O fato de a phantasía surgir na primeira parte do De Anima como um movimento intrapsíquico e uma atividade representa algum desvio ou inconsistência apenas se estiverem sob consideração o trecho 428a2, no qual ela é concebida a princípio como uma faculdade ou disposição, e a tendência majoritária entre comentadores hodiernos, caracterizada pela ênfase no sentido de “phantasía” enquanto função anímica137. Se, porém, a atenção for direcionada para a letra do estudo
minucioso localizado na terceira parte do tratado, notar-se-á não uma tentativa explícita de renovação completa do status categorial da phantasía, mas, ao invés, a manutenção e o consequente desenvolvimento daquilo que anteriormente era apenas indicado. Ao final da exposição detalhada, Aristóteles, considerando esta satisfatória – “Se nada além da phantasía possui as coisas aqui descritas [...]” (DA III, 429a, 1)138 –, define a
phantasía como um movimento causado pela sensação em ato (429a, 2). Essa conclusão é fundamentada por uma tese geral acerca do movimento das coisas, a qual estabelece a
possibilidade de um objeto, uma vez posto em movimento, mover outro139, bem como
pela tese específica acerca da sensação em ato enquanto origem de um segundo movimento (428a, 13-14). Também atuam como premissas no argumento duas afirmações a respeito do que a phantasía parece ser (dokeî eînai), a primeira delas
137 “É Aristóteles quem forneceu a primeira descrição analítica extensa da imaginação como uma
faculdade da alma distinta.” (Schofield, 1992 250); “phantasía enquanto a faculdade em virtude da qual qualquer phainómenon é experimentado.” (ibid., 258) “phantasía concebida como uma faculdade voltada para experiências não paradigmáticas.” (ibid., 261) “É evidente que Aristóteles pensava que uma única faculdade de imaginação estava envolvida nos vários fenômenos que ele trata como casos de phantasía.” (ibid., 273, n. 52) “Além de aísthesis e phantasía constituírem operações da mesma faculdade da alma (a faculdade perceptiva), são diferentes entre si.” (DÍAZ, 2009, 171) “A faculdade sensitiva abarca um conjunto de funções especializadas: percepção dos sensíveis próprios, comuns e acidentais, apercepção e
phantasía, a qual, por sua vez, intervém na memória, no sonho e em diversas funções relacionadas com o desejo e a ação.” (ibid., 175). “Essa situação singular implica que a phantasía seja frequentemente considerada uma faculdade intermediária entre a sensação e o pensamento.” (LABARRIÈRE, 19, 2004). “A phantasía é uma faculdade da alma, a imaginativa (phantastikón), localizada entre a sensação (aísthesis) e o pensamento (diánoia). (PAPACHRISTOU, 44, 2013). “Limitar-me-ei a um retrato de duas funções principais da phantasía na psicologia de Aristóteles: seu papel na síntese e retenção de percepções sensoriais, e seu papel em aplicar pensamento a objetos da percepção sensorial.” (FREDE, 1992, 283). Lycos (1964, 496) opta por traduzir “phantasía” por “faculdade de apresentação”.
138 εἰ οὖν μηθὲν ἄλλο ἔχει τὰ εἰρημένα ἢ φαντασία [...].
139 “É possível que, tendo sido determinada coisa movida, outra coisa seja movida por ela.” (DA III, 428b,
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versando sobre o fato de esta consistir, aparentemente, em um movimento, e a segunda, sobre o fato de apenas seres sensitivos possuírem-na (428a, 12).
Após definir a phantasía como um movimento causado pela atividade da sensação e esboçar uma etimologia a partir da palavra “pháos” – relacionando-a novamente, dessa forma, à sensibilidade, uma vez que a luz é condição necessária para o sentido principal, i.e., para a visão (429a, 3-4) –, Aristóteles finaliza a exposição atribuindo à durabilidade das phantasíai e à sua semelhança relativamente às sensações a causa de os animais agirem com frequência de acordo com elas:
Porque permanecem e assemelham-se às sensações, os animais fazem muitas coisas de acordo com elas; uns, como as feras, por não possuírem intelecto, e outros, como os seres humanos, por seu intelecto às vezes obscurecer-se por conta de afecção, doenças ou sono. (DA III, 429a, 5-9).
Nessa passagem, utiliza-se o plural tanto para “aísthesis” quanto para “phantasía”, o que indica, como estabelecido acima, o sentido de atividade ou movimento intrapsíquico140. “Taîs aisthésesi” e “kat’autás” remetem não à unidade de
uma função anímica diferenciada, mas a uma pluralidade de fenômenos intrapsíquicos, a uma profusão de movimentos sensíveis de primeira e segunda ordem aos quais certos entes reagem. Do início ao fim da abordagem específica do De Anima III.3, tirante 428a1, o vocabulário utilizado por Aristóteles para descrever os mecanismos da
phantasía adequa-se ao léxico próprio das atividades/movimentos da alma.
2 NOTAS SOBRE A DEFINIÇÃO DE PHANTASÍA
Aristóteles encerra o estudo detalhado da noção de phantasía com as seguintes palavras: “A respeito do que é (tí esti) a phantasía e de sua causa (dià tí), basta o que foi dito.” (429a, 09). A partir desse enunciado final, vislumbra-se a intenção do filósofo em tomar os resultados de seu estudo como apropriados para uma caracterização rigorosa da phantasía. No início do livro II dos Segundos Analíticos, lê-se: “O número das coisas investigadas é igual ao das coisas que conhecemos. Investigamos quatro coisas: o fato (tò hóti), a causa (tò dióti), a existência (ei ésti) e a essência (tí estin).” (AP II, 89b, 23- 24).
140 Uma exceção seria o uso de “aisthéseis” no intuito de referir-se às modalidades sensórias, o que
indicaria o sentido de faculdade anímica. No contexto da passagem sob exame, todavia, trata-se obviamente de “aisthéseis” enquanto referente a movimentos intrapsíquicos.
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De acordo com Aristóteles, pois, o conhecimento é a posse da resposta referente a uma dessas quatro coisas. Na última frase do De Anima III.3, observam-se as expressões “tí esti” e “dià tí”, as quais remetem, respectivamente, às investigações acerca da essência e da causa de determinado fenômeno. Ao considerar suficiente o estudo levado a cabo nessa parte da obra para expor a essência e a causa da phantasía, o filósofo crê haver sua investigação desembocado não em mera opinião provisória, mas em conhecimento efetivo. A definição apresentada revela, assim, a verdade acerca da
phantasía141, uma vez que o conhecimento jamais relaciona-se com o falso, apenas com
o verdadeiro (DA III, 428a, 16)142.
O resultado da investigação detalhada sobre o conceito de phantasía adequa-se formalmente às diretrizes apresentadas na teoria aristotélica da ciência para a construção de enunciados definitórios. Segundo Aristóteles, essência e causa equivalem, i.e., há a identidade entre “tí estin” e “tò dióti” – determinada a essência de um fenômeno, determina-se também a sua causa:
Em todos esses casos [i.e., no caso do eclipse, da igualdade, da desigualdade, da interposição e da não interposição] é evidente que a essência e a causa são o mesmo. O que é um eclipse? É a privação de luz na Lua por conta da obstrução pela Terra. Por que ocorre um eclipse, ou por que a Lua é eclipsada? Por conta de a luz do sol falhar, tendo a Terra obstruído a Lua. O que é uma harmonia? Uma razão numérica do tom agudo e do tom grave. Porque o agudo harmoniza-se com o grave? Por conta de o agudo e o grave possuírem uma razão numérica. (AP II, 90a, 14-21)143.
Dessa forma, então, ao fornecer-se uma explicação a respeito do que é determinado evento, evidenciam-se ao mesmo tempo os elementos situados na rede causal responsável por sua ocorrência144. Formalmente, a resposta à pergunta relativa à
essência é construída de modo a abarcar uma expressão verbal da causa, e vice-versa: o
141 Tal análise estabelece como injustificado o ceticismo de Robert B. Todd (n. 56, 1981) acerca do
caráter definitivo da definição de phantasía a partir dos conceitos de movimento e sensação: “Em lugar algum Aristóteles diz que a descrição de phantasía como um movimento derivado da sensação em ato é uma definição mais apropriada que ‘aquilo por meio do qual um phántasma ocorre’, em 428a, onde a sensação sequer é mencionada.” O trecho do De Anima 429a, 9 – em conjunto com as considerações elementares a respeito do saber científico nos Segundos Analíticos – basta para atestar a intenção de Aristóteles em fornecer, por meio do enunciado expresso em 429a, 2, uma definição genuína do fenômeno da phantasía. 142 ἀλλὰ μὴν οὐδὲ τῶν ἀεὶ ἀληθευουσῶν οὐδεμία ἔσται, οἷον ἐπιστήμη ἢ νοῦς. 143ἐν ἅπασι γὰρ τούτοις φανερόν ἐστιν ὅτι τὸ αὐτό ἐστι τὸ τί ἐστι καὶ διὰ τί ἔστιν. τί ἐστιν ἔκλειψις; στέρησις φωτὸς ἀπὸ σελήνης ὑπὸ γῆς ἀντιφράξεως. διὰ τί ἔστιν ἔκλειψις, ἢ διὰ τί ἐκλείπει ἡ σελήνη; διὰ τὸ ἀπολείπειν τὸ φῶς ἀντιφραττούσης τῆς γῆς. τί ἐστι συμφωνία; λόγος ἀριθμῶν ἐν ὀξεῖ καὶ βαρεῖ. διὰ τί συμφωνεῖ τὸ ὀξὺ τῷ βαρεῖ; διὰ τὸ λόγον ἔχειν ἀριθμῶν τὸ ὀξὺ καὶ τὸ βαρύ.
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eclipse, assim, é a privação de luz na Lua por conta da obstrução pela Terra, e a causa da harmonia é a posse de uma razão numérica por parte dos tons grave e agudo. Certos termos são mantidos ao transitar-se de uma resposta para outra: “luz” e “Terra”, por exemplo, são utilizados nos enunciados tanto da causa quanto da essência do eclipse, assim como “razão numérica”, “agudo” e “grave” no caso da harmonia; havendo variação – substantivo no enunciado da essência, verbo no da causa –, preserva-se o vínculo semântico entre as expressões alternantes (“privação da luz” e “falhar a luz”, “razão numérica” e “possuir razão numérica”).