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O rei de Bisnagá a que Bocarro se refere é, no princípio do século XVII, Venkatta II, Imperador de Vijayanagara e Rajá de Changragiri e tem nesta altura a sede do seu poder na cidade de Velur. Enquanto que no norte da península industânica se consolidou o Império Mugol, o Sul da Índia está dividido numa multiplicidade de pequenos reinos dos quais o estado de Vijayanagara emerge como um império hegemónico hindu desde meados do séc. XIV63 adquirindo grande projecção na primeira metade do séc. XV com Deva Raya II.

Chandra Satish, autor de uma história da Índia Medieval64, diz-nos que Nicolo Conti visitou Vijayanagara em 1420 e disse ser este o mais poderoso estado da India65 e que também Abdur Razzaq, viajante persa,66 deu conta da grandeza do reino, dos seus portos e da extensão do seu território. Quando os Portugueses consolidam posições na Índia, já na segunda metade do século XVI, este Império está a perder importância, dando-se a queda da sua capital em 1565 na sequência da derrota militar infligida pela coligação dos sultanatos islamitas do Decão na batalha de Talikota e a captura e morte de Aliya Rama Raya, herdeiro do trono do Imperador, o mesmo que chegou a montar cerco a S. Tomé em 1559, como referimos noutra parte. Os sultanatos do Decão, cinco estados islâmicos muito militarizados, constituiam uma cintura de estados independentes que separavam o norte mugol do sul hindu o qual tentaram constantemente subjugar, acabando por consegui-lo em meados do século XVII.67

O irmão mais novo de Rama Raya, Tirumala Deva Raya, único comandante sobrevivente dos exércitos destroçados pelas tropas dos sultanatos coligados na referida batalha de Talikota, escapou, abandonando Vijayanagara

63 Historicamente o reino Vijayanagara e os seus reinos subsidiários, resultam da dispersão do antigo

Império Chola que existiu até ao século XI e cujos imperadores construiram grandes monumentos símbolos do seu gande poderio e que caracterizam o fundo cultural e religioso hindu desta parte da Índia. Cf. «Vijayanagara Empire», Bharatadesam, everything about India, [Em Linha].

64 Chandra Satish, History of Medieval India (800-1700, Orient BlackSwan, 2009, New Delhi

65

Satish, op. cit., 2009, New Delhi, p. 144

66 Ibid.

67 In: Hermann and Kulke e Dietmar Rothermund, A History of India, Routledge, 4.ª ed, 2004,

Fig. 8: Mapa do Sul da Índia no séc. XV, in: Chandra Satish, History of Medieval India, 2009,

p.174. O Imperio Vijayanagara existiu desde 1336, entrou em declínio em 1565 com a derrota infligida pelos Sultanatos do Decão e durou até 1646.

transportando os grandes tesouros imperiais às costas de 1500 elefantes,68 e foi manter a estrutura imperial com capital em Penuconda. Sucedeu-lhe o filho, Sriranga I, e a seguir o já referido Venkata II que vai ser o último imperador do Império. Este faz a sua capital em Chandragiri e em Velur, combate os Sultanatos do Decão e vai morrer em 1614. A sua sucessão é disputada por várias facções vindo em 1625 a ser o Rajá de Changragiri, Rama Deva Raya, que governa até 1632, seguindo-se Venkata III que governa cerca de 10 anos, vindo o que resta deste império hindu a ser conquistado definitivamente pelos Sultanatos islamitas de Bijapur e Golconda em 1646.69

Se o que caracterizou o Império Vijayanagara foi a unidade assente na promoção do hinduismo e a resistência ao islamismo invasor dos reinos do norte, a sua queda permitiu a libertação e independência dos pequenos reinos que lhe eram subsidiários e a progressiva islamização do Sul. Os reinos feudatários mais

68 In: Kulke e Rothermund, op. cit., 2004, p. 191-192

significativos que a queda do Império Vijayanagara vai libertar, vão manter-se até ao séc. XVII, indo o Reino de Mysore sobreviver como principado até à independência da Índia em 1947, embora já sob o governo Britânico, a partir de 1799, quando morre o sultão Tippu.

Fig. 9: O reino de Vijayanagara em 1505-9, reprodução de A History of India, de Kulke e

Rothermund, p. 187. Inclui a localização geográfica do reino de Orissa para onde se deu a emigração de muitos portugueses na primeira metade do séc. XVII

É com o poder imperial em transição e com os seus reinos subsidiários que os Portugueses vão manter relações comerciais, obtendo deles e renovando as autorizações para se estabelecerem no Coromandel, particularmente no caso de S. Tomé de Meliapor, ao mesmo tempo que se integram nas suas redes comerciais. É também na fase final do império Vijayanagara que os ingleses obtêm facilidades para se estabelecerem no Coromandel, em Forte de St George, futura Madras.

Os vice-reis hindus (naiakas), dos estados de Madura, Tanjore e Kanchi, tornam-se independentes e por sua vez, tributários dos reis de Golconda e de Bijapur, os dois sultanatos islâmicos do Decão que, tendo-se imposto ao estado Vijayanagara, dividiram entre si a vasta área do Carnatic. Ganham relevância o

sultanato de Madura, com os herdeiros de linhagens do tempo dos reis Pandya a ocupar parte do antigo reino de Madura, e o de Kanchi, com uma antiga dinastia hindu com origens no tempo dos antigos imperadores Chola.

Entretanto, na região, um estado maharata ganha peso e dimensão. Em 1677, Shivaji70 apodera-se da parte que restava do império Vijayanagara, tendo já em 1674 o seu irmão Venkoji destronado os Naiakas de Tanjavur, estabelecendo uma dinastia que se irá manter durante um século. Shivagi acabará por ser vencido por Aurangzeb no avanço deste soberano mugol para o Sul. Segundo Percival Spear, este imperador aplicava a receita do seu avô Akbar nas conquistas: derrotar os seus inimigos, reconciliar-se com eles e colocá-los ao serviço do Império. 71 Desta maneira, Shivaji ao ser derrotado por Aurangzeb vai ser chamado a Agra para reconciliação (1666), sendo-lhe dada uma posição na hierarquia imperial. Contudo o plano falha, Shivaji foge para o Decão e em 1680, quando morre, já governava um reino Maharata independente. O filho de Shivaji, o principe Sambhaji - que cercou Goa em 1683-8472 e com quem Manucci foi negociar a paz em nome do Vice-Rei de Goa, Conde de Alvor, como veremos mais adiante – vai ser capturado e executado em 1689 pelas forças de Aurangzeb, e o seu reino dispersado. Contudo, os maharatas adoptam tácticas de guerrilha por todo o sul da India e beneficiando da simpatia das populações, infernizam o resto da vida de Aurangzeb que continuou a cercar sistematicamente as fortalezas do território montanhoso dos maharatas, mas infrutiferamente.

O Império Mugol começou na Índia em 1526 com Babur, descendente de Timur Lenk73 e com ascendência na linha dos imperadores da Mongólia,

70 Shivaji, (1630 -1680) entre 1674 – 80 fundou o reino Maharata da India que tinha uma forte base

na tolerância religiosa e na integração funcional dos Bramanes, dos Marathas e da cultura hindu. Cf. «Shivaji», por Ranjit Ramchandra Desai, in: Encyclopædia Britannica Online

71

In: «Aurangzeb Emperor of India», Enciclopaedia Britannica, [Em Linha], entrada por T.G.

Percival Spear, fellow do Selwyn College, Cambridge. Este autor, leitor em Historia na

Universidade de Cambridge, 1963 – 69, publicou a obra India: A Modern History e outros, sendo

coautor e editor doOxford History of India (3rd ed.).

72 Cf. Mártires Lopes, O Império Oriental 1660-1820, p.165; Cf. Manucci, Irvine, Storia do Mogor,

Reimp. 1981, V. II, p. 46 73

Timur Lenk ou Tamerlão, in: Encyclopædia Britannica Online. Depois da desintegração do Império Mongol, Timur Lenk uniu o Irão e o Turan (actualmente no Uzbequistão e no Tajikistão) sob um governo único. O império de Timur ia desde o baixo Volga ao rio Indus (proveniente do Tibete e que passa entre o Paquistão e a India), incluia a Ásia Menor (a Turquia actual), o Irão, a

nomeadamente Gengis Khan.74 Timur apoderou-se da parte ocidental do Império Mongol, invadiu e saqueaou Delhi em 1398 e fundou uma dinastia que teve dois grandes Imperadores islamitas, Akbar, (1542- 1605) considerado o maior rei da dinastia e Aurangzeb (1618 a 1707) que alargou o Império, ambos bem conhecidos do Ocidente pelo seu grande poder e prestígio, reinando Aurangzeb ao tempo em que na Europa reinava Luis XIV com a sua corte igualmente faustosa.

O avanço mugol para o Sul dá-se com o desencadear em 1668 de várias acções diplomáticas e operações militares contra a frente constituida pelas alianças entre os três poderes do Decão, Golconda e Bijapur apoiados pelos maharatas de Shivaji, mas o resultado vai ser apenas o do reforço desta aliança, falhando o vice- rei mogol, general Diler Khan, uma última tentativa em 1679-80 para capturar Bijapur.75 Os exércitos de Aurangzeb avançam novamente com o imperador à frente, perseguindo o seu filho rebelde Akbar e na senda do maharata Sambaji, sucessor de Shivagi, junto de quem Akbar procurara protecção. Aurangzeb invade então o território de Golconda76 com quem Sambhagi mantinha uma aliança. O rei de Golconda, Abul Hasan, além de ser popular entre os seus, tinha no governo um bramane, Madna Pant, da sua confiança, mas o comandante das suas forças, Ibrahim Khan, ao aproximar-se o exército mugol, deserta para o seu lado e leva consigo a maior parte das tropas. Entretanto Madna Pant é assassinado num tumulto na cidade e o rei foge para a fortaleza de Golconda enquanto Heiderabad é tomada e saqueada durante três dias o que desagrada ao imperador. Finalmente, este chega a acordo com o rei de Golconda que lhe paga um elevado resgate para obter a paz e Aurangzeb avança a seguir com os seus exércitos sobre Bijapur que captura em 1686 ao fim de 18 meses de cerco.77 Aurangzeb aprisiona o rei e entra na cidade fazendo-se transportar num trono. Volta-se de novo para Golconda, quebra a paz assinada com o rei e sem atender aos seus presentes e pedidos de

Trans-Oxiana (no Turquistão) o Afeganistão e uma parte do Punjab. Timur reinou a partir de Samarcanda e Herat, grandes centros culturais do mundo islâmico, tendo morrido em 1405. Cf. Chandra Satish, History of Medieval India (800-170, Orient BlackSwan, 2009, Nova Delhi, p. 202

74

Cf. : Bamber Gascoigne, «History of the Moghul Empire» In: History World, [Em Linha]

75 Satish, History of Medieval India, 2009, Nova Delhi, p. 362- 368

76 Ibid.

Fig. 10: Mapa da India em 1680, assinalando a existência do estado Maharata. In: "India, history

of: Maratha kingdom in 1680". Map. Encyclopædia Britannica Online

amizade, cerca a fortaleza a qual resiste durante sete meses mas acaba por cair sob uma manobra de traição.78 Com Aurangzeb, o Carnatic vai ser agora todo colocado sob a dependência do Nababo Zulfikar Ali, governador muçulmano nomeado pelo Imperador o qual estabelece em 1692 o seu governo em Arcote.

Depois da morte de Aurangzeb e do colapso do poder mugol em Delhi, o

nababo (governador) de Arcote, Saadet-Allah (1710-1732), vai assumir a

independência no princípio do século XVIII vindo o seu sucessor, Dost Ali, a conquistar e anexar o estado de Madura em 1736 e os seus sucessores, por sua vez, a serem confirmados nos seus cargos como governadores do Carnatic, reconhecidos pelo nyzam do novo potentado do sul da Índia, em Hiderabab. Em 1749 ocorre a morte do Nawab Mahommed Anwar-ud-din e abre-se a luta pela sua sucessão entre Muahmmad Ali e Husein Dost.

A intervenção das potências europeias vai agora ser determinante. Enquanto os franceses, liderados pelo Marquês de Dupleix,79 tomam o partido de Husein Dost, os ingleses apoiam Muhammad Ali que vão conseguir colocar no poder em 1749 numa parte do Carnatic, onde permanecerá até à sua morte em 1795. Entretanto Madura havia sido conquistada pelos maharatas em 1741, tendo Hyder Ali, de Misore, ocupado e arrazado o Carnatic central, mas vindo a cair porém nas mãos dos ingleses, já em 1758.

Em 1801, todos os domínios do nababo de Carnatic vão passar para as mãos dos ingleses com um tratado que atribui ao nababo um rendimento anual cabendo aos ingleses a protecção do território, a administração civil e a colecta de impostos. Finalmente, é com a morte do nawab, em 1853, que a soberania mugol é extinta, passando a dominação inglesa a ser total.