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Un programme d’action : le plan vert

Discussion générale

2. Un programme d’action : le plan vert

William Carisdall em Icária (1840)

[Voyage et Aventures de Lord William Carisdall en Icarie]

Étienne Cabet

(1788-1856)

Na tradição da literatura utópica, Viagem e Aventuras de Lorde William Carisdall em Icária inicia-se com um narrador/editor que elucida o leitor sobre a sua amizade com o herói/viajante, o jovem aristocrata inglês Lorde Carisdall, autor do relato que se apresenta a partir do capítulo II sobre um país até então desconhecido, regido pela razão, justiça e sabedoria. A Icária constitui uma república democrática na qual se promovia a igualdade e a felicidade, baseadas na participação de todos os cidadãos nas decisões políticas do país, por meio de mil assembleias populares, uma para cada comuna. O texto apresenta com grande pormenor uma organização social e institucional próxima do modelo comunitário dos primeiros cristãos, salientando-se a não existência de propriedade privada nem de concorrência, a partilha de bens e o comunismo agrário. Não existe dinheiro nem poluição, tal como não existe delin- quência nem violência doméstica. Nesta sociedade perfeita, na qual tudo é admirável, todos vivem em paz e o povo é inteiramente feliz, a educação é universal e gratuita para ambos os sexos, o trabalho é auxiliado por meios mecânicos e a cidade convive em harmonia com o campo. A alimentação, gratuita e fornecida aos cidadãos de acordo com as suas necessidades, constitui a temática desenvolvida no capí- tulo VII, abaixo reproduzido. Nele se dá conta do convívio de Carisdall com os seus amigos icarianos, Valmor e a irmã, Corilla, bem como com Eugénio, um pintor francês exilado em Icária. Embora Caris- dall elucide o leitor que a conversa sobre alimentação se iniciara com informações por parte de Valmor, explica que opta por transcrever no seu relato uma carta que Eugénio escrevera ao irmão, Camilo, por nela se encontrar o sistema de alimentação e de distribuição dos alimentos perfeitamente exposto. Republicano e socialista, Étienne Cabet conheceu o exílio durante cinco anos, tendo estado em Inglaterra – onde aprofundou o seu contacto com o trabalho de Robert Owen – até 1839 e regressado a França no ano seguinte, quando dá à estampa o seu texto especulativo sobre uma sociedade ideal numa ilha que constituía um paraíso terrestre. Ao contrário da popularidade da obra literária, as comunidades utópicas/intencionais inspiradas em Icária e estabelecidas a partir de 1848 pelos seguidores de Cabet no território americano – Texas, Illinois, Iowa e Califórnia, tendo o próprio Cabet se juntado aos grupos definitivamente em 1852 e morrido em St. Louis, no Missouri — conheceram desde o início bastantes dificuldades e, embora tenham chegado a integrar cerca de 5000 pessoas, desintegraram-se nos finais do século XIX.

“Manda primeiro produzir os alimentos necessários, depois os úteis e por último os agradá- veis, e todos eles em maior número possível.

“Distribui-os por todos equitativamente, para que cada cidadão receba a mesma quantidade de um determinado alimento, se houver para todos, e que cada um receba apenas na sua vez, todos os anos ou todos os dias, se houver apenas para uma parte da população.

“Todos recebem, portanto, uma parte igual de todos os alimentos sem distinção, desde o mais rude ao mais delicado; e toda a população de Icária está tão bem ou até mais bem alimentada do que os mais ricos dos outros países. [...]

“Não só a República manda fazer criação de todo o gado, aves e peixes necessários, cultivar e dis- tribuir todos os legumes e frutas que são consumidos na sua máxima frescura, mas também utiliza todos os meios para os conservar, secar, confitar, etc., para depois distribuir as suas provisões.

“Mas não é tudo: o Conselho de que te falei há pouco debateu e indicou o número de refeições, a sua hora e duração, o número de pratos, a sua espécie e a ordem em que são servidos, variando-os constantemente, não só de acordo com as estações e os meses, mas ainda de acordo com os dias, a fim que os jantares da semana sejam todos diferentes.

“Às seis horas da manhã, antes de começar o trabalho, todos os trabalhadores, ou seja, todos os cidadãos tomam, na sua oficina, um primeiro almoço muito simples (que os nossos trabalhadores de Paris designam de arranque matinal), preparado e servido pelo restaurador da oficina.

“Às nove horas, almoçam na oficina, enquanto as suas esposas e filhos almoçam nas suas casas respetivas.

“Às duas horas, todos os moradores da mesma rua reúnem-se no seu restaurante republicano, para desfrutar, em conjunto, de um jantar preparado por um dos restauradores da República.

“E à noite, entre as nove e as dez horas, cada família faz, na sua própria casa, uma ceia ou uma refeição leve preparada pelas mulheres da casa.

“Em todas essas refeições, o primeiro brinde é pela glória do bom Icar, benfeitor dos trabalha- dores, benfeitor das famílias, BENFEITOR DOS CIDADÃOS.

“A ceia é principalmente composta por frutas, doces e guloseimas.

“Mas o jantar comum, servido em belos salões elegantemente decorados, com mil a duas mil pessoas, supera em magnificência tudo o que possas imaginar. A meu ver, os nossos restaurantes e cafés mais belos de Paris não são nada em comparação com os restaurantes da República. Talvez não queiras acreditar quando te disser que, além da abundância e da delicadeza dos pratos, além das decorações de flores e de outro tipo, uma música encantadora maravilha os nossos ouvidos enquanto o olfato aprecia os deliciosos aromas.

“Além disso, quando os jovens se casam, não precisam de comer os seus dotes numa festa de casamento de má qualidade e arruinar os seus nascituros; os jantares que o marido descobre no restaurante da esposa, a esposa no do marido e as duas famílias juntas em cada uma delas substi- tuem as mais belas refeições de outros países.

“E, no entanto, podes imaginar que essas refeições comuns geram uma economia imensa em relação às refeições separadas e, por conseguinte, permitem aumentar substancialmente o prazer. “Também poderás imaginar que essa comunhão de refeições entre os trabalhadores e entre os

CAPÍTULO VII

Alimentação.

Era um dia de descanso, domingo de Icária, ou melhor, o décimo dia da semana icariana; e Val- mor, que já me tinha avisado há dois dias, chegou cedo para nos levar, a mim e ao Eugénio, para os acompanhar num passeio até ao campo.

Descreverei mais adiante os meios imaginados e praticados pela República para facilitar essas excursões e jantares no campo, pelos quais os Icarianos anseiam sempre, desde a primavera até ao outono. [...]

Por mais interessante que fosse para mim a história da Corilla, que ela conseguia aliás tornar deveras fascinante, interessou-me ainda mais o relato de Valmor, quando este nos explicou o sistema adotado pela República para a alimentação dos seus cidadãos. [...]

CARTA DE EUGÉNIO AO IRMÃO.

“Ó meu querido Camilo, como sinto o coração apertado quando penso na França e vejo a felici- dade de que frui aqui o povo de Icária! Mas julga por ti próprio descobrindo as suas regras rela- cionadas com a ALIMENTAÇÃO e com o vestuário.

ALIMENTAÇÃO.

“Em relação a esta primeira necessidade do Homem, como em todas as outras, tudo no nosso infeliz país é deixado ao acaso e está repleto de abusos monstruosos. Aqui, pelo contrário, tudo é definido através da razão mais esclarecida e da solicitude mais generosa.

“Imagina tu, meu querido irmão, que não há absolutamente nada em relação à alimentação que não seja regulamentado por lei. É ela que autoriza ou proíbe qualquer alimento.

“Um Conselho de Sábios, instituído pela representação nacional, auxiliado por todos os cida- dãos, fez a lista de todos os alimentos conhecidos, indicando os bons e os maus, bem como as boas ou as más qualidades de cada um.

“Mas fez mais: entre os bons, indicou os necessários, os úteis e os agradáveis, mandando im- primir a lista em vários volumes, dos quais cada família tem uma cópia.

“E ainda foram mais longe: indicaram a forma mais adequada de preparar cada alimento e cada família também possui o Guia do Cozinheiro.

“Estando a lista dos bons alimentos assim definida, é depois a República que os manda pro- duzir pelos seus agricultores e trabalhadores, e que os distribui às famílias. E como ninguém pode ter outros alimentos além daqueles que são distribuídos, podes imaginar que ninguém pode consumir outros alimentos que não sejam os aprovados.

E Se...? Narrativas Especulativas Sobre Alimentação e Sociedade – Uma Antologia Série Alimentopia