Clube do Automóvel.

No Conjunto Residencial Dom Helder Câmara, os exemplos de quebra de vínculos, de desconfiança e de ressentimento estão associados ao processo de construção. Uma líder comunitária explica que houve desconfiança em relação às horas doadas entre os mutirantes, mesmo com um controle rigoroso no apontamento das horas. Outra entrevistada, mãe de uma moradora, sente-se ‘lesada’ na contabilização do número de horas para a filha. No início, a participação nas mobilizações coletivas contava como horas; participou de muitas mobilizações que, na sua opinião, não foram contabilizadas.

Eu levei a vida dando hora (para a filha), mas quando foi agora vieram dizer que as horas não existiam. Participei aqui desde o início, desde as reuniões chamando as pessoas de casa em casa pra ocupar o Cardozo. Eu lutei pelos 200, não só por ela, por todos. Eu tenho casa. Eu ia pra reunião dos Correios [...] eu tava ali, eu tava aqui. E eu posso dizer que tudo o que a gente fazia tinha 8 horas. [...] Quando foi agora eu soube que minha filha não tinha nem metade das horas, isso é injustiça, eu tô hoje doente. (D. Conceição, L, DH) O depoimento dela traz uma história de luta por moradia, como que a reclamar a legitimidade e o reconhecimento do seu envolvimento e luta. Na fala seguinte, há o sentimento de ter sido enganada e de sua luta não ser reconhecida, o que também é mencionado por outros líderes comunitários. Ela atribui a separação do marido ao seu envolvimento na luta coletiva.

[...] depois de tudo que eu passei... até marido eu perdi por causa do movimento, por causa dessa luta. Então eu me sinto revoltada, eu passava aqui, eu tinha muita vontade de vir antes, mas eu não tinha coragem de entrar, de revolta. [...] Eu tinha um sonho de fazer isso aqui, coisas maravilhosas. Eu me sinto revoltada porque eu fui enganada, e depois de me usar, jogaram fora. E hoje eu tô doente por conta disso, desilusão, decepção, angústia, tristeza, entrei numa depressão, e fui obrigada por ordem médica a me afastar daqui, ou eu morria. (D. Conceição, L, DH)

No depoimento seguinte é explícito o desejo de ser reconhecida. Era militante do MLB, mas rompeu com o grupo que coordenou o projeto. Por trás do ressentimento existe a disputa pelo poder político local e pela participação nas decisões. A mágoa está sendo elaborada com a ajuda da religiosidade, componente presente em muitas falas.

E eles sabem disso. [...] eu tenho uma parcela pra isso tudo que tá acontecendo. Mas fizeram com que muita gente aqui hoje teja contra mim, fui chamada até de ladra; nunca peguei um centavo, ao contrário, eu pagava. Essa é a minha revolta, mas já tá passando, porque eu venho pedindo a Deus, muito dentro de mim, hoje já consegui entrar, tô trabalhando e eu espero que daqui pra frente eu coloque amor que eu tinha antes por tudo isso aqui, por cada uma dessas pessoas que vieram morar aqui, porque eu só aconselhava, só buscava as pessoas e sempre dizia: vamos ser uma grande família, mas eles próprios fizeram [...] ficar um contra o outro... (D. Conceição, L, DH)

Sua história de vida traz outras perdas, como da mãe,93 duas casas que o pai possuía e outra casa. Houve dificuldades burocráticas para financiar uma casa no nome dela, então colocou-a no nome do cunhado, e depois ele ficou com a casa. Mas, mesmo sendo-lhe tirado um direito, conformou-se e não quis lutar. Esse episódio ilustra o nível de resignação presente em pessoas de baixa renda diante da reivindicação de seus direitos.

Com o dinheiro que eu recebi dele eu comprei a casa..., mas fizeram coisa errada comigo [...] Aí ela (a sogra) disse: ‘Ô, minha filha, você bota no nome do seu cunhado, porque quando resolver isso você não tem um emprego, aí você não perde a casa. Aí depois ele compra uma casa no seu nome ou lhe devolve a casa.’ [...] eu acreditei. [...] Botei no nome do cunhado; 230 mil na época. [...] O cunhado tomou, ele já morreu, nem sabia direito da história. Agora tá com a família, com as irmãs. Eu fui morar na casa com tudinho [...] depois que eu saí da casa pra morar nesse quartinho que até o pastor queria tomar uma atitude, aí eu disse: ‘não, deixe pra lá.’ (D. Conceição, L, DH) Ela morava com os parentes do ex-marido: no entanto, devido a conflitos teve de deixar a sua casa. O sentimento de ser enganada e roubada, inclusive pelo INSS, está presente em sua vida.

Eu saí porque dava problema, eu às vezes saía pra receber dinheiro ... [...] aí ela tinha raiva porque eu saía, mas eu deixava o almoço pronto; fazia tudo de noite [...]. Deixei tudo, levei só uma estantezinha, a televisão, as camas, me deram um fogãozinho, e fui morar no quartinho. Eu recebia o INSS [...] fui roubada pelo INSS, hoje eu tô ganhando o salário, mas antes eu ganhava metade! [...] eu fui muito enganada, fui muito besta. (D. Conceição, L, DH) Outro aspecto de quebra de vínculos e confiança foi o não cumprimento de acordos entre os mutirantes para a retribuição de horas ou ajuda em serviços.

A mutirante dizer que ‘me ajude a terminar minha base que eu ajudo a terminar a sua base’, aí o beneficiário ia lá, contribuía, terminava a base. [...] Quando chegava no dia daquele beneficiário contribuir para o outro, não estava lá presente. Vinham as reclamações: ‘eu ajudei Fulano, ele não me ajudou, eu vou fazer a minha, sozinho.’ (Paula, DH)

Houve representantes94 que se aproveitaram da dificuldade de alguns mutirantes e foram contratados para realizar serviços que seriam feitos em mutirões coletivos pelo MLB.

[...] teve beneficiário que não precisaria cavar a base dele por conta da idade, por ser deficiente. [...] ficou acordado que iríamos fazer um mutirão para cavar a base deles, mas tinha representante que sabia disso e cobrava as pessoas pra cavar a base. [...] as pessoas não sabiam [...] pagou o rapaz pra cavar, o rapaz não cavou a base: [...] ‘a senhora não precisa cavar [...] o MLB vai fazer um mutirão pra cavar a base de vocês.’ (Paula, DH)

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“Ah, eu tinha uns 2 anos. [...] (a mãe) morreu de parto do meu irmãozinho. Meu pai ficou sozinho [...] na época, tinha duas casas. [...] a gente perdeu as nossas casas. Depois ele encontrou essa mulher [...] Ela tinha 3 filhos, papai [...] tinha 6, aí houve umas discórdias [...] eu era mais nova, aí eu sofri mais.” (D. Conceição, DH)

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Pessoas que recebiam uma remuneração simbólica de cerca de R$ 10,00/dia para trabalharem as 16 horas para quem não tinha disponibilidade de tempo. Muitas vezes esse representante era alguém da própria família.

Esses comportamentos de não retribuição, de levar vantagem, conduzem à falta de confiança, “ingrediente” essencial para a ocorrência de dádiva e da solidariedade.

Outra modalidade de situações desagregadoras foram fofoca, inveja, preguiça e competição, citados como inibidores de manifestações de dádiva e solidariedade, principalmente nos grupos focais de Abençoada por Deus. O que parece indicar que o adensamento associado à tipologia habitacional verticalizada tende a favorecer a ocorrência dessas manifestações.

O depoimento a seguir, feito no grupo focal de mulheres, aponta a fofoca e a intriga como inibidores da solidariedade. Salienta a importância da sociabilidade, pois a ajuda ao outro pode depender de conhecer o outro. Projetos que promovam a proximidade entre as pessoas podem contribuir para o fortalecimento de vínculos e para potencializar a solidariedade.

Fofoca, que impede a pessoa a fazer o favor para aquela outra. [...] ‘Tu vai fazer isso, fulana? Ele não merece não, rapaz.’ [...] Como é que eu posso confiar nela se eu não conheço ela? Como é que ela pode confiar em mim, se ela não me conhece? [...] Eu vou ver no dia a dia o movimento daquela pessoa. Se eu vejo que o movimento daquela pessoa é um movimento bom eu já vou confiando. (FM, AB)

Os jovens mencionaram a fofoca que os adultos fazem em relação às jovens quando as veem conversando com algum homem casado. A delação também foi apontada como uma postura negativa. Intriga e fofoca foram consideradas práticas que geram brigas e discórdias.

A competitividade demonstrada por ‘quem conta vantagem’ gerou desconforto em uma moradora, principalmente a censura por não haver colocado o marido na justiça. As vizinhas contam vantagem em relação à situação dela, por ter sido trancada pelo marido. Associa os vizinhos a algo ruim ao mencionar que o que recebe dos vizinhos é fofoca.

O depoimento a seguir explicita que a oportunidade para a fofoca está na falta do que fazer, na falta de ocupação, nesse caso associada à preguiça. No entanto, salienta a sociabilidade construtiva, de conversar sobre trabalho, saúde, filhos, mas busca não intrometer-se na vida dos outros, principalmente em brigas. Ela toca em aspectos importantes, como a distância e o respeito à vida do outro, mencionado, em muitos depoimentos, para facilitar a convivência.

Tem muita gente falando de muita gente porque não tem o que fazer. Aí só tem o que fazer se tiver emprego? Não. Na sua casa você tem o que fazer. [...] tem água todos os dias [...] energia. [...] Pode ir agora, lá no meu bloco, vai ver algum morador [...] no hall, no terraço. [...] chega uma, conversa, é poucos minutos e já entra [...]. Quando a gente sai pra falar é trabalho, saúde [...]. Se tem alguém brigando noutro bloco e a gente vê ‘[...] ali está pegando fogo’. Desiste [...] é assim que a gente deve viver num lugar humilde como esse. Se a gente souber viver, a gente vai bem. (Vera, FM, AB)

O que está implícito nesse depoimento é que a possibilidade que agora têm de acesso a serviços básicos, como água e luz, também oferece a oportunidade de poder cuidar melhor da casa. Com água e luz, é possível manter a limpeza e a organização e fazer algo produtivo, ao invés de perder tempo se preocupando com a vida dos outros, o que evidencia como os serviços básicos de água e luz são imprescindíveis para a conservação de hábitos de higiene, limpeza e cuidado com a casa e com o lugar.

As situações que inibem a circulação de dádivas por dificuldade na relação com o outro, no nível interpessoal, foram, principalmente, ressentimento, ausência de reconhecimento, fofoca, inveja, preguiça e competição.

O ressentimento surgiu da quebra de confiança, ausência de retribuição, traição. A dádiva não retribuída levou à quebra da aliança, do vínculo social, à guerra (MAUSS, 2003; GODELIER, 2001). Da relação de confiança, de amizade e troca que havia, recebeu-se traição, não reconhecimento, o que evidencia os potenciais impactos das dádivas não retribuídas.

Nas situações de fofoca, inveja, competição, está implícita a disputa por espaço, poder, recursos, o que no cenário de escassez dos assentamentos de baixa renda oferece grandes possibilidades de multiplicação. A vontade de ter o que o outro tem, de falar sobre a vida do outro, também está associada a um nível pessoal de insatisfação com sua própria vida. No entanto, não é fácil ser generoso para com o outro se lhes foi negado tanto. Possivelmente, melhores condições de vida que levassem a um maior nível de satisfação poderia diminuir a ocorrência dessas situações.

Constatou-se igualmente, que o traçado das ruas e a verticalização são aspectos a serem considerados na definição do projeto urbanístico, os quais podem contribuir para intensificar ou minimizar o controle das pessoas e a prática da fofoca. O formato sinuoso das ruas na favela permite uma maior privacidade em relação ao controle que os apartamentos verticalizados oferecem.

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