performances de la caméra
II.2 Calculs de photométrie d'un télescope au sol
II.2.1 Puissance de rayonnement thermique émise par un corps quelconque
As narrativas referentes às tensões colocadas acima (filiação e crença religiosa problemática, desenraizamento e sentimento de estranheza) não podem, de nenhuma maneira, constituir um elemento explicativo do processo de conversão. Se, com essas narrativas, os convertidos experimentam certas tensões, hesitando constantemente entre os registros afirmativos e problemáticos existenciais, impõe-se a nós, pesquisadores, uma grande prudência interpretativa.
Filtradas pela memória, passadas pela peneira de uma necessidade “narrativa”, que, segundo as palavras de Paul Ricoeur (1990), transforma as contingências de existência em destino, essas narrativas, pelo conteúdo delas mesmas, nos interditam metodologicamente de transformar esse emaranhado de significados em um modelo explicativo. O máximo que essas tensões desveladas pelas narrativas podem nos permitir é seguir os arranjos simbólicos ligados ao giyyur, caracterizadas como renegociações de transmissão (que tratam da filiação ou da socialização religiosa herdada).
As tensões familiares podem ser colocadas como um fator que favorecesse o processo para a conversão, enquanto que as críticas ao Cristianismo podem ser utilizadas como um meio de aliviar a culpa associada com a apostasia.
Outro motivo de prudência na interpretação, e talvez o mais importante, é que tensões ligadas aos pais, violência familiar, conflitos com parentes ou parentela, dúvidas religiosas etc., podem ser resolvidas de inúmeras outras formas que não seja a conversão ao Judaísmo. Numerosos são os casos de indivíduos que rejeitam o Catolicismo e se sentem à vontade sendo ateus ou agnósticos, estando à milhas de distância do Judaísmo. Mesmo as tensões familiares ou religiosas nos permitindo compreender essas trajetórias de conversões, elas não constituem a explicação principal. Isso é, na melhor das hipóteses, um terreno fértil para uma busca existencial ou espiritual, que poderá ou não levar ao Judaísmo.
Devemos atentar para aquilo que Pierre Bourdieu fala sobre as histórias de vida:
Falar de histórias de vida é pressupor ao menos, e isso não é nada, que a vida é uma história e que, como no título do livro de Maupassant –
Une vie: a vida é inseparavelmente todos os eventos de uma existência
individual concebida como uma história da vida e a narrativa dessa história. É o mesmo que diz o senso comum, ou seja, a linguagem ordinária, que descreve a vida como um caminho, uma estrada, com seus cruzamentos, suas armadilhas, suas emboscadas, ou como um caminhar; quer dizer, um caminho que fazemos e que estamos a fazer, um curso, uma passagem, uma viagem, um percurso orientado, um deslocamento linear, unidirecional, comportando um início, as etapas e um fim da história. (BOURDIEU, 1986:69).
As narrativas de conversão se constroem efetivamente como percursos orientados, deslocamentos lineares, unidirecionais, como se, do início ao fim de sua vida, os futuros convertidos tendessem invariavelmente a esse ponto. Raramente são relatados possíveis desvios, renúncias. Pela lógica mesmo do discurso, os registros
problemáticos são elevados a registros causais. Desconfiar dessa “ilusão biográfica” é evitar uma análise causal do problema. Tensões, sem dúvida, existem, mas elas não seriam resolvidas na conversão. Compreender o processo então é reconstituir o caminho. (TANK-STORPER, 2007:17)
Entretanto, se nos mantivermos extremamente cautelosos em relação ao determinismo, podemos perder toda e qualquer pretensão analítica, pois não há nada a compreender, não existe uma lógica a ser seguida. Se nos convencermos de que todos aqueles que se convertem ao Judaísmo possuem alguma questão psicológica, mal resolvida, não há nada a se fazer e não há necessidade alguma de discutir a conversão na Antropologia.
Nesta parte do trabalho, os dados empíricos serão analisados sob uma perspectiva que não entende a conversão nem como o resultado de causas determinantes, nem como percursos aleatórios. A princípio, adotaremos a hipótese de que as problemáticas já analisadas são significantes, que elas exprimem as tensões vividas, e que podem ser pensadas como princípios de ação. Aceitaremos também a hipótese de que o caminho percorrido para a conversão pode ser cumprido em razão de certas lógicas que, sem serem necessariamente causais, podem ser dinâmicas ou sinérgicas. O que resta para se conhecer é, de um lado, o caminho percorrido, e de outro, a dinâmica utilizada para tal.
As descrições etnográficas das sinagogas pesquisadas servirão para que se conheçam as instituições que os candidatos à conversão procuram para realizarem o ritual. É sabendo da receptividade e das instruções oferecidas pelas instituições que poderemos perceber as dinâmicas associadas ao percurso de conversão.
2 HISTÓRIA E ETNOGRAFIA DAS COMUNIDADES
PESQUISADAS
O propósito deste capítulo é demonstrar, por meio da descrição etnográfica das comunidades judaicas pesquisadas, o locus em que o pretendente à conversão conviverá depois de formalizado seu processo de conversão. Uma explanação sobre a história das congregações, bem como uma descrição de sua estrutura, poderão facilitar o entendimento da vida judaica que se estabelece nesses sítios. “Não existe conversão sem
uma vida judaica, e uma vida judaica se estabelece na comunidade”, diriam os rabinos.
Optamos por descrever, quando possível, a primeira incursão em cada uma das comunidades pesquisadas, a fim de propiciar uma visão do método etnográfico, do grau de amplitude do olhar antropológico, bem como da análise dos fatos que se sucedem durante os eventos.
O capítulo foi organizado sobre dois eixos comparativos: o primeiro agrupa as congregações pelas semelhanças em sua forma de organização institucional – Fortaleza e Brasília; o segundo abrange as outras duas sinagogas – Recife e Montreal – que se assemelham pelos seus mitos de origem.
Fortaleza e Brasília estão na categoria de “tradição inventada” (HOBSBAWN: 1984). Essas duas congregações contam suas histórias a partir da chegada de um pequeno número de pessoas que se estabeleceram nessas cidades, se reconhecem judias, e que, a menos de cinquenta anos, se reúnem em assembleia.
O registro que organiza as falas sobre a fundação das duas comunidades se estabelece na crença de que os judeus organizam-se formalmente em congregações, nas cidades de destino, por uma necessidade de agrupamento dos indivíduos e também para interagirem com as outras instâncias judaicas. É um discurso de pertencimento e reconhecimento.
As outras duas comunidades judaicas – em Recife e em Montreal – contam sua história a partir de mitos históricos que remontam ao período de colonização desses países e à Segunda Guerra Mundial, como a invasão holandesa em Pernambuco, o descobrimento do Canadá, perseguições religiosas na Europa que resultaram em levas de refugiados. A construção desses mitos é estabelecida sobre um discurso de memória
e de continuidade permeadas pelas noções de povo, auto-ajuda, imigração e hereditariedade.
É por meio desses discursos de pertencimento e contextos históricos de formação identitária dessas comunidades que os candidatos à conversão irão aprender como se tornar judeu. A descrição do cenário das sinagogas e algumas de suas particularidades vão compor o pano de fundo onde os candidatos à conversão irão atuar. Sobre a congregação de Fortaleza, a descrição da primeira visita à sua sinagoga foi mantida na íntegra. Primeiro, porque ela revela o deslumbramento do antropólogo com seu primeiro campo de pesquisa; segundo porque, dessa maneira, pode-se acompanhar a evolução do pesquisador em termos de relativismo e de aprofundamento no objeto de pesquisa.
O capítulo descreverá dois eventos religiosos e sociais significativos da vida judaica: o kabalat shabat e o Yom Kipur. Está explicitado o porquê da escolha desses dois “eventos comunicativos”, na sessão que fala sobre Recife. A descrição é entremeada pela análise dos dados que permitiram abstrações, o que tornou o texto mais atrativo e dinâmico.