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I. 4/ 2 LES PROCESSUS DE CONCEPTION DANS L’ARCHITECTURE NON-STANDARD
Como podemos perceber, os objetos geradores possuem uma estreita relação com a proposta de Freire (1987) do círculo de cultura, no qual emergem as palavras e os temas geradores. A diferença maior é a inversão promovida por Ramos (2004) quanto ao, digamos, protagonismo dos objetos nos museus ou outros espaços educativos que alçam um status de importância ao da palavra no contexto da alfabetização.
Tal inversão não negligencia ou anula o sujeito, mas cria outro parâmetro relacional para as interações entre seres humanos e não humanos na historicidade do mundo em que vivemos. Quando passamos a refletir sobre o círculo de cultura sociopoético e os objetos geradores, creio que aumenta a superfície de contato entre essas propostas de modo a tornar inadiável sua integração em uma situação de pesquisa.
A permeabilidade que enxergo entre esses métodos se dá, primeiramente, pela transformação da multirreferencialidade – círculo de cultura, sociopoética e objetos geradores- em interferencialidade:
Isto é, cada interlocutor (a), ou autor (a), estabelece as relações com seus parceiros e parceiras, falando para todos os outros, com os outros e entre os outros e outras, ouvindo-as e participando assim na tecelagem de um língua comum, talvez mestiça, cruzando e miscigenando as referências de cada um (a). (FLEURI apud GAUTHIER, 1999, p. 9)
Assim, exercitei a costura desses tecidos diversos para construir uma metodologia para a pesquisa sobre o tema participação que contivesse a convergência dos seguintes aspectos:
68 • O método dialógico de Paulo Freire a permear o processo da pesquisa, orientador
do círculo de cultura;
A dialogicidade está presente tanto na sociopoética quanto na pedagogia dos objetos geradores. Na sociopoética, o diálogo se radicaliza para a transformação do “público-alvo” da pesquisa, para “sujeitos da pesquisa” ou “co-pesquisadores”.
Gauthier (1999) entende que ser necessária a construção de uma relação de parceria entre o facilitador- pesquisador e os/as co-pesquisadores/as durante os momentos da pesquisa. No entanto ele nos adverte:
Evidentemente, a parceria não é sinônima de ausência de conflitos. A dialogicidade, como mostraram Bakhtin ou Freire, é diálogo e dialética. No diálogo acontecem negociações, contradições e, até, conflitos nem sempre superados, como acordos, crescimento mútuo, alterações de uns graças aos outros... (p. 41- 42)
O diálogo contribui nessa perspectiva “ad- mirativa” que pressupõe, a processualidade na construção dos saberes, do humano e do mundo (FREIRE, 2001). Um permanente e complexo distanciamento e aproximação entre co-pesquisadores/as no e com seu viver do tema participação.
Os sujeitos da pesquisa inseridos em um diálogo mediatizado pelos objetos geradores potencializam a possibilidade do trânsito dos “ad-miráveis” para “ad- mirados” por suas posições perceptivas diferentes nesse processo de pesquisa e aprendizagem (FREIRE, 1987).
O objeto ad-mirável é percebido sem uma curiosidade epistemológica, o que acontece com o “ad-mirado” (FREIRE, 2001). Como imaginar um processo de pesquisa na ausência de uma curiosidade que nos movimenta a novas pronuncias?
O exercício da curiosidade a faz mais criticamente curiosa, mais metodicamente “perseguidora” do seu objeto. Quanto mais a curiosidade espontânea se intensifica, mas, sobretudo, se “rigoriza”, tanto mais epistemológica ela vai se tornando. (FREIRE, 1996, p. 96) A curiosidade é, por conseguinte, um elemento chave para Freire (1996), Ramos (2004) e Gauthier (1999), com ela a investigação adquire um refinamento na busca por conhecer, que reflete, o ser mais dos seres humanos, bem como dos seus objetos.
69 • O método da sociopoética a promover a assunção do conhecimento pela integração das várias partes do corpo, da arte com a ciência e de devires acerca do tema participação;
Gauthier (1999) afirma o ato de conhecer com o corpo em sua inteireza irredutível à idéia moderna da “cabeça pensante”. A emoção, por exemplo, envolve uma perturbação do corpo que pode se desdobrar em vários sentidos, da raiva, da alegria, do medo, da euforia etc. Na sociopoética, essa premissa da perturbação do corpo, a emoção, se faz crucial para o estranhamento, conforme nos referimos anteriormente sobre o círculo de cultura sociopoético.
Para Freire (1983), o ato educativo envolvia muito mais uma provocação, um encontro com situações-limites do que uma acomodação ao mundo e a nós mesmos com um dado natural – concluído.
Ramos (2004), inspirado por essa perspectiva e por outros autores, compreende a tensão como intrínseca à produção de conhecimento. Os objetos-geradores, dessa forma, seriam meios de tensionamento para a ampliação da percepção do ser humano sobre si mesmo e, principalmente, do mundo, já que os objetos emergem também como artefatos do viver não humano.
A congruência desses horizontes quanto à educação e à pesquisa, permitem a exploração do estranhamento do corpo pesquisador diante dos objetos geradores, e dos pesquisadores sobre seus corpos no contexto de investigação da sociopoética.
Dessa forma, para o cultivo da provocação e do estranhamento, mas diga-se de passagem, em sua imprevisibilidade, o círculo de cultura sociopoético recorre à arte para criar condições facilitadoras desses dois aspectos:
Apesar de não pretendermos ser artistas, referimos as expressões da criatividade à arte, pois temos em mete aquelas correntes de energia desconhecidas que percorrem o grupo-pesquisador, criando formas inesperadas; um segredo, uma das alquimias do pesquisar é de dar uma forma a essas energias evanescentes. É um desafio. Mas o que sabemos é que o conhecimento, a ciência, se alimenta dessas correntes. Foi um erro de separar, durante séculos, arte e conhecimento científico, pelo menos na área das ciências humanas e sociais. (GAUTHIER, 1999, p. 55)
O uso de técnicas artísticas ou de recursos de expressão da criatividade aproxima o facilitador- pesquisador do campo do artesanato, da criação ímpar de recursos que convidam o grupo pesquisador a experimentar a invenção de dados.
70 Isso casa com a perspectiva da pedagogia do objeto (RAMOS, 2004) em ampliar as percepções da vida dos objetos e de nossa presença neles – esse último já destacado, por exemplo, no materialismo histórico-, mas, inclusive, o inverso, e, provavelmente, mais passível de estranhamentos, os objetos, nossos criadores.
Tais casamentos pela via do estranhamento, da provocação e da perturbação próprias do conhecer, têm como elo a construção de “disparadores” de devires. Se o coração da sociopoética (PETIT, 2002) é o circulo de cultura a inspirar o grupo pesquisador, o seu pulsar visa ativar produções de achados nos quais habitam devires sobre o tema da pesquisa: “Assim, a sociopoética é um revelador e catalisador da heterogeneidade, muitas vezes, encoberta por uma aparente homogeneidade” (GAUTHIER, 1999, p. 60) .
Então, o uso dos objetos geradores no círculo de cultura sociopoético não tem como objetivo, assim como para Ramos (2004), o descobrimento de uma suposta essência de cada objeto. Eles figuram nas técnicas em seu potencial provocador de nossas relações no e com o mundo.
Em sua danação, ao invés de seu bom comportamento frente aos sujeitos, é que reside sua imprevisibilidade e riqueza para o círculo de cultura sociopoético. Por isso, é que nessa pesquisa, o grupo pesquisador entrou em contato não apenas com objetos familiares à participação, mas com aqueles mais aparentemente distantes ou dissociados.
Com isso, confeccionei dois momentos distintos com os objetos geradores com as crianças, adolescentes e adultos. No primeiro, que batizei de “a participação na ponta dos dedos”, envolve a vivência do tocar os objetos com os olhos fechados para um deslocamento da primazia da visão e a valorização do sentido do tato, de suas sensações e do emergir das relações com o tema participação.
Em outro momento, há uma criação feita pelos co-pesquisadores, em trios ou duplas de montagens da participação com os objetos geradores e a partilha dos olhares sobre essas montagens que dizem o que elas suscitam acerca da participação, em geral, e da participação no OP, mais especificamente.
• A pedagogia do objeto gerador a possibilitar a vivência em pesquisa de uma abertura ecológica pela ampliação de nossas percepções acerca dos objetos;
71 Com os aspectos aqui refletidos sobre o círculo de cultura sociopoético e a pedagogia dos objetos criei um dispositivo fértil ao surgimento de conceitos de participação.
Tais conceitos e toda a gama de aprendizagens oriundas nos momentos de investigação com os objetos geradores também poderá nos oferecer o que Freire (1996) denomina de processo relacionais frutos de nossa curiosidade. Para ele, há um conhecimento relacional:
(...) no fundo , interrelacional, “molhado” de intuições, adivinhações, desejos, aspirações, dúvidas, medo a que não falta, porém, razão também, tem qualidade diferente do conhecimento que se tem do objeto apreendido na sua substantividade pelo esforço da curiosidade epistemológica. (p. 53)
São constructos das próprias relações experimentadas dentre os sujeitos da pesquisa, e entre eles e os objetos durante as produções de dados. Vejamos o que Freire (1996) diz:
Estou convencido, porém, de que a finalidade diferente deste conhecimento chamado relacional, em face, por exemplo, do que posso ter da mesa em que escrevo e de suas relações com objetos que compõem minha sala de trabalho com que e em que me ligo com as coisas, as pessoas, em que escrevo, leio, penso e falo não lhe nega o status de conhecimento. (p. 53- 54)
O conhecimento das relações tecidas dessa forma, como Freire (1996) descreve com a mesa, expõe o que Ramos (2004) trouxe como o ato político de mundanidade a anunciar os saberes, nossa subjetivação e a historicidade do mundo incrustada nessa vastidão de artefatos não humanos, mas parte da vida com seres humanos.
A situação de pesquisa com os objetos geradores, enfim, tenta disparar aberturas ecológicas pela descentralização do sujeito em sua onipotência, em uma provocação que convida a uma saída da segurança antropocêntrica e cartesiana, essencialista e interpretativa: “Nenhuma teoria nem mito desvelará a verdade ou o sentido escondido da realidade pesquisada. Não somos portadores da luz frente à escuridão da vida.” (GAUTHIER, 1999, p. 39)
Busca muito mais estabelecer relações, interrelações de sentidos, “encharcados” de um ser mais com e no mundo, tão inacabado quanto nós:
Aqui chegamos ao ponto de que talvez devêssemos ter partido. O inacabamento do ser humano. Na verdade, o inacabamento do ser ou sua inconclusão é próprio da experiência vital. Onde há vida, há inacabamento. (FREIRE, 1996, p. 55)
72 Congruente, nesse aspecto, a sociopoética não pretende explicações ou interpretações, mas “experimentações” das quais fala Guattari (1981). Em uma costura interferencial de Freire (1987), Ramos (2004) e Gauthier (1999), eu diria que são leituras do mundo experimentadas no brincar de inverter o diálogo entre os sujeitos nos objetos geradores e os objetos nos sujeitos pesquisadores. Entre os quais, também estou incluído e inconcluso.
Experimentamos nossas “verdades” provisórias com as “verdades” de outros, costuramos sentidos heterogêneos, descobrimos novas perguntas, inventamos novos conceitos, que inquietarão, ou não, os leitores e leitoras, lhes dando, ou não, vontade de dialogar criticamente conosco, de transformar a realidade a partir dos nossos resultados ou de pesquisar mais, até contra nós. (GAUTHIER, 1999, p. 39- 40)