Conforme foi mencionado em momentos preliminares do trabalho, a formação da Colônia Alemã é um advento originado na atividade comercial, fundamentalmente aquela sustentada pela navegação, amplamente impulsionada desde a abertura dos portos em 1808. O perfil da colônia, deste modo, foi impresso, primeiro pela atividade de importação e exportação, e aquelas a estas últimas relacionadas, posteriormente ampliando sua atuação em atividades diversificadas, exercidas por profissionais liberais, pequeno comércio e atividades artesanais. O atributo fundamental a ser associado aos alemães estabelecidos em Salvador é o empreendedorismo, ou melhor, o ethos presente em muitos deles e que possibilitou o êxito de numerosas empresas cujos proprietários foram ou são alemães e teuto- brasileiros.
Objetivando não me afastar por demais do propósito maior deste trabalho, pretendo discorrer, de maneira, breve, sobre as atividades em que se puderam identificar os membros da colônia alemã de Salvador, relacionando-as ao próprio processo de desenvolvimento da colônia. Estas atividades, em determinados momentos, dizem bastante sobre a trajetória da colônia e sobre as razões pelas quais muitos destes imigrantes permaneceram na capital da Bahia.
7.1 Caixeiros, empresários, profissionais liberais e outros ofícios.
As empresas de importação e exportação estabelecidas em Salvador, gradativamente, se desenvolveram, demandando a criação de estruturas administrativas, mas, fundamentalmente, de circulação de produtos. Neste contexto, a larga utilização de caixeiros viajantes atraiu indivíduos de diferentes regiões da futura Alemanha, notadamente das cidades hanseáticas de Hamburgo, Bremen e Lübeck.O comércio em Salvador, então, apoiou-se nos esforços destes profissionais, que viajavam pelo interior com tropas de mulas. Uma das empresas, decerto a de maior destaque e mais longeva, consolidou-se com o nome de Westphalen, Krohn &
destacadamente, distribuindo produtos através na região norte, nordeste do Brasil e norte de Minas Gerais. Como importadora e exportadora era responsável por abastecer o mercado desta região com vasta diversidade de produtos, de parafusos a motocicletas, passando por tecidos, produtos agrícolas, ferragens diversas e automóveis. Marcou a arquitetura da cidade com a construção de sua sede na antiga Rua da Alemanha – que teve o nome modificado para Rua da Polônia após a Segunda Guerra Mundial –, reconhecida pela população como sendo a construção mais alta da cidade e que hoje abriga o INSS. A empresa implantou a Villa
Allemanha, com o objetivo de abrigar grande parte de seus funcionários, cujo último
endereço foi a Avenida Sete de Setembro em 1910, no casarão que hoje abriga a Aliança Francesa. A história desta empresa se encerrou com o segundo conflito mundial, quando foi tomada de seus donos pelo governo brasileiro (e, jamais, fora restituída) e desapareceu do mercado, junto com tantas outras empresas de propriedade de alemães na época.113
Ainda no âmbito do comércio de importação e exportação, dezenas de empresas atuaram em Salvador, escoando a produção de produtos como cacau, fumo, charutos, piaçava, açúcar, café, algodão, dentre outros. Traziam também linho, seda, lã, brins, meias, fogos de artifício, vidros, porcelana, embutidos, carne salgada, trigo, tintas, mobílias, pianos, drogas (medicamentos) e diversas outras mercadorias. Dentre as empresas que merecem destaque neste ramo, cito: Laporte
& Co., Overbeck, Linde &Co., Hoffmann & Co., Behrmann & Co e Von Uslar,
algumas delas movimentando as exportações das empresas de fumo do recôncavo baiano, como Dannemann e Suerdieck.
Atuando em navegação C. Domschke, representando a Hamburg-
Sudamerikanischen-Dampfschiffarts-Aktien-Gesellschaft (até hoje atuante neste
segmento com a marca Hamburg Süd) e a Norddeutscher Lloyd, representada pela
Behrmann & Co., ainda no segmento de transportes aéreos, havia o Sindicato
Condor, mais tarde, Cruzeiro do Sul.
O Deutsch-Brasilianische Bank, fundado em 1873, esteve presente em Salvador até a década de 1920, quando a crise econômica alemã se agravou após a Primeira Guerra Mundial. Outras áreas de atuação foram de notada participação de alemães, como o comércio de instrumentos musicais, pianos em especial; serviços
113 Cf. Livro comemorativo Westphalen, Bach und Krohn. Centenário: 1828-1928. Salvador: s/ed. 1928.
de fotografia, litografia, relojoaria e jardinagem. O ensino de música e idiomas era anunciado em jornais no século XIX e início do XX. Alemães estiveram presentes também no segmento de energia elétrica e mineração.
Numa cidade em que havia poucas alternativas de hospedagem, havia ao menos duas pensões de proprietários alemães: Pensão Jensen, de propriedade da família Gebers, Pensão Laporte, da senhora Minna Laporte114 e Pensão Lösche, cuja dona era descendente de alemães de Joinville, que segundo informantes, atendiam as exigências de viajantes alemães, insatisfeitos com as condições que encontravam em pensões brasileiras. A primeira, Jensen, funcionou por muito tempo na Vitória, abrigando não só viajantes, mas membros das colônias que não possuíam residência própria, geralmente funcionários de empresas solteiros. As cervejarias Brahma e Antarctica, ambas criadas por alemães e que atuavam havia bastante tempo no estado da Bahia, protagonizaram uma curiosa disputa para fornecer seu produto ao Clube Germania. Houve, inclusive, um abaixo assinado no clube a favor da segunda, porém, sendo o representante da primeira eleito diretor social do clube, utilizou-se desta condição para reverter o resultado a favor da empresa a qual era vinculado. 115
No século XX, as atividades já existentes e exercidas por membros da colônia diversificaram-se, o ramo óptico, com as Óticas Ernesto, pertencente à família Weckerle; a chegada da família Odebrecht, que originariamente viera de Blumenau, passando antes por Recife, antes de estabelecer-se definitivamente em Salvador no ramo da construção. Ambas prosperaram, embora as famílias raramente interajam com a colônia atual. Após a Segunda Guerra, a colônia diminuta recebeu, ainda que temporariamente, alemães que atuavam na indústria química e mecânica; foram instaladas a Tibrás (Bayer), Cremer, Bosch e, recentemente, a Continental, fabricante de pneus.
A rápida exposição aqui feita pretende mostrar a diversidade de atividades em que estiveram envolvidos os alemães em Salvador, alguns deles apenas de modo efêmero, no entanto deixando sua contribuição para a colônia. Atualmente não se
114 Esta cozinheira alemã, curiosamente, protagonizou o único caso registrado por mim de utilização de uma variação deturpada do idioma alemão à maneira que registra nas colônias do Sul do Brasil: “Abra mich mal die janella, aber n‟bischen mit die Preβ”. Algo como: “Abra a janela para mim, mas depressa (ou rapidinho)”, numa forma „aportuguesada‟ de estabelecer comunicação com seus empregados.
pode relacionar, exceto no comércio de fumo e charutos, atividades a que a pequena colônia esteja especialmente vinculada, sejam elas desempenhadas por membros de nacionalidade alemã ou por teuto-brasileiros.