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A PSICANÁLISE E A EXPERIÊNCIA DE SEPARAÇÃO

A psicanálise desde os seus primórdios ocupara-se dos mecanismos psíquicos envolvidos em situações de separação e perda. Freud (1917/1996) ao abordar a questão do luto e da melancolia, se questiona a respeito dos tipos de reações que os indivíduos podem tomar em relação à perda de um ente querido, de um ideal ou de um objeto. Suas indagações caminham no sentido de explicar o que determinaria psiquicamente um indivíduo encontrar-se num processo de luto ou de melancolia.

O luto, segundo Freud (1917/1996), seria uma reação normal à perda real de uma pessoa amada, ou à “perda de alguma abstração que ocupou o lugar de um ente querido, como o país, a liberdade, ou o ideal de alguém, e assim por diante” (p. 249). O luto seria uma condição psicológica a ser superada após algum tempo depois da perda. Freud (1917/1996) tenta explicar os mecanismos envolvidos em tal condição:

Em que consiste, portanto, o trabalho que o luto realiza? Não me parece forçado apresentá-lo da forma que se segue. O teste de realidade revelou que o objeto amado não existe mais, passando a exigir que toda a libido seja retirada de suas ligações com aquele objeto. Essa exigência provoca uma oposição compreensível – é fato notório que as pessoas nunca abandonam de bom grado uma posição libidinal, nem mesmo, na realidade, quando um substituto já se lhes acena. Esta oposição pode ser tão intensa, que dá lugar a um desvio da realidade e a um apego ao objeto por intermédio de uma psicose alucinatória carregada de desejo. Normalmente, prevalece o respeito pela realidade, ainda que suas ordens não possam ser obedecidas de imediato. São executadas pouco a pouco, com grande dispêndio de tempo e de energia catexial, prolongando-se psiquicamente, nesse meio tempo, a existência do objeto perdido. Cada uma das lembranças e expectativas isoladas através das quais a libido está vinculada ao objeto é evocada e hipercatexizada, e o desligamento da libido se realiza em cada uma delas... Contudo, o fato é que, quando o trabalho do luto se conclui, o ego fica outra vez livre e desinibido (pp. 250-251).

A melancolia, além de ser disparada por uma perda real de um objeto amado, é caracterizada por um desânimo profundamente penoso, a ausência de interesse pelo mundo externo, a perda da capacidade de amar, a inibição de atividades anteriormente realizadas, rebaixamento da auto-estima, resultando em comportamentos de auto-recriminação, de auto-crítica e punição. No entanto, além da perda real de um objeto amado, em alguns casos na melancolia encontra-se envolvida uma perda de natureza ideal ou perdas que não são conscientes ao indivíduo (Freud, 1917/1996).

Mesmo que o paciente esteja cônscio da perda que deu origem à sua melancolia, mas apenas no sentido de que sabe quem ele perdeu, mas não o que perdeu nesse alguém. Isso sugeriria que a melancolia está de alguma forma relacionada a uma perda objetal retirada da consciência, em contraposição ao luto, no qual nada existe de inconsciente a respeito da perda (Freud, 1917/1996, p. 251).

O rebaixamento da auto-estima não está presente na circunstância de luto. De resto, os demais traços citados acima na melancolia também caracterizam o estado de luto. Nos dois tipos de reação, o ego se devota exclusivamente ao processo penoso, encerrando o interesse pelo mundo externo e a capacidade de assumir um novo objeto de amor, o que significaria, caso acontecesse, uma substituição ao objeto perdido (Freud, 1917/1996).

Se no processo de luto o ego encontra-se absorvido pelo trabalho do luto, logo existindo uma inibição de interesses, já na melancolia, Freud (1917/1996) coloca que “a inibição do melancólico nos parece enigmática porque não podemos ver o que é que o está absorvendo tão completamente.” (p. 251) Assim, aparece na melancolia um esvaziamento e uma perda relativa do próprio ego do indivíduo, não somente do mundo externo e do objeto amado como no luto, representando então este ego como desprovido de valor, incapaz, através de auto-recriminações e autodepreciações.

Estabelece-se então mais uma diferença entre o luto e a melancolia, o luto normal e o luto patológico: um indivíduo que passa por um luto normal é apto para abdicar do objeto perdido e retirar dali sua libido, logo ligando-se a um novo objeto; já com o

indivíduo melancólico não há a retirada da libido do objeto perdido. Nesta última circunstância, há uma mudança de investimento do objeto para o próprio ego do indivíduo, confundido e fundido com o objeto perdido. Este mecanismo de sufocamento do objeto pelo ego na fantasia de não se separar dele e fundir-se a ele é denominado por Freud (1917/1996) como identificação narcísica (Quinodoz, 2007).

Freud (1917/1996) ressalta a ambivalência de sentimentos que surge na melancolia. Nesta, a relação com o objeto não é simples. Segundo o autor, travam-se várias lutas inconscientes em torno do objeto, sendo que o amor e o ódio se enfrentam.

De um lado, o ego continua ligado ao objeto, o sujeito ainda o ama apesar da perda por morte, desconsideração, desprezo ou desapontamento. Amá-lo custa ao sujeito continuar numa forma primitiva de amor, visto que amar o objeto significa ser o objeto. De outro lado, em virtude da identificação narcísica do ego com o objeto, o ódio em relação ao mundo externo dirige-se ao próprio ego do indivíduo. Explica-se desta maneira o hábito que o melancólico tem em se punir (Quinodoz, 2007).

De acordo com Freud (1917/1996), a insatisfação com o próprio ego marcante no quadro clínico da melancolia pode ser explicada ao observar-se que suas agressões inconscientemente devem-se ao objeto, não ao ego do sujeito melancólico.

Freud (1917/1996) percebe e ressalta que o melancólico acaba sentindo prazer em agredir-se e em agredir o outro, conseguindo vingar-se do outro através de sua própria doença. Este ódio acaba em não se dirigir diretamente ao seu alvo, mas o atinge de alguma maneira.

Se se ouvir pacientemente as muitas e variadas auto-acusações de um melancólico, não se poderá evitar, no fim, a impressão de que freqüentemente as mais violentas delas dificilmente se aplicam ao próprio paciente, mas que, com ligeiras modificações, se ajustam realmente a outrem, a alguém que o paciente ama, amou ou deveria amar. Toda vez que se examinam os fatos, essa conjectura é confirmada. É assim que encontramos a chave do quadro clínico: percebemos que as auto-

recriminações são recriminações feitas a um objeto amado, que foram deslocadas desse objeto pra o ego do próprio paciente (Freud, 1917/1996, pp. 253-254).

Intimamente ligado ao estudo do trabalho de luto, o termo “ambivalência” é usado por Freud em vários momentos de sua obra. Por hora, faz-se necessário um maior aprofundamento do estudo sobre a ambivalência a fim de um melhor entendimento sobre o processo no qual o ego se envolve em situações de perda e separação.

Freud tomara o termo “ambivalência” emprestado de Bleuler para dizer de uma “presença simultânea, na relação com um mesmo objeto, de tendências, de atitudes e de sentimentos opostos, fundamentalmente o amor e o ódio” (Laplanche & Pontalis, 2001, p. 17).

De acordo com Laplanche e Pontalis (2001), Bleuler considerava a existência da situação de ambivalência em três âmbitos: voluntário, intelectual e afetivo. Ao privilegiar a ambivalência afetiva, acabou influenciando Freud a usar a expressão em seus estudos:

A originalidade da noção de ambivalência, relativamente ao que já fora descrito como complexidade de sentimentos e flutuações de atitudes, reside, por um lado, na manutenção de uma oposição do tipo sim-não, em que a afirmação e a negação são simultâneas e indissociáveis; e, por outro lado, no fato de que essa oposição fundamental pode ser encontrada em diversos setores da vida psíquica. Bleuler acaba por privilegiar a ambivalência afetiva, e é este o sentido que orienta o seu uso por Freud (Laplanche & Pontalis, 2001, p. 17).

Ao chegar ao final de sua obra, Freud dá à ambivalência grande importância na clínica e na teoria do conflito. O que seria o conflito edipiano senão um conflito de ambivalência em suas raízes pulsionais? Trata-se de uma oposição entre amor e ódio dirigidos à mesma pessoa. Sendo assim, a formação da neurose seria a tentativa de resolução deste conflito (Laplanche & Pontalis, 2001).

Laplanche e Pontalis (2001) colocam que a expressão “ambivalência” pode servir à função de designar todo tipo de “atitude conflituosa”, o que faz com que muitas vezes a psicanálise a utilize de maneira muito ampla e vaga. Desta maneira, os autores sugerem:

Para que conserve o valor descritivo, e mesmo sintomático, que originalmente teve, conviria recorrer a ele na análise de conflitos específicos, em que a componente positiva e a componente negativa da atitude afetiva estão simultaneamente presentes, indissolúveis, e constituem uma oposição não dialética, insuperável para o sujeito que diz ao mesmo tempo sim e não (p. 18).

Do mesmo modo que para Freud a expressão “ambivalência” tenha assumido grande importância na gênese do conflito edipiano e no estudo das pulsões, parece que para Klein a ambivalência assumira também uma posição essencial em seus estudos:

Para ela, a pulsão já é de início ambivalente: o “amor” do objeto não se separa da sua destruição; a ambivalência torna-se então uma qualidade do próprio objeto, contra a qual o sujeito luta, clivando-o em objeto “bom” e “mau”: um objeto ambivalente, ao mesmo tempo idealmente benéfico e essencialmente destruidor, não se poderia tolerar (Laplanche & Pontalis, 2001, p.18).

Klein (1932/1997) ao estudar a ambivalência, relacionou-a diretamente à polaridade das pulsões de vida e de morte, aos processos desenvolvimentais normais de uma criança e à formação do superego, assim como para Freud. Klein (1932/1997) percebera que as flutuações entre o “bom” e o “mau” fazem-se presentes em todas as crianças.

Pelo que se pode ver, existe na criança pequena, lado a lado com suas relações com objetos reais, uma relação com imagos irreais que são vivenciadas ao mesmo tempo como excessivamente boas e como excessivamente más, mas num plano diferente. Normalmente, esses dois tipos de relações de objeto se entremeiam e colorem umas às outras em um grau sempre crescente (Klein, 1932/1997, p. 171). Apesar de presente em qualquer criança, Klein (1932/1997) faz uma diferenciação entre as crianças ditas normais e as crianças consideradas neuróticas, bem como se darão estes eventos de ambivalência nestas crianças que apresentarem dificuldades no curso de seu desenvolvimento:

Normalmente, esperaríamos ver traços claros das lutas e crises sérias pelas quais a criança passa nos primeiros anos de sua vida. Contudo, esses sinais diferem de muitas maneiras dos sintomas do adulto neurótico. Até certo ponto, a criança normal mostra abertamente sua ambivalência e seus afetos; a sujeição às premências pulsionais e às fantasias age de forma reconhecível e também é reconhecível a influência do superego. Ela coloca certas dificuldades no curso da sua adaptação à realidade e, portanto, no curso de sua criação, e não é de modo

algum uma criança “fácil”. Mas, se os obstáculos que ela apresenta na sua adaptação à realidade vão além de um certo limite, e sua ansiedade e ambivalência são fortes demais, em suma, se as dificuldades que ela está sofrendo que fazem seu ambiente sofrer são grandes demais, aí então ela deveria decididamente ser considerada uma criança neurótica (Klein, 1932/1997, p. 122).

Após a conceituação e o desenvolvimento do tema ambivalência, retornamos à análise da experiência de separação em crianças. Vários estudiosos da Psicanálise se interessaram pelo processo de luto envolvido em situações de perda e separação, além de Freud. Bowlby (1997) coloca que independentemente da idade, seja criança ou adulto, qualquer um que passa por uma experiência de perda vivencia algumas reações comuns a todos.

Se este ponto de vista é correto, as reações de crianças pequenas ao serem removidas para um hospital ou instituição devem ser simplesmente consideradas como variantes de processos básicos de luto. Parece que os mesmos tipos de respostas ocorrem, na mesma seqüência, independentemente da idade. Tal como os adultos, bebês e crianças pequenas que perderam uma pessoa amada sentem pesar e passam por períodos de luto (Bowlby, 1997, p. 74).

Segundo Bowlby (1997) uma criança, que nunca separara de sua mãe, existindo até então entre eles uma relação de apego segura, reagirá previsivelmente seguindo três fases: fase do protesto, fase do desespero e fase do desligamento.

Desta maneira, o comportamento da criança, ao ter sua mãe de volta, dependerá da fase atingida durante a separação de sua mãe. Se estiver atingido há pouco o estágio do desligamento, este estado pode durar algum tempo após encontrar-se com a mãe, no entanto este desligamento se desfará, manifestando-se sentimentos de ambivalência pela mãe, oscilando momentos de apego, ansiedade e raiva. O comportamento de desligamento poderá assim, ser substituído por uma ligação afetiva ainda maior que a anterior à separação. Este fato demonstra que durante o tempo de separação o vínculo não fora desfeito e nem esquecido. Pelo contrário, pode-se perceber que, em virtude das circunstâncias, a criança entrou num processo defensivo de retirar da consciência estes

laços, permanecendo latentes e prontos a retornarem à consciência, caso possível (Bowlby, 1997).

Se a criança já a muito tempo estiver no estágio do desligamento, ela poderá permanecer desligada e nunca recuperar sua afeição pelo pais quando tiver-los de volta (Bowlby, 1997).

Bowlby (1997) ressalta que em situações de luto pela perda real de um ente querido, tanto para o adulto quanto para a criança é uma tarefa difícil entender que alguém próximo está morto e não voltará mais. O autor coloca que para a criança é muito mais difícil, assim muitas delas defensivamente negam a perda como definitiva, apresentando ainda expectativas de que este ente volte.

Existem hoje provas de que os afetos mais intensos e perturbadores provocados por uma perda são o medo de ser abandonado, a saudade da figura perdida e a raiva por não reencontrá-la – afetos que estão associados, por um lado, ao anseio de buscar a figura perdida e, por outro, uma tendência para recriminar furiosamente quem quer que pareça ser o responsável pela perda ou estar dificultando a recuperação da pessoa que foi perdida. A pessoa que sofre uma perda parece lutar contra o destino, com todo o seu ser emocional, na tentativa desesperada de reverter a marcha do tempo e reaver os tempos felizes que subitamente lhe foram arrebatados. Em vez de enfrentar a realidade e tentar harmonizar-se com ela, uma pessoa que sofre uma perda empenha-se numa luta contra o passado (Bowlby, 1997, p. 128).

Desta maneira, tanto a criança quanto o adulto, a fim de se recuperarem de difíceis perdas necessitam da companhia e auxílio de uma outra pessoa que tenha confiança. Esta outra pessoa teria a função de “substituir” a anterior ligação, possibilitando que a criança se vincule novamente a alguém gradualmente e supere a perda. Além disso, expressar seus sentimentos e emoções em relação à situação de perda trata-se de um método eficaz para facilitar a superação do enlutado (Bowlby, 1997).

Sendo claro e evidente, fazendo parte do senso comum, o entendimento de que as pessoas sentem pesar pela perda de um ente querido, e que nem o amor e nem o sofrimento

são sentidos por qualquer pessoa, mas por indivíduos em particular, Bowlby (1997) chama esta “atração que um indivíduo sente por um outro indivíduo” de “vínculo afetivo” (p. 96).

Bowlby (1997) faz uma extensa reflexão acerca da formação, manutenção e rompimento de vínculos afetivos tanto em crianças quanto em adultos. Segundo o autor, a psicanálise reconhecera há muito tempo a importância dos vínculos afetivos na vida de um indivíduo, no entanto eximira-se da tarefa de sistematizar estudos científicos sobre o tema.

Vários tipos de vínculos são realizados entre diferentes tipos de espécies, sendo que os tipos mais comuns estabelecem-se entre os pais e filhos e entre indivíduos adultos dos sexos opostos. Entre todos mamíferos, geralmente o primeiro e mais persistente vínculo que se estabelece é entre a mãe e o filho recém-nascido (Bowlby, 1997).

A característica essencial da vinculação afetiva é que os dois parceiros tendem a manter-se próximos um do outro. Quando, por qualquer razão, se separam, cada um deles procurará o outro, mais cedo ou mais tarde, a fim de reatar a proximidade. Qualquer tentativa, por parte de terceiros, para separar um par vinculado encontrará vigorosa resistência (Bowlby, 1997, p. 97).

Winnicott, psicanalista pós-freudiano, considerado por muitos como seguidor da teoria formulada por Melanie Klein, dedicou-se boa parte de sua produção intelectual ao estudo do desenvolvimento emocional de crianças que passaram por situações de privação familiar, em virtude da Segunda Guerra Mundial. As crianças que residiam em locais de risco foram deslocadas para lares substitutos ou para abrigos. Ali passavam por um bom tempo, dois, três anos e retornavam às suas famílias (Winnicott, 1984/1999).

Em vários pontos de suas obras, Winnicott (1984/1999; 1958/2000; 1965/2001) relacionou a presença de distúrbios de comportamento e distúrbios de caráter, nomeados pelo autor como manifestações clínicas de tendência anti-social ou delinqüência, a experiências primitivas de privação familiar. Pensar desta maneira mudara o rumo da etiologia de vários distúrbios até então pensados pela psicanálise. Além da luta interior no

indivíduo, segundo o referido autor, o fator ambiental seria fundamental, mas não somente este fator, no desenrolar da delinqüência.

Nesta nova maneira de se pensar o ato delinqüente, está implicado um sentimento de esperança. O próprio ato anti-social é uma expressão de esperança por parte da criança. Tal compreensão é essencial no trato com tais indivíduos. Na medida em que houve verdadeiro desapossamento, não somente a privação, mas a perda de algo bom da experiência da criança, sendo que esta retirada continua por um longo tempo, haverá uma impulsiva busca de um suprimento ambiental daquilo que se perdeu ou tentativas de destruir e desestabilizar o ambiente a fim de suportar seus comportamentos impulsivos (Winnicott, 1984/1999; 1958/2000; 1965/2001).

Winnicott (1950/1999) sugere que o indivíduo anti-social necessita de um ambiente especializado, com objetivo terapêutico, capaz de dar uma resposta aos comportamentos de esperança. Considerando que seus sintomas são representações de sentimentos inacessíveis à consciência e à memória, esta criança precisa adquirir confiança no novo ambiente onde está, até que suas defesas sejam abandonadas. Vale lembrar que tais defesas poderão se repetir frente a novos eventos de privação, reativando novamente uma ansiedade intolerável.

Influenciado pelas idéias freudianas, Winnicott (1958/1999) descreveu a situação de luto como um mecanismo diretamente relacionado à maturidade do indivíduo. Desta maneira, para um bebê seria impossível realizar este processo. Além da maturidade, outras condições seriam relevantes para que tal êxito ocorra, como: o ambiente deve permanecer como sustentador por algum tempo e o indivíduo deve estar livre para sentir a tristeza decorrente da perda.

Sendo assim, a perda em si não seria o elemento central de discussão, mas sim a capacidade ou não de reagir a tal perda. Percebe-se tal fato nas experiências que Winnicott

obteve ao trabalhar com crianças privadas de seus ambientes familiares em virtude da Segunda Guerra Mundial. Para algumas, as dificuldades já estavam presentes em seus lares antes da guerra. Para estas, a guerra era um fator secundário, ou até benéfica. A guerra possibilitou removê-las de situações intoleráveis para momentos de ajuda e alívio.

Já para as crianças pequenas, menores de cinco anos de idade, a privação familiar não se mostrou tão bem sucedida:

É bem possível, para uma criança de qualquer idade, sentir-se triste ou perturbada ao ter que deixar o lar, mas o que desejamos sublinhar é que, no caso de uma criança menor, essa experiência pode significar muito mais do que a experiência real de tristeza. Pode, de fato, equivaler a um blackout emocional e levar facilmente a um distúrbio grave do desenvolvimento da personalidade, distúrbio esse que poderá persistir por toda a vida. (Winnicott, 1984/1999, p.10).

Percebe-se, a partir de tal trecho da obra de Winnicott (1999), que a importância da unidade familiar não seria apenas por questão de conforto e conveniência, mas principalmente porque a sua ausência poderia acarretar efeitos danosos ao desenvolvimento emocional de crianças pequenas.

Como conseqüência de suas experiências, Winnicott (1950/1999), ainda, coloca que o nosso principal objetivo deve ser tratar a criança que precisa de ajuda psicológica no local onde ela está, no local que já existe, o ambiente familiar. Isto porque, além dos motivos econômicos, a família é o local mais apropriado e adequado para a criança em desenvolvimento, quando é um lar suficientemente bom.

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