Chapitre 7 : Discussion
A- L’interaction parent-enfant (TMS : 43 ; PRT : 18)
7. Protocole de cotation des histoires d’attachement à compléter
Um menino nasceu – o mundo tornou a começar.
(João Guimarães Rosa)
Vir ao mundo é como adentrar numa conversa milenar, conduzida pelas palavras e ações dos atores do presente, sendo acompanhado dos “ecos de vozes que emudeceram” (BENJAMIN, 1994, p. 223). Cada nascimento de uma nova criança é, neste sentido, um milagre que salva a conversa da humanidade, uma vez que “o período de vida do homem arrastaria inevitavelmente todas as coisas humanas para a ruína e a destruição, se não fosse a faculdade humana de interrompê-los e iniciar algo novo” (ARENDT, 2015, p. 305). Os recém-chegados introduzem algo tão inesperado e “imprevisivelmente novo que nem a esperança nem o temor tê-lo-ia previsto” (ARENDT, 2015, p. 270).
Isso significa que, por um lado, a conversa já é milenar e, por outro, que a todo instante novas possibilidades são introduzidas por meio da chegada dos novos. Essa presença inesperada dos recém-chegados requer dos mais velhos a inserção dos
novos na dinâmica milenar e, ao mesmo tempo, espaço para que possam instaurar novos discursos, novas formas de vida, novas palavras e ações imprevistas pelas gerações mais velhas. Muitas vezes, contudo, a conversa milenar é considerada velha e até obsoleta para os novos, mas é por meio dela que estes podem ser introduzidos no mundo velho e não apenas na vida. Já a novidade que os recém-chegados introduzem nesta conversa histórica, tão logo será velha para as gerações subsequentes (Cf. ARENDT, 2014a, p. 243). Isso significa que os
[...] semelhantes não estão todos presentes, que muitos já morreram e que, apesar disso, suas descobertas ou suas lutas continuam contando para ele como lições vitais, assim como outros ainda não nasceram, embora já caiba a ele [ser humano] levá-los em conta para manter ou renovar a ordem das coisas (SAVATER, 2012, p. 38).
“As coisas vivas aparecem em cena como atores em um palco montado para elas. O palco é comum a todos os que estão vivos, mas ele parece diferente para cada espécie e também para cada indivíduo da espécie” (ARENDT, 2014b, p. 37). No palco já montado faz muitos anos chegamos sempre atrasados e, ainda, teremos de deixá- lo com antecedência. Apesar do curto espaço de atuação que nos é reservado, a chegada de novos atores é sempre condição de possibilidade para dar à peça rumos imprevisíveis, uma vez que o palco parece diferente para cada indivíduo.
Cabe neste momento uma tematização rápida de como Arendt compreende a emergência ou a criação do ser humano. O pensamento de Arendt, neste ponto, fundamenta-se em Santo Agostinho que, diferentemente de boa parte da tradição filosófica que o antecedera, rompe com a concepção cíclica do tempo, a fim de visualizar a emergência da humanidade em meio à criação do mundo. Para que o ser humano pudesse se fazer presente no mundo este teria que ter sido criado em separado a todas as demais criaturas. “Para que possa haver novidade, ele diz, há de haver um começo, ‘e esse começo jamais existiria antes’, isto é, nunca antes da criação do Homem’” (ARENDT, 2014b, p. 373).
Também, em outra passagem, Arendt destaca que “o homem é livre porque ele é um começo e, assim, foi criado depois que o universo passara a existir: [Initium] ut
esset, creatus est homo, ante quem nemo fuit (ARENDT, 2014, p. 216). Na verdade,
a noção de começo é tematizada por Arendt não tanto como um evento histórico, mas como sua suprema capacidade de começar. Cada nascimento garante este começo e recorda a humanidade da sua “tarefa” no mundo. Em termos de política, a ideia de
começo equivale à noção de liberdade. Na sequência, apresentaremos mais uma citação de Arendt no que tange à questão do começo como capacidade suprema do ser humano de começar, a fim de destacar que a vocação do ser humano está em empreender alguma novidade no mundo.
Mas permanece também a verdade de que todo fim na história constitui necessariamente um novo começo; esse começo é a promessa, a única “mensagem” que o fim pode produzir. O começo, antes de tornar-se evento histórico, é a suprema capacidade do homem; politicamente, equivale à liberdade do homem. Initium ut esset homo creatus est – “o homem foi criado para que houvesse um começo”, disse Agostinho. Cada novo nascimento garante esse começo; ele é, na verdade, cada um de nós (ARENDT, 2012, p. 639).
Para afirmar a diferença da emergência ou criação do ser humano em relação ao mundo enquanto tal, Agostinho faz uso do conceito de “initium” para a criação do ser humano, enquanto que para a criação do céu e da terra usa o conceito de “principium”. “Ser humano e ser livre são uma única e mesma coisa. Deus criou o homem para introduzir no mundo a faculdade de começar: a liberdade” (ARENDT, 2014, p. 216). Este initium, isto é, este começo do ser humano é reafirmado em cada nascimento de um novo ser humano. Em cada nascimento vem ao mundo algo novo e que permanecerá existindo depois da morte de cada indivíduo. Pelo fato de ser um começo é o que o ser humano pode começar, por ser um início é também um iniciador.
E se Kant tivesse conhecido a filosofia da natalidade de Agostinho provavelmente teria concordado que a liberdade relativamente absoluta não é mais embaraçosa para a razão humana do que o fato de os homens nascerem – continuamente recém-chegados a um mundo que os precede no tempo. A liberdade de espontaneidade é parte inseparável da condição humana (ARENDT, 2014b, p. 374).
Cabe lembrar que, para Agostinho, enquanto que as demais espécies são feitas no plural, enquanto começos de espécies, o ser humano é criado no singular e se propagou em individualidades. “Todo homem, sendo criado no singular, é um novo começo em virtude de ter nascido” (ARENDT, 2014b, p. 374). Arendt afirma, ainda, que se Agostinho tivesse tirado todas as consequências da conclusão que chegara acima, então não teria definido os seres humanos como mortais, tal como o fazem os gregos, e sim como “natais”, ou seja, nascidos para começar, bem como teria chegado à definição de liberdade não como de livre-arbítrio, mas como a faculdade de começar algo novo no mundo.
O milagre que salva o mundo, o domínio dos assuntos humanos, de sua ruína normal, “natural” é, em última análise, o fato da natalidade, no qual a faculdade da ação se radica ontologicamente. Em outras palavras, é o nascimento de novos seres humanos e o novo começo, a ação de que são capazes em virtude de terem nascido. Só a plena experiência dessa capacidade pode conferir aos assuntos humanos fé e esperança, essas duas características essenciais da existência humana que os gregos antigos ignoraram por completo, por depreciarem a fé como uma virtude muito incomum e pouco importante, e computarem a esperança entre os males da ilusão contidos na caixa de Pandora. É essa fé e essa esperança no mundo que encontra sua expressão talvez mais gloriosa e mais sucinta nas breves palavras com as quais os Evangelhos anunciaram sua “boa-nova”: “Nasceu uma criança entre nós” (ARENDT, 2015, p. 306).
A boa-nova do nascimento de uma criança parece, numa primeira e rápida análise, algo completamente trivial, como algo que pode ser previsto e antecipado. O próprio recém-nascido é destituído de poder e de capacidade de intervenção no mundo. O recém-chegado depende dos cuidados dos pais para que possa sobreviver. Sua fragilidade e sua necessidade apontam para a intervenção dos adultos, que nele podem projetar seus desejos, expectativas, dúvidas, etc. A criança encontrar-se-ia, nessa perspectiva de compreensão, exposta aos adultos, dependendo destes a sua própria sobrevivência. Contudo, apesar da fragilidade do recém-chegado, da sua dependência inicial em relação aos adultos, cada nascimento implica no aparecimento de uma novidade radical no mundo.
Para expressar essa novidade radical presente em que cada nascimento, Arendt toma como referência o nascimento de Jesus. O nascimento de Jesus e o modo como foi descrito pelos Evangelhos representa, para Arendt, a forma mais nítida e precisa dos variados sentidos e qualidades implicadas no nascimento de uma criança: o milagre que instaura a novidade radical do mundo e a inauguração de um novo começo na história. Em outros termos, cada nascimento é um tempo kairológico que corta o tempo cronológico, instaurando a novidade no mundo por meio do rompimento da segurança e continuidade precisa da história.
O nascimento de uma nova criança nos introduz num tempo em que o futuro já não é uma continuidade do passado. O que vem ao mundo também não é consequência do que simplesmente já existe no mundo. Pelo fato de sempre nascerem novas crianças no mundo, este se encontra sempre prenhe de um novo começo possível: “de algo novo que o mundo deve ser capaz de receber, ainda que, para recebê-lo, tenha de ser capaz de se renovar; à vinda de algo novo ao qual tem
de ser capaz de responder, ainda que, para responder, deva ser capaz de se colocar em questão” (LARROSA, 2015, p. 189).
A faculdade da ação se radica ontologicamente na natalidade, isto é, encontra- se dada e é proporcionada pelo simples fato de uma criança nascer. O nascimento dos novos é, por isso, o milagre que salva o mundo de sua ruína. A ação de que são capazes pelo fato de terem nascido é que faz de cada nascimento um milagre que salva o mundo de sua ruína que, se assim não o fosse, seria inevitável. Para Arendt, inclusive, uma plena experiência dessa capacidade humana de renovação do mundo comum, pela natalidade, é que confere ao mundo humano fé e esperança. Se outrora os gregos creditaram a fé reservada a poucos e, ainda, de pouco valor e se a esperança estava entre os males contidos na caixa de Pandora, Arendt compreende- os como duas características fundamentais da existência humana.
O anúncio dos Evangelhos, por ocasião do nascimento do menino Jesus, de que “Nasceu uma criança entre nós”, é sinal dessa fé e esperança no mundo. Em outras palavras, o nascimento de uma criança, paradigmaticamente descrito pelos Evangelhos como boa-nova, é sinal de fé e esperança na medida em que salva o mundo de sua ruína que seria inevitável sem a chegada dos novos, mas também por proporcionar, a cada nascimento, a fé e a esperança em um mundo renovado e, por isso, melhor. A fé e a esperança num mundo novo e melhor estão contidos, para Arendt, no nascimento de uma criança. Portanto, essas duas características essenciais da vida humana, outrora negligenciadas pelos gregos, somente são possíveis pela chegada dos novos, por introduzirem o imprevisível, o impensável, o inédito, tal como foi o nascimento do menino Jesus.
Arendt apresentou a natalidade como uma categoria fundamental da condição humana, resgatando-a do subsolo a que foi escamoteada pela tradição filosófica. Este é um ponto, inclusive, fundamental de seu distanciamento em relação ao pensamento heideggeriano. Apesar de que necessariamente iremos morrer, é verdade que, para Arendt, a condição existencial fundamental é natalidade e não mortalidade, pois nascemos para começar. Se para Heidegger o ser humano é um ser lançado para o futuro, tendo como limite a morte que vem em sua direção, Arendt apresenta a força do passado que vem do início, da capacidade humana de renovação do mundo pelo nascimento dos novos. “Sem dúvida, todo homem, pelo fato de ter nascido, é um novo
começo, e seu poder de começar pode muito bem corresponder a este fato da condição humana” (ARENDT, 2014b, p. 267).
Neste ponto é preciso fazer uma distinção entre vida e mundo. A vida, tanto dos seres vivos quanto dos humanos, passa por um processo cíclico em que sua durabilidade é consumida com o passar dos anos. O próprio corpo humano suporta por um período limitado a existência do ser humano e o mantém vivo. A vida, portanto, é um processo de durabilidade do ser por um tempo limitado, consumido pelo passar dos anos, resultando finalmente em matéria morta que se soma ao todo da natureza. Portanto, a vida e a natureza como um todo impõe a todas as coisas que vivem um fim resultante do próprio movimento cíclico da natureza.
“A natureza e o movimento cíclico que ela impõe a todas as coisas vivas desconhecem o nascimento e a morte tais como os compreendemos” (ARENDT, 2015, p. 118). O mundo, por sua vez, e neste caso mundo humano tão somente, supõe mais do que a vida, isto é, um mundo. Neste caso, o nascer e o morrer de um humano não é simplesmente um evento natural tais como os demais eventos da natureza, mas refere-se “a um mundo no qual aparecem e do qual partem indivíduos singulares, entes únicos, impermutáveis e irrepetíveis” (ARENDT, 2015, p. 119). Sem um mundo que acolhe aqueles que nascem e que permanece quando estes morrem haveria apenas um imutável eterno retorno da espécie humana tal como acontece com as demais espécies de animais.
Nesse sentido, a palavra vida, quando relacionada ao mundo humano e empregada para nomear a existência que se dá entre o nascimento e a morte, acaba tendo um sentido e um significado completamente novo. A novidade introduzida na noção de vida pela existência do humano reside no fato de que sua vida é marcada por eventos de ação e de discursos que, finalmente, podem ser narrados. Uma árvore ou um cachorro, neste sentido, deixam de ser apenas movimentos cíclicos da natureza na medida em que ingressam no mundo feito pelos humanos e, por consequência, passam a crescer e a declinar, a nascer e a morrer, rompendo com o movimento cíclico da natureza.
A ação e o discurso pressupõem, por sua vez, a pluralidade humana, em duas direções: de igualdade e de distinção. De um lado, supõe a igualdade que proporciona compreender as pessoas que nos antecederam neste mundo, bem como em prever o futuro daqueles que ingressarão neste mundo. Por outro lado, supõe a distinção de
cada ser humano com qualquer outro que um dia foi, é ou será. Em ambos os casos, são o discurso e a ação que possibilitam a compreensão não somente dos que neste mundo atualmente estão, mas também a compreensão que se dá no entre gerações.
Se a ação, como início, corresponde ao fato do nascimento, se é a efetivação da condição humana da natalidade, o discurso corresponde ao fato da distinção e é a efetivação da condição humana da pluralidade, isto é, do viver como um ser distinto e único entre iguais (ARENDT, 2015, p. 221).
“A ação e o discurso são os modos pelos quais os seres humanos aparecem uns para os outros, certamente não como objetos físicos, mas qua homens” (ARENDT, 2015, p. 218). Como se trata de um aparecimento, não é algo simplesmente dado e definitivo. O aparecimento de uns para os outros supõe iniciativa humana que, em última análise, jamais poderia ser renunciada sem deixar de ser humano. As pessoas podem tranquilamente viver usufruindo do trabalho de outros ou inclusive usufruir do mundo das coisas sem acrescentar algo de inédito ou de relevante no mundo, mas permanecem ainda humanas. “É com palavras e atos que nos inserimos no mundo humano, e essa inserção é como um segundo nascimento, no qual confirmamos e assumimos o fato simples do nosso aparecimento físico original” (ARENDT, 2015, p. 219). Portanto, uma vida sem ação e sem discurso deixa de ser vida humana, uma vez que já não é uma vida que se dá na relação entre seres humanos.
Filosoficamente falando, agir é a resposta humana para a condição na natalidade. Posto que todos adentramos o mundo em virtude do nascimento, como recém-chegados e iniciadores, somos aptos a iniciar algo novo; sem o fato do nascimento jamais saberíamos o que é a novidade, e toda “ação” seria ou mero comportamento ou preservação. Nenhuma outra faculdade, a não ser a linguagem – e não a razão ou a consciência –, distingue-nos tão radicalmente de todas as espécies animais. Agir e começar não são o mesmo, mas são intimamente conexos (ARENDT, 1994, p. 59).
Sem o nascimento não saberíamos, propriamente, o que significa iniciar algo de novo. Ainda, toda ação humana, é possível graças ao nascimento, à faculdade de começar. Caso contrário, não seria possível de falar de ação humana, mas tão somente de mero comportamento ou de preservação da vida. As demais espécies, nesse sentido, não instauram a novidade no mundo. Possuem apenas comportamento de preservação da espécie. Finalmente, o que distingue os humanos das demais espécies é ação, e não a razão ou a consciência, como denominou boa parte da tradição filosófica antiga e moderna, respectivamente.
Pelo fato de cada nascimento se constituir num início é que os seres humanos são impelidos a agir, isto é, tomar iniciativa, começar, iniciar ou empreender algum movimento. Trata-se do início de alguém que é ele próprio um iniciador. “É da natureza do início que se comece algo novo, algo que não se poderia esperar de coisa alguma que tenha ocorrido antes. Este caráter de surpreendente impresciência é inerente a todo início e a toda origem” (ARENDT, 2015, p. 220). É pelo fato do ser humano ser único e capaz de agir que pode realizar o inesperado, o milagre, o improvável. O próprio nascimento de uma criança é, nesse sentido, um novo início, a ocorrência de algo que não se poderia esperar.
É preciso, neste ponto, chamar a atenção para a relação que se estabelece entre ação e discurso. Se a ação não for acompanhada da palavra dificilmente continuará sendo ação, uma vez que não haveria mais um ator, um realizador de ações. Mesmo que um ato possa ser percebido em sua apresentação bruta, passa a ter significado na medida em que é pronunciado pela palavra falada, trazendo a identificação do autor naquilo que fez, fará o faz. Na verdade, nenhuma outra realização humana exige tanto o discurso quanto a ação. Em todas as demais realizações humanas o discurso assume uma função secundária, enquanto uma forma de acompanhamento do que poderia ser realizado em silêncio.