• Aucun résultat trouvé

4. Severino : la mort comme nécessité de l'être

4.2 La problématisation erronée de la mort

O modelo que Lacey estabelece para a produção do conhecimento científico permite- nos enxergar claramente o modo como atores sociais poderosos podem colonizar a ciência, transformando-a em um dispositivo a serviço das suas estratégias46 de poder. Em um cenário no qual a imparcialidade é assegurada (no momento M3, da avaliação cognitiva de

teorias e hipóteses), isso implica na construção de um conhecimento limitado, ainda que não falso ou forjado, da realidade. Mas tal coisa deixa de ser o caso quando a imparcialidade é abandonada, em situações nas quais, por exemplo, passa-se deliberadamente a construir incertezas, como aquelas fabricadas pela indústria do tabaco nos anos 1960-90 (cf. Michael & Monforton, 2005). Nesse estágio, do qual não nos afastamos hoje, na era dos transgênicos e da assim chamada pós-verdade, um dos próprios valores basilares da ciência diferenciacionista (ou socialmente singular e autônoma) de Merton (1973, cap. 13), o ceticismo organizado, é subvertido, passando a implicar na produção do oposto da ciência universal, pública e desinteressada com o qual o sociólogo norte-americano a identificava.

Seja como for, e enquanto ela conseguir o respeito das massas – ou dos formadores de opinião dentro delas –, algo que só parece possível enquanto a construção deliberada de fraudes for – ou parecer ser – mais a exceção do que a regra, a ciência não apenas seguirá sendo uma instância importante para o ordenamento da vida humana neste mundo, como, exatamente por isso, uma instância altamente cobiçada e, na verdade, imprescindível, para qualquer estratégia de poder com alguma aspiração à incidência regional ou global. Tal papel se justifica tanto pelo regime de verdade que ela institui (ou do qual pode vir a fazer parte) – e que, na configuração atual, impede-nos de enxergar o mundo para além da perspectiva desencantada e conformadora de tudo e todos a recurso à disposição –, quanto pelas mediações técnicas que ela – e apenas, ainda que não exclusivamente, ela – pode viabilizar, e que subsidiarão, traduzirão, sustentarão ou emularão ordenamentos sociais afins com aqueles requeridos pelas estratégias de poder hegemônicas.

46

De acordo com aquilo que vimos da teoria de Lacey, a batalha a ser travada nesse front, de modo a que algo como a tecnologia social possa ter lugar, passa preponderantemente por dois elementos. De uma parte, é necessário garantir que pesquisas científicas tocadas segundo modos47 sensíveis ao contexto também sejam realizadas. De outra parte, deve-se assegurar: pessoal qualificado para executar esse trabalho e condições adequadas para tanto (com a alocação dos recursos de diversas ordens que se fizerem necessários); ausência de monopólio de uma ou algumas perspectivas de valor na seleção das pesquisas a serem realizadas; divulgação dos resultados científicos e formação de cientistas (a partir desses resultados) mais imune a valores não científicos. Estes últimos pontos são aqueles que Lacey identifica com a autonomia da ciência.

Lacey não pretende, com isso, sustentar que a construção de uma tal ciência seja algo a que se possa aceder sem luta e sem a progressiva incorporação dos interesses populares legítimos às pautas da pesquisa científica e às políticas públicas de ciência, com a subsequente pluralização estratégica que o serviço a distintas perspectivas de valor demanda (cf. Lacey, 2008b). Nesse sentido, ainda que por outros caminhos, Lacey parece concordar com Foucault em que é impossível existirmos em um vácuo de poder. Isso significa que, de uma parte, o conhecimento produzido pela ciência seguirá, mesmo no contexto de uma não prevalência de qualquer perspectiva de valor (ou estratégia de poder) externa sobre ela, repercutindo e fundamentando as relações de poder dos atores evolvidos nela48. De outra parte, parece impossível que essas mesmas relações não ecoem ou reproduzam, em algum nível, estratégias e identidades às quais os atores concernidos na atividade científica estão expostos, ou dos quais são parte, nos outros espaços sociais de que eles participam49.

47

Seriam as estratégias de Lacey, mas que se preferiu não usar, para não confundir com a nomenclatura foucaultiana.

48 “Eu venho tentando tornar visível a constante articulação que eu acredito existir do poder sobre o

conhecimento e do conhecimento sobre o poder. [...] o próprio exercício do poder cria e provoca a emersão de novos objetos de conhecimento, além de acumular novos corpos de informação. [...] O exercício do poder cria perpetuamente conhecimento e, reciprocamente, o conhecimento induz constantemente os efeitos do poder. [...] O conhecimento e o poder estão integrados um ao outro, e não faz qualquer sentido sonhar com um tempo no qual o conhecimento cesse de depender do poder; esse é apenas um modo de reviver o humanismo com uma aparência utópica. Não é possível ao poder ser exercido sem o conhecimento, é impossível ao conhecimento não engendrar poder.” (Foucault, 1980, p. 51-2)

49

Não se deve esquecer, nesse sentido, que, de uma parte, a conformação às estratégias da estruturação dominante do poder não é apenas castradora, mas, ao contrário, provê também sentido e realização, através das identidades que vão sendo constituídas (e isso, se concordamos com o Inquisidor de Dostoievski (2012

Impõe-se, assim, algum tipo de instância interna à ciência que faça avançar, mesmo que em empreendimentos pontuais (quanto ao tempo da pesquisa ou ao tópico estudado), esse ideal do pluralismo, da neutralidade e da abrangência que, se não for por atuação explícita e contra-hegemônica, tem poucas chances de obter algum fruto. Será essa instância que poderá atrair, sensibilizar e comprometer cientistas, ainda que apenas por algum tempo, a perspectivas de valor não hegemônicas (e suas respectivas estratégias de poder), e que poderá forçar a divulgação dos dados assim obtidos.

Colocado nesses termos, o ferramental analítico provido pelo modelo ciência-valores do pensador australiano permiti-nos traduzir a disputa pela democratização da técnica (e pelo desenvolvimento de tecnologia social) nas demandas que ela apresenta à produção do conhecimento científico, externa e internamente a essa atividade. Isso não implica em reduzir a ciência a uma outra instituição social regida essencialmente por decisões ou definições políticas. Com efeito, como se mostrará na quarta parte deste capítulo, instâncias democratizantes internas a ela podem ser criadas, sem que isso implique que ela perca a sua singularidade – como, por exemplo, na busca por se construir um conhecimento sempre mais avançado quanto aos valores cognitivos que a comunidade de cientistas desposa. O que, não obstante, a ciência perde nessa perspectiva é, como se verá, parte da sua (alegada e, de fato, em parte fantasiosa) autonomia.

Por outro lado, além disso, enxergar a atividade científica desse modo é também colocá-la no espaço das disputas de poder entre os múltiplos atores sociais. Disputas que tenderão a enviesá-la (e.g., hegemonia dos modos de pesquisa descontextualizadores), que poderão, mesmo, desvirtuá-la (e.g., fabricação de incertezas), e que, fundamentalmente, tentarão transformá-la em um dispositivo a serviço da configuração de poder que se esteja buscando avançar ou consolidar.

Seja como for, o que se pode lograr com tal entendimento não é apenas o desenvolvimento de uma ciência que, nas análises de risco que provê ou nas múltiplas mediações técnicas que torna viáveis, incorpora ou responde de maneira mais adequada (e

[1879]), parece ser profundamente atrativo para o ser humano desde quase sempre). De outra parte, além disso, atores sociais como os cientistas podem também se valer de uma associação estratégica com outros atores poderosos, de modo a, por meio dela, avançarem suas posições de poder na sociedade. Nesse sentido, de fato, personagens como os tecnocratas, oráculos do ordenamento atual, estariam mais para beneficiários deste, para seus associados, do que para submetidos ou resignados.

equânime) aos anseios e necessidades reais do grande público, ou de setores tradicionalmente sem voz na sociedade. Para além disso, e por conta dos mesmos mecanismos, uma ciência assim assumida pode, por fim, superar o desencantamento substantivo da realidade50, encarnado, na ciência, por uma metafísica materialista (cf. nota 43, p. 131). Desencantamento levado a cabo e mantido, como se viu, pela configuração capitalista hegemônica do poder, e que reduz tudo e todos a recurso à disposição. É também isso o que se pode alcançar quando modos de pesquisa sensíveis ao contexto são incorporados à atividade científica. Modos que, ao tomarem seus objetos de estudo segundo uma visada mais ampla, podem, finalmente, enxergar ordenamentos emergentes, como o cuidado próprio ao feminino, em Shiva (1988). E não apenas enxergá-los e enunciá- los, como eventualmente viabilizá-los ou potencializá-los sociotecnicamente, em lugar de, como na média da perspectiva descontextualizadora dominante até agora, interditá-los ou deslegitimá-los como ideológicos ou não científicos.

Documents relatifs