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Bruits fondamentaux

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Chapitre I Bolomètres à thermomètres résistifs

I.3 Analyse des sources de bruit

I.3.2 Bruits fondamentaux

Tão importante como o banho ritual e o aprendizado das leis judaicas, a circuncisão é uma prática que, em hipótese alguma, pode ser substituída ou omitida aquele que deseja engrossar as fileiras do Judaísmo.

Em conversas informais, durante as pesquisas em Fortaleza, decidimos inserir alguns questionamentos aos homens sobre essa prática. Percebemos que o ato da circuncisão, em geral, é representado como uma obrigação religiosa, uma prática milenar que deve ser executada, pois justifica a escolha pela conversão, e minimiza os problemas e as tensões com a instituição que por sua vez, exige a cirurgia.

Alguns homens evidenciam muito o aspecto da higiene após a circuncisão, assim como os mais velhos atribuem um sinal de pureza ao lar e de respeito à mulher judia a extirpação do prepúcio. Todavia, percebemos e relatamos também que alguns homens ficam insatisfeitos e relatam consequências físicas, sexuais e psicológicas de grande alcance da circuncisão, em parte porque o prepúcio tem funções significativas, sejam elas fisiológicas, psicológicas ou sexuais.

O certo é que alguns judeus não se ressentem, pois nem se lembram de quando fizeram e já outros, que fizeram com uma idade um pouco mais avançada (seis anos), disseram que se lembram da dor e, da convalescência dolorosa e, em hipótese alguma, fariam isso com seus filhos meninos.

Quanto aqueles que se converteram ao Judaísmo, há uma recorrência na narração do percurso. Os convertidos, quando ainda no processo de identificação ao Judaísmo, se deslumbram com a profusão de símbolos e costumes que a religião evoca. Quando decidem partir para o processo formal da conversão, alguns atropelam certas fases do processo, outros realizam todo tipo de leitura indicado, e ainda outros, voltam- se mais para os aspectos políticos de Israel; todos procurando seguir as orientações que cada comunidade e cada rabino que lhes passa.

Todavia, os homens que se identificam com o Judaísmo, às vezes sem nem terem ainda estabelecido o contato com o rabino, já fazem a circuncisão por si mesmos. Procuram um médico e pagam para realizar a retirada do prepúcio. A fala de um entrevistado é exemplar para descrever esse processo e ilustrar o grau de investimento pessoal que aquele que busca a conversão é capaz de acionar na modernidade – por ser livre e autônomo – para buscar o pertencimento e o reconhecimento de uma religião normativa como o Judaísmo.

A fala de um entrevistado descreve uma conversa que teve com sua mãe (católica), que acompanhava seu processo de estudos sobre o Judaísmo e, nesse dia, ele foi avisá-la que iria se circuncidar:

Meu filho, se você se sente judeu, seja judeu! Eu falei mãe, não é bem assim não. Ela falou: “o que você vai fazer agora?” eu falei: “eu vou ser circuncidado”. “Tá doido!?” ela exclamou! Ela disse: “não, mas que absurdo é esse?” Você não precisa disso!Ela disse: “você não precisa disso, quando você era menininho eu passei remédio no seu pintinho e tal, pra não colar e tal”. Eu disse: “Eu vou ser circuncidado”! Por quê? Porque eu acho que tem

que ser assim70! Ai fui lá, fui ao médico e ele disse “não, você não precisa

não, você não tem excesso de prepúcio”. Eu disse: pois é, mas eu quero. Se o senhor não fizer vou achar alguém que faça. Ele fez e na hora dele me circuncidar, depois da cirurgia, que é feita com anestesia local né, ele me perguntou assim: “por que você falava aquelas palavras esquisitas”? Eu disse:

“por que eu tinha que falar”! Bom, eu já sabia fazer a habrachá, fiz sem ter

expectativa nenhuma, mas fiz enquanto eu era circuncidado eu fiz todas as

habrarot da circuncisão, como se eu fosse morrer. Bom, ai fui circuncidado

e continuei a levar a vida. (Daniel, 35 anos – notas de entrevista)

Essa entrevista, e a maneira como o informante relata seu percurso, revela a autonomia total do sujeito em mudar sua história de vida, seu passado, em busca de um passado mais antigo que remontaria à expulsão dos judeus da Península Ibérica. Ele procurou insistentemente o Judaísmo e se submeteu a um alto grau de estudos sobre o

tema, se sentindo obrigado a seguir a Lei Judaica antes mesmo de “ser judeu”. Quando ele diz: “por que eu acho que tem que ser assim”; “por que eu tinha que falar” e “como se eu fosse morrer”, ele se sente pertencendo a uma religião transcendente, mística e altamente normativa. Ele aceita o jugo e as imposições da instituição para ter, enfim, o reconhecimento de seus pares. Ele já é judeu, mas é preciso que os demais o reconheçam como tal.

Quando indagado sobre as diferenças sexuais pós-circuncisão, ele disse que, apesar de ter feito a cirurgia com 23 anos, ainda não tinha tido nenhum experiência sexual. Mas ele fala com uma nota de mágoa sobre a prática da masturbação e nas diferenças fisiológicas encontradas: “é muito estranho no começo, há um pouco de dor, é como se desse uns choques (sic) e diminui um pouco a sensibilidade”. Outro convertido, do Recife, disse que se sentia muito mais “limpo” depois da prática.

Um terceiro informante se identificou com o Judaísmo quando ouviu um programa de rádio na época da Guerra do Yom Kipur. Ele ouvia rádio no interior do Nordeste e quando falaram de Israel “deu uma coisa em mim (sic) e comecei a me interessar pelo Judaísmo”. Anos depois se tornou militar, mudou-se para Fortaleza e depois para Brasília, onde, finalmente, realizou sua conversão e circuncisão. Hoje, ele é um judeu bastante religioso e disse que a circuncisão para ele não foi nada diante da possibilidade de se tornar “realmente um judeu”.

Mas, se a alma está sendo saciada pelo agenciamento do indivíduo e pelo seu voluntarismo em se tornar judeu, a questão da circuncisão ritual, às vezes, esbarra em limitações físicas.

Bartolomeu (29) se achava descendente de judeus convertidos ao Cristianismo desde a colonização e procurou um rabino para tentar realizar o retorno ao Judaísmo. O rabino recusou seu pedido de retorno e ofereceu-lhe a conversão, desde que estudasse um pouco mais e se preparasse para os rituais. Antes de começar as leituras e, ávido por “se tornar judeu de verdade”, procurou um médico decidido a fazer a circuncisão.

Por ocasião da entrevista, ele já tinha realizado a cirurgia, era pai de duas garotinhas e já estava nas leituras rabínicas para a realização do ritual do giyyur. Acontece que Bartolomeu sofreu um processo de quelóide, durante a cicatrização da cirurgia, praticamente deformando seu pênis. Ele se sentia muito mal com isso e reclamava de dores nas relações sexuais e da perda de sensibilidade.

Outro rapaz cristão, nascido em São Paulo, e que não se importava com religião e nem com rituais, apaixonou-se por uma moça judia e resolveu se casar. Submeteu-se à

circuncisão, casou-se com pompa e circunstância, e disse que a circuncisão não tinha sido “uma boa”. Um ano depois do casamento, o casal se divorciou e ele se afastou do Judaísmo.

O fato é que o indivíduo realiza a circuncisão com um médico, alguns meses antes do processo final da conversão, para facilitar a cicatrização. No dia do ritual da conversão, ele se submeterá a uma sabatina dos rabinos e notáveis da congregação (geralmente três) e depois realizará a cerimônia de Hatafat Dam Brit.

Essa cerimônia consiste em retirar com uma agulha – ou ponta de bisturi – uma gota de sangue do pênis do candidato, recolhê-la num pedaço de gaze e abençoá-la pelos rabinos que estão ali na mesma sala. Segundo um informante:

Olha, quando a gente estuda, a gente lê que é uma picada de agulha e uma gota de sangue e tudo bem. Cara, eu não sei se eu estava nervoso e não tinha sangue, o fato é que o rabino picotou meu p...! Meu irmão, ele deve ter dado umas quinze furadas e não saía sangue, uma coisa de louco! Sim, doeu um pouco!(sic). (Daniel, 35 anos).

Independente do fato de a circuncisão ser questionada por alguns judeus na contemporaneidade, como emblema de pertencimento e de identificação ao Judaísmo, ela ainda é a regra. Muito dessa legislação e obrigatoriedade é imposta pela Lei Judaica bíblica, mas há também aqueles judeus mais liberais nos EUA e Canadá que não se afinam com essa proposta e preferem acreditar que o Judaísmo é outra coisa, além dessa prática cultural.

Do ponto de vista religioso, a circuncisão é uma prática necessária e legítima, que estabelece o pacto entre Deus e os judeus. Para o ingresso de novatos na religião, o pacto deve ser firmado na carne, como o foi com os patriarcas Abraão, Itzak e Yakov, e uma das normas que as instituições, mesmo as mais laicas e seculares, exigem de seus pretendentes à conversão, é que realizem o ritual para ingressarem no “Povo Judeu”, mesmo que esse grupo não participe da religião.

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