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Provisions techniques

D. Valorisation à des fins de solvabilité

D.2 Provisions techniques

Num primeiro momento, nesta primeira parte do capítulo, foi realizada a análise intra-participantes, ou seja, foi feito uma análise detalhada de cada uma das entrevistas individuais. Além das primeiras impressões e discussões das falas de cada criança, ressaltou-se também as histórias de vida, bem como o motivo de encaminhamento à instituição de acolhimento, segundo o conhecimento da própria criança entrevistada.

5.1.2. Adaílson

Adaílson tem nove anos. Já passou quatro vezes por situações de acolhimento institucional e no momento da entrevista fazia aproximadamente dois meses que retornara à instituição. Os motivos da aplicação desta medida de proteção foram: situações reincidentes de violência física por parte da mãe e eventos de negligência (a criança ficava sozinha em casa, quando não estava na rua em situação de risco), sendo que vários conselheiros tutelares já foram responsáveis pelo caso, no entanto nenhuma solução fora adotada com respostas exitosas para a vida da criança.

A entrevista de Adaílson demonstrou certa dificuldade por parte da criança em dizer sobre si. Suas respostas pareciam estar interrompidas e barradas, como se a criança não pudesse dizer aquilo que desejava ou que até mesmo não sabia dizer.

Mesmo com estas respostas curtas e incompletas de explicações, as falas de Adaílson puderam exprimir desejos de ser protegido pelo abrigo. O discurso de Adaílson parece revelar a natureza negativa de suas experiências primárias estabelecidas com os objetos de amor introjetados. Revela também a carência afetiva resultante destas relações anteriores, visto que o desejo de ser cuidado e desejado faz-se presente em seu discurso. Estas relações anteriores, marcadas por violência, parecem ser significativas e dolorosas para Adaílson.

E.: E o que você acha de ficar aqui, Adaílson? A.: Bom.

E.: Bom? Como assim, “bom”? O que você acha? A.: Aqui eu não apanho.

A fala de Adaílson contradiz o que revelam seus sentimentos. De um lado, espera pela proteção da instituição, e de outro, sente que ali não é o melhor lugar pra se morar, desejando estar ligado a membros de sua família de origem, em especial o pai. Os sentimentos de Adaílson são ambíguos em relação à sua família de origem e em relação ao acolhimento institucional. Ora ele diz, como na fala citada anteriormente, que foi bom ir morar ali na instituição, ora diz que gostaria de morar com o pai, como nas próximas falas, ao passo que já com a mãe não queria morar.

E.: O que você sentiu quando te pegaram na rua dessa vez? A.: ... Nada.

E.: Nada? Não achou ruim? Bom? Não achou mais ou menos... O que você achou? O que você sentiu?

A.: Ah, eu não senti nada. Não tive tempo de sentir medo... E.: O que você achou que iria acontecer com você?

A.: Eu achei que eles iam me devolver pra minha mãe. Aí eu não queria mais. E.: Como?

A.: Eu não queria mais morar com a minha mãe. E eu achei que eles iam me devolver pra minha mãe.

E.: E quando você ficou sabendo que viria para o abrigo, ao invés de ir pra sua mãe? O que você achou?

A.: Achei foi ruim, né! Porque eu queria morar com meu pai. ...

E.: Não? O que você queria que acontecesse? A.: Eu queria morar com meu pai.

E.: Você disse que gosta daqui também. Como assim?

A.: Eu gosto um pouco daqui, mas eu gosto demais do meu pai.

A expressão “Não tive tempo de sentir medo...” é usada como negação, um mecanismo de defesa, sendo que logo em seguida diz e repete a respeito do medo em ser novamente devolvido à mãe: “Eu achei que eles iam me devolver pra minha mãe. Aí eu não queria mais.” e “Eu não queria mais morar com a minha mãe. E eu achei que eles iam me devolver pra minha mãe.”

Além do mecanismo de defesa de negação, Adaílson demonstra, através também da idealização de uma ausência, a da figura paterna (“Eu gosto um pouco daqui, mas eu gosto demais do meu pai”), a situação existencial conflituosa em que se encontra. Não ser objeto de desejo facilitaria seu estado de assujeitamento às possibilidades que lhe são colocadas.

Assim como Moreira (2007) expõe acerca do sentido que as vivências de rua assumem na vida de crianças vitimadas, Adaílson percebe na rua um lugar alternativo à sua relação materna precária. A rua constitui-se como saída e fuga, como “esconderijo” de acordo com Moreira (2007). A rua, representação de tantos perigos para alguns, para Adaílson é um espaço de ao menos evitar mais sofrimentos físicos e emocionais.

E.: E dessa vez, o que aconteceu que você veio pra cá?

A.: É por causa que eu ficava fugindo de casa, dormia na rua. E.: Por quê você fugiu de casa?

A.: É por causa que eu ficava com medo da minha mãe me bater.

O abrigo parece possibilitar que Adaílson viva longe de um ambiente permeado por experiências de violência, no entanto, as falas da criança denunciam que o fato de viver livre destas violências ainda não o satisfazem afetivamente, por isso a busca pela figura do

pai idealizada. Adaílson parece buscar alguma vinculação afetiva primária positiva que ainda reste, mesmo que fantasiada.

5.1.2. Débora

Débora tem nove anos e foi encaminhada à instituição de acolhimento por uma conselheira tutelar em virtude de uma denúncia que relatava que esta criança tinha acabado de ser violentada fisicamente por sua mãe. As violências físicas praticadas pela mãe contra a menina aconteciam com freqüência. Débora tem três irmãos, sendo que ela é a mais velha e a única a morar com sua mãe. O restante dos filhos vive com seus respectivos pais. A entrevista foi realizada no pátio da instituição em que ela fora acolhida dois dias antes de nosso encontro. Débora apresentava-se bastante tranqüila durante a entrevista, demonstrando-se a vontade em estar com a entrevistadora e em dizer de suas experiências familiares. A criança não necessitou de muitos estímulos para responder às perguntas, uma vez que abordara os assuntos necessários mesmo sem a entrevistadora apresentá-los. A entrevista aconteceu como um caminho que vai sendo percorrido a fim de construir e entender sua própria história, expressando seus sentimentos e sentidos através de falas demoradas e detalhadas. Segue abaixo apenas um trecho de sua fala que explicita este movimento de construção, sendo que esta fala ainda continua, apesar de não citada integralmente:

E.: Débora, o quê que aconteceu que você está aqui hoje?

D.: Porque a minha mãe ela... porque eu não levei comida pra ela, ela pegou e me bateu. Aí eu peguei e fui lá na minha vó né, fui ajudar ela a arrumar as coisas... minha vó tinha pedido. Aí eu tava ajudando ela a arrumar, aí eu fui buscar um vidro pra ela pra ela botar pimenta. Aí ela pegou e me gritou lá do portão: “Na hora que você chegar aqui eu vou arrancar o seu couro... eu vou arrancar o seu couro e eu vou te bater”. Aí eu peguei... eu tava descendo pra ir embora né, aí ela apareceu no portão “Vai lá buscar o isqueiro”, aí eu peguei e fui buscar... aí eu peguei o isqueiro pra ela lá da minha vó né. Na hora que eu cheguei, aí minha mãe pegou e começou a dar murro ne mim, na minha cabeça, aí foi lá pro fundo pra me bater, aí ficou me batendo de vara. Aí me colocou de castigo lá no quarto, né. Aí

depois eu fui lá na minha vó levar o esqueiro e mostrei pra minha vó as marca tudinho que ela tava fazendo ne mim. Aí pegou e... a minha vó pegou e foi lá no home lá e mostrou as marca, em frente de casa dela, e mostrou isso aqui tudinho ó, isso porque já saiu as marca mas tava cheinho de marca nas minhas costas assim, e mostrou lá pro home lá e falou assim que se quando precisava de prova se eles tava lá né. Aí ele pegou assim que podia, que ia ajudar minha vó né. Aí a muié pegou e falou assim, a muié do home né : “por quê que vocês num vai lá e liga lá pro Conselho Tutelá, por quê que vocês não liga?” Aí pegou e minha vó foi lá e ligou né...”

A maioria das falas de Débora girara em torno dos temas: espancamento, agressão, violência física, maus-tratos, negligência, ameaça e abandono. De uma maneira geral, posicionou-se a favor de sua separação familiar, com um discurso permeado por sentimentos de ódio e amor. Percebe-se que Débora carrega com muita ênfase suas vivências com a mãe, uma vez que ao responder a maioria das respostas retornara freqüentemente às suas representações acerca de sua relação materna misturada com vivências de violência.

E.: E o quê que você achou daqui?

D.: Foi bão porque... foi bão que aqui eu tenho muitos amigos pra mim brincar... tenho muitos amigos... ah, igual minha mãe lá, minha mãe me proibia deu brincar, me proibia deu ficar com as minhas amigas, não deixava eu sair com as minhas amigas pro colégio, não queria deixar... então ela ficava falando que ia perguntar, ia perguntar a mulher, perguntar minhas amigas, ia perguntar as mulher se eu tava indo com a minha amiga né, que é a Graziele. Ai pegou e foi e falou que ia cortar meu pescoço... se eu contasse pra alguém.”

...

“E.: E ter vindo pra esse lugar? O quê que você achou?

D.: Ai foi muito ótimo né! Porque assim minha mãe não sabe onde que eu tô, nem eu quero saber onde que ela tá, por mim se ela tiver pra Brasília, que fique! Mas não vem pra cá não. Porque minha mãe ela é assim, igual ela gosta de caçar muito encrenca com os outros sabe. Se você... por exemplo, você pegar uma calcinha dela ela já quer vir com tudo, quer te matar, sabe, ela é desse jeito. Igual lá sumiu um dinheiro da minha mãe e falou que foi eu. E aí falou que foi eu né que tinha pegado o dinheiro dela. Num descobriu que minha mãe tinha guardado o dinheiro e pensado que foi eu que tinha pegado dela? Ela é assim, se você ficasse lá perto de casa você ia ver o jeito que minha mãe é comigo. Se não fosse minha vó eu tava até agora lá, de castigo lá. Minha mãe não deixa assistir televisão... não deixa a gente fazer nada que a gente quer, sabe... porque tem várias coisa que a gente pode fazer, minha mãe não deixa a gente nem assistir um filme... da Xuxa que é melhor né, minha mãe não deixa... minha mãe só quer me bater, só quer me bater. Ela falou que a mão dela ta coçando pra ela me pegar pra me bater, sabe. Ela é assim, ela gosta de bater nos meu irmão, igual eu mesmo, sabe, ela gosta de bater.

Igual minha irmã, por quê ela foi bater na minha irmã de fio? Porque as perna dela assim chega tava assim cortadinha assim, que a minha mãe bateu nela. Eu não falei nada pra minha mãe não, mas se a minha mãe batesse nela mais uma vez, eu ia falar: “Por quê que num bate em mim?”. Preferia que ela batesse em mim a bater na minha irmã e nos meus irmãos, porque meus irmãos é tudo pequeno pra ficar batendo neles de fio. Eu num gosto que minha mãe fica batendo nos meus irmão. Dá uma palmadinha de vez em quando é bom mas agora pegar menino e bater de fio... pra mim, isso num é mãe não!”

A criança repetira muitas falas carregadas de ressentimentos e desafetos em relação a sua mãe. Percebe-se que a experiência de acolhimento institucional possibilitara que ela reagisse de alguma maneira a todas as violências que a mãe lhe dirigira. O espaço e o tempo dados a ela para que dissesse a respeito daquilo que vivia representara para ela uma situação de não se sujeitar mais a algumas situações, mas sim uma oportunidade de reação, construção e elaboração.

A dimensão de desejar ser desejada pelo outro repete-se várias vezes em sua entrevista, juntamente com o desejo de ser cuidada. Os desejos revelam a falta. Além do desejo, a esperança, de substituição do objeto de amor que falhou por outro, que se identificou e se vinculou, em Débora também é expressa nos trechos abaixo:

E.: E você quer o quê?

D.: Eu quero... eu preferia assim... a Lúcia que é minha mãe. Minha mãe não gosta da Lúcia, não quis almoçar lá em família né... pegou e veio me bater porque eu tava lá, eu ganhei presente e, minha mãe gosta de usar minhas roupas sabe, tudo que eu ganho minha mãe gosta de usar, ela gosta. Se eu ganho um vestidinho lá, eu não levo ele lá pra minha casa porque ela usa, vestido curto sabe.

E.: E você quer ficar aqui até quando, Débora?

D.: Ah... até esperar alguém vim me buscar, me adotar, até minha vó vim me buscar... até alguma pessoa vim né. Porque assim às vezes... igual o meu olho aqui que ta doendo, a gente pode não saber o quê que é né, mas quando a gente for saber assim mais tarde já é uma coisa assim muita séria sabe. Porque assim se tivesse perto do hospital, pra mim ver meu olho...

E.: Mas você não falou pra ninguém não do seu olho?

D.: Que meu olho tava doendo? Eu falei né, falei... Ontem meu olho tava, foi domingo que eu deitei, meu olho tava inchado, assim ó.

E.: Ninguém te levou pro hospital não?

D.: Não, ninguém não. Ele tava inchado, meu nariz sangra de noite, e eu nem fico assim no sol sabe, quando eu brinco eu fico de baixo das árvore e... meu olho ficou desse tamanho assim inchado. Aí eu fui e olhei no espelho hoje e vi assim meu olho, o sangue ta subindo assim tudo pra cima do meu olho.

E.: E você quer é que alguém cuide do seu olho?

D.: É... hum, hum (balança a cabeça afirmativamente). Tenho um problema na garganta que minha mãe nunca correu atrás. Tem que fazer bastante exame e minha mãe nunca mandou fazer, o dinheiro que ela pega ela gasta com bebida, prefere gastar com bebida e com roupa. Com roupa todo mundo tem, mas é preferível fazer meus exames primeiro pra depois comprar roupa, porque podia até ficar pelada e fazer meus exame e depois comprar roupa.

Débora cita que gostou de ter sido levada para aquela instituição. No entanto, confirmando o que Winnicott (1984/1999) coloca acerca das duas alternativas que a criança separada de seus familiares tem: adaptar-se ao seu novo lar ou apegar-se à lembrança do seu próprio lar e encarar a situação de separação como temporária, Débora escolhe a segunda opção, deseja sair dali. Percebe-se que Débora, recorridas vezes, fantasia um lugar e relações ideais que deseja obter, no entanto, este lugar e estas relações são sempre aquela que ela não tem. O tempo todo diz que ainda falta algo. Foi bom ir pra instituição, mas ainda não supriu aquilo que desejava.

Percebe-se, desta maneira, que a instituição de acolhimento representa para Débora, positivamente, a oportunidade de reagir a determinadas experiências de violência e, negativamente, a não possibilidade de escolha de seus próprios desejos.

5.1.3. Guilherme

Guilherme é uma criança de dez anos. Está na instituição há aproximadamente quatro meses, juntamente com dois irmãos. Além destes dois irmãos, Guilherme tem uma irmã mais velha de 15 anos, que mora em outro estado do país com sua avó. Esta medida de proteção fora aplicada por uma conselheira tutelar que acompanhava a família há muito tempo, sendo que as crianças já haviam sido acolhidas institucionalmente outras três vezes e devolvidas ao convívio familiar.

O motivo da aplicação desta medida a estas crianças seria a negligência dos pais, considerando ainda que o pai faz uso de drogas. Os pais são separados há,

aproximadamente, seis anos. Após esta separação, as crianças moravam com o pai e nos horários que ele estava trabalhando, as crianças foram encontradas na rua várias vezes, após algumas queixas de terem cometido furtos. As crianças também tinham baixa freqüência escolar.

Nas entrevistas, as crianças citam que estão em regime de semi-abrigo, ou seja, no fim de semana visitam suas casas, no entanto, a medida aplicada fora de acolhimento institucional, sem as saídas nos fins de semanas. As crianças, como em um contrato emocional e imaginário, firmam entre elas uma negação do evento de separação, fantasiando para eles mesmos e para a entrevistadora encontros durante os fins de semana.

E.: Guilherme, o que aconteceu pra você vir pra cá?

G.: É porque eu tava... eu furava a orelha, eu acordava 7:00h da manhã pra ir pro PETI... aí eu ia pra escola, aí eu ficava na rua até a noite. Aí quando eu voltava pra casa eu tirava o brinco e ficava lá.

...

E.: E o que você achou de vir pra cá? G.: Uai, é muito bom!

E.: Você achou muito bom? G.: Anran.

E.: O que você achou muito bom? G.: Oi?

E.: O que você achou muito bom?

G.: Porque lá em casa as pessoa ficava ameaçando a gente que ia ligar pro Conselho aí, pra buscar nós... Aí nós ficava com medo. Aí aqui não, agora não... Ninguém pode ficar ameaçando a gente e num dá prejuízo pro meu pai e agora ele pode trabalhar. E ele pegava serviço lá pra Brasília, Goiânia, aí ele num ia por causa de nóis, porque tinha que cuidar de nóis. Aí minha mãe era separada dele... ...

E.: Guilherme, o que você achou de vir pra cá? Que sentimento você teve na hora? G.: É... eu não vim pra cá não. Eu fui pro outro que tinha piscina. Aí eu fui pra lá e era trabalho de pintar. Aí foi e não tinha cama mais lá e eu vim pra cá. Aí... aqui não é muito ruim, não. Aqui é bão. Aqui não dá prejuízo pro pai.

E.: Por que prejuízo pro pai?

G.: É porque ele tinha que olhar a gente... ficar olhando. Aí nos saía e ele voltava pra casa... e nós só voltava a noite. Aí ele ficava preocupado.

E.: Mas você acha que a culpa de você vir pra cá é sua? G.: É.

E.: Por quê?

G.: Ué, porque eu não ia pra escola, só voltava a noite, usava brinco... Aí... ...

G.: Ué, porque minha mãe podia cuidar de nós, e nós num era pra tá aqui. Aí por isso que eu queria que ela ficasse com meu pai. Ai meu pai falou lá no juiz pra ela ficar com a gente, aí meu pai pagava a pensão, aí ela não quis. Meu pai falou assim que ele não quer ela nunca mais.

Na entrevista de Guilherme fizeram-se presentes momentos melancólicos, segundo o que foi dito por Freud (1917/1996). A luta travada entre amor e ódio aparece de modo disfarçado nas falas coletadas. Guilherme em um momento atribui o fato de ter sido separado de seu pai aos seus próprios comportamentos de indisciplina (não ir à escola, usar brincos, ficar na rua). A criança demonstrou em seu discurso se sentir culpada pelo que aconteceu, oscilando com sentimento de ódio pela mãe não querer cuidar dele e de seus irmãos. Ora recrimina-se, dirigindo o ódio a seu próprio ego, relatando que dava prejuízo para o pai, ora atribui culpa à mãe.

A teoria de luto e melancolia de Freud (1917/1996) explicaria tal movimento conflituoso presente nas falas de Guilherme, no qual a ambivalência de sentimentos em relação ao objeto de amor mãe estaria resultando nas falas carregadas de auto- recriminações:

A perda de um objeto amoroso constitui excelente oportunidade para que a ambivalência nas relações amorosas se faça efetiva e manifesta. Onde existe uma disposição para a neurose obsessiva, o conflito devido à ambivalência empresta cunho patológico ao luto, forçando-o a expressar-se sob a forma de auto- recriminação, no sentido de que a própria pessoa enlutada é culpada pela perda do objeto amado, isto é, que ela a desejou (p. 256).

Na melancolia, a relação com o objeto não é simples; ela é complicada pelo conflito devido a uma ambivalência. (...) Na melancolia, em conseqüência, travam- se inúmeras lutas isoladas em torno do objeto, nas quais o ódio e o amor se digladiam; um procura separar a libido do objeto, o outro, defender essa posição da libido contra o assédio (p. 261).

Guilherme denuncia e projeta em sua própria fala a representação que os outros fazem de sua própria história. Os preconceitos das outras pessoas e o estigma de ser atendido pelo Conselho Tutelar, carregados de medo, vergonha e culpa, fazem com que

Guilherme também se perceba como um risco para o pai e para a sociedade, chegando até mesmo a praticar atos de roubo. Arpini (2003) explica tal fenômeno social:

Porém, o estigma que os adolescentes carregam por terem estabelecido, em algum momento, vínculo com o conselho tutelar ou com instituições é denunciador de que

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