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1.2 Revue bibliographique du Jet In Crossow

1.2.3 Quelques aspects bibliographiques complémentaires

Inicialmente, o humor de bordão veio do rádio e se consolidou por meio dos esquetes apresentados em programas de auditório. Entretanto, marcas desse humor continuam a fazer parte da programação televisiva até em humorísticos mais recentes, mesmo que recebendo roupagens e temáticas atualizadas. Como mostrado anteriormente, programas baseados em humor de bordão são, comumente, divididos em quadros e esquetes com diversos personagens que repetem seus bordões em situações características.

A televisão brasileira é repleta de clássicos produzidos segundo este formato. Um dos primeiros humorísticos com este formato foi o Balança Mas Não Cai (1968-1983). Por conta da grande aprovação popular radiofônica, o programa ganhou uma versão televisiva em 1968, sendo transmitido ao vivo pela Rede Globo. O formato do programa se tornou parâmetro para a maioria dos humorísticos que vieram em seguida: apresentando quadros fixos, que exibiam o cotidiano dos moradores de um mesmo edifício, de nome homônimo ao título do programa.

Na televisão, além dos quadros já presentes no rádio, o elenco foi acrescido dos comediantes Costinha, Berta Loran, Colé, Marina Miranda, Lilico, Carlos Leite, Castrinho e José Santa Cruz. Dirigido por Augusto César Vanucci. Escrito por Max Nunes e Haroldo Barbosa, Balança Mas Não Cai apresentava, por meio do humor, uma crônica da vida cotidiana, as relações de classes e gêneros, marcado por personagens caricatos e bordões.

Apesar de a maioria dos programas de humor de bordão apresentar esquetes individuais que são encenadas em ambientes/cenários distintos, alguns produtores ajustaram o típico formato de humor de bordão – caracterizado, de modo geral, no diálogo entre dois personagens principais ou entre dois grupos – para trabalhar todas as ações cômicas (ou quadros) em apenas um ambiente. Neste formato, há a circulação de personagens distintos, que dialogam com um personagem fixo no cenário. Este é o caso do humorístico A Praça é

Nossa: os personagens, com poucas exceções, entram em cena, conversam com o personagem que está sentado no banco da praça. Após a ação cômica, o personagem ‘em trânsito’ sai de cena e permanece sentado no banco o personagem que é o elo entre os demais. A Praça é

Nossa foi criada por Manuel da Nóbrega, em 1957, e chamava-se A Praça da Alegria, exibida na TV Paulista. No decorrer dos anos, o programa passou por vários canais (Record, TV Rio e Rede Globo) até chegar, em 1987, ao SBT93. O programa aborda temáticas múltiplas a partir

dos personagens que se apresentam, versando sobre questões regionais (figuras paulistas, caipiras e nordestinos), de gênero, políticas, religiosas e econômicas, entre outras. São personagens clássicos da Praça é Nossa: Velha Surda, Deputado João Plenário, Catifunda, Explicadinho, Pacífico, Patropi, Canarinho, Homem do Bumbo, Vera Verão, entre muitos outros.

É interessante ressaltar que, muitos personagens da Praça é Nossa também passaram por outro humorístico cuja ações cômicas aconteciam em um mesmo cenário: A Escolinha do

Professor Raimundo. Neste humorístico, apesar de todos os atores estarem presentes no cenário, eles interagem um a cada vez com o personagem principal: o Professor Raimundo.

O quadro humorístico formado por um professor e seus alunos já existia no rádio, ainda na década de 1930. O precursor foi o programa Escolinha da Dona Olinda94. Em 1952,

ainda no rádio, surgiu a Escolinha do Professor Raimundo95, um programa em que o

professor Raimundo Nonato dividia a cena com três alunos de personalidades completamente dispares: um sábio, um ignorante e outro esperto. O sucesso do rádio levou à produção da

93 Até a finalização desta pesquisa, o humorístico ainda é exibido no SBT. 94 Criado pelo humorista Nhô Totico e transmitido pela EPR em 1935. 95 Pelas mãos de Haroldo Barbosa, para a Rádio Mayrink Veiga.

versão televisiva em 1957, no qual o quadro era exibido no programa Noites Cariocas, na TV Rio. O formato da escola, composta pelo professor mais três alunos, passou pelas emissoras TV Excelsior e TV Tupi, chegando à Rede Globo, na qual foi exibida como um quadro do programa Chico City (1973). Em 1988 a Escolinha foi ampliada e encenada em uma sala de aula com 20 alunos, tornando-se um quadro do programa Chico Anysio Show. De 1990 a 1995 o humorístico foi transformado em um programa solo. O programa voltou, como um quadro dentro do Zorra Total, entre 1999 a 2000, e tornou a ser um programa solo, em 2001, quando exibiu sua última temporada.

A Escolinha do Professor Raimundo foi conhecida por colocar em um mesmo ambiente diversos humoristas de épocas diferentes que alternavam a nostalgia de tempos passados do humor de referências radiofônicas com os novos atores do humor contemporâneo. O humorístico apresentava personagens diversos com identidades plurais, a partir dos quais eram realizadas piadas com temáticas múltiplas que, assim como na Praça é

Nossa, debatiam questões de idade, gênero, classe, culturais, profissionais e inúmeras outras. O formato escola também foi produzido por outros canais: Escolinha do Golias, pelo SBT e

Escolinha do Gugu e Escolinha do barulho, ambos pela Record.

Além da EPR, o comediante Chico Anysio foi protagonista em outros humorísticos, nos quais encenou mais de 200 personagens. O humorista marcou a televisão com seus textos que expunham elementos típicos do país, seja na composição dos personagens ou na elaboração das narrativas, repletas de elementos sociais, políticos e culturais regionais e nacionais. O quadro abaixo apresenta os principais humorísticos apresentados pelo ator.

Quadro 3 – Humorísticos televisivos protagonizados por Chico Anysio

Humorístico Descrição

Chico Anysio Show -TV Rio/ Rede Globo (1960- 1963/ 1971-1972/ 1982- 1990)

Sua primeira versão foi produzida primeiramente para a TV Rio. As que vieram em seguida foram recriações realizadas pela Rede Globo. Fundamentado no humor de bordão, o programa era composto por diversos esquetes, nos quais o humorista interpretava diferentes personagens em cada quadro. Dentre os personagens mais conhecidos estão Pantaleão, Haroldo Hetero, Apolo, Tim Tones, entre outros.

Chico City – Rede Globo

(1973 - 1980) Humorístico de bordão, no qual os quadros se passavam em uma cidade do interior do Nordeste brasileiro, chamada Chico City. O programa usava como elementos de comicidade os modos de falar, trejeitos, costumes e figuras populares características dessa região do país. O humorista Chico Anysio protagonizava todos os quadros principais, com algumas exceções.

Chico Total – Rede

Globo (1981/1996) Humorístico de bordão no qual eram encenados diversos quadros, com estrutura e personagens similares ao Chico Anysio Show.

Estados Anysios de Chico City – Rede Globo

(1991)

O programa de sátira ao momento político e social do país, sendo ambientado num país fictício (Estados Anysios de Chico City), cuja moeda chamava-se "merreca", de economia fundamentada na produção de estilingues e cujo maior credor internacional era justamente o Brasil.

Além de Chico Anysio, outro profissional foi destaque na produção de humor de bordão no Brasil. Sem ter saído da tradição radiofônica, mas com formação teatral e trabalhando diretamente com o humor televisivo, o ator e comediante Jô Soares também se destacou no cenário do humor de bordão em programas com muitos quadros e diversos personagens apresentados por ele mesmo.

Quadro 4 – Humorísticos apresentados por Jô Soares

Humorístico Descrição

Faça Humor, Não Faça Guerra – Rede Globo (1970- 1972)

Humor de bordão composto por esquetes. Textos de Max Nunes, Haroldo Barbosa, Renato Corte Real e Jô Soares. Direção de João Loredo e Carlos Alberto Loffler. O nome fazia alusão a frase "Faça amor, não faça a

guerra", muito popular na época.

Viva o Gordo – Rede Globo

(1981-1987)

Esquetes cômicos, com personagens fixos, interpretados por Jô Soares. Com texto de Max Nunes, Afonso Brandão, Hilton Marques e José Mauro. Fonte: Quadro elaborado pela pesquisadora a partir de informações coletadas em sites, livros e revistas.

A partir da década de 1990, com a entrada de novos formatos humorísticos e da inserção de novos profissionais interessados em outras formas de fazer humor, este formato foi perdendo espaço, mas não deixou de ser produzido e consumido. Já no final dos anos 1990 a Globo passou a apresentar, nas noites de sábado, o humorístico Zorra Total (1999-2015) que realizava a mistura de quadros presentes em humorísticos antigos, como Balança Mas

Não Cai e as atrações de Chico Anysio, mas abrindo espaço para novas experimentações no humor de bordão, proporcionando um ambiente de intercâmbio entre humoristas da velha guarda – ainda do rádio – com a nova geração.

Dentre os novatos, atores do elenco do Porta dos Fundos estiveram presentes no Zorra

Total. Fábio Porchat participou de um quadro que destoava da comédia de bordão, apresentando uma espécie de comédia de situação em que um casal representava as facetas de um relacionamento contemporâneo. Já Marcos Veras – ator de esquetes do Porta dos Fundos – participou de quadros mais tradicionais dentro do humor de bordão. O programa esteve no ar até 2015, passando por diversas mudanças até ser cancelado e substituído por um programa de nome próximo – Zorra – mas com propostas distintas. Zorra Total sempre teve como base a comédia de bordão, apresentada em quadros independentes, com personagens fixos. Foi criado por Carlos Manga e dirigido por Maurício Sherman.