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Comecemos pelas etapas da produção científica. Segundo Lacey, a ciência possui cinco etapas lógicas diferentes, mas que podem se sobrepor temporalmente. São elas (cf. Lacey & Mariconda, 2014, p. 645-51):

M1 – da adoção da estratégia da pesquisa;

M2 – do empreendimento da pesquisa;

M3 – da avaliação cognitiva das teorias e hipóteses;

M4 – da disseminação dos resultados científicos;

Sem nos aprofundarmos em muitos detalhes, poderíamos dizer que a primeira etapa, M1, é aquela em que se assumem as estratégias40 que nortearão tanto a seleção dos dados a que se atentarão, quanto as restrições que serão assumidas com respeito aos tipos de enunciações e analogias que serão buscadas para tentar teorizar a categoria de fenômenos que se está buscando conhecer. É assim que, por exemplo, a mecânica quântica e a genética demandarão, cada qual, estratégias específicas, em função do tipo de fenômeno em que estão interessadas. Essas duas estratégias, no entanto, a despeito de guardarem marcantes distinções entre si (nas imagens e metáforas, por exemplo, de que se valerão), analisam seus objetos de estudo segundo uma mesma perspectiva, e que é diferente daquela que será necessária, por exemplo, para estudos de risco (ambiental e para a saúde humana) de uma nova técnica, ou para a produção e implementação de técnicas agroecológicas. No primeiro caso, teríamos o que Lacey chama de estratégias descontextualizadoras, que, grosso modo, estão interessadas no conhecimento que pode ser produzido sobre a “estrutura subjacente dos fenômenos, [os] processos e interações de seus componentes e [as] leis que os governam”, e que é expresso “tipicamente em forma matemática” (Lacey & Mariconda, 2014, p. 652-653).

No segundo caso, teríamos as estratégias sensíveis ao contexto, aquelas que estão interessadas no conhecimento de fenômenos complexos e emergentes, originados, no geral, da interação de diversas classes de fatores, e que podem se manifestar geográfica e/ou temporalmente de maneira dispersa (cf. Lacey & Mariconda, 2014, p. 652-657). São fenômenos que, de acordo com Polanyi (2009 [1966]), só podem ser analisados por uma abordagem sistêmica. Com efeito, em questões sobre, por exemplo, a vida e o funcionamento de um artefato, as explicações não têm como ser encontradas exclusivamente nas leis químicas e físicas que operam nos corpos dos seres vivos ou nas

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O sentido do termo “estratégia” aqui não é o mesmo do utilizado por Foucault. Em Lacey, “estratégia” não é um ardil para se avançar ou fortalecer determinada posição de poder, mas um modo tanto de se abordar a, ou de se acercar da, natureza, quanto de restringir ou conformar o conhecimento construído. Claro que cada modo específico pode ser mais apropriado a um ou a outro ardil particular. E será isso que, como se verá, mais concorrerá para a imposição ou hegemonia de um desses modos possíveis na prática mainstream da ciência de nosso tempo. Seja como for, e ainda que essa correlação com o aspecto político seja quase imediata, o autor não usa, no desenvolvimento de sua teoria, o termo nesse sentido. Ao longo das quatro primeiras seções desta parte, a não ser que se faça menção explícita em contrário, “estratégia” será usada nesse sentido pretendido por Lacey. Da quinta e última parte em diante, voltaremos à nomenclatura foucaultiana, usando, para a “estratégia” de Lacey, como sinalizaremos, o termo “modo”.

peças dos equipamentos. Tais leis são condição necessária, no caso, para a vida e para a funcionalidade do dispositivo, mas elas não são condição suficiente para explicá-las. Emergem, nessas situações, princípios organizacionais que não só não são esgotáveis pelas leis que regem o nível imediatamente inferior de onde eles surgem, como, ademais, estabelecem, a partir da plasticidade potencial destes, contornos específicos a eles. É assim que uma determinada liga metálica, por exemplo, poderá ser usada tanto como condutor de energia, como estrutura de sustentação, como amalgamento entre duas outras peças ou como parte de um relê ou de um disjuntor, desde que sejam respeitadas suas propriedades físico-químicas de condutividade, resistência, adesão e/ou dilatação. Ou seja, não estão nessas propriedades os usos que se poderão fazer da liga, mas, por outro lado, estes só serão possíveis e efetivos, se derem conta de explorar as potencialidades dela, sem ultrapassar os seus limites (cf. Polanyi, 2009 [1966], p. 34-41).

Nesse sentido, então, um estudo que busca compreender, por exemplo, os impactos possíveis de um determinado agente biológico ou químico sobre certo território não poderá se ater apenas às propriedades físico-químicas dos corpos dos seres vivos que o povoam, nem ir apenas até o nível de funcionamento isolado desses corpos, ou da saúde de indivíduos humanos aí presentes, mas precisará considerar, tanto quanto possível, o âmbito, seja do funcionamento ecossistêmico daquele espaço, seja do ordenamento sociocultural lá estabelecido (ou que os grupos humanos que lá habitam querem autonomamente manter para si). É esse tipo de conhecimento que as estratégias sensíveis ao contexto buscam construir ou enunciar.

No primeiro caso, das estratégias descontextualizadoras, o contexto é prescindível; no segundo, considerá-lo é fundamental para que o conhecimento daí surgido possa ser tão preciso, abrangente e confiável quanto possível. Desse modo, por um lado, as estratégias sensíveis ao contexto produzem um conhecimento, em alguma medida, insuperavelmente local e particular, posto que tributário ou relativo a uma configuração sistêmica específica, não universal ou universalizável. Tal conhecimento, entretanto, pode ser reaplicável, do mesmo modo que a tecnologia social, em sua localidade e particularidade inevitáveis, também pode sê-lo (é o que se observa, por exemplo, na ciência agroecológica). Por outro lado, tal estratégia não só pressupõe conhecimentos construídos por estratégias descontextualizadoras (que permitem obterem-se, por exemplo, as leis físico-químicos que estão na base do mundo material), como é incapaz de produzi-los. Ou seja, um grupo de

estratégias não se opõe ou nega o outro, podendo, na verdade, complementarem-se (cf. Lacey & Mariconda, 2014, p. 652-657).

A segunda etapa, M2, tem a ver com as opções que são diariamente feitas pelos cientistas e gestores reais no cotidiano de seus trabalhos. Lá, no cenário, por exemplo, da finitude de recursos para financiamento, de pessoal qualificado para trabalhar, de equipamentos etc., decisões são tomadas com respeito a quais aspectos da porção da realidade que se busca conhecer serão priorizados na pesquisa, e, como consequência, quais serão deixados para um segundo ou terceiro momento.

A partir das escolhas feitas em M1 e M2, bem como do trabalho de pesquisa

desenvolvido a partir delas (também em M2), hipóteses e teorias são desenvolvidas ou

aprimoradas. A etapa M3 se refere a um processo distinto dos anteriores, e que tem a ver com a avaliação das propostas teóricas disponíveis, com base nos valores cognitivos compartilhados pela comunidade científica, como adequação empírica, poder explicativo e consistência com as demais teorias científicas aceitas. A imparcialidade, um dos ideais com os quais a ciência se identifica, seria algo diretamente relacionado a essa etapa. De acordo com ele (cf. Lacey & Mariconda, 2014, p. 645-646),

1) uma teoria é corretamente aceita para um domínio de fenômenos específico se ela manifestar, para esse domínio, os valores cognitivos em mais alto grau do que as demais teorias disponíveis, à luz dos dados empíricos; e

2) uma teoria é corretamente rejeitada se e somente se uma outra teoria com a qual a primeira é inconsistente manifesta, para o domínio a que ela se refere, os valores cognitivos em mais alto grau.

A divulgação dos resultados alcançados em M2 e M3 é o que caracteriza a etapa M4.

Ela engloba não apenas as revistas especializadas, destinadas, em certa medida, a informar aos pares aquilo que pode ser tornado público (por não ferir alguma patente, expor segredos militares e/ou estar sob censura da entidade contratante/financiadora da pesquisa), como também as instâncias tanto de formação dos futuros quadros da ciência, quanto de informação do público leigo em geral (cf. Lacey & Mariconda, 2014, p. 648-9).

Por fim, M5 é a etapa da materialização, tradução ou aplicação do conhecimento produzido e chancelado pela ciência em implementações técnicas. É a partir da análise dessa etapa, ou seja, dos frutos técnicos que a atividade científica torna possíveis, que se pode

medir o grau de neutralidade dela. Para conseguirmos proceder a essa análise, entretanto, precisamos entender o que são e que papel têm, na ciência, as perspectivas de valor (cf. Lacey & Mariconda, 2014, p. 649-51).