3.3 Gravité et mécanique quantique
4.1.2 Propositions
Esta seção foi baseada no livro de Thomas Ogden “This art of psychoanalysis”37. Na mesma esteira de Bion, porém, fazendo trabalhar seu pensamento, Ogden inicia seu livro afirmando que “A psicanálise é uma experiência emocional vivida”. (OGDEN, 2005, p.1) Nesse primeiro capítulo – This art of psychoanalysis: dreaming undreamt dreams and
interrupted cries – desenvolve a idéia de que o paciente vem para análise trazendo sonhos que não puderam ser sonhados (undreamt dreams), isto é, ficaram impedidos do trabalho psíquico inconsciente, ou, então, sonhos tão perturbadores de serem sonhados (interrupted cries) que ficaram interrompidos. Se o paciente não puder sonhar sua experiência emocional, não poderá mudar ou crescer e terá de permanecer como sempre foi. A situação analítica deve, então, criar condições para que os sonhos não sonhados e os sonhos interrompidos possam ser sonhados. Nessa experiência, o analista passa a conhecer o paciente de um determinado jeito e profundidade que o permite dizer coisas verdadeiras ao paciente, visando níveis consciente e inconsciente sobre a experiência que está ocorrendo naquele momento. As palavras do analista serão utilizadas com a finalidade de um trabalho psíquico (consciente e inconsciente) para que o paciente sonhe sua própria experiência e também possa sonhar a si próprio mais plenamente na existência.
Utilizando a conceituação teórica que Bion deu ao sonhar e metaforizando os fenômenos de terror noturno e pesadelo, Ogden considera a experiência de sonhar como um processo contínuo que ocorre tanto dormindo quanto acordado (“sonhar” inconsciente de vigília) e faz uma distinção entre terrores noturnos (night terrors) – uma espécie de não sonho, pois não envolve trabalho psíquico inconsciente, não gera associações – e pesadelos (nightmares) ou sonhos ruins, cujo sofrimento leva o paciente a associar. Neste último, contudo, o sonhar o pesadelo pode ser interrompido (interrupted cry) quando a capacidade de gerar pensamentos oníricos e sonhá-los for esmagada pelos efeitos insuportáveis da experiência emocional que está sendo sonhada.
Na primeira categoria, os sonhos não sonhados permanecem imutáveis como nos
splitting-off psicóticos ou como aspectos da personalidade cuja experiência está excluída de elaboração psíquica. O que deveria ter sido um sonho permanece suspenso no tempo e no espaço, sem imaginação ou realidade, lembrança ou esquecimento. São os transtornos psicossomáticos, encapsulamentos autísticos, algumas perversões, estados esquizofrênicos, etc. Na segunda categoria, Ogden esclarece que se um paciente acordou de um pesadelo é porque chegou ao limite de sua capacidade de sonhar por si próprio e precisa da mente de um outro indivíduo para ajudá-lo a sonhar o sonho ainda a ser sonhado (do pesadelo). O sonho
ainda a ser sonhado é um fenômeno não psicótico; o sonho não sonhado é um fenômeno psicótico ou associado à idéia de exclusão psicótica (forclusão).
Uma pessoa que é incapaz de sonhar – transformar dados sensoriais em elementos alfa – é incapaz de fazer ligações emocionais para criação de pensamentos oníricos. Sonhar envolve trabalho psíquico inconsciente alcançado pela ligação de elementos da experiência
armazenados como memória e que é o oposto da evacuação psíquica na forma de identificação projetiva excessiva, alucinação, defesa maníaca, ilusão paranóide, etc. Para Bion, o sonhar é o que cria a consciência e a inconsciência e mantém a diferença entre os dois estados (barreira de contato).
Para que esse trabalho possa ser realizado, o analista deve possuir a capacidade de
reverie para ajudar o paciente de qualquer uma dessas categorias, pois considera essa capacidade central para o processo analítico no que se refere à participação do analista em poder sonhar os sonhos que o paciente não é capaz de sonhar por si. Ogden (2005, p.124) inclui na noção de reverie todos os meandros do psicossoma do analista incluindo os pensamentos e sentimentos mais discretos e cotidianos, ruminações e devaneios, sensações corporais, etc, que geralmente parecem não ter nenhuma relação com o que o paciente está dizendo e fazendo naquele momento. Mais adiante, acrescenta que as reveries não são o produto do psicossoma apenas do analista, mas o inconsciente combinado de paciente e analista que possibilita uma forma de acesso indireto à vida inconsciente da relação analítica.
Define a função de reverie como sendo,
[...] a capacidade de sustentar (sustain) por longos períodos de tempo uma receptividade ao estado psíquico do paciente para os sonhos não sonhados e os sonhos interrompidos que sobrevivem e têm realização (lived out)38 na transferência/ contratransferência. (OGDEN, 2005, p.5)
A afirmação de que reverie é a “capacidade de sustentar por longos períodos de tempo o estado psíquico do paciente” me levou a pensar se Ogden não estaria propondo uma importante e próspera aproximação de alguns conceitos bionianos e winnicottianos. No capítulo sete ele discutirá esse ponto. Contudo, ainda neste capítulo, faz um alerta para o uso abusivo da linguagem interpretativa dentro da perspectiva bioniana.
De acordo com o autor, o analista não apenas compreende o paciente, mas ao sonhar a experiência emocional, vive previamente aquilo que é o processo de vir a ser (coming into
being) cada vez mais completo do paciente e pode conhecer a pessoa em quem ele está se tornando. A partir disso, o que é possível transmitir ao paciente? Para ele, ao se tentar usar a linguagem para se transmitir o que parece ser verdadeiro em uma experiência emocional, percebe-se que não é possível explicar um sentimento (como não é possível explicar o sabor do chocolate), no entanto é possível dizer com o que aquela experiência emocional se parece usando linguagem metafórica. Essa transformação que imprime significação à experiência
emocional, configura a criação de uma nova experiência de auto-conhecimento mediada por símbolos verbais, um dos aspectos mais importantes do sucesso analítico para o autor. Faz, contudo, uma ressalva de que esse procedimento não deve ser usado indiscriminadamente durante o processo, pois “[...] existem momentos em que a insistência do analista em usar palavras para comunicar a experiência é antitética ao trabalho analítico”. Borges39 (1970, p.211 apud OGDEN, 2005, p.10) afirma que as coisas não ditas são “muito mais importantes do que as coisas que são meramente faladas”. Ogden completa esclarecendo que, em sua experiência, percebe que,
existem grandes períodos de tempo nos quais os sentimentos saudáveis de amor pelo analista são uma presença sentida que é muito mais importante do que as coisas “meramente ditas”. E essa situação não deve ser confundida com repressão, splitting ou qualquer outra forma de evitação do sentimento de amor. (OGDEN, 2005, p.10)
No capitulo sete – On holding and containing, being and dreaming – Ogden discute a compreensão dos conceitos de holding e container-contained e seu uso na clínica. Descreve
holding como a continuidade de ser (being) no tempo ou a possibilidade de continuar a existir. Nesse modelo, a mãe funciona como salva-guarda daquilo que o bebê não é capaz de suportar até que ele possa internalizar essa função materna e não sucumbir frente ao fluxo emocional. Uma expressão do holding como continuidade no tempo é a sensação do estado emocional de se sentir envolvido, agasalhado, protegido, de forma delicada e firme pelos braços da mãe. O impacto do holding maternal tem uma conotação física e psíquica que é mais sutil do que parece, e afirma,
Holding, para Winnicott, é um conceito ontológico que ele usa para explorar as qualidades especificas da experiência de estar vivo em diferentes estágios do desenvolvimento assim como a mudança intrapsíquica-interpessoal para a qual o sentido de continuidade do ser é sustentado no tempo. (OGDEN, 2005, p.94).
Ogden evidencia a importância do holding como sustentação básica para que o indivíduo possa manter-se emocionalmente vivo (suficientemente capaz e integrado) para fazer face às demandas internas e externas. Nessa perspectiva, a maturidade é para ele, “[...] o desenvolvimento da capacidade de gerar e manter para si mesmo a continuidade de ser no tempo, [...] esta, experimentada pela criança como fora do próprio controle”. E mais adiante,
38 Há dois sentidos para live out no The Collins Cobuild English dictionary: 1. permanecer naquele estado ou lugar até o fim; 2. colocar em prática o que pensou a respeito.
39 BORGES J. L. (1970). An autobiographical essay. In: The Aleph and Other Stories, 1939-1969. New York: Dutton, 1970.
“Na saúde, o cerne do holding físico e psíquico permanece como uma constante ao longo de toda a vida”. (OGDEN, 2005, p.108)
Em contraste, o continente-conteúdo de Bion está relacionado ao processo de como são pensados os pensamentos derivados da experiência emocional, em uma interação emocional dinâmica entre os pensamentos predominantemente inconscientes e a capacidade de sonhá-los, isto é, realizar trabalho psíquico daquela experiência. O modelo é baseado na metáfora da relação mãe-bebê na qual a mãe sonha as experiências insuportáveis do bebê tornando-as disponíveis para ele. Inclui duas mentes se relacionando – um continente com capacidade para sonhar e um conteúdo que são pensamentos derivados da experiência emocional. Há uma tensão ameaçadora (fiercely) entre eles que coexistem em um estado agitado de dependência mútua.
Ogden conclui dizendo que o holding winnicottiano e o continente-conteúdo bioniano são vértices diferentes para se observar o mesmo fenômeno analítico. Juntos, eles proporcionam um profundo olhar “estereoscópico” de compreensão da experiência emocional que ocorre no setting analítico.
Ao destacar esses dois autores, Ogden apresenta uma síntese do trabalho analítico que aponta para a importância de se criar condições favoráveis para que o paciente possa sonhar a experiência emocional por meio de uma reverie “ampliada no tempo”, que abarca tanto as questões de continuidade do ser, quanto as relacionais. É a proposta de uma transformação cuidadosa preocupada em oferecer sustentação aos aspectos mais fragilizados do paciente, que me parece ser uma abordagem muito sensível e adequada, pois ao mesmo tempo em que trabalha os elos de ligação, não desconsidera a necessidade da manutenção de um contato básico, no qual a presença e permanência do analista produzem um efeito estruturante e integrador do psiquismo.