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The promises of big data

Dans le document Big Data for AdvancingDementia Research (Page 18-22)

Fenómenos tais como o sarcasmo, a ironia, a metáfora e as alusões são formas de conversação indirecta que têm por trás o funcionamento analisado por Grice. A partir das propostas de Grice, é possível considerar que a semântica lida com o significado literal de palavras e frases, tal como este é determinado pelas regras da linguagem, enquanto a pragmática lida com o que os falantes querem-dizer (mean) com as elocuções (utterances) de palavras e frases. O signifi- cado do falante (speaker’s meaning) não é uma questão de regras mas de intenções – aquilo que alguém quer-dizer é o que tenta transmitir à sua audiência com a elocução. A comunicação é bem sucedida se as intenções do falante são reconhecidas pelo ouvinte. No entanto parte da evidência utilizada pelo ouvinte para saber o que o falante pretende dizer é o significado literal das frases (o ouvinte tem acesso independente a este por qualquer coisa como o conhecimento de língua). A questão que se coloca é saber se se deve ou não aceitar um contraste puro e simples entre condições de verdade literais e speaker’s meaning. O próprio Grice nunca abdica da ideia de significado literal.

34 Grice inspira-se em Kant, nas categorias da Quantidade, Qualidade, Relação e Modalidade,

para formular as máximas. Máxima da quantidade: fazer uma contribuição tão informativa quanto for necessário, e não mais do que for necessário. Máxima da qualidade: não dizer o que se crê ser falso, não dizer o que não se tem justificação para acreditar que é verdadeiro. Máxima da relação: ser pertinente. Máxima do modo: ser claro, ser breve, ser ordenado.

As ideias destes autores – Austin, Searle, Grice – estão hoje por trás da prag- mática. Entretanto, com a publicação de Relevance Theory, por Dan Sperber e Deirdre Wilson em 1986, a chamada Teoria da Relevância, que pretendeu ligar os estudos da linguagem e da comunicação aos emergentes estudos da cognição, assumiu também um grande protagonismo (em Sperber & Wilson 1986 e também em Carston 2002 é possível encontrar muitos dados quanto a estes desenvolvimentos e ligações).

Na Teoria da Relevância as máximas conversacionais griceanas são reduzi- das a um único princípio explicativo, que guiaria toda a interacção linguística, a chamada Máxima da Relevância, de acordo com a qual ‘Toda a enunciação linguística envolve a presunção da sua própria relevância’. Sperber e Wilson definem a relevância em termos da relação entre o efeito cognitivo e o esforço de processamento. Isto conduz a discussões sobre o papel do contexto e de processos sub-pessoais ocorrendo em agentes quando há processamento de linguagem.

Grande parte das discussões excedem a filosofia, mas na filosofia as discus- sões entre contextualistas e anti-contextualistas passam hoje também por aqui. A noção de contexto é obviamente fundamental para uma abordagem prag- mática da linguagem. Mas não serão estas questões menores relativamente às grandes questões da relação pensamento-linguagem-mundo que Frege, Rus- sell e Wittgenstein tratavam? Na verdade, as questões debatidas entre contex- tualistas (filósofos da linguagem contemporâneos como John Searle, Charles Travis ou François Récanati) e anti-contextualistas (filósofos como Ernest Lepore e Hermann Cappelen) são importantes precisamente na medida em que a questão da natureza da significação (meaning) nos interessa, e tem vindo a ser assumido desde o início deste curso que a natureza da significação nos interessa porque queremos saber como é que a linguagem e o pensamento se relacionam com o mundo, como podemos utilizar linguagem para comunicar. Interessa-nos ainda – e esta questão assume particular relevo nos menciona- dos debates – se podemos relatar ou citar aquilo que é dito de forma fiável. Ora, o contexto presumivelmente afecta o conteúdo semântico das elocuções (utterances), bem como os relatos dos conteúdos de tais elocuções (pense-se na queixa que constantemente ouvimos: ‘citaram-me fora de contexto, distor- ceram o sentido das minhas palavras’). É, assim, importante, quando falamos acerca de alguma coisa com alguém, saber que é acerca da mesma coisa que falamos e para isso é fundamental conhecer as condições da sensibilidade da linguagem ao contexto. Aliás, o interesse daquilo que está em jogo estende-se bem para além da Filosofia da Linguagem e da Epistemologia, e mesmo para

além do estrito campo disciplinar da filosofia, nomeadamente devido às rela- ções entre os fenómenos da sensibilidade ao contexto e o relativismo, cujas implicações éticas, políticas, etc., são notórias (de facto, o contextualismo é uma espécie de relativismo).

No entanto os debates em causa nascem na Filosofia da Linguagem, e em filosofia da linguagem a discussão em torno do que é dito (what is said) toma frequentemente a forma de uma discussão acerca da noção básica para falar de conteúdo semântico. Os actos de fala são um forte candidato. De facto, os dois candidatos mais fortes são precisamente as frases e os actos de fala. De acordo com os defensores do ‘literalismo’ (é esta a etiqueta que um contex- tualista como F. Ricanati usa para pessoas como H. Cappelen e E. Lepore), é possível atribuír conteúdo a frases de língua natural independentemente- mente de quem as enuncia e do contexto de enunciação. De acordo com o contextualista, pelo contrário, os actos de fala são os portadores primários do conteúdo semântico: apenas num contexto particular uma frase expressa um conteúdo, sendo que uma ‘mesma’ frase pode expressar diferentes conteúdos em diferentes contextos.

É preciso notar que o anti-contextualista não nega pura e simplesmente o fenómeno da sensibilidade da linguagem ao contexto: o que o anti-con- textualista defende é que a sensibilidade-ao-contexto (context sensitivity) é um fenómeno bem delimitado, característico de um número finito de expressões, essencialmente as listadas por David Kaplan na primeira página do seu texto clássico, Demonstratives (1989). A lista de indexicais de Kaplan comporta os pronomes pessoais ‘eu’, ‘tu’, ‘ele’ nos vários casos e número, os pronomes demonstrativos nos vários casos e número, os advérbios ‘aqui’, ‘ali’, ‘agora’, ‘hoje’, ‘amanhã’, adjectivos como ‘actual’ e ‘presente’, palavras e aspectos de palavras que indicam tempo (tense), e termos contextuais, tais como ‘inimigo’, ‘nacional’, etc. O contextualista, pelo seu lado, nega que a sensibilidade-ao- contexto seja um fenómeno bem delimitado.

É evidentemente decisivo nestes debates saber o que se entende por ‘con- texto’. Num sentido mais imediato, quase pré-teórico, contexto são simples- mente as coisas no mundo à nossa volta. No entanto, mal começamos a pensar de maneira mais específica na forma como diferentes aspectos da linguagem são sensíveis ao contexto, e começamos a levar em conta, por exemplo, não apenas indexicais (que nos obrigam a considerar a identidade do agente, o tempo e o lugar da enunciação para encontrar o conteúdo semântico da elo- cução) mas também demonstrativos, somos levados a alargar e complexificar a noção de contexto. No caso dos demonstrativos, por exemplo, seremos leva-

dos a alargá-la de forma a incluir demonstrações, tais como gestos e apontar. E se nos perguntarmos o que são tais demonstrações, embora num primeiro momento possamos simplesmente considerar que demonstrações são modos de apresentação dos seus demonstrata, cedo verificaremos que a noção está dependente das intenções do falante, e assim teremos que abrir espaço na noção de contexto para suposições mentalmente representadas, quer sejam representações do ambiente imediatamente perceptível, quer sejam represen- tações recuperadas da memória, ou inferidas. Todas essas suposições intera- gem com a nova informação, que chega através da percepção ou da comunica- ção, dando origem a efeitos contextuais. Em geral contextualistas importantes na filosofia contemporânea tais como John Searle, Charles Travis e François Récanati aceitam uma definição geral de contexto como o background de suposições e práticas das quais o significado linguístico depende. A questão não está de forma alguma decidida. O que é certo é que estamos já bem longe da primeira definição ‘ingénua’ de contexto como coisas no mundo à nossa volta, e que a inocência de evocar o conteúdo de uma elocução está definiti- vamente perdida.

Lição

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Passemos agora a considerar o segundo ramo apontado. O objectivo desta lição é oferecer uma visão panorâmica da fi losofi a de Quine e da fi losofi a de Davidson. Quine e Davidson são autores incontornáveis na fi losofi a da mente e da linguagem contemporânea. Defenderam ambos a ideia de que a teoria da mente e da linguagem deve basear-se na interpretação do comportamento dos humanos, interpretação esta que supõe um princípio de caridade, segundo o qual a maioria das crenças de um agente são verdadeiras e a maioria das suas inferências racionais. Defenderam também uma tese aparentemente radical acerca da linguagem: a tese segundo a qual, estritamente falando não exis- tem dois homens que falem a mesma língua. Mas estes são apenas alguns dos pontos em que as fi losofi as de Quine e Davidson incluem teses acerca da lin- guagem. Quine é usualmente referido a propósito de: (i) a crítica à distinção analítico/sintético, (ii) a interpretação radical, (iii) a relatividade ontológica, e Davidson a propósito de (i) a teoria verocondicional do signifi cado, (ii) a tradução radical e também da (iii) teoria da acção. Nos Guiões que se seguem procura-se oferecer um quadro mais completo das visões em que todas estas teses se inserem.

GUIÃO Nº 22

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