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Discute-se, antes de se estabelecer a noção de “signo ideológico”, o que se quer dizer, nos escritos de Bakhtin e seu Círculo, com “ideologia”.

Para Marx e Engels (2007;2008), numa formação social, têm-se dois níveis de realidade: um de essência e outro de aparência, o que produz a “falsa consciência”. Fiorin (1988) vem pontuar o necessário cuidado à expressão “falsa consciência”, já que, em concordância com Bakhtin, a consciência não é a habitação exclusiva da ideologia, pois esta se encontra contida de igual modo no social. Aliás, a própria consciência é um inquilino do social. Logo, tal expressão “indica apenas que as ideias dominantes são elaboradas a partir de formas fenomênicas da realidade, não apreendendo, portanto, as relações sociais mais profundas” (FIORIN, 1988, p. 29).

Segundo Miotello (2005), o conceito marxista de ideologia apresentado como “falsa consciência” é um mascaramento da realidade, usado pelos legitimadores do poder para lá continuarem. Na verdade, segundo esse estudioso, o Círculo aceita tal concepção marxista, mas a reformula e a estende para todas as esferas de atividade ao pensar a ideologia fundada no signo. Fundada e fundante. Daí, tem-se “ideologia oficial” e “ideologia não-oficial” (vemos, em Cultura popular na Idade Média e no

Renascimento: o contexto de Francois Rabelais (2008), a preocupação de Bakhtin em

revelar as ideologias oficiais e não oficiais, a sala de jantar versus a praça pública), porque

com o termo ‘ideologia’ Bakhtin indica as diferentes formas de cultura, os sistemas superestruturais, como a arte, o direito, a religião, a ética, o conhecimento científico, etc (a ideologia oficial), e também os diferentes substratos da consciência individual, desde os que coincidem com a ‘ideologia oficial’ aos da ideologia não-oficial. (PONZIO, 2008, p. 112).

Por “ideologia oficial” se diz acerca daquela estipulada por uma classe dominante. Do ponto de vista marxista, “ideologia oficial” é a ideologia das superestruturas (o direito, a arte, a religião, etc): é a senhora que dita as “regras do jogo”. Desse poder posto “lá em cima”, como uma supreestrutura, e por isso, oficial, emanam as regras básicas que determinam a existência dos sujeitos.

Por “ideologia não-oficial” se considera aquela das relações fortuitas do cotidiano, relacionadas à classe dita dominada (infra-estrutura, em termos marxistas). Aquela que está “aqui embaixo” que, por vezes, funde-se aos ditames da “ideologia oficial”, e outras, os repelem com toda força. É a massa.

É na fenda entre tais ideologias que está cravada a dissertação de Bakhtin que versa sobre a obra do autor francês Rabelais. Tal autor fora, em seu tempo, completamente negligenciado e marginalizado pela crítica – séria e oficial. A hipótese que baliza o pensar de Bakhtin é que essa negligência se justifica pelo fato do escritor ter por fonte de seu pensamento, bem como de seu fazer estético, o carnaval – evento desenrolado no seio da massa, no tópus da praça pública. A “praça” é por excelência o lugar da infra-estrutura, e então, da ideologia “não-oficial”.

Marx e Engels pouco falaram sobre as relações entre infra e superestruturas. Afirmaram apenas que, por causalidade, a infra-estrutura deságua na superestrutura. É exatemente nesse “rastro de silêncio” que se debruça Bakhtin e seu Círculo, ao afirmarem que as infra-estruturas mantêm relações dialético-dialógicas com as superestruturas, numa via de mão-dupla: uma influencia a outra; só podem significar em relação; estão em diálogo. Dessa maneira, a “ideologia oficial” é bombardeada pela “ideologia não-oficial”, o que leva Miotello (2005, p. 174) a afirmar que “a durabilidade da ideologia oficial não é maior que o tempo de duração da ideologia do cotidiano” e essa relação só se tona possível pelo signo, que, por isso, é ideológico. Ainda de acordo com Miotello (2005), a ideologia é semelhante à ideia, a qual, fora de um processo dialógico, morre, porque ela

não vive na consciência individual isolada de um homem: mantendo- se apenas nessa consciência, ela degenera e morre. Somente quando contrai relações dialógicas essenciais com as ideias dos outros que a idéia começa a ter vida, isto é, a formar-se, desenvolver-se, a encontrar e renovar sua expressão verbal e gerar novas ideias. O pensamente humano só se torna pensamento autêntico, isto é, ideia,

sob as condições de um contato vivo com o pensamento dos outros, materializada na voz dos outros, ou seja, na consciência dos outros expressa na palavra[...]. A ideia é um acontecimento vivo, que

rompe no ponto de contato dialogado entre duas ou várias

consciências23. (BAKHTIN, 1997, p. 88 – grifo nosso)

Para o Círculo, a concepção de ideologia transpassa a ideia de “falsa consciência” e não pode ser entendida como um “pacote pronto” (idealista) e muito menos vivente exclusivamente na consciência (subjetiva). Bakhtin/Volochinov, com a intenção de estudar a filosofia da linguagem com bases no marxismo, logo no primeiro capítulo de

Marxismo e Filosofia da Linguagem (1992) afirma que

um produto ideológico faz parte de uma realidade (natural ou social) como todo corpo físico, instrumento de produção ou produto de consumo; mas, ao contrário destes, ele também reflete e refrata uma outra realidade, que lhe é exterior. Tudo que é ideológico possui um significado e remete a algo situado fora de si mesmo. Em outros termos, tudo que é ideológico é um signo. Sem signos não existe ideologia. (1992, p. 31)

O que nos quer falar Bakhtin é que o signo está “maculado” pelo sujeito. O corpo do sujeito está lançado ao corpo do signo. Daí, as coordenadas de espaço e tempo, que cerceiam tanto um quanto outro, estão postas em cotejo.

Os signos só podem aparecer num terreno interindividual. Ainda assim, trata-se de um terreno que não pode ser chamado de ‘natural’ no sentido usual da palavra: não basta colocar face dois homo sapiens quaisquer para que os signos se constituam. É fundamental que esses dois indivíduos estejam socialmente organizados, que formem um grupo (uma unidade social): só assim um sistema de signos pode constituir-se” (BAKHTIN/VOLOCHINOV, 1992, p. 35)

Segundo Ponzio (2008), signo difere de sinal. O sinal é algo pré-fixado, que se repete sempre da mesma maneira. O signo possui pluralidade, renova-se, adere a novos sentidos e significações em cada contexto, exatamente por seu caráter ideológico, que revela a posição de cada sujeito. O autor está, aí, de acordo com Hjelmslev quando versa da distinção entre uma “semiótica monoplana” e uma “semiótica biplana”. Com o

23 Grifo nosso a fim de que se dê atenção aos termos “acontecimento” que é “vivo” e que “rompe no ponto de contato dialogado” para que, ao mesmo tempo, olhe-se em direção ao caminho que tal dissertação quer trilhar quando, em momento oportuno, dialogará os pressupostos teóricos do Círculo de Bakhtin com a Semiótica Tensiva.

símbolo, esta-se no território da “monoplana”: “correspondência termo a termo entre o plano da expressão e o plano do conteúdo, o que significa que existe uma conformidade total entre esses dois planos” (FIORIN, 2012 p.58). Signo, por sua vez, está alojado na “biplana”: acolhida na Semiótica sob o conceito de “semissimbolismo”, “que são aqueles em que a conformidade entre os planos da expressão e do conteúdo não se estabelece a partir de unidades, como nos sistemas simbólicos, mas pela correlação entre categorias”. (Idem)

Para Bakhtin (1992), em relação aos estudos das ideologias, a palavra deve ser posta em primeiro plano. Isso por conta da “excepcional nitidez de sua estrutura semiótica” (p. 36), além de que é por meio dela que se revelam as formas ideológicas da comunicação, “mas a palavra não é somente o signo mais puro, mais indicativo; é também um signo neutro” (p.37). Não se trata de uma contradição, já que uma palavra jamais é neutra, ela é sempre ideológica. O que se diz é que ela se reveste de diferentes ideologias, já que “pode preencher qualquer espécie de função ideológica: estética, científica, moral, religiosa” (p.38). É a palavra que organiza o discurso interior, portanto a consciência, fruto da interação verbal, pois ela

não poderia se desenvolver se não dispusesse de um material flexível, veiculável pelo corpo. E a palavra constitui exatamente esse tipo de material. A palavra é, por assim dizer, utilizável como signo interior; pode funcionar como signo sem expressão externa (BAKHTIN/VOLOCHINOV, 1992, p. 37)

Tem de se precisar que

não significa, obviamente, que a palavra possa suplantar qualquer outro signo ideológico. Nenhum dos signos ideológicos específicos, fundamentais, é inteiramente substituível por palavras. É impossível, em ultima análise, exprimir em palavras, de modo adequado, uma composição musical ou uma representação pictórica. Um ritual religioso não pode ser inteiramente substituído por palavras. Nem sequer existe um substituto verbal realmente adequado para o mais simples gesto humano. Negar isso conduz ao racionalismo e ao simplismo mais grosseiros. Todavia, embora nenhum desses signos ideológicos seja substituível por palavras, cada um deles, ao mesmo tempo, se apóia nas palavras e é acompanhado por elas, exatamente como no caso do canto e de seu acompanhamento musical (Idem, p. 38)

Conclui-se que as características que revelam a importância do estudo da palavra para o estudo das ideologias são: sua catacterística semiótica, sua neutralidade ideológica, sua implicação na comunicação humana ordinária, sua possibilidade de

interiorização e sua presença obrigatória como fenômeno acompanhante de todo ato consciente.

Após essas reflexões, firma-se a posição de que, como qualquer enunciado, o álbum de canções de Pitty será descrito como signo, isto é, como objeto (também) ideológico.

2.1.3 Jakobson: entre metáforas e metonímias – do útero ao túmulo e do túmulo

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