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8.1) PROSPETTIVE DI SVILUPPO CHE INTEGRANO I POSSIBILI CONTRIBUTI DEI RISULTATI DI SEDITERRA AL PROCESSO DECISIONALE

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8.1) PROSPETTIVE DI SVILUPPO CHE INTEGRANO I POSSIBILI CONTRIBUTI DEI RISULTATI DI SEDITERRA AL PROCESSO DECISIONALE

A edificação dos ideais ascéticos, todavia, foi muito cara ao ho- mem moderno, que, como herdeiro dessa tradição, carrega em si um preconceito contra suas tendências libertárias naturais, de modo a colo- cá-las como parceiras da má consciência. Para romper com tal legado, é necessário um novo homem, um homem do futuro, capaz de redimir esta realidade e salvá-la dos ideais nela pregados por mais de dois mil anos, bem como do niilismo que necessariamente nasceria da sucumbência do

83 NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Genealogia da Moral. Tradução: Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2005, p. 74-75.

84 Ibidem, p. 78-83. 85 Ibidem, p. 81.

ideal até então vigente, talvez o “além do homem” exposto por Nietzs- che em seu “Zaratustra”. 86

Nietzsche apresenta o âmago do ideal que perpassou toda a histó- ria da humanidade como vencedor: o ideal ascético – cujas palavras pomposas são: humildade, pobreza e castidade. Em primeiro lugar, constata o autor a grande afeição dos filósofos ao ideal ascético. Diz que “há em todos os filósofos certa benevolência em favor do ideal ascéti- co”, porquanto “toda besta filosófica tende por instinto a um ótimo de condições favoráveis, nas quais possa desenvolver a sua força e sentir a plenitude do seu poder.” Os impulsos iniciais dos filósofos condiziam com as exigências de uma moral ascética. Isso é inegável. Tal fato é expressão da fragilidade com que se erigiu a filosofia nos seus primór- dios. Tinha-se na figura do sacerdote ascético o único meio de manter viva a filosofia, ainda que uma vida rastejante e indigna. 87

O sacerdote ascético tem na vida um paradoxo: para haver vida deve-se negá-la. “Para o asceta esta vida é um caminho deserto”. E assim “certo ascetismo, certa renúncia radical e serena, favorece o desenvolvimento de uma espiritualidade superior [...] e assim não é de maravilhar que os filósofos olhassem com tão bons olhos para esse ideal”. Esse lidar ascético com a vida se consagra como aquele que mais se espalhou sobre a terra. O sacerdote ascético aparece em todas as partes, encarnando uma vontade de uma antinatureza, negando a si mesmo em sua realidade vital, atuando com uma má consciência eterni- zada e enfurecida consigo mesma. No entanto, seu desejo mais alto é estar no lugar do outro, de modo que trabalhe para a criação de melhora nas condições do ser-homem. Dessa forma, ao contrário do que se poderia cogitar acerca do lema “vida contra vida”, constante do ideal ascético, verifica-se que através deste a vida luta contra a morte, num artifício preservativo de uma vida que se degenera. O fato de esse ideal se impor à civilização é a condição doentia do homem até agora existen- te, que em sua origem tem a normalidade da condição humana, que se traduz no fastio do homem consigo mesmo, no seu fartar-se de sua condição. 88

O homem frequentemente está farto, há verdadeiras epidemi- as desse estar-farto (– como por volta de 1348, no tempo da

86 NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Genealogia da Moral. Tradução: Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2005, p. 83-84.

87 Ibidem, p. 87-94. 88 Ibidem, p. 106-110.

doença e da morte): mas mesmo esse nojo, essa fadiga, esse fastio de si mesmo – tudo isso irrompe tão poderosamente nele, que se torna imediatamente um novo grilhão. O Não que ele diz à vida traz à luz, como por mágica, uma profusão de Sins mais delicados; sim, quando ele se fere, esse mestre da destruição, da autodestruição – é a própria ferida que em seguida o faz viver... 89

Em face dessa natureza incontestável, tanto mais louvores deveri- am ser dados aos nobres e fortes. Para Nietzsche, não deve o forte temer que o seu infortúnio venha de outro nobre. É do fraco, do ressentido que se deve esperá-los. “O que é de temer, o que tem efeito mais fatal que qualquer fatalidade, não é o grande temor, mas o grande nojo ao homem e também a grande compaixão pelo homem. Supondo que esses dois um dia se casassem, inevitavelmente algo de monstruoso viria ao mundo: a ‘última vontade’ do homem, sua vontade do nada, o niilismo.” Os fracos invertem e monopolizam a virtude, como se as qualidades do animal de rapina presente no nobre tivessem que um dia serem pagas. Esses ho- mens de ressentimento armam uma tirania sobre os sãos, buscam sua reação em forma de vingança, a qual seria sublime quando insuflasse nas consciências sãs a sua miséria, de forma que estes viessem a se envergonhar da sua felicidade. No entanto, para que os doentes não contaminem os sadios, estes devem permanecer apartados daqueles, para justamente não cair nas duas mais terríveis pragas reservadas para o homem: o grande nojo do homem e a grande compaixão pelo homem. 90

Conforme o exposto, para Nietzsche o sistema jurídico do Estado moderno é aquele em que a vontade de poder se converteu em uma vontade de morte. Isso porque encontramo-nos sob uma ordem de direito geral e soberana. Aludida ordem é aquela que visa ao poder e restringe parcialmente a vontade de vida, “uma ordem destruidora e desagregadora do homem, um atentado ao futuro do homem, um sinal de cansaço, um caminho sinuoso para o nada”. Tal ordem é necessaria- mente estabelecida numa moral de ressentimento que, por sua vez, é embasada nos ideais ascéticos dos espíritos fracos.

89 NIETZSCHE, Friedrich Wilhelm. Genealogia da Moral. Tradução: Paulo César de Souza. São Paulo: Companhia das Letras, 2005, p. 111.

1.5.2 A aniquilação do desejo: a armadilha inglória ao homem fraco

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