Outra de minhas informantes em Federación, Beatriz, é proprietária de um dos primeiros hostels79 locais, o Palmas del Lago.
Ela conta que a menos de um quilômetro de Nueva Federación existem as termas de Arapey, no Uruguai. A “aparição” do turismo termal na esfera municipal como opção econômica viável se vincula diretamente com o reconhecimento das experiências turísticas termais nas localidades de Daymán, Guaviyú e, justamente, Arapey, no Uruguai.
Nestas localidades, próximas de Nueva Federación, o aproveitamento do recurso termal com fins turísticos apresenta uma larga tradição que remonta à década de 1940, convertendo-se em uma atividade econômica tradicional (como eram as serrarias, antigamente, em Federación), e inclusive apresentando o parque termal como o equipamento especializado difundido em todas as localidades. “Então”, diz Beatriz, “o prefeito imaginou que ali também haveria águas termais e, em 1994, começaram a perfurar. Algumas das máquinas vieram de Belém, no Brasil”.
Beatriz conta que, em 1979, começou a remoção da cidade, para dar lugar à represa de Salto Grande. “Até aquele momento, era a maior pobreza porque só tinha serrarias, umas 70, mas daí acabaram os eucaliptos e acabou a madeira que vinha do Brasil pelo rio Uruguai”. Quando casaram as filhas, Beatriz reformou a casa e a transformou
79 Espécie de hotel quase sempre mais simples e de cômodos compartilhados e que são chamados mundialmente de hostels, para usar a palavra inglesa (pl.). Albergue, hospedaria, abrigo são outras opções de tradução, assim como refúgio. Esta foi minha opção de hospedagem para o campo em Nueva Federación e em Buenos Aires. Creio que o que distinga o hóspede dos hostels seja o desejo de contato com outros turistas e moradores locais, em detrimento da falta de privacidade. De maneira geral, os hostels de Buenos Aires têm altíssima rotatividade e podem se subdividir em várias categorias, desde os mais simples ou em bairros mais afastados até os hostels design ou hostels butiques.
numa hospedaria, em 1997. “Agora, na cidade, tem mais hotel que casa”, brinca. “No começo”, ela conta “a água termal chegava nas casas, mas depois tiraram”. Os hotéis, os negócios que se abriram, todo mundo vive hoje do turismo, relata Beatriz.
A história do povoado, no entanto, começou muito antes. Em 1810, conforme minha informante, o general Belgrano distribuiu títulos de terras num local chamado Mandisoví, mas, em 1853, ele transferiu a cidade para onde está hoje a cidade velha, para transformá-la num porto. Mandisoví era um povoado e ele, de certa forma, ainda existe: “São de fato dois povoados, um maior e um menor, mas estão quase despovoadas”. É por isso que Nueva Federación é chamada de “a cidade dos três traslados”.
Em 1945, minha informante relata que já avisavam que a cidade ia ser removida.
Era como um fantasma. Vai sair, não vai sair. Os militares fizeram um plano de uma cidade faraônica. As casas se comunicariam umas com as outras. A gente via aquilo... Depois, começaram a fazer cada vez menos, no final, queriam dar uma casa de dois quartos para cinco pessoas. Filhos de 50 anos iam ter que voltar a dormir com suas mães. Houve sorteio pra dar as casas. Teve brigas. Foi horrível. Eu morava a uma quadra da casa da minha mãe e me deram de aluguel uma casa porque meu pai era amigo do intendente. Fiquei a duas, três quadras da minha mãe. Eles davam 30 anos pra pagar e muita gente pagou à vista do próprio bolso. Mas, depois, muita gente que tinha pago perdeu porque, passados 15 anos, eles perdoaram as dívidas. Tinham que ter dado casa de graça pra todos. Nós nos sacrificamos para dar luz para o Uruguai e para a Argentina. Muita gente vendeu tudo a preço de banana e foi para outras cidades. Depois, se arrependeram.
Beatriz conta que as amizades de toda a vida ficaram longe. “Foi mais difícil a gente se congregar de novo. A casa da polícia tinha torres, era linda”, lembra. Ela relata que a população assistia às demolições. “O que veio inaugurar foi o Videla, o mais terrorífico dos militares”. Beatriz considera a cidade inteira como um patrimônio e acha que tem que continuar sendo plana, sem edifícios.
“Começaram a fazer um prédio e a população se juntou para proibir”, conta. “Se querem apartamentos, que façam longe daqui”. Na opinião da moradora, a cidade cresceu e não foi planejado que crescesse tanto. “Agora você sai das casas bonitas e cai num favelão, uma coisa sem calçada, sem cloacas”. Isso dá a entender que talvez o lucro das termas não seja assim tão bem distribuído entre a população quanto se imagina.
Beatriz diz que a maioria dos seus hóspedes vem de Buenos Aires. “Mais de 90%. O pessoal foge da violência, da poluição. Já chegam na sexta-feira de tarde”. Em janeiro, ela diz que tem mais gente, mas há turistas o ano todo. A população de Nueva Federación frequenta as termas, conforme ela, mas prefere ir quando não tem feriadão e quando não tem tanta gente de fora. “No verão, temos praia na represa. O único problema é que a água é muito parada e então cria uma espécie de alga, ou fungo, porque a água não corre”, explica.
Minha informante parece muito orgulhosa dos atrativos turísticos do município, tanto da represa quanto do parque termal. A decisão política de não privatizar o parque e manter um acesso baseado em entradas de baixo custo incentivou a afluência de visitantes à localidade e ao parque e, quando esta afluência alcançou um caráter massivo, os ingressos do parque também se tornaram significativos, resultando em uma nova fonte de renda pública aos cofres municipais – os benefícios econômicos que gera o parque termal representam 25% do total anual de Nueva Federación (RAMÍREZ, p. 156).
Em outras palavras, os ingressos gerados pelo parque são suficientes para a manutenção dele, mas também se consegue um excedente de recursos que são reinvestidos pelo município em, por exemplo, infraestrutura pública. Desta maneira, ocorre uma série de importantes benefícios econômicos gerados pelo Estado e sua estratégica administração produz efeitos que vão muito além do setor turístico, com todos os empregos que gera, conforme explica Ramírez.
Concretamente, o parque apresenta um corpo estável conformado por 67 empregados (trabalhadores municipais): 14 caixas, 7 pessoas para controle de entradas, 4 enfermeiras, 1 médico (nos finais de semana), 10 pessoas da manutenção constante das piscinas e zonas parquizadas, 30 guarda-vidas e 1 encarregado/administrador. Com relação à administração do total de ingressos, 40%
são destinados para o próprio funcionamento do estabelecimento e 60% são utilizados pelo município. É necessário destacar que não há lei que regulamente como devem ser distribuídos e utilizados estes ingressos, isso se decide ano a ano pelo Executivo e pode ser aprovado (ou não) pelo Conselho Deliberativo Municipal (RAMÍREZ, p. 122).
O crescimento dos serviços de hospedagem, os restaurantes e as atividades turísticas complementares (como as visitas guiadas à Velha Federación e estabelecimentos produtivos como uma fábrica de derivados de mel e outros produtos apiários), conformam novas atividades econômicas que não existiam antes da inauguração do parque termal (RAMÍREZ, p. 156-157).
Pode-se colocar em discussão a relação público-privado em torno dos processos que se acionam a partir do desenvolvimento socioeconômico, em especial o papel que joga o Estado ao mercantilizar um recurso público na economia do lugar. É o município que controla o recurso termal e o coloca à disposição para seu uso turístico-recreativo mediante o controle do parque termal e a decisão de manter um acesso pago, ainda que de baixo custo. Desta forma, o Estado impede que o recurso fique subordinado ao interesse privado e, portanto, preserva sua condição de bem público (RAMÍREZ, p. 158).
Concretamente, a fisionomia da parte histórica da cidade e suas qualidades modernistas-higienistas (ordem, limpeza, presença de espaços verdes), assim como o fato de ser uma localidade pequena (tranquila, silenciosa, sem congestionamento de pessoas nem de tráfego) são os elementos valorizados pelos turistas em relação às práticas de “ócio saudável”, no contexto de sua estadia centrada no uso das termas (RAMÍREZ, p. 160).
O pesquisador acrescenta que, justamente: “É uma cidade limpa”, “agradável”, “parquizada”, “tranquila”, “silenciosa” e “segura”. Estas foram as respostas que surgiram nas entrevistas realizadas por Ramírez junto aos turistas quando perguntados sobre os motivos por que visitam Nueva Federación. Em meu contato com os turistas, o objetivo da viagem a Nueva Federación foi quase sempre o aproveitamento do parque termal, mas também surgiram como atrativos a própria represa e as possibilidades de realizar esportes náuticos em suas águas, ao mesmo tempo em que se pode relaxar em suas margens, fazer um churrasco,
visitar a cidade velha e fazer compras (artesanato local, mel e seus derivados, alfajores etc.).
Em suma, ao analisar as práticas e representações dos turistas, pode-se concluir que os significados tradicionais das categorias de ócio e recreação no marco da prática turística tendem a se misturar com práticas lúdicas e de saúde, em geral. Ocorre, assim, uma específica ressignificação da recreação em torno da saúde, instalando-se como prática saudável e prazerosa, ao mesmo tempo. Representação que se produz, por um lado, devido ao caráter liminal da experiência turística e, por outro, devido a uma continuidade das funções de preservação e restauração da saúde relacionadas com o uso das águas e do equipamento termal (RAMÍREZ, p. 177).
SEGUNDA PARTE: PROCESSOS DE PATRIMONIALIZAÇÃO E APROVEITAMENTO TURÍSTICO
A Segunda Parte da tese tem como objetivo discutir as diversas possibilidades de patrimonialização da cultura termal. Este reconhecimento pode se dar a partir dos elementos que a constituem, ou seja, a partir da própria água termal, com todas as características físico- químicas que lhe são peculiares em cada lugar em que se encontra, a partir das instalações arquitetônicas em que esta água termal pode ser aproveitada, com seu legado histórico, e a partir da paisagem que fica no seu entorno, isto é, de todos os outros atributos naturais e construídos que são como que uma extensão sua e, ao mesmo tempo, condição para sua existência.
Cabe distinguir que a patrimonialização pode ser tanto reivindicada pelas comunidades locais como atribuída pelas esferas de jurisprudência correspondentes. Neste ultimo caso, contribuiria para o reconhecimento como patrimônio a constatação de que esta atribuição encontra, entre os habitantes e turistas deste território, ressonâncias, para utilizar a terminologia de José Reginaldo Santos Gonçalves.80
Por ressonância, Gonçalves se refere ao poder que um patrimônio ou um recurso natural tem de atingir um universo mais amplo, ao poder que tem de evocar no expectador as forças culturais complexas e dinâmicas das quais ele emergiu e das quais ele é, para o expectador, o representante.
A patrimonialização também depende de que estes elementos constituidores da cultura termal encontrem eco nas comunidades envolvidas. Como veremos, a patrimonialização, de maneira geral, e a patrimonialização de um recurso natural, como a água termal, está longe de ser consenso e envolve conflitos tanto dentro dessas comunidades observadas quanto entre os que são considerados os “de fora” delas.
Pessoas que trabalham com o turismo termal, que o gerenciam, pessoas que moram nessas localidades em que se explora a água termal, nasceram ali ou se mudaram para ali têm impressões convergentes e díspares a respeito dessas mesmas águas. As águas termais, como tais, adquirem um conjunto de significados que remetem a uma questão
80 www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-
71832005000100002&script=sci_arttext. Revista Horizontes antropológicos online. Consulta feita em 26 de junho de 2013.
recorrente na antropologia: a relação entre o natural e o cultural, discutida, entre outros, por Lévi-Strauss.