6.2 Le cas g´en´eral
6.2.6 Probl`eme de l’accroissement du temps de calculs
Os ortónimos, pseudónimos, heterónimos, anónimos escrevem livros, pintam quadros e ficam para sempre na história.
Que razões levariam um artista e valer-se de um nome que não consta no seu bilhete de identidade? Para Arnaldo Saraiva existem variadíssimas razões que por vezes nos escapam e escapam à polícia115. Porém, razões para se ocultar sob nomes falsos, personalidades
fictícias sempre existiram, embora umas sejam mais “válidas” que outras. O autor alemão Erich Kästner, por exemplo, foi proibido de escrever durante o período nazista. Mas o autor continuou a produzir os seus textos, assinando-os com nomes fictícios como Berthold Bürger, Melchior Kurtz e Robert Neuner116. Por outro lado, há também quem opta por nome fictício
readaptado ao seu nome pessoal. Exemplos dos nomes meio estrangeirados ou americanizados para tentar atrair a atenção do leitor como do famoso Roussado Pinto que se tornou Ross Pynn e Dinis Machado tornando-se Dennis McShade, convictos de que, com uns retoques anglófilos, os seus policiais seriam mais acreditados pelo público117. Os nomes meio anglófilos também se
considera serem motivadores e estratégicos para as vendas. Tal como o desejo de descolar uma carreira internacional faz com que Sara Margarida, por exemplo, se transforme em Sarath Margareth.
Os pseudónimos podem aparentar não se diferir das vagas características do anonimato. De facto, a função primária do pseudónimo é ocultar a verdadeira identidade do artista. Porém, assumir uma identidade falsa para assinar obras e ser conhecido fisicamente pelos seus leitores é a prática mais comum que se relaciona à pseudonímia. O contrário do anonimato que, para além de ocultar a verdadeira identidade, decide ocultar-se “fisicamente”. O que implicaria a não associação do significante ao significado, do objeto à imagem. Com efeito, por mais que estes aparentem tratar o assunto no mesmo pé de igualdade, o anonimato parece mais radical em comparação ao uso pseudonímico118. As
metamorfoses nominais adotadas para assinar obras, às vezes, podem esconder não apenas um autor, mas dois. Como é o caso do célebre Ellery Queen, um pseudónimo coletivo criado por Frederic Dannay e Manfred B. Lee119. A coletividade não morre por aí, os heterónimos
também podem esconder mais de um autor. Exemplos de Carlos Fradique Mendes, heterónimo coletivo criado pelo grupo dos jovens destinados a valorizar a produção literária portuguesa.
115 Arnaldo Saraiva, op. cit., p. 75.
116 Carlos Bonone, “A genial Elena e a História dos Autores Anónimos”, Observador, 2016. 117 Idem, ibid.
118 Idem, ibid.
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Cita-se Eça de Queirós, Antero de Quental e Jaime Batalha Reis120. No entanto, considera-se
ser menos artista quem decide começar a carreira com o nome próprio, atribuindo-lhe a autoria das obras? Logicamente a resposta seria não. Uma vez que a pseudonímia, a heteronímia, o anonimato, entre outras modalidades são simples criações artísticas, ferramentas à disposição do utilizador que não o diminuiriam nem acrescentariam se não existissem.
O que a ciência literária denomina por heterónimos?
[Do gr. «héteros», outro, e «ónoma», nome]. Designação criada por Fernando Pessoa para identificar o fenómeno singular na literatura portuguesa e universal que consiste na despersonalização de um autor, projetando-se na alteridade, ou seja, criando novos sujeitos da escrita, cada qual com a sua identidade própria: Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos, Alberto Caeiro, Bernardo Soares121. Naturalmente, a personagem inventada e a
verdadeira passam a coexistir num plano complexo de uma realidade que os inclui a ambos e passado o tempo a personagem inventada vai ganhando realidade, e a verdadeira parecendo ficcionalizar-se122.
O ortónimo “[Do gr. «orthós», verdadeiro, «ónoma», nome], também é um termo criado por Fernando Pessoa, com o qual designou a obra assinada com o nome verdadeiro, por oposição aos heterónimos que criou”123. O ortónimo irá então corresponder ao “autor efetivo
da obra sem máscaras e sem criações de nomes fictícios para atribuir a autoria das obras”124.
O que implica dizer: Pessoa é um autor que se distingue daqueles autores que pela sua mão assinam, e distingue-se mesmo de um que usa o seu nome próprio125. Assim, para Fernando
Pessoa, ortónimo define-se por sua vez a “partir da obra que lhe é atribuída em relação às obras dos heterónimos ou pseudonímica”126. Os pseudónimos e heterónimos, neste caso,
podem considerar-se um homem desdobrando-se noutras identidades. Mas todas, porém, com a mesma alma diversamente repartida em cada uma e refletindo aspetos diferentes da sua visão do mundo?127. Fernando Pessoa, por exemplo, é um diálogo múltiplo entre textos
assinalados por diferentes nomes de autores. O Diabo Azul, Álvaro de Campos, Dr. Pancrácio, Pad Zé, Alberto Caeiro, A. Francisco de Paula Angard, A. Moreira, Ricardo Reis entre pseudónimos e heterónimos dependentes da mesma alma, criados com um propósito: diversificação autoral, ocultar a verdadeira identidade, tornar a arte mais interessante com múltiplos diálogos e múltiplos nomes e personas fictícias.
Seguramente, um artista não precisa ser necessariamente o mesmo. O processo de criação literária reúne ferramentas interligadas a favor do autor dada a necessidade sentida ou desejada de ocultar a verdadeira identidade. Na verdade, a mesma liberdade dada ao artista de escolher seu género musical ou literário, seu estilo, também se manifesta sobre o
120 Taborda de Vasconcelos, op. cit., p. 35. 121 Olegário Paz, António Moniz, op. cit., p. 106. 122 Fernando Cabral e Richard Zenith, op. cit., p. 21. 123 Olegário Paz, António Moniz, op. cit., p. 157. 124 António Houaiss, et. al., op. cit., p. 2703.
125Fernando Cabral e Richard Zenith, Teoria da Heteronómia de Fernando Pessoa, Porto: Assírio & Alvim,
2012, p. 21.
126 Idem, ibid.
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nome artístico a adotar para atribuir a autoria das suas obras. Por outro lado, também fica ao critério do artista ser um ortónimo, adotar um nome fictício, criar uma nova persona ou ser um artista anónimo de uma forma parcial ou definitiva. De forma exemplificativa procuramos criar e apresentar de forma esquematizada a inter-relação existente entre as modalidades discursivas adotadas pelos artistas ou por profissionais para ocultar as verdadeiras identidades:
Ortónimo Pseudónimo Heterónimo
Anónimo Anónimo Parcial ou Definitivo