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Durante muito tempo, o exercício do jornalismo no Brasil esteve vinculado a uma posição intermediária entre as “verdadeiras” posições da política, como postos e cargos públicos, e da literatura, como a publicação de livros e a inserção em entidades e atividades artístico-literárias. O jornalismo era constituído por diletantes, representando uma ocupação provisória, um lugar transitório, seja para aumentar e complementar a renda, constituindo-se como um “bico”, um trabalho extra, ou como um trampolim para alcançar posições destacadas em outras esferas sociais. Assim, o jornalismo constituía-se como um espaço que possibilitava estabelecer uma série de relações que poderiam resultar em uma posição na política ou na literatura.

No início do século XIX, a atuação da imprensa era vista como um instrumento estratégico de mobilização política e como uma prática de atualização, crítica e julgamento dos fatos cotidianos. Atuando ora contra, ora a favor do Estado, movimentando-se entre os diversos grupos, facções, partidos, movimentos e manifestações, como destaca Petrarca (2005). Neste ínterim, a imprensa constituía-se como espaço privilegiado para projeção de

partidos e personagens políticos, pois era através do jornal que se fortalecia a carreira na política no período imperial e meados da república.

Desde sua inserção até 1880, a imprensa brasileira é caracterizada pelo discurso panfletário, refletindo e atuando diretamente nas lutas políticas e questões sociais da época, como a abolição da escravatura, o processo de independência e a transição da Monarquia para Proclamação da República. Nesse período, os jornais eram fundados principalmente por escritores, padres, ex-militares, personagens políticos e revolucionários vinculados aos movimentos sociais e políticos do momento. Aqueles que escreviam nos jornais, fazendo a matéria e o comentário, também faziam parte desses grupos e movimentos (RIBEIRO, 2003; SODRÉ, 1966).

Após o declínio dessa imprensa “política e ideológica”, tem início uma nova fase na imprensa brasileira com o ingresso de escritores no espaço dos jornais, escrevendo e produzindo matérias. Há neste momento uma fusão entre a informação e a literatura. A decadência desse modelo, mais voltada a questões de ordem política, está relacionada à estrutura articulada que o Império estabeleceu, instaurando a conciliação entre conservadores e liberais.

A conciliação enfraqueceu a atividade dos jornais que se voltavam ou a idéias liberais ou a conservadoras. Esse é o período em que a literatura e os literários ganharam espaço na imprensa, momento de articulação entre a atividade do jornalista e o homem de letras. Os “homens de letras”, como eram comumente designados os literatos, procuravam encontrar nos jornais a notoriedade e a recompensa econômica que não encontravam nos livros (PETRARCA, 2005, p. 4).

De acordo com Miceli (2001), a entrada dos escritores na atividade está relacionada ao fato de que as camadas mais inferiores econômica e socialmente, ou como ele mesmo chama os filhos de “parentes pobres”, que se encaminharam para as carreiras intelectuais tiveram a possibilidade de ocuparem novas posições não através do título e diplomas, mas do capital “simbólico” conquistado pelas relações que conseguiram mobilizar.

Para Petrarca (2005), o êxito em suas estratégias coincidiu com o desenvolvimento das burocracias intelectuais, dentre elas a imprensa. Nesse período, os escritores que não se enquadravam nos modelos de excelência disponíveis da época, como os grandes diplomatas e mandarins, dirigentes políticos ou porta-vozes das oligarquias ou ainda bacharéis com cargos estatais, constituíram um novo tipo de intelectual profissional que vivia dos rendimentos provindos das mais variadas modalidades de sua produção, dentre elas as colaborações na imprensa que se tornava uma atividade central para tais escritores. Dessa forma, o exercício do jornalismo conformava-se em um novo ofício condizente com o status proporcionado pela atividade do escritor.

Estes literatos, além de buscar a consagração no mundo da literatura por meio do novo espaço que se constituía através dos jornais, também se investiam de uma missão e ação política, convergente não só com a necessidade de exaltar o “caráter nacional” e a “realidade brasileira”, como também na inserção de partidos políticos, como aponta Petrarca (2005). Para a pesquisadora, este modelo de imprensa de caráter nacional provocou o desenvolvimento da figura do repórter, sendo este o agente histórico que vai aventurar-se em busca de um Brasil autêntico, que irá desvendá-lo o Brasil, mostrar suas peculiaridades, suas características próprias, sua realidade.

A cobertura da Guerra de Canudos16, em 1897, constituiu-se como um marco para a definição da reportagem e caracterização da figura do repórter, como aquele que vai mostrar a realidade brasileira e os problemas nacionais. Destacou-se na cobertura da Guerra de Canudos o escritor Euclides da Cunha que era colaborador do jornal O Estado de São Paulo e foi enviado para cobrir a Guerra (PETRARCA, 2005, p. 5).

A emergência da figura do repórter17 no jornalismo brasileiro difere do modo como aconteceu em outros países, como os Estados Unidos, que tinham a imagem do repórter desenvolvida de forma dissociada da literatura e da política, constituindo-se como um profissional portador de um conhecimento específico e de um “saber fazer” próprio orientado para a busca do novo e para coleta de fatos. Estes princípios só chegariam ao Brasil por volta da década de 1950, que será quando realmente a profissão começa a se profissionalizar e adota critérios como objetividade, neutralidade e tem-se o enraizamento de práticas próprias como o lead e a pirâmide invertida que se tornam o modelo padrão da atividade.

A verdade é que, por determinantes histórico-culturais, o processo de profissionalização do jornalismo percorreu caminhões diferentes nos diversos países. Nos EUA, por exemplo, em fins do século XIX, os jornalistas já eram definidos como um “corpo profissional autônomo”. Já na França, como demonstra Neveu (2006) e Fidalgo (2008), a figura do repórter apareceu associada à imagem do escritor, caracterizando-se por possuir uma competência e uma retórica literária. Segundo Petrarca (2005) nesses países, as profissões para serem reconhecidas socialmente precisavam diferenciar-se das ocupações reivindicando o status de profissão e caracterizando-se como portadoras de um conhecimento específico que precisava ser reconhecido pelo Estado como um conhecimento profissional. No Brasil, por derivar de uma tradição cultural “europeizada”, a imagem do repórter também aparece atrelada à literatura e a política, constituindo-se como aquele que, imbuído de uma missão política, vai desvendar o Brasil autêntico.

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A cobertura da Guerra de Canudos transformou-se no livro Os Sertões de Euclides da Cunha.

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O nascimento da reportagem e da figura do repórter aparece nos Estados Unidos a partir da cobertura da Guerra de Secessão ocorrida de 1861 a 1865.

No Brasil, as mudanças na sociedade, constituíram um ambiente propício para a consolidação das instituições jornalísticas e a adoção de novos padrões técnicos, éticos, estilísticos. Contudo, a profissionalização favoreceu, principalmente, um sentido de “corpo” e estabeleceu os liames de uma identidade profissional para os jornalistas (Franciscato, 2005). Nesse contexto, a redação jornalística passa a ser um ambiente particular, local de cobertura noticiosa, da redação e edição de textos, com seus conflitos de concepção, disputas e relações de trabalho. Esse corpo identitário em formação origina um ethos próprio, que dá um propósito singular ao trabalho e o estabelecimento de princípios da atividade (sua “missão” social) e valores atrelados à liberdade de expressão e o interesse público. Além disso, essas transformações motivadas pelo ritmo industrial de produção de fatos notícias, e estimularam a divisão e a especialização da atividade, dando origem às subdivisões e às hierarquias internas à profissão.

O jornalista deixava de experimentar e participar de todo o processo de produção e se limitava a atuar dentro das competências de sua área ou departamento. Ao mesmo tempo, novos conflitos surgiram com o início da formação universitária dos jornalistas nos primeiros anos do século XX em países como os Estados Unidos, tanto em relação ao ingresso de jornalistas diplomados em locais que antes prescindiam desta exigência quanto às disputas entre os defensores e incentivadores dos dois diferentes projetos de formação, o profissional pelas redações e a universitária (SALCETTI, 1995, p. 61-63).

A conjuntura também favoreceu a incorporação de novos temas e a exploração de novos gêneros textuais. Nessa época, surgiram as editorias especializadas em temas e abordagens específicas como “esportes”, “lazer”, “vida social e cultural”, “crítica literária”, “notícias policiais”, “regionais”, “nacionais”, e “internacionais” (MARTINS; LUCA, 2008). Para Neveu (2005), a existência de editorias constitui um último elemento essencial da divisão do trabalho entre jornalistas.

Mesmo com todas essas transformações, a formação em nível universitário só teria início no meio do século XX no Brasil. Todavia, o mais importante a destacar é que a profissionalização da imprensa criou um conjunto de agentes que se dedicava integralmente à atividade, dando origem a um grupo de profissionais intitulados de fato como jornalistas. Esse novo modelo funcionou como um modo de proteção da categoria frente aos empresários das mídias e demais atores sociais. Tal conjuntura também fortaleceu e afirmou os valores próprios da atividade jornalística, entre estes o dever de servir ao público (HALLIN, 1996, p. 245).

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