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Echantillon Martiniquais

R 2 total expliqué par les trois

6. PROLONGEMENTS DE L'ETUDE

Nascida em Aracati, sendo a última filha mulher de uma família de sete irmãos, também morou na periferia de Fortaleza, mais precisamente no bairro Castelo Encantado, um dos bairros mais “mal falados” em termos de estatísticas da violência urbana, constituindo “um dos lugares que você sempre escuta falar nos programas policiais”. Sua mãe – que reside atualmente no município de Majorlândia-Ce – foi a única responsável por sua educação, tendo como bagagem apenas uma educação primária. Na busca para conseguir o sustento dos filhos, sua mãe, encarnando bem a trajetória dos sobrantes, ficou transitando de emprego em emprego: faxineira, doméstica e, depois, algum tempo numa fábrica de costura para roupas femininas. Atualmente, esta mãe é beneficiária de programas sociais do Governo Federal: Bolsa Família e desconto na tarifa de energia, uma ajuda financeira que permite a sobrevivência da família nesse momento. De seu pai, separou-se quando ainda era criança, mas ainda mantém um vínculo de carinho e amizade, visitando-o sempre que é autorizada. O mesmo reside no bairro Castelo Encantado, mas os contatos acontecem esporadicamente.

Assim narra os primeiros tempos de sua vida na relação com o pai e a mãe no município onde nasceu. Nas falas de D.F.S. é que descrevo um pouco de sua trajetória.

Cresci aos “troncos e barrancos”, em um município do interior do Estado, no entanto, sempre tive contato com a cidade de Fortaleza, onde reside meu pai, no bairro Castelo Encantado, onde fiz amizades. Mas, olha, sinceramente, não gostaria de morar lá, pois as brigas de gangues, tiros, tráfico e conflitos permanentes formam a vida desse bairro, que termina quase sempre em morte. Não é por acaso que o Castelo Encantado possui várias favelas: morro Santa Terezinha, Morro da Placas, Galera do Farol e outras mais.

Lá em Aracati, mesmo morando num bairro perigoso, que tem um apelido de “Gogó da Ema”, eu me sentia bem. Tenho amigos lá, que sempre estão comigo, mesmo nos deslizes e nas encrencas. Quando morava lá eu ia à praça. Lembro da minha mãe me levando prá pracinha, eu bem pequena. Depois que eu vim prá cá, eu percebi o quanto a minha mãe faz falta.

Não sinto tanta falta do meu pai, mas, acho que vou acabar indo morar com ele. Ele é mais firme comigo e tem mais “moral”. Mas, não sinto saudade dele, como sinto da minha mãe. Ela sempre vem me visitar aqui e chora. Toda visita tá lá a minha

mãe com os olhos inchados, vermelhos. Acho que ela deve pensar assim: minha filha, tão nova, ainda adolescente, nessa vida. Às vezes acho que ela sofre mais que eu. Ela é muito nervosa, toma remédio prá pressão. Desde que eu era mais nova, ela tomava remédio.

Dos oito irmãos maternos, filhos de três pais diferentes, apenas o irmão mais velho não tem envolvimento infracional, possuindo emprego fixo e ensino médio concluído. Os demais irmãos maternos, segundo D.F.S., migraram para a capital em busca de emprego, mas acabaram por adentrar a engrenagem do crime. Ao relatar sobre isso, a jovem olha para a

tatuagem que tem na perna, o nome “PAZ” em letras pretas, afirmando que decidiu se tatuar

por influência de um dos irmãos: “Minha „tattoo‟? Eu vi meu irmão, aí me deu vontade de fazer igual, agora nós dois temos o nome „PAZ‟ igual, escrito na perna. Sinto que estamos distantes, mas ligados de alguma forma, entende?”.

Em suas narrativas, o carinho depositado à família e aos amigos é algo deveras importante em sua vida. No entanto, é perceptível que sua mãe representa a pessoa a quem dedica especial carinho. Sobre a relação com mãe, a adolescente assim se refere:

Gosto muito de todos em minha família, mas a minha mãe, apesar de ter ficado longe dela esse tempo todo, eu sempre me lembro de como eram seus conselhos. Me avisando prá não seguir por esse caminho, me acalmando às vezes, me olhando com cara de choro, sempre querendo chorar... (Nesse momento, a jovem baixa a cabeça e parece esconder o rosto, levantando em seguida com lágrimas nos olhos).

Se eu pudesse, eu apagaria tudo que aconteceu. Toda essa minha vida de “tropeça aqui”, cai, tenta levantar. A razão de tentar me livrar de tudo isso é a minha mãe. Eu não falo muito prá ela, acho que nunca falei a ela “eu te amo”, mas eu sei que sem ela, eu estaria pior, sem rumo. Se eu fosse a minha mãe, não ia ter o jeito dela, como ela me trata, não ia ter tanta paciência não. É, mãe é mãe. A minha é muito boa. Acho que eu deveria ser filha de mãe ruim, que me prendesse, não deixasse tão solta. A minha mãe devia ser mãe de uma menina calma, sem problemas. Já pensei em fugir só prá não ver ela sofrer e contei isso a ela. Ela começou a chorar e disse: D.F.S. se você fizer isso vai me matar. Aí eu me aquetei...

Ao falar de Aracati, relembra dos amigos e dos encontros na praia, lugar onde as tribos e grupos praticam a “viração” 94

. Nos depoimentos, a saudade desses encontros e dos amigos é perceptível:

94

O sentido de “viração”, aqui, designa um modo de estar no mundo, no sentido de “se virar”. Embasa esta perspectiva a experiência da antropologia Maria Filomena Gregori, que, de 1991 a 1995, percorreu as ruas de São Paulo, no intuito de buscar depoimentos de meninos que vivem nas ruas da metrópole paulista, circulando e

se “virando” como podem. A partir dos depoimentos destes meninos, a autora realizou um estudo antropológico

dos diferentes agrupamentos de “meninos de rua” na cidade de São Paulo. A pesquisa, também realizada com agentes institucionais, desvenda fragmentos comoventes das trajetórias percorridas por estes jovens. Sobre isso, ver: GREGORI, Maria Filomena. Viração: Experiências de meninos nas ruas, Companhia das Letras, 2000.

Como eu morava perto da praia, quase todo dia eu ia caminhar e juntar “cacarecos, conchas, objetos. Eu catava algumas coisas deixadas pelos turistas na praia. Minha mãe não gostava não. Ela dizia que a praia não era confiável, que era ponto de prostitutas. Não sabia ela, que eu fazia isso mesmo. Lembro que um dia eu achei um relógio caro, de marca. Mas, vendi baratinho. Não podia voltar prá casa com ele. Meus amigos quase me mataram, quando resolvi vender o relógio por qualquer dinheiro ao cara lá do mercantil.

Sinto muita falta de Aracati, mas sei que lá tá complicado prá mim. Nem que eu queira voltar, não dá mais. A minha mãe já falou que prefere que eu fique morando aqui em Fortaleza com o meu pai e minha madrasta. Mas, quando eu penso em ser desligada, sempre acho que vou voltar prá Aracati, prá praia e pros meus amigos de lá. Se tiver que morar com meu pai, vou ter que me conformar. Vou ficar distante dos meus amigos e tentar conseguir outros aqui em Fortaleza.

Sobre os amigos que ficaram em seu município de origem, D.F.S. fala com carinho de Lila e Mariana (nomes fictícios), ao afirmar que:

A Lila teve sorte. Mas, só se deu bem porque persistiu. Entrou num projeto da praia, num desses aí prá adolescente, uma ONG e se tornou educadora social. Às vezes, a oportunidade até vem, mas só depois você se dá conta de certas coisas, aí é tarde demais... Na época, eu lembro que fazia parte do mesmo Projeto que a Lila, mas resolvi sair e ela continuou. Naquele momento, eu achei a coisa tão sem futuro. Era um projeto para reciclar lixo, fazer cartão de natal, aprender a ler e contar histórias, fazer aulas de redação, de hip hop, essas coisas aí. Hoje a Lila é educadora. E eu que achei que era perda de tempo. Um dia desses, eu vi a Lila dando entrevista na Tv. Ela agora faz parte de uma banda de percussão e de tambores. Aprendeu a tocar e tudo.

A Mariana (nome fictício) resolveu ficar em Aracati e se casou com um “gringo” que conheceu lá em Majorlândia. Mas, ela não leva uma vida calma não. Fiquei sabendo que o gringo dela tava envolvido com tráfico. A Mariana, coitada, já tem três filhos com apenas 19 anos. Bom, só sei de uma coisa, aquele tempo em que a gente caminhava pela praia, catando buzo e cacarecos perdidos, não volta mais. Tenho saudade desse tempo. Tudo parece que passou tão rápido. Eu agora tô aqui, a Lila é educadora e a Mariana é uma mãe de família. Tudo parece que passou de repente lá fora. Tudo mudou. Mas, aqui dentro do internato, tudo passa tão lento.

Nas narrativas acima, percebe-se que a jovem tem clareza de que a vida se faz de escolhas e negociações face às oportunidades que se colocam nas trajetórias. De fato, é perceptível a visão desta jovem de que poderia ter trilhado outro caminho. Em sua fala, D.F.S. afirma que teve uma oportunidade, mas acabou por negociar com rotas diferentes da amiga, enveredando por outro rumo.

Uma marca em sua trajetória são as incessantes buscas: buscas afetivas, busca por mudanças, busca por novas negociações. Valores como afetividade e gestos de carinho são percebidos por quem conviveu ou convive com a jovem. Sobre isso, a psicóloga da unidade afirma que D.F.S. sofreu muito durante o cumprimento da sentença no internato, tanto pelo apego à família, como pela facilidade de se apaixonar pelas demais adolescentes internas.

Ela é muito carente, se apega fácil, se apaixona pelas outras adolescentes. E aí, quando as outras a rejeitam, ela sofre muito. A questão é que o carinho que ela dedica nem sempre é devolvido na mesma medida. As meninas por quem se apaixona, nem sempre devolvem a mesma afeição, entende? Essa troca, ou busca não acontece ao mesmo tempo. (Psicóloga do Centro Educacional Aldaci Barbosa).

A necessidade de suprir carências afetivas parece ser recorrente na trajetória de D.F.S. Neste contexto do internato, o afeto se torna um elemento importante para entender as

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