2. Ecosystème gastro-intestinal : description générale
3.2. Effets bénéfiques des probiotiques sur les fonctions extra-digestives
3.2.5. Futures approches des probiotiques
3.2.5.4. Probiotiques et diabète
Os tópicos 2.1.2 e 2.1.3 nos introduziram ao universo de influências culturais e musicais exercidas pelo domínio árabe na Península Ibérica durante o período medieval. Destacamos no tópico 2.2.2 a presença e utilização do duff, o frame drum árabe, do qual derivou o termo Adufe, conhecido e utilizado em Portugal até os dias de hoje em algumas comunidades, inclusive no Brasil. Os árabes não chegaram presencialmente no Brasil no momento de sua colonização no início do século XV, mas sua herança desembarcou junto aos primeiros colonizadores, marcados pela secular presença árabe em seu território.
De acordo com Gilberto Freyre, a presença de árabes e judeus na Península Ibérica foi especialmente marcante para delinear os traços genéticos e culturais que contribuíram para a formação do povo português às vésperas das grandes navegações. Durante o domínio árabe, boa parte da população ibérica deixou-se influenciar pelo modo de vida, gostos e costumes dos mouros. No momento em que a reconquista cristã retoma as terras invadidas e o domínio da península, esta parte da população, já impregnada pelo sangue, cultura e saber árabe devido a sua presença quase milenar, passa a constituir o substrato social, econômico e cultural da população portuguesa.
Quando aquela população socialmente móvel, mobilíssima mesmo, voltou à Europa cristã, foi trazendo consigo uma espessa camada de cultura e uma enérgica infusão de sangue mouro e negro que persistiram até hoje no povo português e no seu caráter. Sangue e cultura que viriam ao Brasil; que explicam muito do que no brasileiro não é europeu, nem indígena, nem resultado do contato direto com a África negra através de escravos. Que explicam o muito de mouro que persistiu na vida íntima do brasileiro através dos tempos coloniais. Que ainda hoje persiste até mesmo no tipo físico (FREYRE, 2003, p. 288).
A região do Algarve português viu-se livre do domínio árabe no ano de 1249, duzentos e quarenta e três anos antes da tomada de Granada pelos reis católicos Fernando e Isabel, e duzentos e cinquenta anos antes de os portugueses aportarem no Brasil. Poderíamos nos perguntar se esta diferença de quase dois séculos e meio sem a presença árabe em terras portuguesas teriam diminuído a ação da influência exercida durante os séculos anteriores pelo domínio árabe na península. Para esta resposta contamos com o argumento comum entre Gilberto Freyre e Luís Soler que dizem ter Portugal investido na expansão marítima após a retomada de seu território e que com isso chegaram a dominar terras mouras, como Ceuta no ano de 1415. Como consequência desta investida, a influência que era exercida pelos árabes em território português quando dominadores, passou neste momento a ser exercida como dominados por meio da presença de escravos árabes que atendiam aos senhores portugueses, muito apreciadores das habilidades e cultura de seus servos.
No fim do século XV, houve dois importantes acontecimentos: a queda do império árabe na Península Ibérica e a largada de Cristóvão Colombo rumo a uma jornada transoceânica que o trouxe até o continente americano, o chamado Novo Mundo. Sobre esse fato, Câmara Cascudo (1984, p. 15) comenta: “O mouro viajou para o Brasil na memória do colonizador. E ficou. Até hoje sentimos sua presença na cultura popular brasileira”.
A presença moura a que se refere Câmara Cascudo pode hoje ser encontrada pelo Brasil adentro em expressões do linguajar (é das arábias! Expressão de habilidade e astúcia), interjeições (Arre! Tão comum entre os nordestinos), em manifestações culturais como as Cheganças (combate entre cristãos e mouros), vestimentas (o uso da alpercata, ou apragata como dizem os nordestinos referindo-se ao calçado milenar usado pelos árabes que o chamam
al-pargat), no preparo de doces e cuscuz, em contos populares (como o da Moura Torta),
No que diz respeito à música, Câmara Cascudo observa uma sensível presença oriental, especialmente moura, na música da cultura popular brasileira, notadamente nas canções do interior do sertão nordestino como nos cantos de aboio, na impostação vocal das cantadeiras e no modalismo que frequentemente serve de estrutura para a construção de melodias tradicionais.
Sobre este aspecto de influência no campo musical contamos com a pesquisa de Luis Soler dedicada às origens árabes no folclore do sertão brasileiro, título de seu livro em que, entre outros assuntos, o autor chama a atenção para a influência árabe em instrumentos como o pífano que, por ser tocado de maneira transversal, denota sua origem arábico-andaluz visto o uso corrente da flauta reta na Europa medieval. Outros instrumentos teriam a mesma origem, como a rabeca, derivada do rebab árabe, e a viola, advinda do Al-úd que evoluiu para e vihuela hispânica chamada de viola em terras portuguesas. Outra influência apontada por Soler seria a forma de construção poética e musical utilizada pelos cantadores nordestinos, derivada dos jograis medievais, estes influenciados pela cultura árabe peninsular. Os jograis teriam sido intérpretes, colaboradores e até parceiros artísticos dos trovadores e ganhavam a vida apresentando-se diante de um público para diverti-lo por meio da música, acrobacia, e diversos outros meios, esperando receber algum pagamento em troca. Soler não faz nenhuma menção ao pandeiro como instrumento derivado da cultura árabe, tampouco à sua presença e utilização pelos cantadores advindos dos jograis, como seria de se supor. No entanto, Câmara Cascudo faz a seguinte declaração sobre a origem árabe do pandeiro no Brasil:
Convenço-me de que o pandeiro e seus descendentes, mesmo sendo asiático, devem os espanhóis e portugueses aos mouros sua aclimatação. O pandeiro redondo ou retangular, adufe, o tamborim que os tupiniquins ouviram soar pelos marinheiros de Pedro Álvares Cabral em maio de 1500 nas praias de Porto Seguro, foram e são instrumentos inseparáveis dos cantos e danças mouras. Não estavam no Brasil do século XV, como estavam os tambores e trombetas. O português trouxera aquela oferta dos mouros, mouriscos, moçárabes, mudejares, bailarinos e cantadores, quando a Espanha era muçulmana e Portugal quase agareno. O adufe, que Maria, irmã de Moisés, com suas companheiras, tocou e cantou, festejando o afogamento egípcio no Mar Vermelho (Êxodo, 15,20), era percutido na cidade do Salvador no fim do século XVI e sempre por mão feminina, como ainda ocorre em Portugal na marcha das romarias e folgares do arraial (CASCUDO, 1984, p. 27-28).
De acordo com a citação de Cascudo, é possível supor que a tripulação que embarcou com Cabral, e antes ainda com Colombo, rumo ao Novo Mundo tenha trazido consigo, além dos mantimentos e utensílios necessários para a jornada, alguns objetos próprios de sua
cultura voltados aos momentos de lazer e descontração, instrumentos musicais como a gaita, rabeca, viola, tamborins e pandeiros. Acreditamos que desde os primeiros momentos da colonização o pandeiro tenha estado presente em terras brasileiras, junto aos outros instrumentos citados, e que tenha sido utilizado em momentos festivos e votivos tanto pela tripulação das naus portuguesas quanto pela população que passou a habitar o Novo Mundo.