A floresta do Rouxinol tem muitas similaridades com minha terra, o Estado do Tocantins. Um Estado novo que nasceu no coração do Brasil há pouco mais de 20 anos, cuja vegetação, o cerrado, possui uma biodiversidade riquíssima. São cerca de 10 mil espécies vegetais e, aproximadamente, 1.500 espécies animais. Muitas dessas espécies são encontradas apenas no cerrado. Aqui também temos pássaros cantadores como o Curió, Chico-preto, o Sabiá-laranjeira e nosso rouxinol do cerrado, o Corruíra.
A história do estado do Tocantins começou muito antes de sua implantação, e vai da opulência - que remonta desde a época dos descobrimentos auríferos no século XVIII – a tornar- se sinônimo de atraso econômico e involução social do norte de Goiás, após a queda da mineração, o que gerou um quadro de pobreza para a maior parte da população. Uma decadência, quase sem transição, que sujeitou a região a um estado de abandono. Com a terra propensa a uma cultura de subsistência, a população encontrou mecanismos de resistência para se integrar economicamente ao mercado nacional. “Essa integração, embora lenta, foi se concretizando baseada na produção agropecuária, que predomina até hoje e constitui a base econômica do estado do Tocantins” (PARENTE, 1999, p.96)10. Nesse contexto, no ano de 1988, mesmo ano em que é promulgada a Constituição da República Federativa do Brasil, nasce o mais jovem Estado brasileiro - o Tocantins.
Nesse cenário de luta pela sobrevivência, encontra-se dona Raimunda Gomes da Silva, uma trabalhadora rural, analfabeta, líder do Movimento Interestadual das Quebradeiras de Coco Babaçu (MIQCB) criado em 1991 nos estados do Tocantins, Pará, Maranhão e Piauí. Como ela, há muitos outros tantos trabalhadores e trabalhadoras que vivem do que a terra fornece. Pela sua atuação na defesa dos direitos das mulheres trabalhadoras da região do Bico do Papagaio, recebeu o título de Doutora Honoris Causa da Universidade do Tocantins e prêmios como o Diploma Mulher-Cidadã Guilhermina Ribeira da Silva (Assembleia Legislativa do Tocantins) e o Diploma Bertha Lutz (Senado Federal). Em 2002, Dona Raimunda coordenou em Brasília a Secretaria da Mulher Trabalhadora Rural Extrativista, que atendia cerca de oito mil mulheres em oito Estados da Amazônia. À época foi constatado11 que um contingente de quase 300 mil mulheres que trabalham na coleta do coco babaçu é analfabeta e muitas sequer têm carteira de identidade. O processo de extração do babaçu é penoso para essas mulheres que desde a madrugada adentram matas e fazendas para coletar o coco. Elas utilizam uma machadinha, e com um golpe certeiro que se reproduz ao longo do dia extraem a amêndoa; desta, extraem o óleo vegetal com o qual cozinham e produzem sabão. Para aproveitar todo o fruto, utilizam a casca do coco para fazer lenha, e da palha da árvore fazem cestos. A história de luta de Dona Raimunda ficou internacionalmente conhecida depois que um documentário foi ao ar em 2007. O videodocumentário de Marcelo Silva, com narração da própria Dona Raimunda, além da crueza do trabalho das quebradeiras, ensaia uma discussão sobre os sangrentos conflitos agrários na região do Bico do Papagaio.
10 http://seden.to.gov.br/desenvolvimento-da-cultura/tocantins---historia/b-norte-de-goias/ 11 Fonte: Agência Brasil – Empresa Brasil de Comunicação, 31/12/2002.
Quando o documentário foi idealizado, por meio de um amigo em comum, fui contatada pelo produtor para fazer a tradução (legenda) do documentário para a língua inglesa. Hesitei em aceitar o convite, em função de minhas próprias limitações com a língua, mas aceitei o desafio. Não demorou muito para eu constatar que minhas limitações com a língua não eram o meu maior desafio, mas a responsabilidade de representar por meio da linguagem a cultura daquelas mulheres invisibilizadas. Para isso, era necessário preservar a identidade linguístico- cultural dessas mulheres nas canções que cantarolavam à capella, esquecidas do mundo desenvolvido, enquanto se dirigiam para o campo, e nas rimas que compunham para narrar suas próprias histórias. Foi necessária muita pesquisa para identificar os sentidos que aquelas vozes significavam o mundo e para o mundo, pois a língua é, em si mesma, um espaço simultaneamente dialógico e dialético, onde as pessoas constroem sentidos, identidades e conhecimentos por associações, conexões e relações com o contexto onde atuam (JORDÃO, 2016). No trecho abaixo, segue uma pequena composição musical de uma quebradeira sobre o coco babaçu12:
Ele também dá o óleo que tempera e faz sabão, Lá no meio do sertão ele é apreciado, Da casa faz o carvão, da palha faz o galpão, E o caboclo do sertão, dorme de pé espalhado.
(SILVA, 2007)
Elucubrando sobre essas vozes a partir da palavra como imagem acústica, ou seja, do ponto de vista da Fonética Acústica13, pondero que o processamento da linguagem envolve um enunciador e um ouvinte. O enunciador monitora a sua própria fala através do retorno (ouve o que ele próprio fala), fenômeno importante para a manutenção de um bom controle dos alvos (sons) a serem articulados. A cadeia da fala envolve três estágios: o linguístico, que concerne à construção da mensagem; o fisiológico, que se refere à expressão e recepção do sinal que carrega a mensagem; e, por fim, o acústico, que se diferencia dos demais por ser externo e comum tanto ao enunciador quanto ao ouvinte.
Esclarecendo essa incursão, menciono aqui a fonética acústica para fazer alusão à musicalidade como recurso linguístico polifônico utilizado pelas quebradeiras de coco para
12 RAIMUNDA a quebradeira. Direção: Marcelo Silva. Coprodução: Marcelo Silva / Public Produções / TV
Palmas / Fundação Padre Anchieta - TV Cultura, 2007. DVD Video (NTSC), 52min, color, português. disponível em https://www.youtube.com/watch?v=T86hl-CIhTA
13 O referencial teórico de Fonética Acústica compõe-se, principalmente, pelos trabalhos de Ladefoged (2003,
2006 e 2007), Ladefoged; Jonhson (2008), Mateus et al. (2005), Delgado-Martins (1988), Morais Barbosa (1994), Malmberg (1998), Medeiros (2007), Medeiros et al. (2008) e Sousa, E. (1
representar seu ofício. Quando o lócus de produção do som não é adequado, o som pode reverberar de forma confusa, produzindo ecos e impossibilitando a clareza das vozes articuladas. Um ambiente propício para a propagação das vozes permite que as palavras sejam ouvidas com clareza e a mensagem compreendida com exatidão. Em minha experiência como entusiasta da música, observo que além do ambiente é necessário ter bons recursos de áudio como sintetizadores que planificam, equalizam a tonalidade das vozes, articuladas conforme a audiência, uma vez que a quantidade de pessoas interfere na acústica. Em suma, a fonética acústica, aplicada aqui de forma figurada, explica a necessidade de um ambiente adequado e recursos tecnológicos para que as vozes sejam ouvidas e compreendidas. Nesse entendimento, durante a realização do trabalho de tradução pude compreender que a composição do texto transcende a representação da imagem acústica como mero ato de “catar fonemas aqui e acolá”, o que me levou a agir com o objetivo de ampliar e significar as vozes inaudíveis do mundo daquelas mulheres para ecoar no mundo de outros (as). Daí decorre meu primeiro argumento para buscar uma política linguística de internacionalização para o meu contexto, ou seja: contribuir para a internacionalização no Tocantins, compartilhando suas riquezas, suas potencialidades e seus rouxinóis para o mundo e, em decorrência disso, atrair visitantes e investidores de todos os lugares. No caso específico do canto das quebradeiras de coco, suas vozes foram reverberadas por meio da interação entre linguagem e tecnologia, sem a qual estariam relegadas ao esquecimento até o dia de hoje.
Durante a fase de pesquisa, chamou-me a atenção a semelhança do processo de extração do óleo da Palma na Malásia, utilizado para a produção do que conhecemos no Brasil como óleo de dendê. Assim como no Estado do Tocantins, até a década de 1970, a Malásia tinha como principal atividade econômica a exportação de matéria-prima. À semelhança do extrativismo brasileiro, a mão de obra utilizada na Malásia era igualmente baseada na assimetria social e na exploração colonial, contando com mulheres e crianças como principal força de trabalho. Mas esse quadro mudou. Segundo o Banco Mundial (2014), a Malásia é atualmente o 18º país com as melhores condições, em termos de facilidade, para se fazer negócios e a melhoria nesse posicionamento se deve à maior facilidade que oferece na obtenção do crédito (1º lugar), à proteção dos investidores (4º melhor) e as relações de comércio transfronteiriças (29º melhor). O estudo14 abrange uma lista de 183 países. Em relação ao Índice de Desenvolvimento Humano, a Malásia ocupa a 62ª posição, índice considerado como alto num
14 Disponível em:
quadro de classificação designado como muito alto, alto e baixo, ao passo que o Brasil ocupa a 75ª posição no ranking de classificação decrescente. Em relação ao crescimento econômico, um estudo realizado em 2014 e publicado em O Globo15 apresenta o ranking mundial de crescimento econômico no qual mostra a Malásia ocupando a segunda (2ª) posição e o Brasil a vigésima quarta (24ª). O crescimento econômico da Malásia deve-se, sobretudo, às exportações, principalmente de produtos eletrônicos. Ou seja, além da exportação da matéria-prima, o desenvolvimento veio a partir do momento em que as exportações foram substanciadas com a intensa industrialização dos seus produtos, possibilitada pela adesão de uma atividade secundária de importação de eletrônicos, que se tornou a principal atividade econômica no país. Assim, a Malásia passou de um estado de vulnerabilidade socioeconômica à maior produtora mundial de borracha e estanho, bem como uma gigante na produção de petróleo, gás e látex. Seus recursos naturais são explorados por empresas nacionais e japonesas. Na década de 1990, a economia se modernizou e se diversificou, com destaque para a indústria de componentes eletrônicos.
A abissal ascensão socioeconômica da Malásia, realidade em que me deparei por meio de minha atuação como professora-pesquisadora de língua inglesa, conduziu-me a uma inquietação para além do linguístico, ampliando minha leitura de mundo a partir de questões geográficas e socioeconômicas com similaridades com o meu contexto. Além disso, pude entrever a possibilidade de responder alguns dos dilemas enfrentados no Tocantins. Esse percurso reflexivo transnacional por meio da linguagem, acabou me levando de uma dimensão local para uma dimensão transfronteiriça (que logo me levaria a uma dimensão global/mundial). Também a partir desse percurso, dei-me conta que meu trabalho de tradução aproximava-se do que Santos (2002) denomina como um exercício de “hermenêutica diatópica,” que “consiste no trabalho de interpretação entre duas ou mais culturas com vista a identificar preocupações isomórficas entre elas e as diferentes respostas que fornecem para elas” (SANTOS, 2002, p.264- 265). Dito de outro modo, o exercício de hermenêutica diatópica incorre em refletir sobre a relação entre a ciência e os processos produtivos das sociedades e os interesses capitalistas que os sujeitam. Outro exercício da hermenêutica diatópica que convergiu com meu trabalho “centra-se na preocupação com a sabedoria e com o possibilitar de visões do mundo” (SANTOS, 2002, p.265). Nesse sentido, embora o exercício a que me empreguei tinha um objetivo específico de tradução da língua portuguesa para a língua inglesa, tomo ainda
15Disponível em: <http://oglobo.globo.com/economia/brasil-fica-em-24-lugar-em-ranking-mundial-de-
emprestado as palavras do supracitado sociólogo para descrever o sentimento que essa experiência me trouxe; para ele, “o trabalho de tradução é, basicamente, um trabalho argumentativo, assente na emoção cosmopolita de partilhar o mundo com quem não partilha o nosso saber ou a nossa experiência” (SANTOS, 2002, p.265).