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Chapitre V Application générique de retour d’expérience

V.5. Application à la sécurité en montagne

V.5.1. Le projet SUP

O pensamento político de Paulo Freire expressa sua própria trajetória de vida, as dificuldades que passou já na infância e os auxílios que pode contar da família – principalmente da mãe após a morte de seu pai – e a solidariedade dos amigos e vizinhos (FREIRE, 2006). Sua opção constitui-se como um testemunho de vida e, além disso, uma sensibilização com a sua história pessoal.

Paulo Freire fundamenta a sua leitura política do homem no aspecto histórico de sua natureza. As reflexões educativas que ele faz, no conjunto de sua obra, perpassam pelo aspecto político, pela reflexão do próprio homem. O homem não é um ser condicionado pela sua história, ele a faz, ele não está na história do mundo ele é a história do mundo.

Sendo assim, o homem para se tornar político, ou usufruir dessa condição, lutando pela possibilidade de construir sua história, que é seu direito, mas que relações de poder sociais procuram reprimir condicionada pela opressão das classes dominadoras, necessita estar consciente de sua situação, possibilitando que faça escolhas e busque alternativas que direcionem sua história no mundo.

A consciência, portanto, constitui um papel importante na construção desse homem que nasce com a vocação de ser mais. O inacabamento ou a inconclusão do ser faz parte da experiência vital, mas só entre mulheres e homens que o inacabamento se torna consciente (FREIRE, 1998). O homem possui a capacidade de intervenção no mundo, mas que muitas vezes é reprimida ou negada levando a um fatalismo, a um mundo sem possibilidades.

A orientação que move o pensamento político pedagógico em Freire (2000) nos propõe refletir sobre a intencionalidade da formação dos homens em que a educação aponta para algum lugar se nutrindo sempre de saberes interessados. O ato de ensinar vai se constituir como uma intencionalidade que pode servir a interesses distintos, de um lado um saber mecânico, sem crítica e leitura consciente do mundo, próximo de uma política neoliberal que atende os interesses de uma classe dominante; de outro, uma educação crítica que promove a inserção dos

sujeitos na construção de seu mundo, que constitui o educador progressista. Dessa forma, Freire assume a sua opção em defesa dos oprimidos, daqueles que vivem na periferia do mundo, buscando, não somente, uma mudança na educação, mas também uma mudança na sociedade.

O determinismo do ser humano no mundo que tira a possibilidade de pensar/fazer a sua história diferente é política da minoria dominante que, pensando o mundo com uma lógica neoliberal, procura rejeitar qualquer forma de emancipação social dos menos favorecidos, os “excluídos da terra”. É negada a escrita da história do mundo, a participação do homem na construção do mundo, da sua própria construção, da possibilidade de ser mais no mundo (sua vocação), a possibilidade de construir a sua própria humanidade, causando uma desumanização (FREIRE, 2001).

Essa relação do homem no mundo e a possibilidade de assumir-se no mundo de forma consciente é diferente da presença de um animal, que segundo as palavras de Freire está no suporte. No reconhecimento de sua condição de inacabamento, só possível aos homens e mulheres, o homem cria e recria o mundo, os animais, embora também na situação de inacabamento, só vivem na relação de sobrevivência. Nas palavras de Freire (1998):

Onde há vida, há inacabamento. Mas só entre mulheres e homens o inacabamento se tornou consciente. A invenção da existência a partir dos materiais que a vida oferecia levou os homens e mulheres a promover o suporte em que os outros animais continuam em seu mundo. Seu mundo, mundo dos homens e das mulheres. A experiência humana no mundo muda de qualidade com relação à vida animal no suporte. O suporte é o espaço, restrito ou alongado, a que o animal se prende “afetivamente” tanto quanto para resistir; é o espaço necessário a seu crescimento e que delimita seu domínio. É o espaço em que, treinado e adestrado, “aprende” a sobreviver, a caçar, a atacar, a defender-se num tempo; dependência dos adultos imensamente menor do que é necessário ao ser humano para as mesmas coisas. [...] A vida no suporte não implica linguagem nem a postura erecta que permitiu a liberação das mãos. Mãos que, em grande medida, nos fizeram. Quanto maior se foi tornando a solidariedade entre mente e mãos tanto mais o suporte foi virando mundo e a vida, existência.[...] na proporção que o corpo humano vira consciente, captador, apreendedor, transformador, criador de beleza e não “espaço” vazio a ser preenchido por conteúdos (p. 56- 57)

Sendo assim, o papel da educação vem ao encontro da humanização, que busca o entendimento do papel do homem histórico, fazedor de seu futuro,

problematizador da realidade: “É assim que se impõe o reexame do papel da educação, que não sendo fazedora de tudo, é um fator fundamental na reinvenção do mundo” (FREIRE, 2001, p. 14). A educação não é a única forma de elevar o nível de consciência do homem, mas tem obrigação de fazê-lo em um nível crítico, e essa busca de consciência não acontece de forma natural e sim a partir de uma reflexão profunda:

[...] se a promoção do que chamava “consciência semi-intransitiva" para a “transitivo-ingênua” se dava de forma automática, por força das transformações infraestruturais, a passagem mais importante, a da “transitividade ingênua” para a crítica, estava associada a um sério trabalho de educação, voltado para este fim (FREIRE, 2000, p. 102).

O homem, que pode ocupar a posição de homem-objeto, sendo condicionado pela história já escrita e nela ir se adaptando, sendo domesticado para alienação, pode se constituir como homem-sujeito, vocação ontológica do homem, fazendo e refazendo constantemente a sua história e do mundo, num processo contínuo de reflexão sobre o tempo e espaço em que vive (FREIRE, 1996).