i. Resumo do estágio:
A turma era composta por adolescente entre 14 e 16 anos de idade, com a quantidade de 32 alunos matriculados. A escolha dos conteúdos que trabalhamos nas aulas fazia parte do cronograma bimestral criado pela própria professora. Fomos informadas que todos os conteúdos desenvolvidos no bimestre faziam parte do livro didático, segundo a professora de turma, a escola adotou este método de trabalhar todo o livro didático em sequência por ser um material que todos os alunos têm acesso, uma vez que isso fazia parte das críticas dos pais, justificando que não acompanhava o seu filho nas atividades por não terem o material da qual o professor usou em sua aula.
Assim, ficamos responsáveis para trabalhar o gênero Diário Íntimo, os predicados das orações e as figuras de linguagens. Certas de que teríamos que utilizar o livro didático em algumas aulas, consultamos o livro didático e avaliamos que o conteúdo temático era bem distribuído e organizado. Em nossa primeira aula trabalhamos uma leitura do próprio livro didático, “O diário de Zlata” a partir desta leitura pedimos aos alunos que encontrassem no texto algumas características que eles achassem que fossem presentes também em um diário íntimo, alguns alunos responderam com exemplos do próprio texto14, foi então que juntos fomos construído no quadro uma tabela com as características que compunha um diário íntimo, logo após realizamos uma atividade de interpretação (anexo 1).
ii.Análise das intervenções:
Na primeira aula em que trabalhamos leitura e interpretação, sob um objetivo maior de trabalhar não somente a leitura, o sentido e as informações que o texto produz, mas também abordar e estudar através do texto as marcas características do gênero textual a que nos propusemos trabalhar: o gênero “Diário Íntimo” 15. Nesta primeira aula foi bastante perceptível
a participação e a atenção dos alunos no decorrer de toda a aula, desde o momento que dedicamos à leitura, fizemos uma leitura compartilhada com toda a turma, onde alguns alunos prontamente se dispuseram a fazer a leitura em voz alta para todos ouvirem.
Uma primeira característica a se observar neste relatório é que não é bem organizado, pois não sabemos de que aula estão tratando na 1ª parte (Resumo do Estágio), pois não há datas para
14 Grifos nossos;
situar o leitor. As informações apresentadas sobre a aula ministrada são insuficientes, predominam as generalizações como nos trechos: “avaliamos que o livro didático era bem
distribuído e organizado” e “foi bastante perceptível a participação dos alunos” sem
especificar bem distribuído e sem explicar qual foi o tipo de participação dos alunos. Na análise das intervenções, há a utilização do verbo “trabalhamos”, em “Na primeira aula em que
trabalhamos leitura e interpretação, sob um objetivo maior de trabalhar não somente a leitura...”, que não revela com precisão quais foram as atividades desenvolvidas e as respostas
obtidas.
Procuramos localizar no plano os trechos que poderiam estar se referindo às atividades do plano de aula 01. Localizamos, na análise das intervenções, a passagem “mas também
abordar e estudar através do texto as marcas características do gênero textual a que nos propusemos trabalhar: o Diário Íntimo” que retoma o 2º objetivo “Destacar as características próprias do gênero Diário Íntimo.” Não encontramos, porém, problematização da atividade
realizada. Percebemos que o texto “O Diário de Zlata” serve, em um primeiro momento, para ensinar características do gênero diário íntimo, apenas em seu aspecto estrutural. Após elencar as características, passam à atividade de interpretação desvinculada da primeira parte destinada ao estudo do “gênero” e seguem o roteiro do livro didático (excerto 07). A expressão “presentes TAMBÉM em um diário íntimo” dá a entender que “O Diário de Zlata” não é um diário íntimo, que não é um gênero, reforçando, assim, a separação dos objetos: o texto para ser interpretado e o gênero para ser compreendido em suas características composicionais.
Percebemos, no trecho “a partir desta leitura pedimos aos alunos que encontrassem no
texto algumas características que eles achassem que fossem presentes também em um diário íntimo, alguns alunos responderam com exemplos do próprio texto”, que as estagiárias afirmam
que as características do gênero foram elaboradas com o auxílio dos alunos, o que aponta que elas consideraram o que os alunos disseram a respeito. Não há qualquer registro, no entanto, de quais foram essas características e temos somente o registro do plano de ensino em que elas elencam algumas características do diário. Em outro trecho, elas afirmam que foi “bastante perceptível a participação e a atenção dos alunos no decorrer de toda a aula”, mas novamente não apresentam nenhum registro concreto dessa participação, com base no qual o resultado afirmado possa ser discutido por terceiros.
Há uma tentativa de diálogo com as diferentes “vozes” que ajudam a compor a aula do estágio e com diferentes discursos, pois como afirma Bakhtin, o discurso escrito [...]é de certa maneira parte integrante de uma discussão ideológica em grande escala: ele responde a alguma coisa, refuta, confirma, antecipa as respostas e objeções potenciais, procura apoio, etc”
(BAKHTIN, 2014, p. 128). As estagiárias antecipam as respostas da supervisora do estágio, quando justificam que a escolha do material didático, do gênero e dos conteúdos gramaticais são indicações da professora regente, vejamos o trecho “A escolha dos conteúdos que
trabalhamos nas aulas fazia parte do cronograma bimestral criado pela própria professora. Fomos informadas que todos os conteúdos desenvolvidos no bimestre faziam parte do livro didático, segundo a professora de turma, a escola adotou este método de trabalhar todo o livro didático” e dialogam com a professora regente da sala onde estão desenvolvendo suas
atividades, à medida que as expectativas desta profissional em relação ao desenvolvimento de conteúdos é considerada.
As estagiárias recuperam a “voz” das prescrições legais, porque vimos que as indicações trazidas nos PCNs, por exemplo, no plano de ensino – ao apontarem um gênero para desenvolver a aula e termos como “texto como unidade de ensino”, “competência comunicativa”; há, por fim, um diálogo com as teorias sobre o ensino de língua portuguesa estudadas na universidade como constatamos nas frases sublinhadas do excerto seguinte:
Excerto 08 – Relatório de Estágio – 1º semestre de 2014 – Dupla B
Considerando que a escola formal adota o texto como unidade de ensino e que as atividades de leitura e interpretação de textos são priorizadas na sala de aula, os alunos já deveriam ter essa dificuldade diminuída. Tanto isso é verdade que cada capítulo do livro didático inicia com um texto, seguido de exercícios para praticar a interpretação. [...]
Nesse sentido, segundo Travaglia, o ensino da língua torna-se eficaz quando é desenvolvido priorizando-se a dimensão significativa da língua e menos a forma. Para esse autor, o ensino deve desenvolver a competência comunicativa:
“A competência comunicativa é a capacidade ou habilidade de usar a língua de forma adequada às diferentes situações de interação comunicativa a fim de produzir, usando textos, os efeitos de sentido desejados em cada situação de interação para se comunicar com o outro.” (TRAVAGLIA, 1996 p. 209).
Assim, para esse autor, para que as atividades de leitura e interpretação sejam proveitosas deve-se levar o aluno a compreender que o texto compõe-se de diversos recursos linguísticos.
Há também um discurso prévio com o qual o relatório se alinha: que os alunos têm muita dificuldade de leitura e compreensão e, provavelmente, isso resulta da ineficiência da
metodologia utilizada pelo professor. Encontramos esse discurso prévio no trecho
“Considerando que a escola formal adota o texto como unidade de ensino e que as atividades de leitura e interpretação de textos são priorizadas na sala de aula, os alunos já deveriam ter essa dificuldade diminuída”.
Mesmo que esses enunciados se encadeiem a outros, são problemáticos do ponto de vista da formação, porque as estagiárias não descrevem detalhadamente a aula para analisá-la. Não temos exemplos de discussões sobre o texto, respostas dos alunos para as questões escritas de interpretação, informações que os alunos trouxeram para a aula sobre o gênero em questão e, em consequência da ausência dessa descrição detalhada, não há análise pautada na experiência vivenciada na aula. Esse tom continua prevalecendo no relatório como é possível perceber na passagem a seguir: