5. QSPEC Functional Specification
5.2. QSPEC Parameter Coding
Instaura-se um diálogo
De início, em concordância com os caminhos que trilham a maioria dos teóricos da área do discurso, Saussure parece incompatível com Bakhtin. A asseveração ganha respaldo quando se atenta ao teor “estruturalista” do mestre de Genebra contraposto ao ponto de vista marcado pela ótica da Filosofia, ao se inaugurar uma “filosofia da linguagem” que é o arcabouço teórico do Círculo de Bakhtin.
O título de “filosofia” faz com que Bakhtin seja postulado enquanto um teórico da transcendência, que em termos lingüísticos, equivale àquilo que transcende a estrutura da língua, e por isso, está para além dela. Entretanto, quando o teórico russo se propôs a pensar a “linguagem”, deixou inúmeras pistas que fazem menção a um modo “estrutural” de enxergar a língua – e também a linguagem. É por isso que, a partir daí, os estudiosos, que acolheram o pensar filosófico-linguageiro de Bakhtin junto aos estudos que dizem respeito à Linguística, batizaram os conceitos encontrados na obra do teórico russo, de Análise Dialógica do Discurso. Afinal, Bakhtin propôs-se a estudar
o discurso ou seja, a língua em sua integridade concreta e viva e não a língua como objeto específico da linguística, obtido por meio de uma
abstração absolutamente legítima e necessária de alguns aspectos, abstraídos pela linguística, os que têm importância primordial para os nossos fins. Por esse motivo nossa análise (...) não são linguísticas no sentido rigoroso do termo. Podem ser situadas na metalinguística, subentendendo-a como um estudo-ainda não constituído em disciplinas particulares definidas- daqueles aspectos da vida do discurso que ultrapassam- de modo absolutamente legítimo- os limites da linguística. (BAKHTIN, 1997, p. 181)
Firma-se a partir daí que, de acordo com os estudiosos de Bakhtin, o método desenvolvido pelo Círculo é de caráter analítico, interpretativo e sociológico. O teor “analítico” e “interpretativo” se radicam numa herança advinda do Pai da Linguística de
(...) esmiuçar campos semânticos, descrever e analisar micro e macroorganizações sintáticas, reconhecer, recuperar e interpretar marcas e articulações enunciativas que caracterizam o(s) discurso(s) e indicam sua heterogeneidade constitutiva, assim como a dos sujeitos aí instalados (...), (BRAIT, 2005, p. 13)
enquanto o teor sociológico parte para outra direção:
(...) e mais ainda: ultrapassando a necessária análise dessa ‘materialidade lingüística’, reconhecer o gênero a que pertencem os textos e os gêneros que nele se articulam, descobrir a tradição das atividades em que esses discursos se inserem e, a partir desse diálogo com o objeto de análise, chegar ao inusitado de sua forma de ser discursivamente, à sua maneira de participar ativamente de esferas de produção, circulação e recepção, encontrando sua identidade nas relações dialógicas estabelecidas com outros discursos, com outros sujeitos.(BRAIT, 2005, p.13)
E não se deve esquecer que Saussure mencionou tal “sociabilização”:
Trata-se [a língua] de um tesouro depositado pela prática da fala por todos os indivíduos pertencentes à mesma comunidade, um sistema gramatical que existe virtualmente em cada cérebro ou, mais exatamente, nos cérebros de um conjunto de indivíduos, pois a língua não está completa em nenhum, e só na massa ela existe de modo completo. (SAUSSURE, 2012, P.47)
A distância firmada entre Saussure e Bakhtin pretende, nesta dissertação, ser problematizada com pressupostos da Semiótica: tanto em seu “núcleo duro” quanto em seus desdobramentos tensivos. E isso se verá adiante, neste escrito.
O projeto de Saussure
Ao centro das preocupações teóricas de Saussure estava o objetivo (e a necessidade) de transformar os estudos da linguagem numa ciência, a linguística. Isso porque até então a “ciência que se constitui em torno dos fatos da língua” (SAUSSURE, 2012, p.46) estava desprovida de qualquer “visão científica”.
Na primeira parte de seu Curso, em “Princípios gerais”, revela-se que “o signo lingüístico une não uma coisa e uma palavra, mas um conceito e uma imagem acústica” (SAUSSURE, 2012, p.106). Entende-se por conceito, o significado abstrato; e por imagem acústica, “a impressão (empreinte) psíquica desse som” (Idem ) chamado de significante. Os signos linguísticos exibem algumas propriedades primordiais, dentre elas: a arbitrariedade e a linearidade.
A arbitrariedade equivale a algo imotivado: “queremos dizer que o significante é imotivado, isto é, arbitrário em relação ao significado, com o qual não tem nenhum laço natural na realidade” (SAUSSURE, 2012, p.109), para que essa arbitrariedade de que se fala não seja confundida com o arbítrio do sujeito, como se tudo dependesse de sua livre escolha no ato de enunciar.
A linearidade do significante relaciona-se ao fato de que “o significante, sendo de natureza auditiva, desenvolve-se no tempo, unicamente, e tem as características que toma do tempo: a) representa uma extensão, e b) essa extensão é mensurável numa só
dimensão: é uma linha” (SASSURE, 2012, p.110). O que se diz é que por mais que se
pense muitas palavras ao mesmo tempo, só se pode pronunciá-las uma após a outra - de maneira linear. A ordem hierárquica da língua é responsável, de tal forma, por organizar o caos do Homem. Adiante se verá como tal “extensão” é acolhida no seio da Semiótica Tensiva, postulada pelos discípulos de Greimas, o que, então, aponta que tais questões (as do sensível; de sua relação com o inteligível; os estados de coisas e de alma) já apareciam enquanto germe, porque em estágio inicial de desenvolvimento, e por isso em estado bruto, no pensamento de Saussure.
Saussure remete, ainda, à dicotomia22 mutabilidade/imutabilidade do signo. A
mutabilidade está relacionada com a parole (a fala), que adere a características diferentes a depender do sujeito que (se) enuncia – o sujeito “engravida”, para se usar metáfora cunhada por Miotello, a palavra com o que é seu e a faz prenhe de sua maneira
22 (que hoje, no bojo dos atuais estudos semióticos, foram relativizadas – um termo só si define em relação ao outro; da identidade à alteridade, e vice-versa).
de ser-estar-no-mundo. A imutabilidade relaciona-se com a langue (a língua), sistêmica. O signo, portanto, está postulado entre duas forças: o individual e social. Essas forças, ora se concatenam, ora se digladiam.
Tanto a “mutabilidade” (a) quanto a “imutabilidade” (b) são respeitosas ao tempo: Em “a” porque o tempo pode “alterar mais ou menos rapidamente os signos linguísticos” (Idem, p. 114);
e, em “b” porque “um dado estado da língua é sempre o produto de fatores históricos e são esses fatores que explicam porque o signo é imutável, vale dizer, porque resiste a toda substituição” (SAUSSURE, 2012, p. 111), o que se justifica pelo fato de recebermos a língua convencionada por outras gerações.
De acordo com a imutabilidade: “um indivíduo não somente seria incapaz, se quisesse, de modificar em qualquer ponto a escolha feita, como também a própria massa não pode exercer sua soberania sobre uma única palavra: está atada à língua tal qual é”. (Ibidem, p. 85).
Para Saussure, cabe ainda mencionar, a dicotomia “langue/ parole” que perpassa o
Curso e, que deságua em conseqüências teóricas. A priori, tal distinção se encontra
postulada quando intui Saussure acerca da “não-coincidência” entre “língua” e “fala”: elas não são as mesmas coisas – daí não estão radicadas nos mesmos processos e não podem por isso serem estudadas da mesma forma. Mesmo “não-coincidentes” estão esses dois processos abarcados sob a égide da linguagem: “evitando estéreis definições de termos, distinguimos primeiramente, no seio do fenômeno total que representa a linguagem, dois fatores: a língua e a fala. A língua é para nós a linguagem menos a fala” (SAUSSURE, 2012, p. 92). Vale dizer que, na obra supracitada do mestre de Genebra, os conceitos aparecem sempre relativizados: ou seja, um se relaciona ao outro, e só nesse contato vivo faz completa a arquitetura da linguagem. Assim, o recorte proposto por Saussure é de ordem metodológica: não valoriza, a critérios próprios e isolados, a língua em detrimento da fala. Ao contrário disso. Reconhece-as de igual importância, mas sabe que haverá esforços mais calorosos para lidar com a parole, porque ela parece habitar a individualidade, o acaso, o inesperado, o acontecimento. A dificuldade, reconhecida por Sassure, em se lidar com a parole é também porque ela é composta por processos fisiológicos e físicos, que são diferentes da associação entre significado e significante. (Silveira, 2013: 45-52).
A parole está homologada à “fala” e à “variação”, que é da ordem do “individual”, e assim, está, na dicotomia saussuriana, excluído o “sujeito e sua história”. Embora alguns teóricos da recepção do CLG, advogam-no enquanto fundador e inovador, outros o vêem com algum mérito, mas o refutam ao alegar o descaso de Saussure com o tratamento da dimensão social das interações lingüísticas, como foi o caso, por exemplo, do Grupo de São Petersburgo. “Ora, aqui estão duas faces pespegadas de Saussure: a do ‘pai fundador’, que amorosamente possibilitou a concepção da disciplina, e a do ‘pai censor’, que odiosamente interditou seu pleno desenvolvimento.” (PIOVEZANI, 2013, p. 151).
Das limitações, necessárias, do curso do “pai fundador”, emergiram inúmeras reflexões e andar teórico. Era necessário conhecer o pensar de Saussure e buscar, de forma incessante, continuar e completar sua obra. Na década de 60, o pensamento de Saussure tem seu reflorescer, ao se tornar leitura obrigatória no cerne do “estruturalismo francês”, para linguistas, mas também para Lévi-Strauss, Greimas, Althusser, Lacan, Foucault, Barthes, Derrida...
Para se pensar, ainda, a relação entre os pressupostos teóricos anteriormente citados com as noções de discurso, certamente se faz necessário alavancar a noção de valor no CLG, porque é nessa noção que Saussure vai afirmar que o conceito é a contrapartida da imagem acústica, enquanto é também a contrapartida de outros signos da língua. O valor de determinado signo só o é em relação a outros signos. É o valor, ainda, constituído por aquilo que é seu diferente, podendo ser trocado e comparado. Valores são os que os outros não são. É pelo valor, então, que a língua se faz discurso: um signo continua no outro; um signo reverbera no outro; um signo só é em relação a outro signo que não o é; no signo, há um olhar para dentro – a identidade – e um olhar para fora – a alteridade; o signo existe apenas por seu poder de comunicação.
Para isso, emerge a célebre metáfora de Saussure quando atenta para o jogo de xadrez. Antes de mais nada, é interessante intuir acerca da escolha dessa metáfora, dado que “jogo” coloca em cena a noção de “ação”. Na metáfora, o mestre de Genebra revela que uma peça só significa em relação a outra: uma só tem valor em relação a outra.
Tomemos um cavalo: será ele por si só um elemento do jogo? Certamente não, pois, em sua materialidade pura, fora de sua casa no tabuleiro e das outras condições do jogo, ele não representa nada para o jogador e só se torna elemento real e concreto uma vez revestido de seu valor e fazendo corpo com ele. (SAUSSURE, 2012: 153-154).
O conceito de “valor” está imbricado ao de “arbitrário”, quando se atenta que são os “valores” sempre “relativos”: dão-se na relação, e então, não são prefixados de umas vez por todas. É no conceito de “valor” que está radicado a noção de sistema: porque um sistema – que é um todo – só pode ser composto de partes – que são os valores; e de partes que se relacionam em seus limites e limiares. (Normand, 2009, p. 79)
Estas noções hão de fazer suas assunções no escrito que se segue.