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sentido de que os termos introduzidos para descrever a vida social habitualmente chegam e a transformam - não como um processo mecânico, nem necessariamente de uma maneira controlada, mas porque se tornam parte das formas de ação adotadas pelos indivíduos ou pelos grupos” .101 Os indivíduos incorporam os conhecimentos e fazem uso deles, o que proporciona mudanças nos contextos pessoais e sociais. Ele sugere, ainda, que ¿“temos que nos afastar de uma excessiva ênfase no discurso e examinar fatores em grande parte ausentes da análises de Foucault”.102

Para Giddens, dados como a diminuição do número de filhos na família moderna, como condição e também conseqüência da introdução dos métodos modernos de contracepção, foram essenciais na produção de uma sexualidade livre das exigências da reprodução, o que contribuiu para transformar a sexualidade numa “propriedade potencial do indivíduo” mais ligada à busca e ao exercício dos prazeres.103 Em face destes novos enfoques, esta sexualidade produz novas interrogações, pesquisas e aprendizados na sociedade moderna. A reinvindicacão do prazer sexual feminino tem ai sua importância na reconstituição dos saberes da intimidade entre homens e mulheres.

Portanto, baseados em Giddens, ampliamos nosso olhar sobre o conhecimento que é exposto aos consumidores pelas revistas. O processo de produção desses saberes vai além de um “dispositivo” para controlar a “sexualidade” dentro de determinados limites e padrões. Isso não significa que vamos deixar de perceber que as pesquisas que foram produzidas em torno da sexualidade foram divulgadas num processo de lutas e conflitos onde o caráter “disciplinar” dos discursos deve ser considerado. Todavia, compreendemos que junto com as exigências foram também liberadas outras possibilidades de divergir do estabelecido.

No primeiro capítulo deste trabalho, “A sexualidade do ‘casal m oderno’”, damos lugar aos modelos de casais, as palavras e aos termos “modernos” e “científicos”, que informavam aos leitores como tornar-se desejável ao outro, focalizando os valores que permeiam os escritos sobre as relações conjugais. Para tanto, vamos utilizar especialmente os artigos da revista EleEla, que foi a revista que desde sua criação buscou apresentar “aos leitores um variado e bem informado painel de problemas e

101 Ibidem , p. 39 102 Ibidem , p. 34. 103 Ibidem , p. 37.

soluções que fazem parte do dia-a-dia do homem e da mulher modernos”.104 Abordaremos também a censura e as práticas e caminhos possíveis que foram elaborados diante das proibições. Os conselhos contraditórios foram destaque mostrando que há debates na sociedade nos quais a imprensa é público e ao mesmo tempo forma esse público. Assim, às vezes propõe, mas às vezes apenas retrata a discussão. Através dos artigos, observamos essa intrincada trama na produção das revistas. N esse sentido, apontamos que a censura não se dava apenas pela ação direta dos censores, havia outros tipos de censura: a autocensura, a censura econômica e a censura subjetiva. Ao longo do capítulo procuramos inserir indícios que dimensionem a proibição da “pornografia” como estímulo à produção de uma sexualidade marcada pelo erotismo. Acreditamos que o erotismo foi se constituindo como uma das formas que os editores e jornalistas encontraram para atender às demandas de um mercado consumidor, sem correr o risco de as revistas serem censuradas ou apreendidas. Todas as revistas eram censuradas, ou seja, eram encaminhadas para Brasília, para serem analisadas. Através das imagens, acompanhamos as diretrizes da censura sobre como as mulheres poderiam ser fotografadas. Os editores, jornalistas e fotógrafos não ousaram, durante a ditadura militar, apresentar nas revistas fotos de mulheres em posições que mostrassem sua genitália, que só nos anos 1980 começaram a aparecer nas revistas de grande circulação. Assim, o corpo desnudo cobria-se, dando lugar ao sexo minuciosamente pensado, programado, ritualizado, mercantilizado. As roupas, as transparências, foram também produzidas pelas exigências de uma censura que assim permitiam sua exposição, proibindo os “excessos” . As fotografias das revistas estimulavam os homens a se excitarem pela visão da beleza estética das mulheres - bocas vermelhas, bundas arrebitadas e seios sutilmente encobertos, acompanhados pela utilização de roupas e adereços, como: casacos e estolas de pele, echarpes, colares de pérola, camisolas e lingeries, cintas-ligas, em sua maioria nas cores preta e vermelha, j

No segundo capítulo, “A ‘arte de am ar’: o amor e o prazer” mostramos as formulações dos especialistas sobre como homens e mulheres podem alcançar o prazer. Quais práticas sexuais foram agora visibilizadas e “permitidas”. O desejo feminino foi descoberto, o corpo feminino exposto e analisado, a sexualidade feminina foi sendo

desvelada pelos estudos dos séxólogos. A emancipação sexual feminina passou a ser divulgada. No entanto, a sexualidade feminina analisada, descrita e difundida nas revistas foi construída a partir de signos masculinos, o sujeito do desejo construído continuou masculino. Nesse capítulo, a questão foi dar vazão a nossas inquietações sobre as características propostas para a sexualidade de homens e mulheres, na “Revolução sexual” que foram visibilizadas pela imprensa. Nesse sentido, indicaremos os discursos que problematizaram a sexualidade como significativa para a saúde física e psicológica dos indivíduos. O foco principal desse capítulo é localizar os leitores sobre o significado das obras de Wilhelm Reich na “Revolução Sexual”, que atingiu vários países no final da década de 1960, e analisar porque nas revistas brasileiras suas obras não mereceram tanto destaque.

No terceiro capítulo, “A ‘ciência sexual’ moderna” e a ‘verdade’ sobre o sexo”, trataremos dos recortes realizados nas obras dos sexólogos Alfred Kinsey, Willian Masters e Virginia Johnson. Nossa intenção é marcar as diferenças entre o que aparece nos livros e o que é publicizado pelas revistas. Este paralelo nos permitiu analisar as obras de Alfred Kinsey, Masters & Johnson e Shere Hite publicadas e lidas no Brasil nos anos 1960 e 1970, que foram referências e que fomentaram os discursos em tomo da sexualidade que aparecem nas revistas. Fazendo uma análise dos conteúdos dessas obras, percebemos os enunciados que foram excluídos, ou seja, os que não aparecem nas revistas pesquisadas. Essa análise também possibilitou problematizar o conhecimento sexual produzido nessas obras e que mesmo não sendo visibilizados pelas revistas mereceram destaque neste estudo para apreender porque foram feitos determinados recortes e não outros. Nesse sentido, fomos pontuando os recortes que definiram as sexualidades masculinas e femininas nas revistas e outros que apresentavam mudanças mais “radicais”.

No quarto capítulo, “A ‘educação sexual’ do ‘casal moderno’”, tal educação sexual observada nas revistas e nos manuais sexuais divulgados por elas. O foco principal desse capítulo foram questões relativas ao orgasmo feminino, ao clitóris, ao auto-erotismo e aos roteiros e técnicas para alcançar o “máximo de prazer”. Apresentamos os “artifícios da sedução”, que foram exigidos das mulheres pelos “especialistas” sobre os problemas sexuais dos homens e mulheres. Essas imagens

ocuparam uma posição central no processo de constituição do modelo de “mulher desejável” para os homens. As revistas insistiam em que “manter o seu homem” era a conquista mais importante na vida dessas mulheres. Por outro lado, essas mulheres foram informadas do prazer clitoriano, da possibilidade de sentirem prazer sem a penetração vaginal, do direito de sentir prazer, de ter desejo e de usufruir de uma sexualidade livre da obrigação de gerar filhos.