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Qu’est-ce qu’une organisation?

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Organisations multi-agents

3.1 Qu’est-ce qu’une organisation?

Os integrantes do VagaMundos se consideravam parte de uma comunidade direcionada ao aprendizado e ao estudo. Não por acaso, o professor Cavalcante sempre se referia, em seus e-mails, a um agrupamento relativamente coeso e detentor de uma identidade. Deste modo, no período em que o tema de estudo era a felicidade, e o grupo era denominado de RELUS – Rede Lusófona de Estudos da Felicidade, os e-mails tendiam a começar com “reluzentes”. Algumas vezes, o senso de comunidade era expresso explicitamente, e a palavra “comunidade” era empregada.

Assim, em e-mail enviado em 16 de outubro de 2006, o professor Cavalcante utiliza o termo “comunidade de aprendizagem” para designar o grupo. Curiosamente, Benedito denomina o VagaMundos de maneira semelhante em sua resposta ao questionário, e contrapõe esta noção a um “grupo de pesquisa”:

Segundo, tenho o RELUS [VagaMundos] como uma comunidade de aprendizagem, não como um grupo de pesquisa, com isso, quero dizer que entendo que aquelas reuniões tinham um caráter institucional e não institucional, no sentido de que havia pessoas vinculadas ali por bolsas e certificados de projetos da universidades e outras porque foram convidadas e tinham interesse em compartilhar o conhecimento e os afetos que por ali transitava.

Deste modo, Benedito parece dividir o VagaMundos em dois: a dimensão institucional, na qual se apresenta como um grupo de pesquisa e se organiza pelas bolsas e certificados acadêmicos, e outra, não-institucional, compreendida como uma comunidade de aprendizagem pautada pelo “compartilhar” de conhecimentos e afetos. Ainda que não coadune com a perspectiva de Benedito, entendo que ela não é desprovida de razões. Como descreverei adiante, em determinado momento houve um conflito interno entre diferentes imagens que o grupo tinha sobre si mesmo.

De qualquer maneira, esta autocompreensão do grupo como uma comunidade atuava em duas dimensões. Em relação ao exterior, nos distinguíamos daqueles que não pertenciam ao grupo – ainda que não se desse um fechamento, efetivamente. Em relação ao interior, constituía a noção, já aludida anteriormente, de que as relações entre os membros não eram apenas adjacentes às atividades e às práticas performadas pelo grupo, mas era indissociável destas.

169 Tomado como matéria-prima de tudo que ocorria no grupo, o pensar era interpretado como um fenômeno essencialmente coletivo, e não individual. Da mesma maneira era concebida a formação profissional como psicólogos clínicos, que não era interpretada como apartada da formação intelectual.

Neste sentido, uma integrante do VagaMundos, Lica, publicou numa rede social, em 16 de outubro de 2019, a seguinte mensagem:

Desafios, aprendizagens e amigos, esses eram os ingredientes do meu tempo de graduação em psicologia. Tive o privilégio de ser parte de um grupo de pesquisa que era também um grupo de intervenção (chamado Projeto Florescer). Éramos uns 15 membros, de diversos semestres, e um prof. orientador (o mestre). Passávamos muitas horas atendendo, estudando, conversando e partilhando a teoria/prática/vida.

Não era incomum as longas conversas nos bancos da universidade, por vezes discordando de algum aspecto teórico, tantas outras vezes nos acolhendo de um atendimento de Plantão [Psicológico].

Hoje afirmo que, sem parcerias, o caminho para se tornar um terapeuta é mais árduo. É ação de autocuidado, portanto, encontrar os semelhantes, se abrir ao outro e tecer essa rede de cuidado. É como dizem... “quer ir mais rápido vá sozinho/quer ir mais longe vá acompanhado”.

Deste modo, este grupo de estudos se organizava como uma comunidade, desde as relações afetivas e pessoais (conversas nos intervalos das aulas, viagens em finais de semana, comemorações de aniversário etc.) até os momentos mais diretamente vinculadas à produção do conhecimento (formação de grupos de estudos, ligações para tirar dúvidas e debater uma questão teórica, organização de eventos acadêmicos etc.). As relações afetivas eram essenciais na composição desta comunidade. Porém, os afetos não eram compreendidos como distintos dos momentos destinados ao estudo. Ainda que pudesse haver uma distinção espaço-temporal pontual entre estes dois – na maior parte das vezes não existia -, mesmo assim os membros do grupo consideravam tal distinção temporária e circunstancial.

As palavras do estudo eram, até certo ponto, as mesmas do afeto, o que se pode concluir que na maior parte das vezes o afeto se dava pelo estudo em conjunto, assim como o estudo começava pela ação de um afeto. A possibilidade desta combinação entre os afetos e o estudo se dava porque ambos eram articulados, essencialmente, como experiências coletivas cerzidas por meio das palavras. Nossos afetos eram, acima de tudo, literários.

Como os afetos e o estudo que se enovelavam por meio da palavra, em decorrência das múltiplas práticas intelectuais e coletivas realizadas no VagaMundos, também o pensamento pedia um complemento: quase sempre “pensar” era o convite para “pensar juntos”. A palavra, principalmente a escrita, era mais uma vez a fiadora da prática do pensamento. As conversas intermináveis por meio de trocas de e-mails, as oficinas de escrita, os capítulos escritos a quatro ou seis mãos, os textos-sentidos compartilhados, toda oportunidade de escrita marcava o momento também de uma relação e de um impulso para pensar.

170 Esta forma de “pensar” e de criar conhecimento a partir de um trabalho intelectual prático e coletivo era interpretado, interna e externamente, como traços característicos dos membros desta comunidade de estudos. Ou seja, as práticas de saber engendradas no grupo criavam, também, um certo tipo de pessoa, como ocorre nas comunidades de prática (WENGER, 2010)162. Isto provocava um efeito de distinção, não no sentido da hierarquização, no contexto universitário onde estávamos inseridos. Muitas vezes, durante a graduação e como profissional, fui reconhecido por uma pessoa ou um grupo como um integrante do VagaMundos, sendo esta a minha identidade referencial para estes interlocutores.

O mesmo ocorre quando eu mesmo penso sobre a minha formação. A minha identidade está mais relacionada ao VagaMundos do que à própria Unifor ou à graduação em Psicologia – por isso o foco desta tese no grupo de pesquisa. Além disso, realizávamos ações que reforçavam esta identidade, não apenas para nós mesmos, mas também externamente: foram confeccionadas camisas do grupo de pesquisa, com uma logo criada para representar, imageticamente, esta comunidade. Nenhum dos integrantes do grupo de estudos era obrigado a usá-las, mas a maior parte optou por adquiri-las e vesti-las.

A identidade relacionada ao VagaMundos, porém, não era unívoca. Assim como ocorria com a metodologia utilizada para organizar a estrutura e a dinâmica do grupo, pautada na multiplicação das instâncias grupais (GT´s) e nos enfoques dados a um tema em estudo, a comunidade de estudos também multiplicou suas ramificações institucionais, excedendo as reuniões de “pesquisa” realizada nas quartas-feiras. Diferentes tipos de filiações, e consequentemente de identidades, surgiram e se mantiveram vinculadas ao VagaMundos, ainda que não estivessem totalmente integradas a ele. Descrevo abaixo quais foram elas, explicitando, desde já, que participei diretamente de todas.

Em novembro de 2005, como um desdobramento do primeiro semestre de investigação sobre o tema da felicidade, foi redigido e realizado um projeto piloto que intencionava a criação de um grupo de intervenção terapêutica. Denominado de Grupo de Florescimento Humano – GFH, esta metodologia pretendia “reunir pessoas para compartilhar experiências de vida boa, em um espaço de conscientização crítico-cultural acerca das significações dessas experiências, em suas diferentes interações e contextos sociais” (SOUSA; CAVALCANTE JUNIOR; ABUD, 2008). O GFH foi aplicado em diversos contextos sociais, a maior parte em instituições de saúde, e se tornou um “braço” do VagaMundos relativamente independente, uma vez que

162 O VagaMundos, enquanto uma comunidade de estudo, possuia muitas características semelhantes ao que

Wenger (2001) denominou como uma comunidade de prática. Esta é uma delas, o processo de subjetivação, ou de formação de identidade, que engedrava em seus membros.

171 era facilitado, pesquisado e desenvolvido apenas por alguns dos integrantes do grupo de pesquisa. As reuniões deste grupo eram feitas à parte dos encontros formais do grupo de estudo. Em fevereiro de 2006, foi criada a primeira turma do Curso de Formação em Abordagem Centrada na Pessoa - ACP. Ministrado pelo professor Cavalcante Junior e com duração prevista de dois anos, este curso pretendia oferecer conhecimentos práticos e teóricos sobre a Abordagem Centrada na Pessoa, um sistema teórico-prático pertencente à Psicologia Humanista163. Além desta primeira turma, da qual fui um dos estudantes, outras foram iniciadas nos anos subsequentes. Apesar de ser um curso pago, sem vinculação formal com a graduação ou com a pós-graduação em Psicologia da Unifor, muitos estudantes que participaram desta “formação”, em especial da primeira turma, eram provenientes do VagaMundos. As aulas eram semanais, nas noites de segunda-feira.

No final de 2006, três alunos de graduação do curso de Psicologia na Unifor, um psicólogo e uma arquiteta – os quatro primeiros eram participantes do VagaMundos e do curso de formação em ACP, enquanto a última integrava apenas o segundo - iniciaram a criação de uma ONG, denominada de Casa do Ipê – Instituto Cearense da Pessoa. Contando com a ajuda do professor Cavalcante, o intuito desta organização era oferecer cursos e serviços a partir do prisma de uma “saúde integral”. Durante meses, em reuniões que ocorreram na casa de um dos envolvidos, conversamos e desbaratamos os detalhes formais e burocráticos da criação desta ONG. Também desenvolvemos um modelo de atendimento terapêutico integral, o MAPT – Modalidade de Atendimento à Pessoa Total, que seria o serviço principal a ser ofertado pela Casa do Ipê.

No início de 2007, teve início o Projeto Florescer, um conjunto de modalidades clínicas ofertadas no NAMI – Núcleo de Atendimento Médico Integrado, pertencente à Universidade de Fortaleza, por estagiários de Psicologia sob a orientação do professor Cavalcante. Os atendimentos psicológicos, em sua maior parte, ocorriam às quartas-feiras pela manhã, das 8h às 13h, enquanto as supervisões eram realizadas nas quinta-feiras, das 8h às 12h.

Ao levar em consideração o somatório de todos esses grupos derivados e vinculados ao VagaMundos, com suas respectivas cargas horárias, o resultado são 16 horas semanais de participação em ambientes destinados à prática e à reflexão espelhadas no mesmo princípio de

163 Apesar de sua origem remontar às atividades e às pesquisas clínicas desenvolvidas pelo psicólogo Carl Rogers,

a Abordagem Centrada na Pessoa foi aplicada em diversas esferas da vida social, com diferentes temas e por distintas classes profissionais. Assim, faz parte do leque de atividades e estudos desenvolvidos por Rogers, além da psicologia clínica: a mediação de conflitos, a educação centrada no estudante, estudo sobre as novas formas de relações familiares, a facilitação de experiências comunitárias etc. Desta maneira, o próprio curso de formação em ACP não era composto exclusivamente de psicólogos, ainda que estes fossem a maioria. Eram estudantes, também, uma arquiteta, uma educadora física e um professor de inglês.

172 estudo que regia as reuniões da quarta-feira à noite. Nestas horas aludidas não está incluso, porém, o tempo que era destinado ao GFH e à Casa do Ipê, variáveis semanalmente, além das atividades associadas a todos estes grupos, mas que não faziam parte das reuniões formais. Além disso, havia uma ampla convivência entre os membros desta comunidade de estudos, durante o período de aulas e também no período de lazer. Inúmeras vezes aproveitávamos os bosques, o Centro de Convivência, as pequenas lanchonetes para conversarmos, debatermos e, como dizíamos, “pensarmos juntos”. Como afirmou Dalila, no questionário que respondeu:

E, algo, muito prazeroso eram os encontros fora do âmbito acadêmico, assim, estreita-se os laços e havia muito aprendizado das habilidades socioemocionais, além de reflexões como pessoa (não só como acadêmico)

Assim, transversal às reuniões formais das quartas-feiras existia uma arquitetura complexa e intensa de sociabilidade sendo desenvolvida, em maior ou menor grau, pelos integrantes do VagaMundos. Muitas vezes, uma mesma questão ou debate incidia em todas as atividades vinculadas ao grupo: surgida na segunda-feira, no curso de formação em ACP, ela poderia chegar à quarta-feira, na reunião original do grupo de estudos e retornar na quinta-feira, na supervisão dos estágios em clínica. Isso porque todos estes grupos derivados do VagaMundos possuíam objetivos próprios, com regras e metodologias particulares, mas todos pertenciam a uma mesma comunidade; ou, talvez, eram como se fossem comunidades de aprendizagem entrelaçadas umas às outras, e porosas aos acontecimentos vividos em cada uma delas.

Desta forma, as modulações de sociabilidade, próprias de cada um destes contextos, promoviam também modulações na prática do estudo. Esta convivência acentuada me convidava, muitas vezes, a experimentar o deslocamento de ideias, textos, pensamentos, afetos para diferentes contextos de prática, com suas regras de sociabilidade, expectativas institucionais e dinâmicas intelectuais particulares. Estas diferentes instâncias grupais se comunicavam por uma lógica de “ressonância”, em que um evento, tema ou questão surgido num ambiente repercutia, em outra tonalidade, nos demais.

Ao reler os e-mails da época, a sensação é que eles serviam como aquedutos virtuais a ressonar e traduzir, constantemente, as várias práticas realizadas em cada contexto que compunha a rede que se tornara o VagaMundos. Muitas vezes era pela troca de e-mails que um assunto ou reflexão que não fora finalizado numa das reuniões semanais era reavivado e finalizado, permitindo que adentrasse, já modificado, em outra reunião naquela mesma semana.

173 A multiplicação destas instâncias grupais, como já apontado, é efeito da metodologia que orientava a dinâmica e a organização do grupo de estudos164. Porém, é curioso que estas ramificações tenham se intensificado, e ampliado, justamente quando o o Programa de Pós- Graduação em Psicologia da Unifor passou a pressionar pelo cumprimento de metas institucionais, em especial as publicações científicas. Até o momento em que estas solicitações eclodem, para mim e para outros membros, o vínculo do grupo com o Programa de Pós- Graduação em Psicologia/Unifor era visto como apenas uma formalidade, sem que este fosse capaz de influir, verdadeiramente, nos objetivos, nas práticas e nas concepções de investigação que caracterizavam o VagaMundos.

Em novembro de 2006, porém, um e-mail foi enviado pelo professor Cavalcante solicitando que os integrantes do grupo se dedicassem à publicação de capítulos de livros e artigos em periódicos acadêmicos. Alguns dias depois, em outro e-mail, foi anexada uma tabela com os textos já publicados em periódicos e em livros, explicitando o nome dos autores. O professor Cavalcante exortava, novamente, para que pudéssemos aumentar o número de publicações, de preferência ainda naquele ano.

Relusentes,

Segue em anexo a lista 2006-2007 de nossos artigos publicados, aceitos ou encaminhados. Gostaria de ver esse número duplicado até o final de dezembro de 2006.

Um abraço, Cavalcante Jr.

A partir deste momento, e-mails relativamente frequentes foram enviados contendo menções às publicações. Alguns deles buscavam frisar a importância de publicar os textos que estavam sendo produzidos, outros compartilham, por meio da tabela atualizada, o sucesso ou não desta empreitada, enquanto outros, por fim, comunicavam estratégias criadas para facilitar a produção de artigos científicos165. Vivíamos, então, o início da “questão das publicações” – o

164 Também se assemelha ao resultado do Programa de Letramentos, realizado pelo professor Cavalcante Junior

no município de Itapajé, no Ceará. Nesta experiência, foram criados, inicialmente, sete Círculos de Letramentos, que se tornaram, por sua vez, trezentos e quinze em apenas alguns anos (CAVALCANTE JUNIOR, 2005).

165 Nos e-mails que reli não existiam referências ao Programa de Pós-Graduação em Psicologia como fonte desta

mudança de perspectiva. Também não possuo nenhuma lembrança, clara e consistente, de alguma reunião do VagaMundos na qual tenha sido explicitado que o grupo sofria pressão para publicar pelo seu vínculo com a pós- graduação – é muito provável, porém, que tenha acontecido. De qualquer maneira, eu e muitos outros membros do grupo sabíamos que o que estava em jogo naquele momento era a produtividade de um grupo de pesquisa pertencente a um programa de mestrado, por sua vez avaliado a cada três anos (na época) pela CAPES – Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior.

174 momento em que publicar se tornou uma questão – que perdurou, com maior ou menor intensidade, até à dissolução do grupo, com a mudança do professor Cavalcante para a Universidade Federal do Ceará.

Os quase trinta meses de atividades de investigação realizadas no VagaMundos anteriores aquele momento limiar do final de 2006 nos formou em algumas competências necessárias ou benéficas à elaboração de artigos científicos: a experiência e o cuidado com a escrita, o hábito entranhado da leitura e várias ideias derivadas de um intenso processo de reflexão grupal. Porém, como demonstrado anteriormente, tais competências não eram direcionadas à realização de pesquisas, no sentido estrito, e à escrita de artigos científicos, mas sim ao estudo e a criação de textos capazes de, esteticamente, apresentar ideias entrelaçadas às experiências dos investigadores. Era preciso, então, redirecionar os esforços coletivos para este novo prisma de relação com o conhecimento.

Este redirecionamento ocorreu apenas parcialmente, demarcando a ambiguidade instalada no VagaMundos. Por um lado, aumentou a cobrança por publicações e foram criados artifícios para incentivar a “produção acadêmica”. É o caso da criação de uma comissão, liderada por um membro que havia terminado o mestrado e já publicara artigos científicos, destinada à ler os textos já produzidos no grupo, avalia-los a partir dos critérios próprios a uma escrita disciplinar direcionada a periódicos acadêmicos e orientar as mudanças necessárias para que tais textos se transformassem em artigos. Por outro lado, as práticas habituais daquela comunidade de estudo, direcionadas a criar um ambiente de investigação temática e experimentação com a escrita, continuaram a acontecer, quase da mesma maneira. Vivíamos uma espécie de esquizofrenia na comunidade – daí a percepção de cisão, apontada por Benedito. Esta ambiguidade estava presente, também, no discurso do professor Cavalcante, que ao mesmo tempo que cobrava a ampliação do número de publicações, também tentava modular a intensidade deste redirecionamento do VagaMundos. O próprio conceito de publicação é exemplar desta ambiguidade. Se, por um lado, se mostrava necessário orientar os esforços para a construção de textos potencialmente publicáveis em revistas científicas, por outro tentava manter certa amplitude de significados relacionados ao “publicar”, garantindo uma heterogeneidade de práticas não cabíveis na orientação anterior. Pode-se perceber isso no e- mail enviado no 04 de janeiro de 2007, pelo professor Cavalcante:

Estamos iniciando um novo semestre letivo, cuja ênfase será o compromisso de Publicação, cuja definição estou inspirando-me no modelo do Instituto de Artes da UNICAMP, conforme conversas com o Prof. Dr. João-Francisco Duarte Junior.

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Naquele departamento, publicar significa "tornar público" e como autor do conceito de letramentos, complemento, "publicar significa tornar público o que pesquisamos por meio das múltiplas formas de comunicação e expressão". Portanto, para publicar é preciso CRIAR. Que possamos em 2007 cultivar o prazer da criação.

Mais importante, ainda, é cumprirmos os compromissos assumidos. Vejam o quadro que segue anexo e me informem sobre o andamento de seus trabalhos submetidos e daqueles em fase de redação.

Ao que parece, o professor Cavalcante se mostrava receoso de que o grupo se tornasse uma espécie de indústria intelectual (NYBON, 2007), ou seja, um espaço de produção intelectual marcado por atividades de investigação fragmentadas, mas articuladas entre si, direcionadas ao progresso de um determinado saber disciplinar.

Esta percepção já havia sido expressa alguns meses antes, quando o professor Cavalcante decidiu não renovar a minha bolsa de iniciação científica, de comum acordo comigo, porque o meu perfil naquele momento não contemplava os requisitos de uma universidade cada vez mais parecida, em suas palavras, com uma indústria. Reproduzo abaixo um trecho do e-mail enviado em 13 de junho de 2006 sobre este assunto:

Caro Yuri,

Obrigado pelo envio do relatório final. Quando possível envie-me a capa também. Penso que esse tempo que você está passando (até 31 de julho de 2006) como meu bolsista institucional representou um grande salto de aprendizagem e maturação na sua vida. Por outro lado, vejo como é difícil para

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