Tomando em específico a década de 1980, verificamos um número significativo de publicações de estudos e reflexões acerca da profissão do psicólogo. Destacamos o estudo do CFP que, em 1988, publicou o livro “Quem é o psicólogo brasileiro?” com os resultados de uma ampla pesquisa de alcance nacional. Realizada com uma amostra de 2448 psicólogos de várias regiões do país, a referida investigação teve dados coletados através de questionário aplicado entre 1986 e 1987 (BASTOS; GOMIDE, 2010) e é considerada como base para investigações sobre a profissão por expor dados fundamentais para caraterização da profissão em nível nacional.
Os dados revelam um desenho profissional que repercutiu entre estudiosos, nos cursos de graduação, em associações diversas e nos próprios conselhos devido à exposição de fragilidades na profissão e na própria formação. Em síntese, Bastos e Gomide (2010) relatam que se trata de uma profissão feminina, jovem e urbana, com maior concentração na região Sudeste e nas faculdades privadas. A preferência pela atuação na área clínica, seguindo o modelo profissional liberal, confirma-se como preponderante, contudo, constata-se que ela não ocorre de modo exclusivo. Mesmo na área clínica, somente cerca de metade dos profissionais são autônomos, além do que a carga horária dedicada à profissão revela que o psicólogo é impelido à combinação de trabalhos em locais e áreas diversas para complementação dos seus rendimentos, uma vez que os dados também revelaram que os psicólogos são mal remunerados.
Acompanhando Bastos e Gomide (2010), verifica-se que o consultório é o local que mais concentra profissionais, o que vai ao encontro das preocupações de estudiosos da década anterior, como Mello (2010a) e Botomé (2010). É reduzida a inserção do psicólogo no serviço público, como nas áreas da saúde, o que indica a persistência da limitação do serviço psicológico a uma camada específica da população (BASTOS; GOMIDE, 2010).
Entretanto, vale sublinhar que esses dados, embora pouco significativos quando comparados àqueles que ocupam as primeiras posições, são importantes por sinalizar os primeiros passos em direção a uma maior diversificação dos serviços que se evidenciará nos anos subsequentes. Bastos e Gomide (2010) apontam que, dentre as atividades desempenhadas, a psicoterapia ocupa o primeiro lugar, seguida da aplicação de testes. Os autores ressaltam o peso de atividades que definem o modelo de atuação tradicional do
psicólogo, apesar disso, também observam a presença - ainda numericamente inexpressiva – de outras atividades, o que pode implicar uma tendência à diversificação do campo.
Por fim, deve-se discutir acerca da avaliação que os entrevistados fizeram de sua formação inicial. Neste tópico, destacamos as análises que Bastos e Gomide (2010) realizam quando avaliam a formação ao longo de 25 anos, agrupando os participantes conforme seus anos de formação. Com isso, examinam uma tendência nos dados a uma insatisfação clara com a formação na década de 1980 no tocante aos conhecimentos filosóficos, das ciências básicas e às técnicas de entrevistas. Ao mesmo tempo, aqueles formados entre 1975 e 1980 apresentam-se mais satisfeitos com o conhecimento e domínio de testes psicológicos; e a atitude de investigação científica tem uma queda na avaliação da sua qualidade a partir de 1975.
Tomando especialmente os resultados da avaliação na área clínica, pode-se averiguar que os conhecimentos relativos a essa área possuem um índice um pouco mais elevado de suficiência. Já em relação aos conhecimentos sobre a realidade socioeconômica e o papel social do psicólogo, boa parte dos participantes avaliou como insuficiente a inserção dessas discussões no curso (BASTOS; GOMIDE, 2010). O fato de os profissionais estarem mais satisfeitos com os conhecimentos da clínica contribui para a confirmação de hipóteses sobre a ênfase nessa área nas formações em detrimento de outras discussões, já que os participantes apontam maior suficiência nesse tópico.
Em 2010, com a publicação do livro “O trabalho do psicólogo no Brasil”, organizado por Bastos e Gondim (2010), revisitou-se essa pesquisa ao confrontá-la com dados de novo estudo, em conjunto com o CFP, de iniciativa do Grupo de Trabalho Psicologia Organizacional e do Trabalho da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Psicologia – ANPEPP- realizado entre 2006 e 2008.
Assim como Mello (2010b), os dados discutidos nesse livro apontam sinais de mudanças relevantes, mas também de permanências. Dentre os resultados, tem-se que ainda se trata de uma profissão feminina e que é formada, em sua maioria, por adultos jovens (com idade média de 33,6 anos). Além disso, houve um aumento expressivo de psicólogos no país, com uma melhor distribuição desses profissionais pelos diferentes estados e regiões brasileiras, cabendo realce ao processo de interiorização da Psicologia, que tem como motor principal a expansão dos cursos para cidades de médio porte do interior brasileiro (BASTOS; GONDIM; RODRIGUES, 2010).
Em outro artigo fundamentado nos dados desse estudo, Bastos, Gondim e Borges- Andrade (2010a) sintetizam alguns resultados, destacando que a fragilidade no mercado de trabalho mantém-se, especialmente quanto às condições oferecidas para o exercício profissional. Contudo, sublinham as observações sobre a expansão e a ampliação dos serviços, contextos e segmentos da população beneficiária.
A formação do psicólogo, por seu turno, também foi objeto dessa pesquisa, no que tange à graduação, à pós-graduação e à formação complementar. Considerando a primeira, recorte desta tese, tem-se a predominância incontestável da rede privada de ensino nos cursos de Psicologia, com 80% dos psicólogos formados nos últimos anos egressos de IES privadas, o que implica a necessidade de apreciações sobre a qualidade do ensino ofertado na rede privada de educação (YAMAMOTO et al., 2010), principalmente se alinharmos nossas reflexões com as preocupações com o projeto de profissão em curso.
Ainda sobre a formação, Bastos, Gondim e Borges-Andrade (2010a) elencam outros elementos evidenciados nessa pesquisa, como a substituição do Currículo Mínimo pelas Diretrizes Curriculares Nacionais e o crescimento do sistema de pós-graduação, que ocorre predominantemente nas instituições públicas de ensino. Apesar dessas mudanças, visualiza-se inquietantes continuidades, como a defasagem entre as competências necessárias e aquelas adquiridas e a confusão em torno da adoção de referenciais teóricos. Finalmente, os autores concluem entre observações pessimistas e otimistas:
Para os mais pessimistas, vinte anos depois da primeira pesquisa nacional, o exercício da profissão no Brasil não apresenta alterações significativas em aspectos como de rendimentos, número de psicólogos atuantes na profissão em relação aos graduados, profissão liberal e assalariada, ecletismo acrítico de orientações teóricas, descompasso entre as competências requeridas para a formação científica e a atuação grupal, organizacional e institucional, e as de domínio profissional, o que seria preocupante e deveria nos manter alertas, visto as mudanças que ocorreram nas políticas de ensino superior, nas demandas sociais e na formação do psicólogo em nosso país. Para os mais otimistas, alguns dados comparativos de 1988 e de 2008 reafirmam a forte identidade do psicólogo com a profissão, enquanto outros sinalizam pequenos avanços que merecem ser mais bem estudados. A livre escolha pela Psicologia, a percepção de status profissional, o forte comprometimento e a satisfação com a profissão, além da intenção de permanência na profissão e na área de atuação, reafirmam e fortalecem a identidade profissional. A interiorização da profissão, a democratização do atendimento psicológico, o fortalecimento do setor público como maior empregador, o fortalecimento da docência como atividade principal, hibridismo de áreas de atuação que obrigam a uma revisão deste conceito e diversificação de algumas atividades, são todos dados indicativos de que talvez vinte anos não seja um
tempo tão longo para que as mudanças de maior escopo se processem (BASTOS; GONDIM; BORGES-ANDRADE, 2010a, p. 270-271).
Para compreender essas (des)continuidades na formação captadas entre os vinte anos em que decorreram as mencionadas investigações, há determinados processos que precisam ser observados com maior apuro, posto que explicitam os tensionamentos entre os modelos tradicionais e as novas práticas em Psicologia. É o caso da expansão dos serviços de Psicologia, em específico aqueles referentes ao setor público. Como esses dados sinalizam, entre as décadas de 1980 e o início do século XXI, assiste-se à diversificação de serviços da Psicologia, que começa a inserir-se em serviços públicos, na equipe de saúde mental, no hospital, entre outros.
Com efeito, são subjacentes a essa discussão os dados de que persevera o predomínio pela área clínica na atuação do psicólogo, o que é deveras relevante em nossas análises. Gondim, Bastos e Peixoto (2010) tecem reflexões sobre as áreas de atuação e as atividades exercidas pelo psicólogo, apontando a diversificação de áreas na Psicologia, com uma maior presença dessa profissão junto a populações que anteriormente eram pouco assistidas por ela.
Todavia, a clínica mantém-se como área de atuação predominante, inclusive, quando associada a outras, ou seja, quando o profissional atua em mais de uma área, a clínica é aquela que surge em maior frequência nas combinações entre elas. E, indo além, conforme os autores, mesmo em situações em que os psicólogos atuam em outras áreas, suas atividades são semelhantes, com uma maior expressividade daquelas de natureza clínica, quer dizer, atua-se com o instrumental clínico, mesmo quando não se está em um contexto clínico.
Essa continuidade da clínica como área hegemônica e cujo alcance permeia outras áreas da Psicologia e entra acriticamente em escolas, comunidades, Unidades Básicas de Saúde – UBS -, serviços de assistência social, entre outros, deve ser problematizada. Dimenstein (2000) realiza tal exercício no campo da assistência pública à saúde quando explica que o modelo hegemônico de atuação clínica, norteado pela psicoterapia individual de base psicanalítica, é meramente transposto ao setor público. Consideramos que tal transposição se dá de forma descontextualizada, sem que se reflita sobre sua pertinência e implicações naquele âmbito.
Mais recentemente, Dimenstein e Macedo (2012) retomam a discussão sobre a atuação do psicólogo na atenção à saúde pública e apontam que a inserção desse profissional nas equipes de saúde não conduziu necessariamente a alterações na lógica de produção de saberes
e de ações nesse campo. Com efeito, assim como ocorre com outros atores da saúde, permanece na Psicologia um modelo prescritivo, orientado por concepções biologizantes e mecanizadas, com tendências de trabalho individualizado, relações verticalizadas com os usuários, limitadas às queixas e com estratégias de subjetivação disciplinadora, normatizadora e de cristalização de referências identitárias (DIMENSTEIN; MACEDO, 2012).
Todavia, os autores também assinalam a existência de um campo de tensionamentos composto pelos diversos saberes que constituem a saúde coletiva, o qual tem questionado a contribuição da Psicologia para o projeto político do Sistema Único de Saúde - SUS. Consideram que
Tais tensionamentos têm ajudado na formulação de novos problemas e constituído o segundo aspecto, que é a emergência de um ator político que intervém em um plano ético, ou seja, que provoca análises do que está posto em funcionamento, inclusive das próprias políticas públicas e os modelos tecnoassistenciais em curso, bem como das relações interprofissionais que reconhece que o cuidar em saúde não se restringe a competências e tarefas técnicas (DIMENSTEIN; MACEDO, 2012, p. 238).
O que Dimenstein e Macedo (2012) explicitam é o movimento de reinvenção da intervenção do psicólogo em diferentes âmbitos, o qual vem sendo sinalizado nas duas últimas décadas e vem ao encontro das preocupações de Mello (2010a). Há uma maior discussão sobre as práticas tradicionais, a inserção da Psicologia nas políticas sociais, a necessidade de produzir práticas diferentes, coerentes com as demandas de determinado lugar, o foco em grupos que não são o público-alvo tradicional da Psicologia, entre outros.
O CFP, através do Centro de Referência Técnica em Psicologia e Políticas Públicas – CREPOP –, vem sublinhando a preocupação com a reflexão e orientação acerca dessas novas práticas, lócus e públicos que permeiam o trabalho do psicólogo atualmente. O CFP observa que, ao longo dos 50 anos de profissão no Brasil, ocorreram várias mudanças no que tange a uma atuação do psicólogo comprometida e contextualizada com a realidade social. Nessa direção, destacam-se práticas que enfocam “a promoção dos sujeitos, a partir de sua própria participação e envolvimento nas ações realizadas, de acordo com o seu contexto, história e vivências, buscando alternativas para sua inserção social na direção da garantia de direitos” (CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA, 2012, p. 48).
Faz-se pertinente frisar que também se identificam mudanças nos campos tradicionais, como é o caso da educação, pensando em específico nos sujeitos com deficiência. Embora
haja uma tradição no trabalho do psicólogo com as queixas escolares e com aqueles alunos que não aprendem, enfocando seu fracasso escolar (PATTO, 2008; NEVES; MACHADO, 2007), nota-se que, com o processo de inclusão escolar de pessoas com deficiência, é preciso repensar o papel do psicólogo e seus fundamentos teórico-metodológicos.
Nessa reflexão, o CFP discorre sobre a práxis do psicólogo na construção de um projeto de educação inclusiva:
O psicólogo enquanto ator social deve ser protagonista de um projeto de educação e de escola comprometida com a formação de cidadãos, portanto sua práxis deve se nortear pela necessidade de: Garantia de acesso, permanência e conclusão de uma educação de qualidade; Melhoria das condições de ensino–aprendizagem; Respeito e valorização das diferenças por meio de investimentos dos diversos segmentos da sociedade; Apoio às necessidades educacionais dos alunos, sobretudo daqueles que apresentam características físicas, psicológicas, sociais e culturais distintas do grupo de referência; Construção de políticas sociais que garanta o direito à Educação de Qualidade (CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA, 2011, p. 1).
Tais diretrizes explicitam a necessidade do psicólogo transcender à lógica da avaliação psicológica e do atendimento individualizado a esse público e considerar as possibilidades de participação nas discussões sobre as políticas públicas em educação, na parceria com professores, contribuindo em seu processo de formação e na observação e atendimento educacional a alunos com deficiência.
Também é válido mencionar o movimento em busca de redefinições na prática clínica, que enfatizem expressões como “clínica ampliada” e “clínica social”. Moreira, Romagnoli e Neves (2007) questionam o modelo tradicional psicoterapêutico em sua cisão entre clínica e política, defendendo novas modalidades de atendimento que se descolem da psicoterapia, como a clínica social. As autoras assinalam a ampliação paulatina de locais de trabalho para o psicólogo, como sistemas de saúde pública, centros de reabilitação, asilos, hospitais psiquiátricos e gerais, sistema judiciário, creches, penitenciárias e comunidades. Diante dessa expansão, atentam sobre a importância da produção de novos recursos na formação e de novas formas de exercício profissional, que considerem a construção de práticas ético-políticas.
Avançado em suas argumentações, Moreira, Romagnoli e Neves (2007) ratificam a clínica social como uma prática ética e política de intervenção, cujo comprometimento deve ser com a promoção da saúde e com a realidade social brasileira. Ao expor o que seria a clínica social, as autoras alertam que esta não corresponde ao mero atendimento de
consultório às camadas pobres da população, tampouco aos novos espaços de atuação do psicólogo. Trata-se, na verdade, de
[…] um trabalho de intervenção psicológica, seja qual for a vertente teórica escolhida pelo profissional, que associe o sujeito psicológico ao sujeito político, pois acreditamos que, devido ao alto nível de subjetivismo, de atomização, de narcisismo, um trabalho que possa alcançar algum sucesso deve partir das mazelas íntimas desse sujeito para depois lançá-lo ao campo político, transformando-o em um sujeito histórico, no sentido de se envolver com sua história, com a comunidade, com a humanidade (MOREIRA; ROMAGNOLI; NEVES, 2007, p. 619).
A proposição da clínica social pode representar, de fato, um importante avanço no processo de reinvenção de práticas em Psicologia. No entanto, há que se ponderar sobre a relevância de construir diferentes espaços de atuação para além daqueles tradicionais. Silva e Yamamoto (2013) afirmam que, a despeito do fascínio exercido pelo modelo clínico, vem evidenciando-se a ampliação do mercado de trabalho e das oportunidades profissionais para o psicólogo. Assim, novos espaços de atuação vêm apresentando-se, com destaque para o campo das políticas sociais. Para os autores, isto implica no debate sobre a atuação e a formação voltada para esse campo.
Seixas (2009) reconhece que a inserção do psicólogo no campo das políticas sociais tem se tornado uma realidade profissional, o que se verificou com seu estudo, cujos dados apontaram a existência de 41% de psicólogos atuando nesse campo no Estado do Rio Grande do Norte. Tal situação, conforme o autor, está alinhada com o caminhar das políticas sociais no país, acompanhando desde a reforma sanitária, ao final da década de 1980, até o surgimento expressivo do terceiro setor e a recente presença na assistência social, incentivada pelas políticas nacionais de assistência social e do Sistema Único de Assistência Social, já no século XXI.
Conforme Seixas (2009), essa inserção parece ter sido provocada muito mais por circunstâncias externas à profissão do que por condições internas da categoria, surgidas a partir de inquietações político-teóricas. Com efeito, o campo da política social ganha considerável espaço no escopo das práticas psicológicas, entretanto, este não parece atrativo para o psicólogo e sua presença está mais relacionada à retração do mercado de trabalho. Isto é preocupante na medida em que se verifica que o profissional acaba ocupando vários espaços simultaneamente, não investindo em estudos e formações complementares para entender o novo campo, além da ocorrência da pulverização de esforços cotidianos, posto que se
necessita responder aos vários espaços em que se trabalha (SEIXAS, 2009).
Há ainda uma questão que ratifica a justificativa acerca dos estudos sobre a formação do psicólogo: as práticas desenvolvidas por esses profissionais no campo das políticas sociais estão vinculadas ao modelo tradicional, que pouco responde às demandas concretas de vida dos usuários dessas políticas. Segundo Seixas (2009, p. 134),
Partindo de uma formação ainda tradicional, e atuando com esse embasamento clínico conservador (já tão bem discutida e criticada), o psicólogo acaba, por fim, no momento em que mais a sociedade precisaria (consciente dos limites de sua atuação), assumindo um lugar liberal de “posição política de dominação”, reforçando valores vigentes, em detrimento de uma prática “libertária”, de “contra-dominação”, recair no que ele aprendeu a fazer tão bem, e que também marca historicamente nossa profissão, a saber, ações de ajustamento e conformidade a situação. Ou, quando assume um “compromisso social”, acaba, no máximo, reproduzindo a tão propagada ação solidária, caracterizada por ser assistencialista e ingênua. Não parece ser a ‘clínica ampliada’ e comprometida socialmente a escolhida pelos nossos profissionais, mas a tradicional e adaptacionista.
As linhas aqui delineadas impõem a discussão permanente sobre a revisão de determinados posicionamentos e o desenho de um caminho que considere a reflexão sobre qual projeto ético-político poderíamos construir para essa profissão. Nessa direção, a formação não deve prescindir de tratar com os tensionamentos que atravessam a profissão em sua história e conhecimentos. Essa preocupação acompanha os escritos de Patto (2009), quando reflete sobre as relações de poder existentes entre a Psicologia científica e a sociedade brasileira, apontando o caráter ideológico dessa profissão. Para a autora, é preciso ingressar no âmbito ético-político da Psicologia, rever concepções e práticas de avaliação e psicoterapia adaptacionistas, que pouco contribuem para a pensar um projeto de profissão emancipador.
Isso, conforme Patto (2009), está atrelado à formação do psicólogo, no sentido de uma revisão curricular. Aqui, a autora faz a defesa por uma formação com uma base filosófica consistente, cujo foco não seja somente a organização de um currículo plural, com diferentes abordagens teóricas, mas que enfatize a aquisição de instrumentos filosóficos que permitam aos estudantes discutir a Psicologia. A autora frisa a necessidade de formar psicólogos que tenham uma base intelectual e que não sejam resumidos a técnicos que aplicam mecanicamente os procedimentos profissionais, sem pensar sobre seus fundamentos de maneira crítica.
vimos, recaiu na opção pelo cientificismo e pelo rechaço às questões sociopolíticas (ALBERTO, 2012), o que implicou em um currículo supostamente neutro e pouco atento à