2.4 Applications statistiques
2.4.2 Quantification robuste
A representação da estética como dispositivo axiológico dentro do dispositivo “Parecer 15/98” cumpre duas funções a de dizer o que é e a de apresentar a que veio. Para explicitar o que é, o Parecer afirma que a estética da sensibilidade:
(...) estimula a criatividade, o espírito inventivo, a curiosidade pelo inusitado, a
afetividade, para facilitar a constituição de identidades capazes de suportar a inquietação, conviver com o incerto, o imprevisível e o diferente. (grifo no
original)138
Para explicitar porque veio, o texto é claro e não dá destaque a nenhuma das palavras:
Como expressão do tempo contemporâneo, a estética da sensibilidade vem substituir a da repetição e padronização, hegemônica na era das revoluções industriais..139
Isso significa que a escolha pela estética atende a urgência de oferecer outra formação mais condizente ao novo estágio do capital. E, portanto, uma escola que também corresponda a essa necessidade. No lugar da escola disciplinada, escola inspirada na estética da sensibilidade terá “(...) o espaço e o tempo (...) planejados para acolher, expressar a diversidade dos alunos e oportunizar trocas de significados”.
138 BRASIL, Parecer 15/98. 139 Idem.
Na estética da sensibilidade, expressa pelos críticos como paradoxo do neoliberalismo, seria possível, contudo colocar o desejo e recusa na trama das antinomias analisadas por Derrida (1990) sobre ensino de Filosofia e escola, onde as leis são diferentes, mas igualmente verdadeiras. O ideal da escola está prescrito:
Nessa escola, a descontinuidade, a dispersão caótica, a padronização, o ruído, cederão lugar à continuidade, à diversidade expressiva, ao ordenamento e à permanente estimulação pelas palavras, imagens, sons, gestos e expressões de pessoas que buscam incansavelmente superar a fragmentação dos significados e o isolamento que ela provoca.140
Esse discurso que fundamenta as Diretrizes é um discurso que se pretende de matriz pós-moderna, na qual os diferentes discursos são amalgamados em dispositivos de convencimento, como são as políticas educacionais, na distância clássica, entre teoria e prática; ou, de forma atualizada, entre concepção e implementação. Qual é o lugar reservado a uma nova concepção de educação que responda a essa situação escolar de descontinuidade, de dispersão caótica, de padronização e que, inclusive, pretende articular uma determinada concepção de estética e de ética e política como seus princípios axiológicos? Ou seja: o que possibilitou a escolha da estética, ética e política como princípio educacional? A resposta está no dispositivo:
Diferentemente da estética estruturada, própria de um tempo em que os fatores físicos e mecânicos são determinantes do modo de produzir e conviver, a estética da sensibilidade valoriza a leveza, a delicadeza e a sutileza. (grifo no original).
Focalizando apenas o principio estético, o texto é assertivo e não deixa de causar impacto, sobretudo para quem tem como referencial o discurso da Filosofia, problematizar este texto não é muito banal. Para desvendá-lo é preciso retomar o referencial foucaultiano, quando propõe que se esgote o texto dentro das suas próprias estruturas. Desta forma, o trabalho árduo com o próprio discurso exige perceber os enunciados e relações, que o próprio discurso põe em funcionamento. O dispositivo coloca a estética como um programa a ser cumprido pelo universo da escola:
A estética da sensibilidade não é um princípio inspirador apenas do ensino de conteúdos ou atividades expressivas, mas uma atitude diante de todas as
formas de expressão que deve estar presente no desenvolvimento do currículo e
na gestão escolar. Ela não se dissocia das dimensões éticas e políticas da educação porque quer promover a crítica à vulgarização da pessoa; às formas
estereotipadas e reducionistas de expressar a realidade; às manifestações que banalizam os afetos e brutalizam as relações pessoais.141 (Grifo no original)
140 BRASIL, Parecer 15/98. 141 BRASIL, Parecer 15/98.
A proposta é uma estetização da educação que envolva atitudes e condutas, que refaça crenças reducionistas, que recoloque a sensibilidade nas práticas educativas, por isto não deve se distanciar das dimensões éticas e políticas da educação. Quais são as relações históricas presentes na linguagem constitutiva de práticas? São aquelas que consideram a educação como dispositivo estratégico para as determinações históricas de cada momento. Se o momento é de incerteza para o capital, faz-se necessário uma educação que possibilite a convivência com a instabilidade. Afinal a pós-modernidade desconstruiu a noção de centro, de pensamento único. É preciso conviver com a noção de que os "centros" são vários, e não um só, tanto os centros de poder a combater como os do contrapoder. Assim, os principais fundamentos dessa nova concepção de educação são: a invenção e criação, a flexibilidade e fluidez, a capacidade de lidar com o inusitado, a beleza, a delicadeza, a pluralidade cultural, o saber conviver. Essas são as características marcantes do princípio da estética da sensibilidade.
Retomo Foucault, quando diz que devemos recusar as explicações unívocas, as fáceis interpretações e igualmente a busca insistente do sentido último ou do sentido oculto das coisas. O uso dos argumentos filosóficos neste discurso da sensibilidade oferece âncoras para defender o ensino de Filosofia? Ou retorna um preconceito com aqueles que exercem a função de "filósofos profissionais", sendo professores de Filosofia e, portanto, sem competência suficiente para conduzir novos processos?
Não sendo possível não problematizar a ordem incerta deste discurso, somos levados a compreender porque esta estetização abre um alerta na estrutura do discurso educacional. Seria a questão da sensibilidade em educação justamente aquilo que fortalece e reestrutura o capitalismo avançado do neoliberalismo? Essa captura da sensibilidade, pelos dispositivos capitalistas de estetização da vida cotidiana, garante enfrentamento de certos problemas (ou todos), pois tanto coloca novas questões quanto elimina as anteriores, não há a pretensão de deter as respostas definitivas. Dentre as esferas da vida estetizadas, à educação é reservado um lugar estratégico, pois ela foi convertida num dos mais importantes dispositivos do processo de reestruturação do capitalismo avançado. (TROJAN, 2004: 425-443).
Um parecer é um dispositivo oficial que garante a ordem da lei, mas cujo poder do discurso é reificado, por nós, enquanto inquietação diante da transitoriedade dos discursos e segundo uma duração que não nos pertence.
O processo de generalização do estético pode ser compreendido pelo movimento de apropriação pelo neoliberalismo do projeto pós-moderno de estetização da vida. Isso
significa que o neoliberalismo apodera-se da “estética da sensibilidade” e a torna uma de suas principais ferramentas, embora sejamos nós que lhe concedemos esse lugar e esse poder. Segundo Eagleton (1993), a construção da noção moderna do estético é assim inseparável da construção das formas ideológicas dominantes da sociedade de classes moderna, e na verdade, de todo um novo formato da subjetividade apropriado a esta ordem social. Dentro da lógica de estetização, o dispositivo “Parecer 15/98” confirma:
Como expressão de identidade nacional, a estética da sensibilidade facilitará o reconhecimento e valorização da diversidade cultural brasileira e das formas de perceber e expressar as realidades próprias dos gêneros, das etnias e das muitas regiões e grupos sociais do país. Numa escola inspirada na estética da sensibilidade, o espaço e o tempo são planejados para acolher, expressar a diversidade dos alunos e propiciar trocas de significados.142
Mas, afinal, a que se refere esse mal estar em relação ao discurso proferido? Onde está o perigo? Dentro da metodologia foucaultiana de deixar o texto falar por si mesmo, podemos perceber as contradições dos nossos processos educativos. A escola que queremos talvez esteja expressa no dispositivo “Parecer 15/98”, contudo, parodiando Lyotard (1993), poderíamos afirmar que estamos no mundo da educação brasileira como se fôssemos Gulliver, umas vezes demasiado grandes, outras demasiado pequenos, nunca numa escala apropriada.E parece que este é também o drama de Alice quando tem de se decidir a crescer ou diminuir: “em que sentido, em que sentido? Pergunta Alice, pressentindo que é sempre nos dois sentidos ao mesmo tempo...”. Por que precisamos sempre desconstruir estes discursos utópicos sobre a educação, por que temos que encontrar a escola real longe dos nossos sonhos cunhados por conflito entre desejos e recusas? Porque, afinal, nos deparamos, infelizmente, em nossa cultura, com duas vias, como afirma Deleuze (2007):
A humanidade divide-se em duas partes. Uma defronta o desafio da complexidade, a outra o antigo, terrível desafio da sua sobrevivência. É talvez o principal aspecto do fracasso do projeto moderno, do qual te recordo que era em princípio válido para a humanidade no seu conjunto. (DELEUZE, 2007).
Exatamente por ter esquecido o chão social é que este Parecer produziu tantas críticas. É preciso pensar essa parte da humanidade que enfrenta o desafio da sobrevivência quando nos propomos a pensar a educação no Brasil, hoje. Se o objetivo da educação é também a preparação para o mundo do trabalho, então a educação, fundada na estética da sensibilidade, deverá organizar seus currículos de acordo com valores que fomentem a criatividade, a iniciativa e a liberdade de expressão, abrindo espaços para a
incorporação de atributos como a leveza, a multiplicidade, o respeito pela vida, a intuição e a criatividade, entre outros. Por que estes valores são tão cruéis em relação a atualidade da educação? Seria necessário retomar Otávio Paz quando dizia do “gigante com pés de barro”. Como lidar com essa constatação num país como o Brasil para o qual a questão do desenvolvimento e da modernização são fundamentais? Assim, a estética que surge, no contexto mesmo de formação da sociedade capitalista moderna, como espaço da beleza e da sensibilidade, serve de fundamento aos valores engendrados na subjetividade e no individualismo. Eagleton (1993) é implacável em relação a esta estetização politizada e afirma: “Esta estetização do valor que foi herdada pelas correntes atuais do pós- modernismo e pós-estruturalismo”, que surge de um espaço afetivo ou metafísico e fundamenta-se na intuição ou na escolha pessoal, tem como resultado “uma nova espécie de transcendentalismo”, no qual “o absoluto ou o universal são substituídos pelos desejos, pelas crenças ou pelos interesses”. (EAGLETON, 1993: 275-276).
Dentre esses antagonismos, causa certa estranheza que um Parecer que recusou o ensino de Filosofia faça uso alargado e, porque não dizer, consistente do universo semântico próprio da Filosofia. O objetivo poderá ser simplesmente demonstrar a indissociabilidade do discurso filosófico e do discurso educacional? Ou é, simplesmente, afirmar o silogismo disjuntivo de Alice no País das Maravilhas. Não é possível não perceber a relação de recusa, mas também de desejo.