lyophilisation et de la distillation
2.1.2.3 Les protéines laitières
Com a finalidade de contextualizar a perspectiva de gênero no acordo, cabe tratar da participação das mulheres nos processos de paz anteriores que ocorreram no país. Os gráficos de Chaparro e Martínez (2016) demonstram que o número de mulheres como negociadoras não tem sido alto: em quatro negociações, menos de 2% do corpo de negociadores são mulheres, e, no diálogo aqui tratado, foram 15%. Porém, a quantidade de mulheres nas comissões de apoio às negociações é significativa. Em suma, isso demonstra que as mulheres têm aumentado sua presença nos bastidores das negociações, mas estiveram excluídas das esferas de decisão.
3 Sororidade é um termo que se emprega para referir à solidariedade entre mulheres em um contexto de discriminação
de gênero. Vem do latim “soror” referente à “irmã”, considerado o oposto de “frater” que significa “irmão”, e deu
origem à palavra “fraternidade”.
Figura 1 — Porcentagem de inclusão de mulheres como negociadoras em processos de paz na Colômbia (à esquerda) e Porcentagem de inclusão de mulheres como integrantes das comissões de apoio às negociações de paz na Colômbia (à direita).
Fonte: Chaparro; Martínez (2016, p. 78-79).
A inclusão das mulheres como negociadoras seria um indicativo de participação política igualitária de gênero no processo de paz. No entanto, o fato de haver mulheres nas esferas de poder não significa, necessariamente, que a perspectiva de gênero estará representada nessas instituições, já que a condição de mulher não faz com que ela esteja comprometida com essa perspectiva. Este direcionamento é importante para que a política deixe de reproduzir as barreiras que geram desigualdade e impedem as mulheres de ocupar os cenários de poder (CHAPARRO; MARTÍNEZ, 2016).
Ainda a partir dos gráficos, é possível identificar que o último processo de paz entre o Governo da Colômbia e as FARC teve uma baixa porcentagem de mulheres como negociadoras na delegação do governo. Na verdade, quando os diálogos de paz com as FARC começaram, em 2012, o primeiro grupo de negociadores por parte do governo era completamente formado por homens. A ativista Quinteiro (2018) indicou que a ausência de plenipotenciárias mulheres na delegação do governo motivou a primeira reação dos coletivos de mulheres frente à negociação, com o envio de uma carta ao presidente da república. Na ocasião, a delegação das FARC nomeou “de última hora” a cidadã holandesa Tanja Nijmeijer, que se incorporou ao grupo de negociadores homens depois do início das negociações (EL PAIS, 2012).
Nesse sentido, é de surpreender que o acordo tenha tido uma subcomissão de gênero para discutir cada um dos pontos da agenda, com a finalidade de garantir a verdade, justiça e reparação para as mulheres. Diaz (2015) afirma que isso só se deu
graças a um acúmulo de lutas dos movimentos de mulheres e feministas no país. Esses movimentos, em geral, se posicionaram historicamente pró-paz (CHAPARRO, 2018 — informação verbal5).
Nesse período, muitas organizações de mulheres estiveram atuando na construção da paz na Colômbia. Dessas, nove puderam manifestar-se na mesa de negociações6. No entanto, ao longo da realização das entrevistas, notou-se a incidência de outras organizações na Cumbre de Mujeres y Paz, ocorrida em 2013. Essa cumbre é composta
pela aliança de oito organizações, redes e plataformas de mulheres da sociedade civil7, com a finalidade de reivindicar direitos para as mulheres na construção da paz na Colômbia. Sobre a Cumbre, Angela Cerón, da Iniciativa de Mujeres Colombianas por la Paz, informa:
Primero nos tuvimos que juntar como sujeto político, nosotras solas golpeando como IMP, no nos hubiera escuchado nadie. Pero cuando ya llegamos como cumbre, 8 organizaciones de mujeres, con reconocidas, con una experiencia, cada una con sus experiencias, o sea: la Casa de la Mujer con su experiencia desde el feminismo; las indígenas, las campesinas, las afrodescendientes, nosotras que venimos del movimiento sindical y que tenemos experiencia en todo el proceso de justicia transicional, que éramos las únicas que habíamos trabajado en el tema de la ley 975, teníamos casos reales. Eso daba una potencia. Y llegar como colectivo a hacer presencia, creo que, y no fue gratis, eso nos tocó (CERÓN, 2018
— informação verbal8).
Victoria Sandino oferece um panorama a partir da mesa de negociações:
[...] las mujeres hicieron una serie de observaciones y de manifestaciones en torno a que querían que sus voces fueran escuchadas en la mesa de conversaciones. Y eso por el mecanismo que se estableció en la mesa de que era solamente entre las partes, con unos garantes, con un mecanismo cerrado, pues no permitió que se escucharan. Entonces, ante eso, las mujeres que estábamos ahí, las mujeres de la insurgencia, propusimos escuchar las mujeres por a parte. Hablamos con las mujeres del gobierno y nos pusimos de acuerdo y empezamos a hacer, como se
5 Entrevista concedida a Lívia Brito em Bogotá (Colômbia), em junho de 2018.
6 Foram elas: Casa de la Mujer, Corporación Humanas, Corporación Mujer Sigue Mis Pasos, DEJUSTICIA, Escuela de
Estudios de Género de la Universidad Nacional, Iniciativa de Mujeres por la Paz, PROFAMILIA, Ruta Pacífica e Sisma Mujer.
7 São as seguintes: Alianza Iniciativa de Mujeres Colombianas por la Paz – IMP; Asociación Nacional de Mujeres
Campesinas, Negras e Indígenas de Colombia – ANMUCIC; Casa de la Mujer; Colectivo de Pensamiento y Acción “Mujeres, Paz y Seguridad”; Conferencia Nacional de Organizaciones Afrocolombianas C.N.O.A; Liga Internacional de Mujeres por la Paz y la Libertad – LIMPAL; Mujeres por la Paz; e Ruta Pacífica de las Mujeres.
dice, lobby con hombres de las distintas delegaciones y fue como concretamos la subcomisión de género (SANDINO, 2016).
De forma unânime entre as entrevistadas, a Cumbre de Mujeres por la Paz9 de 2013 foi decisiva na pressão à mesa de negociações com a finalidade de formar a subcomissão de gênero. Essa Cumbre contou com a participação de 500 mulheres de diferentes
lugares do país, para compor uma agenda e lista de proposta para enviar à mesa de negociações que já acontecia desde 2012 em Havana (VALLEGO, 2018 — informação verbal10).
Quando finalmente a subcomissão foi formada, alguns dos pontos da agenda de negociações já tinham sido discutidos, de forma que parte do desafio da subcomissão foi o de revisar esses pontos. Para Lorena Vallego (2018), da organização feminista Casa de la Mujer, isso demonstra que, antes da reivindicação, as duas delegações não tinham vontade política de incluir a perspectiva de gênero.
Além disso, Diaz (2018 — informação verbal11) destaca a cooperação internacional nesse processo — especialmente no papel exercido pela ONU Mulheres —, facilitando, com recursos, os encontros de mulheres, de organizações de vítimas, entre outros. Outra incidência importante foi a das dez ex-combatentes de insurgências internacionais e nacionais (da África do Sul, Irlanda do Norte, Guatemala, El Salvador, Indonésia e Uruguai), convidadas à mesa de negociações em Havana. Essa cooperação demonstra a sororidade internacional entre mulheres desmobilizadas na construção da paz na Colômbia.
Finalmente, é importante ressaltar o notório comprometimento das delegações na efetivação da perspectiva de gênero12 no Acordo:
Están los dos atores: gobierno y guerrilla, que no es que supieran del tema, ni lo sabían, ni lo conocían, pero logra hacer, logran hacer una apertura, comprometerse, y con la creación de la Subcomisión de Género, que también es presión, y esto es un logro que es lo excepcional, con la Subcomisión de Género se logró que hubiese una instancia especial preocupada por el asunto, que no tenía al principio, como ellas mismas lo narran, mucho… mucho reconocimiento, pero que poco a poco van ganando y se van posicionando y ellas mismas van
9 Para obter mais informações sobre a Cumbre Nacional de Mujeres y Paz, consultar a página oficial: <http://
cumbrenacionaldemujeresypaz.com/>.
10 Entrevista concedida a Lívia Brito em Bogotá (Colômbia), em junho de 2018. 11 Entrevista concedida a Lívia Brito em Bogotá (Colômbia), em junho de 2018.
12 Em Brito (2019), aponta-se resumidamente as políticas estabelecidas em cada ponto da agenda de negociações para
apropiando la temática, entendiéndola, comprometiéndose. Y entonces se da esa sinergia, ya no solo entre el movimiento, [...] comunidad internacional, sino entre los dos actores negociadores (DIAZ, 2018).
Assim, formou-se uma subcomissão de gênero, composta por cinco integrantes de cada delegação, tanto do Governo como das FARC. Além delas, foram convidadas trinta e seis mulheres vítimas do conflito armado, dezoito organizações de mulheres e LGBTQ+, dez especialistas nacionais em violência sexual, e as dez ex-combatentes de insurgências internacionais e nacionais.