Mas, além deste episódio ilustre, a ambiguidade e imprecisão em torno do estatuto, objecto e âmbito da metafísica, que serão uma constante ao longo de toda a sua história, surgem desde logo com Aristóteles. Ele próprio revela os embaraços, hesitações e as grandes dificuldades com que se defronta:
A nossa ciência deve considerar apenas os primeiros princípios da substância, ou deve abraçar também os princípios que estão na base de todas as demonstrações, tal como: É possível ou não afirmar e negar, ao mesmo tempo, uma só e a mesma coisa? E outros princípios semelhantes. E se a ciência em questão se ocupa da substância é uma ciência que se ocupa de todas as substâncias ou existem várias e, se há várias, são elas de um género comum, ou temos de ver umas como partes da Sabedoria e outras como qualquer coisa de diferente? Eis ainda uma questão que entra nas coisas que devemos necessariamente discutir: saber se devemos reconhecer apenas as substâncias sensíveis ou se há ainda outras para lá delas; se essas outras substâncias são de um só género ou se há vários géneros como pensam aqueles que supõem, além das Ideias, as Coisas matemáticas intermediárias entre o mundo das Ideias e o mundo sensível. É preciso examinar todas estas dificuldades, dizemos nós, e também a de saber se o
nosso estudo se deve aplicar tão só às substâncias ou se deve aplicar também aos atributos essenciais das substâncias. 31
No Livro I da Metafísica, o conhecimento das primeiras causas (aitia) e primeiros princípios (archai) é identificado com a ‘sabedoria’ (sophia) e com a filosofia primeira (protê philosophia). No Livro IV, Aristóteles descreve a nova disciplina como a investigação sobre o ser enquanto ser (to on heî on), possível pelo facto de todos os sentidos de ser estarem relacionados com uma única noção central: a substância. O ser enquanto ser diz-se, antes de mais, da substância, relacionada com as entidades através da essência. Sem conhecer as essências (ousia), aquilo em virtude do qual as coisas são o que são, não se pode prosseguir na via do conhecimento da realidade. No entanto, o ser realiza-se tanto na substância como nos acidentes, embora de maneira diversa e não deve ser tido como um género do qual as substâncias e seus acidentes são espécies. Como o ser se diz de múltiplas maneiras32, Aristóteles abandona, portanto, a univocidade parmenideana, sem abandonar, contudo, o princípio lógico-ontológico da não contradição.33 O Livro VI da Metafísica trata da ciência suprema que investiga o género superior de substância, o divino; portanto, é teologia, ou melhor, teológica (theologikê). Ora, a relação entre estas diferentes designações (ciência do
31
Met. 995b 5-15. Edição francesa: Aristóteles, La Métaphysique, Tome 1, tradução de Jean Tricot, Paris: Vrin, 1981.
32 Met. 1003a 30-35. Edição francesa: Aristóteles, La Métaphysique, Tome 1, tradução de Jean Tricot, Paris:
Vrin, 1981.
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Para Parménides o ser é uno, é absolutamente, integralmente, homogeneamente e só o ser pode ser pensado. O não ser não pode ser pensado, nem dito, nem mostrado, assim como a multiplicidade, aquilo que, de alguma maneira, não é, por estar sujeito à mudança e à corrupção, ou por existir em estado de potência. Ou seja, os objectos das ciências, múltiplos, perecíveis, corruptíveis, sujeitos ao espaço e ao tempo, não podem ser pensados. Para Parménides, a ciência não era possível: “Vamos, vou dizer-te – e tu escuta e fixa o relato que ouviste – / quais os únicos caminhos de investigação que há para pensar: / um que é, que não é para não ser, / é caminho de confiança (pois acompanha a verdade); / o outro que não é, que tem de não ser; / esse te indico ser caminho em tudo ignoto, / pois não poderás conhecer o não ser, não é possível, / nem mostrá-lo […].” Antes de toda a investigação acerca dos entes, de toda a presença ôntica, era necessária a investigação acerca das possibilidades ontológicas, assim como da impossibilidade do não-ser, ao qual o ser se opõe de um modo muito mais fundamental do que aos entes. Em Parménides encontra-se já, assim, uma necessidade consciente de reflexão acerca daquilo que está para lá da experiência, para lá de toda a mudança e multiplicidade dos entes. Mas Parménides não só reflectiu sobre o que pensar acerca da realidade, do ser, como foi o primeiro a reflectir sobre aquilo em que consiste o pensamento acerca dessa realidade: “pois o mesmo é pensar e ser”. Propôs um método dedutivo a partir de princípios a priori, como o princípio de não-contradição (não se pode dizer nem pensar o que é a partir do que não é) e o princípio de que apenas há uma via que pode ser pensada e verbalizada: o ‘o que é’. A resposta de Platão a este problema do uno e do múltiplo, será, como se sabe, a teoria da participação: o múltiplo, na medida em que participa do uno, tem pelo menos alguma parcela de ser (Platão, Sofista, 237a-249d).Edição portuguesa: Parménides, Da Natureza. Tradução de José Trindade Santos, Queluz: Alda Editores, 1997.
ser enquanto ser, filosofia primeira, sabedoria, e até teologia) está longe de ser clara.
Como investigação do ser enquanto ser, o ser comum a todas as coisas, a metafísica debruça- se sobre o aspecto mais geral dos objectos de todas as ciências, aquilo que partilham em comum, e os constrangimentos a que estão sujeitas todas as diversas entidades. Estuda o que é mais geral, o universal. Quanto à relação que estabelece com as ciências, a metafísica investiga o ser enquanto ser e as outras ciências investigam partes desse ser, tipos de ser, categorias restritas do ser. Aristóteles via a actividade científica, portanto, como parte da metafísica, ideia que se prolongou até ao séc. XVIII.
Enquanto filosofia primeira, Aristóteles atribui à metafísica um papel primordial, como disciplina da qual todas as outras dependem, aquela que se debruça sobre a natureza fundamental da realidade. Há uma prioridade lógica da metafísica; esta é o ponto de partida e também o mais fundamental, aquilo que determina tudo quanto dali se segue. O termo ‘primeira’ não remete, assim, para um primeiro momento meramente temporal que se desvaneceria com o advento de outros, mas para uma matriz primacial que, pelo contrário, jamais desaparece, que está sempre presente em tudo quanto dela brota. É assim ainda que, muitas vezes, essa presença primeira seja de tal modo discreta que passa despercebida. A filosofia primeira é primeira porque as outras disciplinas derivam dela. Nem a física, nem a lógica podem ser fundamento, são apenas filosofias segundas.
A metafísica surge ainda em Aristóteles como teológica (theologikê). O termo ‘filosofia primeira’ parece indicar, não só o primado da metafísica na ordem dos saberes, mas também na ordem dos objectos. Com efeito, Aristóteles afirma que o saber da filosofia primeira é o mais elevado34, que a metafísica é a mais eminente das disciplinas porque trata do objecto mais eminente (e já não porque as outras ciências se restringem a um tipo de ser determinado). Os objectos da física são ‘inseparáveis’, isto é, inseparáveis da matéria, e ‘móveis’. Alguns ramos da matemática estudam os seres imóveis, é certo, mas ‘provavelmente’ inseparáveis da matéria e como que comprometidos com ela. A filosofia primeira, essa, debruça-se sobre os seres ‘separados’ e ‘imóveis’.35 E Aristóteles acrescenta
34 Met, 1005a 33-34. Edição francesa: Aristóteles, La Métaphysique, Tome 1, tradução de Jean Tricot, Paris:
Vrin, 1981.
35 Met, 1026a 10-20. Edição francesa: Aristóteles, La Métaphysique, Tome 1, tradução de Jean Tricot, Paris:
então, cautelosamente: “se o divino está presente em alguma parte, está presente nessa natureza imóvel e separada.”36
Se assim é, então a filosofia primeira torna-se teologia, a disciplina que trata do divino, do ser imóvel e separado, eterno, primeira causa e primeiro princípio de todas as coisas. É divino, não no sentido de ser o princípio da existência do mundo, mas porque é a causa do seu movimento, o Primeiro Motor Imóvel que, uma vez tendo posto o mundo em movimento, o abandona. A união da ontologia e da teologia aristotélica é, portanto, muito diferente da mesma união num contexto cristão no qual Deus é Criador, causa da existência.
Nesta ordem de ideias, a metafísica como filosofia primeira que se debruça sobre o ser imóvel e separado, o divino, é parte da disciplina que trata do ser enquanto ser, aquele outro sentido de metafísica cujo objecto é o mais geral. Acresce que, na obra de Aristóteles, a disciplina que trata do ser enquanto ser parece sobrepor-se à teologia como filosofia primeira. Com efeito, só no Livro XII da Metafísica é que Aristóteles se consagra a questões teológicas. Os restantes livros consagram-se aos seres sensíveis, com a excepção de dois deles, dedicados aos seres matemáticos. Parece legítimo concluir então que, para Aristóteles, a metafísica não se ocupa apenas dos seres separados e imóveis, do motor imóvel. Ocupa-se grandemente dos seres sensíveis e dos seres matemáticos porque, sem compreender estes seres, não se pode compreender o ser enquanto ser. Do ser enquanto ser pouco pode ser dito, pois não é objecto de prova sensível nem de demonstração.
Frédéric Nef vai no mesmo sentido. Na análise que leva a cabo da metafísica de Aristóteles37, conclui que ela é plural: é uma arqueologia (a ciência dos princípios últimos das ciências), é uma ontologia (a ciência do ser enquanto ser), uma ousialogia (a ciência da substância) e uma henologia (a ciência do um). Mas não uma teologia:
Nada permite afirmar que Aristóteles identifica a ciência suprema com uma teologia existente, uma vez que a sua crítica radical das teologias pré-socráticas inclina fortemente a pensar o contrário. Aristóteles é extremamente discreto sobre a forma que toma a experiência do divino (...) e parece que ele adere à ideia de uma experiência especificamente filosófica que não toma
36 Met, 1026a 20-21. Edição francesa: Aristóteles, La Métaphysique, Tome 1, tradução de Jean Tricot, Paris:
Vrin, 1981.
as formas tradicionais (como a iniciação ou os mistérios), as quais também não sente necessidade de criticar. A posição de Aristóteles sobre a teologia (que é, para os gregos, um assunto dos poetas - Hesíodo, Homero...) é complexa. Ele rejeita alguns aspectos zoomórficos ou antropomórficos dos deuses, mas reconhece a sua existência, depurados até serem apenas simplesmente seres vivos imortais que gozam de felicidade (...) Tudo isto nos deve levar a ter muito cuidado com as traduções que utilizam "Deus" em vez de theos (a divindade). Por outro lado, a Teológica não deve ser entendida como uma antecipação da nossa teologia. 38