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5. ANALYSE DES RESULTATS ET DISCUSSION

5.2 RESULTATS POST-INTERVENTION

5.2.6 Répéter les séquences de lecture

5.2.6.3 Dans l’idée de pérenniser l’utilisation de l’outil, formaliser cela au niveau institutionnel

A pesquisa qualitativa assume papel de extrema importância frente a complexidade das sociedades contemporâneas, isto é, das diversas modalidades de relações sociais presentes nessas sociedades. Os processos de individualização em curso na contemporaneidade levam à necessidade de apreender cientificamente a experiência individual dos sujeitos, que não pode ser analisada unicamente com as ferramentas da pesquisa quantitativa (MELUCCI, 2005). A apreensão da vida cotidiana e dos sentidos das ações individuais extrapolam as estruturas sociais e as ordens constituídas. Assim, o mergulho na realidade concreta, vivenciada pelos indivíduos constituídos, no caso dessa pesquisa, por profissionais do parto e parturientes, faz- se necessário para a devida apreensão das diferenciações, do corpo em sua performance social.

A pesquisa qualitativa passou e vem passando por mudanças importantes em sua dimensão metodológica e epistemológica. A redefinição da relação entre sujeito e objeto, localizado no bojo da virada epistemológica, já não permite a concepção do pesquisador como sujeito neutro, capaz de desvendar a realidade por detrás do discurso dos sujeitos. Atualmente, o pesquisador tende a ser visto mais como observador-no-campo, alguém que constrói e interpreta os dados a partir de suas próprias referências culturais. Sem dúvida, para a realização da pesquisa aqui apresentada, tal pressuposto teve de ser assumido, olhado de frente, dado meu envolvimento prévio com o campo, o que inclui relações pessoais minhas com profissionais, mulheres e saberes obstétricos.

Essa problemática, inevitavelmente, cria – ou parte de – uma tensão entre as esferas do conhecimento científico e não-científico. O primeiro, apreendido como prática social, passa a ser reinterpretado como produtor de narrativas, o que dilui a sua ultrapassada pretensão de descortinar a realidade em si.

A pesquisa produz interpretações que buscam dar sentido aos modos nos quais os atores buscam, por sua vez, dar sentido às suas ações. Trata-se de relatos de sentidos, ou, se queremos, de narrações de narrações. A narração de plausividade representa um ponto crítico do desafio metodológico introduzido pela pesquisa qualitativa, que hoje caracteriza, como já foi dito, a pesquisa social no seu conjunto (…) O objetivo da pesquisa social não tem mais a pretensão de explicar uma realidade em si, independente do observador, mas se transforma em uma forma de tradução do sentido produzido pelo interior de um certo sistema de relações sobre um outro sistema de relações que é aquele da comunidade científica ou do público. O pesquisador é alguém que traduz de uma linguagem para outra (MELUCCI, 2005, p. 33-34).

Frente a esse cenário, surgem questões fundamentais para pensar a metodologia qualitativa a partir da virada epistemológica. A primeira delas diz respeito à implicações trazidas pela distância que separa a interpretação da realidade: as pesquisas qualitativas ainda podem ser compreendidas em função de sua relação com a realidade ou tratam-se somente de representações? Em segundo lugar, o relativismo também se coloca como um problema, visto que o abandono completo da legitimidade dos achados científicos poderia levar ao silêncio:

Se se entra em uma pluralidade de interpretações, de paradigmas, de pontos de vista, o risco do relativismo está bem presente e o relativismo obriga ao silêncio porque, como na clássica contradição do cético, se se diz que tudo é relativo ou que nada é verdadeiro, não se tem mais direito de falar, por definição (MELUCCI, 2005, p. 35)

Nesse sentido, é importante atentar para a distinção ente pesquisa qualitativa e quantitativa, diferenciação comumente carregada de preconceitos e críticas, engendrada na falsa disputa entre suas disposições científicas. Pesquisas qualitativas voltam-se para a explicação do modo como os fenômenos sociais acontecem. Pesquisas qualitativas não se propõe a examiná-los em sua dimensão mensurável, ao contrário,

Ressaltam a natureza socialmente construída da realidade, a íntima relação entre o pesquisador e o que é estudado, e as limitações situacionais que influenciam a investigação (DENZIN E LINCOLN, 2006, p. 23).

De fato, conceituar pesquisa qualitativa é também enxergá-la como contraponto da pesquisa quantitativa. No entanto, essa relação não deve impor qualquer tipo de hierarquização, mas levar à compreensão de seus papéis específicos na linha contínua de busca por conhecimento. Questões relativas à confiabilidade e à validade na pesquisa qualitativa ganham destaque nessa discussão, pois são os caminhos que garantem a qualidade e a coerência das interpretações expostas no decorrer da pesquisa.

Confiabilidade diz respeito à independência entre os achados de um estudo e as circunstâncias de sua produção. Na pesquisa qualitativa a confiabilidade pode ser garantida pela descrição de baixa inferência (SILVERMAN, 2009), cujo foco deve estar sobre a análise de dados construídos pelo pesquisador na relação deste com seu campo de pesquisa. No caso desta pesquisa, a confiabilidade repousa sobre a legitimidade das vivências que tive a oportunidade de experienciar como doula profissional e, posteriormente, nas entrevistas que realizei junto aos profissionais. Nesse sentido, busquei tratar sempre os dados “brutos”, relatos e discursos literais, em detrimento de sentidos gerais contidos em depoimentos. Além

disso, padronizei as anotações de campo e as transcrições, submetendo eventualmente o material de investigação a diferentes análises, feitas por outros pesquisadores.

A validade, por sua vez, está relacionada ao sentido de acurácia, isto é, ao grau de proximidade entre os fenômenos sociais e as conclusões obtidas a seu respeito. Na prática, conforme Silverman sugere, preocupei-me com a validade iniciando a análise sobre uma parcela pequena dos dados. Com isso, reforcei a pertinência das categorias analíticas que já haviam despontado a partir do referencial teórico e atinei para outras categorias que pareceram-me importantes. Dessa forma, pude “testar as hipóteses que surgem expandindo com consistência seu corpo de dados” (SILVERMAN, 2009, p. 267). Esse é o chamado método comparativo e sua execução implica, necessariamente, no encontro com casos desviantes.

O método se inicia com uma pequena porção de dados. Um esquema analítico provisório é gerado. O esquema é então comparado com outros dados e, quando necessário, são feitas modificações no esquema. O esquema analítico provisório é constantemente confrontado por casos 'negativos' ou 'discrepantes' até o pesquisador ter derivado um pequeno conjunto de regras recursivas que incorporem todos os dados da análise. (MEHAN, 1979, p. 21 apud SILVERMAN, 2009)

A metodologia desta pesquisa envolveu, como será aprofundado no capítulo cinco, a análise de práticas discursivas relativas ao universo de trabalho de cada profissional, o que permitiu a composição de uma descrição geral desse campo diverso. O conjunto de dados possui composição diversificada, se constituindo como uma bricolagem de discursos apreendidos na vivência do campo profissional, complementados com dados construídos por meio de entrevistas. O foco lançado sobre os dados se desenvolveu a partir da preocupação com o sentido   político   contido   na   atuação   dos   profissionais   do   parto.   Os   profissionais considerados foram médicos obstetras, enfermeiras obstetras, parteiras e doulas.