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Qu’en est-il des structures conformes ?

Dans le document Géométrie des surfaces singulières (Page 100-104)

Como acabamos de ver, no séc. XIX, pensadores como Comte, Mach e Poincaré já haviam advogado a eliminação da metafísica. No entanto, essa eliminação circunscrevia-se à ciência. A metafísica exercida fora do âmbito da ciência era tolerada. A aversão à metafísica atingiria o auge com o movimento que fundou a filosofia das ciências como disciplina académica já bem consciente de si própria e que dominaria a área durante grande parte do séc. XX: o positivismo lógico. ‘Positivismo’, precisamente, porque os seus fundadores seguiam a premissa positivista de Comte segundo a qual o pensamento humano tinha atingido, com a ciência, o culminar de um longo progresso cujas fases anteriores, agora ultrapassadas, eram a metafísica e a teologia.

O movimento do Círculo de Viena, constituído por um grupo de filósofos e cientistas (Moritz Schlick, Rudolf Carnap, Otto Neurath, Hans Hahn, entre outros) que se vinha reunindo regularmente desde 1924, pretendia fazer cumprir a marcha progressiva do pensamento proposta por Comte: chegara a era da ciência, a era da superação da metafísica. Para tanto, tentaram suprimir (überwinden) toda e qualquer metafísica do conhecimento. A geometria euclidiana, a lógica aristotélica e a mecânica newtoniana viram o seu longo reinado chegar ao fim. A extrema confiança na ciência exibida pelos membros do Círculo de Viena fora inflaccionada pela nova matemática e a nova física da viragem do séc. XIX para o séc. XXI. Crentes de que só existia um método para o conhecimento do mundo objectivo, o das ciências físicas e biológicas, não viam qualquer valor cognitivo na metafísica. O Círculo de

Viena afirmou-se em 1929 através do seu Manifesto, Wissenschaftliche Weltauffassung: Der Wiener Kreis (A Concepção Científica do Mundo: o Círculo de Viena), cuja tese central era a de que as proposições metafísicas não têm valor cognitivo, uma vez que não têm sentido. Para os positivistas lógicos, compreender uma proposição era enumerar os dados observáveis graças aos quais é possível determinar o seu valor de verdade. Isso possibilitou-lhes manter uma distinção de natureza entre as proposições científicas e as proposições metafísicas, sendo estas consideradas sem sentido (sinnlose Satze), dado que não são enunciadas em termos de formalização lógica ou de observação no sentido estrito.

O Wissenschaftliche Weltauffassung: Der Wiener Kreis mencionava a influência de cinco domínios científicos sobre o novo empirismo que defendiam: o positivismo e o empirismo, o estudo dos fundamentos, objectivos e métodos das ciências empíricas, a lógica e as suas aplicações à realidade, as axiomáticas, o hedonismo e a sociologia positivista. E colocavam- se sob a égide de três representantes da ‘concepção científica do mundo’: Albert Einstein, Bertrand Russell e Ludwig Wittgenstein24. Declaravam-se ainda adversários das escolas neo- kantianas.

A fonte desta então nova vaga de hostilidade contra a metafísica foi a filosofia de Comte e Mach, não a de Bacon25 ou Kant. O Manifesto propunha o retorno a uma concepção empirista do conhecimento, uma vez que, segundo acreditavam, o a priorismo de Kant, que identificava erroneamente o espaço euclidiano e a estrutura do espírito humano, se desagregara com o advento da geometria não-euclidiana do matemático Bernhard Riemann. Com a nova geometria, a crença nos poderes do senso comum e da metafísica, que a tradição filosófica tinha como fundação da ciência, sofrera um sério revés. Nesta ordem de ideias, a filosofia da ciência deveria ser reconstruída desde o início de modo a banir toda a possibilidade de metafísica. Consistiria antes numa ‘concepção científica do mundo’ com maior consistência e muito mais exigente a nível lógico.

24 Embora se reclamassem herdeiros de Wittgenstein, este nunca teve a intenção de promover uma concepção

científica do mundo. A sua reflexão nunca se inscreveu na perspectiva de uma filosofia da ciência. Wittgenstein, aliás, não se revia na interpretação que dele fazia o Círculo de Viena.

25 Francis Bacon culpava a metafísica pela estagnação que se sentia nas academias e dirigiu depois essa

hostilidade contra toda a metafísica. Considerava que o problema da metafísica era ser especulativa, pré- concebida. E constatou que era demasiado fácil confirmar metafísicas que se opõem. Expressou ainda a convicção de que a ciência acabaria por ter uma metafísica bem fundada cientificamente contra a qual não haveria objecções.

A filosofia do Círculo de Viena, o ‘positivismo lógico’, assentava, como o termo sugere, numa síntese entre o sensacionismo de Ernst Mach (1838-1916) e a lógica. Tratava-se esta lógica, não da lógica formal de Aristóteles, nem da lógica transcendental de Kant ou da lógica especulativa de Hegel, mas da lógica matemática que nascera nos finais do séc. XIX com Gottlob Frege, com Bertrand Russell e Alfred North Whitehead, assim como com Ludwig Wittgenstein, como um esforço para ultrapassar os paradoxos resultantes da teoria dos conjuntos. Nos seus Principia mathematica (1910-1913), Bertrand Russell e A. N. Whitehead haviam mostrado o papel da lógica na análise dos fundamentos da matemática. Os positivistas lógicos pretendiam, pois, uma filosofia capaz de pensar matematicamente, à qual pudesse ser aplicado o método de retradução numa linguagem formal através de regras de cálculo. Concebiam a lógica como uma linguagem tautológica cuja função era exprimir adequadamente as verdades da experiência.

O projecto do Círculo era conseguir uma unificação do saber científico sob um método comum a todas as ciências, de tal modo que estivesse ao abrigo não só do erro mas da acumulação de conceitos vazios de sentido e de pseudo-problemas metafísicos que tantas discussões filosóficas haviam originado. Ora, essa unificação do saber e a constituição desse método geral supunham, segundo acreditavam, duas condições inseparáveis: o respeito pelos factos e, portanto, a fidelidade à experiência, mas também a elaboração de uma linguagem comum e exacta, a lógica, capaz de denunciar todas as proposições desprovidas de sentido.

Como referimos, o positivismo lógico tinha como esperança suprimir ou ultrapassar a metafísica. No entanto, e veremos isso mais tarde no caso de Rudolf Carnap, consideravam que havia uma metafísica neutra e uma metafísica francamente má. A segunda, cujas proposições são frases sem sentido (unsinnig), resultado de erros lógicos, como as da dialéctica hegeliana ou da ontologia heideggeriana, é aquela que é criticada por Ludwig Wittgenstein no seu Tratactus Logico-Philosophicus (1922):

(…) o método correcto da Filosofia seria o seguinte: só dizer o que pode ser dito, i.e., as proposições das ciências naturais – e portanto sem nada que ver com a Filosofia – e depois, quando alguém quisesse dizer algo de metafísico, mostrar-lhe que nas suas proposições existem sinais aos quais não foram dados uma denotação. 26

26 Ludwig Wittgenstein (1922) Tratactus Logico-Philosophicus, 6.53. Edição portuguesa: Tratado Lógico-

Wittgenstein instigava mesmo os seus discípulos a jamais contradizerem os metafísicos, uma vez que tentar negar uma afirmação metafísica equivalia a reconhecê-la como tendo sentido. Todavia, para os positivistas lógicos como Carnap, existiam também teses metafísicas que não são nem intrinsecamente absurdas nem ininteligíveis. É o caso do idealismo e do materialismo que se apresenta também sob a forma da oposição entre fenomenalismo (o mundo que é objecto da nossa consciência compõe-se dos dados sensoriais da nossa experiência) e fisicalismo (o mundo é uma realidade material que nos é exterior). Apesar de não serem intrinsecamente absurdas nem ininteligíveis, estas teses são olhadas por Carnap como meras opções de linguagem que podem ser adoptadas alternadamente de acordo com critérios pragmáticos.

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