CHAPITRE 6 PLANIFICATION ET OPTIMISATION DES RESSOURCES
6.1 OBJECTIF 1 : LA PRÉVENTION
6.1.5 PROGRAMME D’INSPECTION PÉRIODIQUE DES RISQUES PLUS
Yovel defende ainda que existem três funções para essa linguagem dupla: Ŗuma passiva ou defensiva; uma outra activa e até agressiva; e uma terceira construtiva e hermenêuticaŗ (YOVEL, 1993, p.146). Em relação à função defensiva, ele coloca que:
Impedido de revelar seu verdadeiro espírito a qualquer um, o filósofo não pode estar completamente preparado para a vida da razão sem aprender a usar a linguagem de um modo defensivo, mascarando os seus verdadeiros objectivos e intenções e transmitindo a alguns mensagens tácitas ao mesmo tempo que, no mesmo texto ou expressão, ilude outros. Uma das máscaras mais eficazes é o uso de expressões, imagens e fórmulas piedosas extraídas das Escrituras ou de crenças religiosas aceites (YOVEL, 1993, p.147).
Sendo assim, para Yovel, o uso que Spinoza faz no TTP, quando menciona termos das Escrituras como Řvontade de Deusř, Řprovidência divinař, Řfilho de Deusř, ou Řos artigos de féř, provenientes de um Deus pessoal e movido pelo amor e pela bondade, é em função de se esconder na linguagem. Ele estaria se escondendo em uma linguagem que sua própria filosofia rejeitaria como supersticiosa. Filosofia esta que, para Yovel, condiz com a ideia marrana de dissimulação da linguagem, em que esconde uma verdade esotérica. No caso de Spinoza, tal verdade seria a salvação por meio da razão e do conhecimento, em detrimento de todas as religiões históricas e, portanto, tal estratégia estaria explícita também nas correspondências do filósofo.
Para Yovel, o filósofo holandês segue como regra fundamental de sua vida a Řcautelař, insígnia em seu carimbo com duas rosas espinhosas, escrita em latim caute. Em nome da cautela, frente ao perigo político vivenciado pelos seus antepassados e a perseguição
de uma visão completamente nova para o seu tempo, ao defender uma filosofia da imanência absoluta, Spinoza, às vezes, mascara a sua própria filosofia e, às vezes, a desvela, dependendo para quem se dirige. Ele dá provas do uso de uma linguagem para um grupo seleto ou esotérico, por meio de significados e alusões somente para os iniciados naquele modo de pensar. Esse hábito adveio de uma necessidade de um povo que se conduziu diante do risco da perseguição e tornou-se, com o tempo, um prazer estético e um estilo linguístico e artístico, trazendo para Spinoza a sensibilidade linguística a qual foi herdada dos marranos ao utilizar, com os mesmos termos da tradição metafísica judaico-cristã, ideias radicalmente novas que negam a transcendência e afirmam uma imanência absoluta.
Estaríamos diante de certo distanciamento comedido e defensivo por parte de Spinoza, pelo qual é possível manter a atividade filosófica em voga e as reflexões em um sentido íntimo, em que devem ser protegidas da maioria, isso porque, a sua vida e a vida de seus antepassados de perseguições e denúncias frente à Inquisição levam o filósofo a ter cautela contra a intolerância que governa a multidão. Não somente isso, mas também sua filosofia é fruto de profundas reflexões que visam entender o funcionamento dessa imaginatio da multidão e, com isso, produzir a compreensão crítica de uma psicologia da maioria ŕ de seus domínios intrínsecos provenientes das concepções metafísicas, como substrato de suas
formas de pensamento115.
Esta seria, para Yovel, um uso retórico da linguagem que diz respeito à sua função defensiva, relacionada à caute como estratégia pública por parte do filósofo. Isso significa que, apesar do discurso ser dirigido a todos do mesmo modo, Spinoza faria uma diferenciação que consistiria em Ŗprovocar uma conversão racional naqueles que de tanto se revelarem capazes e ocultar a sua verdadeira mensagem àqueles a quem ela não aproveitará e que poderiam mesmo ameaçá-lo por tê-la expressadoŗ (YOVEL, 1993, p.147). No TTP, Spinoza utiliza diversas vezes os vocábulos Řvontade divinař, Řprovidência divinař, Řleis de Deusř, Řdecreto divinoř e Řpalavra de Deusř. Esses termos, para o leitor da Ética, contradizem completamente a substância absolutamente infinita e contêm, no próprio TTP, um núcleo que
115 Para Yovel, na exegese racional de seu próprio povo, Spinoza dedica-se à análise minuciosa de sua língua,
como marco central para entender o modo de funcionamento, ou, a psicologia do povo hebreu. Para Spinoza, a filosofia aparece como uma atitude no contexto em que ele se aparta de seu próprio povo, não obstante sem deixar de considerá-lo como uma questão específica em suas reflexões. Bem como faz depois do herem, em que, apesar de livre do judaísmo, permanece diferenciado dos pensamentos de seus concidadãos holandeses e seus contemporâneos, que o julgam, em sua maioria, como um Ŗateu de sistemaŗ ou, por vezes, um Ŗébrio de Deusŗ (Cf. Maria Luisa Ribeiro Ateu de Sistema ou Louco ébrio de Deus? – Deus ou Natureza de Bento Espinosa. In: Conatus: Filosofia de Spinoza, ISSN 1981-7509, Vol. 2, Nº. 4, 2008, pags. 73-86).
pode ser traduzido nos termos da imanência de Spinoza e, portanto, encarado como uma máscara metafórica.
Além disso, segundo Yovel, Spinoza possui uma estratégia ofensiva que consiste em Ŗsuscitar perplexidades, de modo a afrouxar o domínio da superstição religiosa sobre a multidãoŗ (YOVEL, 1993, p.148). Ele consegue, com isso, mostrar os pontos de tensão do texto bíblico por meio de suas contradições. Trata-se de certa estratégia de ataque linguístico com a qual ele se utiliza da persuasão e da polêmica como meios de uma conversão racional da multidão. ŖEla expressa a necessidade de o filósofo se aproximar daqueles que eventualmente sejam capazes de uma vida racional e subverter as suas arraigadas crenças como preparação para a filosofiaŗ (YOVEL, 1993, p.148). Assim sendo, Spinoza instigaria as dúvidas e interrogações de sua audiência, guiando-a para uma vida racional.
Yovel se refere à dialética, à alegoria, à metáfora116 e ao equívoco como meios de
Ŗassumir a linguagem e os padrões do seu interlocutor a fim de transformar o significado destes e eventualmente contra si mesma voltar sua autoridadeŗ (idem). Tal uso retórico- ofensivo teria, para Yovel, um caráter educativo e gradual para uma vida racional. A razão cumpriria um papel provocativo. Assim, Spinoza, crítico das Escrituras por possuir conteúdos metafóricos, se socorreria, também, na metáfora assumida nessa duplicidade da linguagem.
***
Em relação à estratégia dita defensiva, Spinoza certamente recorre à cautela para com as suas obras e não somente em relação às obras que foram publicadas. Na própria Ética, vemos o filósofo, inúmeras vezes, solicitando para que o texto ou o argumento seja lido até o final e pesado nas reflexões do leitor. É certo que ele utiliza da cautela como uma estratégia também linguística na escolha de termos. Há um desejo obsessivo de Spinoza para que não o refute ou julgue seu trabalho sem ler cuidadosamente antes. Prevalece um cuidado para com quem ele julga que é incapacitado pelos preconceitos em suas mentes, dentre os quais, nas cartas, ele refuta como se os princípios fossem radicalmente distintos dos seus, como é o caso de Blienbergh, Velthuyssen e Boxel (Ep56 p.262).
O conteúdo de suas cartas revela, por vezes, uma filosofia que é, ao mesmo tempo, expressão de si e uma crítica a outras visões com as quais ele confronta. O filósofo
116 O uso do equívoco e da linguagem dupla é típico de certo conceptismo barroco. Cf. A Estética Do Barroco de
trata tanto seus amigos íntimos, amigos distantes e inimigos na busca de compreendê-los e
criticá-los117, como faz tanto com a tradição judaico-cristã quanto com Descartes. Trata-se
mais propriamente de uma máquina interpretativa que não cessa sua atividade de análise linguística.
Quando Spinoza anuncia a publicação de suas obras, é sempre cuidadoso:
Porém, às vezes, desisto deste trabalho, porque, todavia, não tenho nenhuma decisão firme sobre sua publicação. Pois temo que os teólogos de nossa época se ofendam e me ataquem com o ódio e a veemência que lhes é habitual - a mim que sinto verdadeiro horror às disputas. Esperarei seu conselho acerca deste assunto. E, para que você saiba o que contém esta minha obra, que pode perturbar os pregadores, eu lhe direi que muitos atributos que eles, e todos que eu conheço, atribuem a Deus, eu os considero como criaturas; e, ao em vez disso, outros que, por seus prejuízos, eles consideram como criaturas, eu defendo que são atributos de Deus e que eles não os têm compreendido. E, ademais, eu não separo Deus da natureza tanto como fazem todos aqueles de quem tenho notícia (Ep.6, p.36, tradução nossa118).
Isso ocorre não só nas correspondências, mas também nos PPC:
Finalmente, para pôr fim a este prefácio, queremos que os leitores não ignorem que todos estes tratados são publicados com o único propósito de investigar e difundir a verdade e de impulsionar os homens ao estudo da verdadeira e sincera filosofia. Que todos, pois, antes de entregar-se à sua leitura, se recordem do nosso aviso de colocar em seu lugar algumas coisas omitidas e de corrigir cuidadosamente os erros tipográficos que tenham escapado, a fim de que consigam fazer sair o abundante fruto que, de coração, a todos desejamos. Porque, entre eles, existem alguns que poderiam impedir que percebessem corretamente a força da demonstração e a mente do autor, como facilmente verificará qualquer um que os examine (PPC. Pref. p.133, tradução nossa119).
117Ele se correspondeu com vários tipos de interlocutores e de diferentes nacionalidades. Atilano Dominguez
destaca três grupos de correspondentes: os amigos íntimos (dentre eles Vries, Balling e Bouwmeester), os colegas distantes que queriam saber um pouco mais de seu pensamento (em geral, os membros da Royal Society de Londres, como Oldenburg e Boxel), os inimigos de sua filosofia (dentre eles Blijenbergh, Velthuysen, Graevius e Burgh) e os desconhecidos como Leibniz e Fabritius. O que queremos dizer é que um público variado exige adaptação da linguagem. Isso ocorre também na língua em que o filósofo fala. Por vezes ele anuncia nas Cartas que sabe pouco holandês. Na Carta 19 a Blijenbergh, o filósofo confessa que Ŗ(...) muito gostaria poder escrever na língua em que fui educado, porque quiçá puderia assim expressar melhor meus pensamentos. Porém, sirva-se tomar isto bem e corrigir você mesmo as faltas.ŗ (Ep.19 (95)). Essa alusão à língua em que foi educado pode, segundo Dominguez, fazer referência ao português (língua da comunidade judaica de Amsterdã e de sua família); ao espanhol (a língua culta, de livros na sua biblioteca, atos religiosos e educação); ou ao latim (língua que Spinoza tinha domínio) em oposição ao holandês que ele não escreve com segurança e, mesmo em determinado momento, o inglês aparece com certas falhas (Ep26). Cf. Introdução de Atilano Dominguez à
Correspondencia, Alianza Editorial, 1988.
118 ŖPero a veces desisto de este trabajo, porque todavía no tengo ninguna decisión firme sobre su publicación.
Pues temo que los teólogos de nuestra época se ofendan y me ataquen con el odio y vehemencia que les es habitual, a mí que siento verdadero horror hacia las disputas. Esperaré su consejo acerca de este assunto. Y para que usted sepa qué contiene esta obra mía, que pueda disgustar a los predicadores, le diré que muchos atributos que ellos, y todos cuantos yo conozco, atribuyen a Dios, yo los considero como creaturas; y al revés, otras cosas que, por sus prejuicios, ellos consideran como creaturas, yo defiendo que son atributos de Dios y que ellos los han entendido mal. Y además, yo no separo Dios de la naturaleza tanto como lo hicieron todos aquellos de que tengo noticia.ŗ
119
ŖFinalmente, para poner fin a este prefacio, queremos que los lectores no ignoren que todos estos tratados se publican con el único fin de investigar y difundir la verdad y de impulsar a los hombres al estúdio de la verdadera y sincera filosofía. Que todos, pues, antes de entregarse a su lectura, recuerden nuestro aviso de añadir
Vemos aí exemplos típicos de sua controvérsia filosofia e a inquietação em pensar em publicar suas ideias. As demais cartas como a Ep.12A, sobre quais termos utilizar nos PPC, CM e respectivos Apêndices, bem como a Ep.15 sobre as estratégias com Meyer de melhor utilizar ou deixar de utilizar certas palavras na publicação dos PPC, dizem respeito ao uso cuidadoso e cauteloso de sua linguagem, porque ele conhece seu tempo e suas más interpretações e controvérsias. Nas Cartas, não temos nenhum indício de que Spinoza fale outra linguagem que não uma análise minuciosa dos termos utilizados pelos seus interlocutores, tanto concernentes à temática teológica quanto à temática metafísica. Fazer esse jogo interpretativo e analítico, no entanto, não é usar uma linguagem dupla como quer Yovel, mas uma multíplice interpretação crítica dos temas que lhe chegam. Essa análise interpretativa é própria da proposta de Spinoza e seu método interpretativo no capítulo VII do TTP. A prova disso é que, quando chamado à argumentação, ele não hesita em demonstrar seu pensamento filosófico próprio.
É certo que Spinoza tem a cautela com a linguagem de que se utiliza, mas isso é mais uma estratégia de publicação frente às controvérsias religiosas de seu tempo que uma
duplicidade de linguagem120. Devemos afirmar novamente, em cada discurso específico
en su lugar algunas cosas omitidas y de corregir cuidadosamente los errores tipográficos que se han escapado, a fin de que logren sacar el copioso fruto que de corazón a todos deseamos. Porque, entre ellos, hay algunos que podrían impedir que se percibiera correctamente la fuerza de la demostración y la mente del autor, como fácilmente lo verificará cualquiera que los examine.ŗ
120Spinoza aparece, nas primeiras cartas, bastante cuidadoso com a publicação dos primeiros escritos e
compartilha desse cuidado com Oldenburgh. O filósofo é um tanto cuidadoso com os primeiros escritos e ousa apenas publicar os Princípios de Filosofia Cartesiana tendo como anexo Os Pensamentos Metafísicos, correspondência que troca com seu muito amigo Mejer sobre a edição em Amsterdã. Há correspondências em que Spinoza revela de fato e discute sua própria filosofia, como, por exemplo, as cartas a Hudde que são de extrema importância para compreender as primeiras proposições da Ética. Pela primeira vez, cronologicamente nas cartas, ouvimos falar das suas definições de Deus, substância e atributos e as propriedades que lhes são intrínsecas. Bem como nas suas últimas cartas de 1665, para Oldenburgh, em que Spinoza toma as noções comuns, tentando definir a resposta à pergunta a respeito das interconexões da natureza ou como o todo está conectado às partes. A carta a Bowmeester serve-nos para compreender o método que não é outro senão a partir de uma união do entendimento com o todo. Tal união garante que todas as ideias claras e distintas podem ser deduzidas, segundo as leis de nossa própria natureza. Essa é a ordem e conexão segundo a qual deduzimos sem incorrer em erro, porque partimos do intelecto (entendimento) e suas leis fixas e imutáveis. Spinoza discorre sobre a teoria de Francis Bacon e sua dedicação em descrever as percepções da mente, que em muito colaboram para distinguir entre entendimento e imaginação e pela qual, finalmente, chegaríamos a compreender o verdadeiro método, isto é, o entendimento e as leis de sua natureza. Nessas cartas estão, com maior impacto, a própria ontologia de Spinoza e sua demonstração de que há uma salvação pelo conhecimento; argumento esse presente também no caso das cartas aos seus inimigos ou àqueles que não conseguem entender suas ideias. As cartas a Blijenbergh são todas voltadas ao debate da doutrina judaico-cristã em contraposição à visão imanente de Spinoza, nas quais o filósofo discute nos termos da própria tradição por ele criticada e trazida pelo calvinista. O filósofo, como um exímio retórico, tenta adentrar no próprio discurso dele e indicar seus pontos controversos. Velthuysen indica, com algumas qualidades, o trabalho de Spinoza no Tratado Teológico-Político, apesar de julgá-lo mais que compreendê-lo, ao passo que Spinoza permanece no seu discurso, tentando compreendê-lo e
podem-se extrair pontos de distinção entre como Spinoza interpreta-os e como ele toma para si uma forma divergente.
Spinoza joga, de fato, com diversos vocábulos, inclusive que não são seus, para compreendê-los e interpretá-los em seu sentido próprio. Nos PPC, ele faz isso em relação à filosofia cartesiana, como uma forma de explicação, muito embora, algumas vezes, deixe explícita a divergência entre ambos os pensamentos. Por exemplo, em relação à vontade e o intelecto, como é acusado no prefácio de Luis Meyer e no qual é reservada a explicação do próprio sentido no texto cartesiano. E também na Carta 2 e demais cartas com Oldenburgh, a quem explica tacitamente o seu pensamento.
Alguns termos dos Pensamentos Metafísicos, relativos à ideia de Deus como vida e criação, dizem respeito à análise segundo poderia ser entendido na filosofia spinozana como Ŗprodução necessáriaŗ e Ŗconatus ou potência para existirŗ. Isso ocorre inúmeras vezes no Breve Tratado, pelo fato de ele se utilizar de um vocabulário radicalmente distinto da Ética, mas que possui uma estrutura argumentativa semelhante.
Mas ele não faz isso senão solicitando aos leitores que realmente se interessam em filosofar e se propõem a levar à tona suas reflexões, isto é, que não se limitam ao julgamento odioso de suas ideias. O próprio prefácio do TTP é dedicado para aqueles que não possuem prejuízos, ou seja, para os que pretendem pensar cuidadosamente e colocar seus entendimentos em atividade.
No TTP, ele faz uma distinção radical entre a teologia ŕ enquanto fé e obediência ŕ e a filosofia ŕ enquanto dedução explícita. Obviamente que diferenciar esses dois campos de análise não é duplicar uma linguagem, mas interpretar, de um lado, a escritura por ela mesma e, de outro, o pensamento filosófico elaborado. O mesmo ocorre na interpretação do texto cartesiano ou de um interlocutor por ele mesmo. De forma alguma Spinoza vela e desvela seus pensamentos para públicos seletos. Pelo contrário, ele distingue de forma radical aqueles que ele sabe que não vão ter cuidado para com sua interpretação e aqueles que vão ter tal cuidado, porque se dedicam ao conhecimento, convidando explicitamente em seus prefácios os últimos em detrimento dos primeiros:
Quanto aos outros, não tento sequer recomendar-lhes este tratado, pois nada me leva a esperar que ele, por qualquer razão, lhe possa agradar. Sei, efectivamente, quão arreigados estão na mente os preconceitos que o ânimo abraçou como se de piedade se tratasse; sei, além disso, que é impossível libertar o vulgo da superstição como do indicar seus argumentos. A carta ao amigo Jarig Jelles, de 1671, mostra, por parte de Spinoza, uma preocupação em impedir em definitivo a tradução do TTP, porque já estava sendo proibido na Holanda.
medo; (...) Não convido, portanto, o vulgo, nem aqueles que se debatem com os mesmo afectos, a lerem este livro. Prefiro que o desprezem a que me molestem interpretando-o perversamente, como costumam fazer sempre, não aproveitando eles nem deixando que aproveitem os que poderiam filosofar mais livremente (TTP, Pref. p.12).
Essas afirmações são condizentes com o fato de que Spinoza se expressa livremente e defende essa liberdade de expressão (TTP, XX). Ele não está ocultando sua linguagem em uma máscara teológica, ou sequer iludindo seus leitores e atraindo os mais atentos para uma vida racional, como Yovel propõe. Ele está explicitando uma diferença fundamental entre os que se interessam pelo conhecimento e aqueles que se reduzem ao mero julgamento apressado e sem compreensão. Ele torna isso explícito nos próprios textos publicados:
E, como vocês tampouco ignoram a condição do século em que vivemos, peço-lhes, muito encarecidamente, que tenham cuidado para não comunicar estas coisas a outros. Não quero dizer com isto, que vocês devam guardá-las exclusivamente para vocês mesmos, mas apenas que, se alguma vez começar a comunicá-las a alguém, não o conduzam a nenhum outro objetivo senão a salvação dos seus próximos (...). Finalmente, se na leitura deste escrito encontrar alguma objeção contra o que eu sustento, convido-os a não se apressarem em refutá-lo imediatamente, antes de tê-lo examinado com tempo e ponderação suficientes. Se assim fizerem, tenho a certeza