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Acaba de vir à luz da publicidade em Campinas, um semanário dedicado à defesa dos homens pretos, (...) De formato grande, traz o “Getulino” variada colaboração e o retrato do saudoso Luiz Gama, um dos grandes batalhadores pela causa da liberdade dos homens de cor. 114

O cabeçalho de um jornal é a primeira mensagem negociada com o leitor. A partir dele, o leitor tem a possibilidade de formar uma ideia inicial do que será oferecido/negociado pela publicação. Nele, estão dispostos o nome do jornal, o logotipo, seu lema, o nome dos editores e dos fundadores, data, local, número e ano de publicação, preço da assinatura.

Fig. 02– cabeçalho do jornal Getulino

Antes mesmo de lermos as notícias/informações dadas a ver pelo jornal através das manchetes, fotografias e textos, somos atraídos pelo cabeçalho. Esta atração pode ser explicada pelas leis da gestalt, que nos apresenta as chamadas “zonas de atração do olhar”; elas nos propõem que, primeiro, visualizemos as informações dispostas no alto da página, para depois seguimos esquadrinhando a página na diagonal até a parte inferior direita115 [ilustração à frente].

114 Transcrição de notícia publicada originalmente no jornal ‘A Cidade’ de Mogi Guaçu por

ocasião do lançamento do Getulino. Getulino, nº 3, p. 2, col. 1, 12 ago.1923.

115 Esta forma de visualização é explicada a partir da forma de escrita/leitura ocidental. Mesmo

quando tratamos da escrita oriental, no caso da japonesa ela se estrutura de cima para baixo, alternando apenas o segundo movimento, da direita para a esquerda.

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Esta forma de composição das mensagens impressas ocidentais criou, ao longo do tempo, zonas de visualização denominadas primárias e secundárias:

Assim, o modo de construção gráfica de uma página impressa deve seguir princípios editoriais como ordem de leitura das matérias (da esquerda para a direita, de cima para baixo, da mais importante para a de menor peso);respeito às zonas óticas de visualização; facilidade de percepção do conteúdo: rapidez na transmissão da informação, facilidade na localização de assuntos e no entendimento dos textos. Um bom projeto editorial conduz os olhos do leitor, torna a leitura agradável, envolve, seduz.116

Na porção superior da página é alocado, preferencialmente, o nome do jornal e seu lema:

A propriedade mais trivial do nome-de-jornal é a de ser o primeiro elemento que um jornal oferece à visão no espaço e no tempo. Trata-se de um elemento com local bem determinado, de onde não se pode extraí-lo sob pena de perder seu sentido.117

Sua escolha define ou indica qual a natureza de sua intervenção na cena pública, seu local de fala e para quem fala. Títulos e subtítulos funcionam como manchetes, primeiros enunciados por meio dos quais uma publicação procura anunciar a natureza de sua intervenção e suas pretensões editoriais118.

Estas escolhas não se dão ao acaso e sem uma intencionalidade explícita. Para além do indicativo das pretensões e bandeiras que o periódico irá sustentar ao longo de sua existência, a escolha do nome também indica como seus produtores se enxergam e como querem ser vistos, direcionando e dando unidade à própria publicação e servindo de ancoragem, tanto para as pretensões do impresso como à construção de sua identidade.

116 SÓLIO, Marlene Branca. Discurso gráfico como ferramenta de produção de significação na

comunicação organizacional. Em Questão, Porto Alegre, v. 12, n. 2, p. 367-386, jun./dez. 2006. p. 376.

117 TRAVASSOS, Tarcísia. A transformação histórica do gênero capa de jornal. Tese

apresentada ao Programa de Pós-graduação em Letras, da Universidade Federal de Pernambuco. Recife, 2010. p. 42.

118 CRUZ, Heloisa de Faria; PEIXOTO, Maria do Rosário da Cunha. Na oficina do Historiador:

Conversas sobre história e imprensa. In Projeto História, nº 35. História e Imprensa. São Paulo; Educ. jul/dez 2007. p. 263.

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Fig. 03- sistema de visualização de uma página impressa

1-Zona primária de visualização.

2- Zona terminal, para onde se move a vista, em uma diagonal descendente de leitura. 3 e 4 – Zonas mortas ou cantos sem atração, que supõe sinais mais fortes para despertar o interesse do leitor.

Centro óptico: para onde o olhar se dirige no primeiro momento da visualização de uma imagem. Centro Geográfico: divide a imagem em duas zonas de visualização, superior e inferior.

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A seguir, apresentamos o cabeçalho de quatro jornais comerciais da época: Diário do Povo [1939], de Campinas; Folha da Noite [191], Correio Paulistano [1922] e O Estado de S. Paulo [1924], os três últimos editados na capital do Estado, de maneira a permitir uma comparação das formas de construção da identidade visual destes periódicos com a do «GETULINO».

Fig. 04 - exemplo de cabeçalhos de jornais paulistas do período

Podemos perceber que o «GETULINO»segue a mesma forma de distribuição

das informações que os demais jornais comerciais do período, diferenciando-se apenas na inclusão de grafismos no segundo plano do logo da folha. Com exceção dada ao desenho que se mescla ao nome do «GETULINO», a disposição e a

formatação do cabeçalho seguem o padrão adotado pela imprensa paulistana, no que tange à forma de diagramação dos jornais standard do período. Ou seja, a

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inscrição do ano, número, data, preço de venda e local de publicação entre fios logo abaixo do título do jornal. Em relação à gravura de fundo que ornamenta o título do jornal, não encontramos na bibliografia disponível sobre os prédios do período em Campinas, imagem que se ajuste completamente àquela. Entretanto, localizamos a fotografia de dois prédios que se assemelham à representação inscrita no cabeçalho do «GETULINO».

Fig. 05– Colégio Carlos Gomes

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Na primeira Fig. [05], temos a semelhança dos três andares com as janelas dispostas lado a lado, mas os telhados das torres seguem outra forma de representação, mais próxima ao telhado do prédio da Beneficência Portuguesa [Fig. 06]. Contudo, no que tange à altura do edifício, esta destoa da representação [Fig. 07, ampliada].

Fig. 07– ampliação do detalhe do logo do Getulino

Em sua porção central, a imagem do cabeçalho nos remete à torre de relógio ou sino de uma igreja católica, devido à porta central e alta encimada por uma torre tipo campanário com uma única janela. O prédio na lateral direita apresenta também uma porta de entrada em sua fachada, elemento inexistente no prédio à esquerda. À frente deste edifício, visualizamos com certo destaque um automóvel, que pode ser entendido tanto quanto um reforço da modernidade e urbanidade de Campinas, como também uma referência aos idealizadores desta iniciativa. Tanto Martinho como Cristino Andrade eram taxistas em Campinas.

Completando o logo, temos três personagens humanos: dois homens bem trajados que se posicionam como observadores da cena urbana e uma mulher debruçada sobre o muro.

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No primeiro plano, da esquerda para a direita, temos a Fig. do primeiro homem que parece deslocar-se para fora da página. Logo à direita desta primeira Fig., o segundo homem dirige seu olhar para a mulher debruçada sobre o muro. Ambos estão trajados com terno, chapéu tipo panamá e bengala, símbolos de refinamento e poder aquisitivo na época. A Fig. masculina que se afasta para a esquerda sugere ser branca; já o outro, que dirige o olhar para a Fig. feminina no muro, aparenta ser negro.

A mulher está alocada no terceiro plano da imagem, logo atrás de um muro que percorre a página inteira. Os cabelos desta Fig. feminina são encaracolados nas pontas; sua mão esquerda toca os cabelos, dando a impressão que está flertando com a Fig. masculina que lhe dirige atenção.

Fig. 08 – ampliação do detalhe do logo do Getulino

A Fig. feminina que interage com a Fig. masculina envolta na letra “G” do nome do jornal torna-se ambígua, pois possui elementos que remetem ao fenótipo negro, mas ao mesmo tempo não teve seu rosto enegrecido. O não escurecimento da pele do rosto da Fig. feminina pode ter sido adotado por uma questão de impressão, pois a reprodução gráfica de imagens na época não permitia obter pequenos detalhes, tendendo a formar um borrão.

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Fig. 09 – cabeçalho do Getulino

A mesma lógica pode ser empregada para a leitura do elemento masculino que está a se afastar do nome «GETULINO». Entretanto, deixando-se de

lado estes questionamentos que carecem de maior analise, pois não encontramos nas páginas do «GETULINO» referências ao processo de criação do

logo do jornal, temos muito provavelmente a representação de um local de fala. Ou seja, estes indivíduos se posicionam como observadores da cidade, que no caso é Campinas, na qual o próprio nome do «GETULINO» é refletido como se fosse

um espelho. De forma geral, o cabeçalho do «GETULINO» nos remete para a sua

atuação no âmbito da cena urbana, de onde tira sua força e para onde dirige suas penas.