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3.3 Composition dans DyCoSe

4.1.2 Chemin d’ex´ecution d’un GBP

A despeito das diferenças consideradas, as duas passagens trazem fenômenos psíquicos referidos por termos flexionados no plural: em 409b14-17, dentre outras expressões flexionadas no mesmo número, tem-se “aisthéseis”, construção de natureza idêntica à de “oréxeis”, encontrada no trecho supracitado. Tal fato, trivial sob um primeiro olhar, revela-se, não obstante a aparência de mera peça de diletantismo filológico, a chave para tornar inteligível dentro da estrutura do De Anima a ocorrência de “phantasíai” em 428a12: “As phantasíai, em sua maioria, surgem (gínontai) como falsas”. As passagens destacadas do De Anima I revelam a pluralização como possibilidade exclusiva dos termos cujas referências são movimentos intrapsíquicos: em momento algum ela incide sobre expressões utilizadas para designar partes ou funções. Desse modo, se expressa no plural, trata-se de uma atividade.

Além do vínculo indireto estabelecido pela pluralização de “aísthesis”, “órexis” e “phantasía”, estabelecem-se, ainda no De Anima II, relações diretas entre os três fenômenos em questão. Ao falar do caso dos insetos segmentados, Aristóteles estabelece relações de acarretamento entre a sensação e diversos outros movimentos intrapsíquicos:

Cada uma das partes [dos indivíduos segmentados] possui sensação e movimento espacial. Se possui sensação, possui também e apetite; onde há sensação, há também dor e prazer, e onde estas estão presentes, é necessário haver também desejo. (DA II, 413b, 21-24)127.

De maneira explícita, pois, colocam-se no mesmo plano ontológico a sensação, o apetite e a phantasía. A dor e o prazer já haviam sido postos no mesmo patamar da

127 καὶ γὰρ αἴσθησιν ἑκάτερον τῶν μερῶν ἔχει καὶ κίνησιν τὴν κατὰ τόπον, εἰ δ' αἴσθησιν, καὶ φαντασίαν

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sensação, ao serem concebidos como afecções ou atividades (DA I, 409b, 14-17). A

phantasía, assim, antes de constituir uma função, surge no De Anima I como atividade e movimento, e o uso de seu conceito enquanto tal repete-se no terceiro livro do tratado, jamais caracterizando-se pela opção de univocidade em favor da ideia de função ou parte imaginativa.

Na verdade, o primeiro livro do De Anima não traz nenhuma ocorrência da

phantasía enquanto faculdade anímica. A primeira passagem na qual se utiliza o termo, a qual se insere no contexto das considerações metodológicas expostas no começo da obra, certamente exemplifica um significado genérico de aparência, em vez do sentido específico de função psíquica:

Não apenas o saber o que é é útil para compreender as causas dos atributos das substâncias, como nos estudos matemáticos é útil o conhecimento relativo ao que é o reto e o curvo ou o que é a linha e a figura plana para apreender a quantos ângulos retos equivalem os ângulos do triângulo, mas também os atributos muito acrescentam ao conhecimento do que é: pois quando temos condições de fornecer, de acordo com a phantasía, todos ou a maioria dos atributos, então estamos mais bem qualificados para falar sobre a substância; pois de toda demonstração é o que é princípio. (DA I, 402b, 17-26)128.

De acordo com a phantasía, pois, são apresentados os atributos do objeto sob investigação. Faz-se mister aqui deflacionar a interpretação da ocorrência do termo “phantasía”, evitando-se tratá-la como referindo uma função anímica cuja especialidade consiste em fornecer à mente o conhecimento das qualidades e propriedades dos objetos, pois em passagem alguma do tratado a phantasía é assim caracterizada. É razoável supor que o sentido da expressão no trecho supracitado limita-se à ideia de mera aparência, principalmente à de aparência sensível – da substância enquanto princípio metafísico manifestam-se aos sentidos apenas os atributos, e a partir dessas manifestações, como o próprio trecho revela, qualifica-se positivamente o discurso acerca do substrato.

Ainda dentro do contexto das considerações metodológicas, afirma o filósofo: “O princípio da investigação é expor as coisas que mais parecem lhe pertencer [i.e., à

128 οὐ μόνον τὸ τί ἐστι γνῶναι χρήσιμον εἶναι πρὸς τὸ θεωρῆσαι τὰς αἰτίας τῶν συμβεβηκότων ταῖς οὐσίαις (ὥσπερ ἐν τοῖς μαθήμασι τί τὸ εὐθὺ καὶ τὸ καμπύλον, ἢ τί γραμμὴ καὶ ἐπίπεδον, πρὸς τὸ κατιδεῖν πόσαις ὀρθαῖς αἱ τοῦ τριγώνου γωνίαι ἴσαι), ἀλλὰ καὶ ἀνάπαλιν τὰ συμβεβηκότα συμβάλλεται μέγα μέρος πρὸς τὸ εἰδέναι τὸ τί ἐστιν· ἐπειδὰν γὰρ ἔχωμεν ἀποδιδόναι κατὰ τὴν φαντασίαν περὶ τῶν συμβεβηκότων, ἢ πάντων ἢ τῶν πλείστων, τότε καὶ περὶ τῆς οὐσίας ἕξομεν λέγειν κάλλιστα· πάσης γὰρ ἀποδείξεως ἀρχὴ τὸ τί ἐστιν.

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alma] segundo a natureza. O animado parece diferir do inanimado em duas coisas: o movimento e o sentir.” (DA I, 403b, 25-26)129.

Tais considerações acerca do método apropriado para se chegar à definição de alma condizem com a distinção, traçada em outras obras, entre o que é mais cognoscível para o indivíduo cognoscente e o que é mais cognoscível em si130. Sendo o critério a

distância do objeto conhecido em relação à sensibilidade – o mais cognoscível em si é o mais afastado da sensação e, ipso facto, o menos cognoscível para o indivíduo –, e visto que a aquisição do conhecimento inicia-se com as coisas menos cognoscíveis por natureza (i.e, as mais próximas da sensação)131, à apreensão da essência, aspecto da

coisa concebido por Aristóteles como o que de mais absolutamente cognoscível há, antecede o fornecimento dos atributos132. Por incorporar de maneira explícita um

129 ἀρχὴ δὲ τῆς ζητήσεως προθέσθαι τὰ μάλιστα δοκοῦνθ' ὑπάρχειν αὐτῇ κατὰ φύσιν. τὸ ἔμψυχον δὴ τοῦ

ἀψύχου δυσὶ μάλιστα διαφέρειν δοκεῖ, κινήσει τε καὶ τῷ αἰσθάνεσθαι.

130 “Não é o mesmo o anterior por natureza (têi phýsei) e o anterior em relação a nós, nem o mais

cognoscível por natureza e o mais cognoscível para nós. Chamo ‘anterior em relação a nós’ e ‘mais cognoscível em relação a nós’ às coisas mais próximas da sensação, e ‘absolutamente anterior’ e ‘absolutamente cognoscível’, às mais afastadas dela. Mais distantes da sensação são os universais, e, mais próximos, os particulares.” (AP, 71b-72a5) – οὐ γὰρ ταὐτὸν πρότερον τῇ φύσει καὶ πρὸς ἡμᾶς πρότερον, οὐδὲ γνωριμώτερον καὶ ἡμῖν γνωριμώτερον. λέγω δὲ πρὸς ἡμᾶς μὲν πρότερα καὶ γνωριμώτερα τὰ ἐγγύτερον τῆς αἰσθήσεως, ἁπλῶς δὲ πρότερα καὶ γνωριμώτερα τὰ πορρώτερον. ἔστι δὲ πορρωτάτω μὲν τὰ καθόλου μάλιστα, ἐγγυτάτω δὲ τὰ καθ' ἕκαστα.

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Na Metafísica (VII, 1029b, 4-5), lê-se: “A aprendizagem se realiza para todos através da passagem pelas coisas menos cognoscíveis por natureza em direção às mais cognoscíveis.” No De Anima, pode-se reconhecer a sustentação da mesma tese, ainda que sob uma roupagem diversa: “A partir das coisas não claras porém mais manifestas surge o claro e mais inteligível segundo a razão. (DA I, 413a, 11) – ἐκ τῶν ἀσαφῶν μὲν φανερωτέρων δὲ γίνεται τὸ σαφὲς καὶ κατὰ τὸν λόγον γνωριμώτερον. Observa-se, pois, que enquanto na Metafísica fala-se de uma maior cognoscibilidade por natureza (phýsei), no De Anima a expressão “mais cognoscível” vem modificada por “segundo a razão” (katà tòn lógon). Tal variação, contudo, não aponta para um afastamento teórico fundamental, uma vez que o contraste é o mesmo em ambos os trechos – nas duas passagens o filósofo trata dos graus de cognoscibilidade. No De Anima, contudo, observa-se uma interessante variação vocabular: “claro” (saphés) e “mais manifesto” (phaneróteron), apesar de terem, à primeira vista, sentidos equivalentes, são colocados em oposição, uma vez que o mais inteligível (gnorimóteron) pode ser qualificado como claro, mas não como mais manifesto. As coisas mais manifestas, por sua vez, são justamente as não claras (asaphôn). Cabe ressaltar aqui o parentesco etimológico entre o adjetivo “phanerós”, empregado em 413,11, na forma aumentativa, e o substantivo “phantasía”, bem como a semelhança temática entre esse trecho e 402b, 17-26, no qual se lê a expressão “katà tèn phantasían”. A partir dos Segundos Analíticos e da Metafísica é possível estabelecer as conexões semânticas entre “mais cognoscível em relação a nós”, “anterior em relação a nós”, “coisas mais próximas da sensação”, “coisas menos cognoscíveis por natureza”, “coisas não claras, “coisas mais manifestas”, “de acordo com a phantasía”, “atributos” e “particulares”. Poder-se-ia pensar que o fato de as referências dessas duas últimas expressões enquadrarem-se em categorias ontológicas distintas desmantelaria a tentativa de estabelecer um vínculo de significado entre as demais; todavia, basta pensar na diferenciação de ambas relativamente a um aspecto comum, a bem dizer, à essência, caracterizada por expressões contrárias, visto ser ela o aspecto inteligível por excelência. Assim, aquilo que se apresenta de acordo com a phantasía, sendo, ipso facto, mais manifesto, não é a essência, cuja cognoscibilidade se dá de acordo com a razão (katà tòn lógon) – e não de acordo com a phantasía –, mas as coisas mais próximas da sensação. O contato com o manifesto – i.e., com o aparente – constitui a primeira etapa de um processo que culmina na apreensão do absolutamente cognoscível.

132Deslauriers (2007, 195) afirma: Se pensarmos que a distinção nos Segundos Analíticos e aquela na

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método de investigação erigido sobre sólidas bases ontológicas e gnoseológicas alhures lançadas, o De Anima certamente figura, com sua riqueza de pressupostos e aplicações de teses fundamentais ao estudo da alma, entre os trabalhos ulteriores do Corpus

Aristotelicum.

Em momento algum, pois, a phantasía é concebida como a faculdade especializada em fornecer os aspectos menos cognoscíveis das coisas. O critério para a determinação do grau de cognoscibilidade dá-se relativamente às sensações, devendo a ocorrência do termo “phantasía” em 402b25 ser interpretada a partir da noção de mera aparência, uma vez que o movimento, por exemplo, atributo previamente considerado por Aristóteles na busca pela definição da alma em virtude de sua posse, por parte desta, conformar-se às aparências, constitui um objeto sensível. O tipo de phantasía mencionado em 402b25 é consequência, portanto, da sensação, não sendo englobado pelo conceito de faculdade anímica. A ideia subjacente à ocorrência do termo na passagem remete ao modo como certos aspectos das coisas são apreendidos pelo indivíduo cognoscente, i.e., à acessibilidade imediata a tais aspectos – em contraste com a maneira pela qual são assimilados os aspectos mais afastados da sensação. Desses atributos inteligíveis não há, no contexto do início da investigação científica, aparência.